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Esmeralda
Psicografado por Zibia M. Gasparetto
Pelo Esprito Lucius
ndice

Prlogo
Captulo I
Captulo II
Captulo III
Captulo IV
Captulo V
Captulo VI
Captulo VII
Captulo VIII
Captulo IX
Captulo X
Captulo XI
Captulo XII
Captulo XIII
Captulo XIV
Captulo XV
Captulo XVI
Captulo XVII
Captulo XVIII
Captulo XIX
Captulo XX
Captulo XXI
Captulo XXII
Captulo XXIII
Captulo XXIV
Prlogo
     
     Todos ns escolhemos livremente nossos caminhos. Pressionados pelas emoes, baseados em nossos sentimentos, envolvidos em nossas iluses.
     Escolhemos ao preferir esta ou aquela oportunidade, ao fazer este ou aquele conceito, ao colocarmos em nossos prprios olhos as lentes com as quais preferimos 
enxergar a vida, as pessoas, as coisas.
     Tudo  escolha nossa. Apesar disso, muitas vezes, nos revoltamos quando, ao toque da realidade que sempre toma o nome de desiluso, o reflexo de nossas escolhas 
nos atinge o corao, com resposta diferente da que espervamos, porm a nica possvel como reao de nossos atos.
     Enganar-se na escolha  fato to comum a ns todos como a presena do sofrimento e da dor, instrumentos de reajuste a que por isso fizemos jus.
     Revoltar-se diante das conseqncias de nossos prprios atos  to ingnuo e inadequado quanto nossa teimosia em conduzir a vida como se ela pudesse obedecer-nos, 
servindo a nossas fantasias e infantilidades.
     A vida  perfeita porquanto  criao de Deus. Assim sendo, suas respostas guardam a sabedoria divina. Nenhum homem poder control-la. Ao contrrio, h necessidade 
de compreender-lhe a essncia e procurar harmonizar-se a seu movimento, que  a garantia de nossa felicidade, porquanto sua meta nica e objetiva  a de tornar-nos 
espritos mais conscientes das verdades eternas que guarda em seu seio, e felizes participantes da alegria divina que tudo movimenta e harmoniza no belssimo concerto 
universal.
     Ao trazermos neste livro pedaos de nossa memria, relembrando acontecimentos de outros tempos, temos o objetivo de mostrar, atravs dos fatos reais onde cada 
um dos protagonistas escolheu seu rumo, as respostas que tiveram da vida.
      claro que, tanto eles quanto ns prprios continuamos em nossa trajetria, escolhendo novos rumos e recebendo as respostas e estmulos da vida. Porm, neste 
"flash" que relatamos de suas vidas, podemos, quem sabe, encontrar em suas emoes e lutas reflexos de nossos anseios mais ntimos e, desta forma, percebermos por 
antecipao as respostas que a vida nos daria, neste ou naquele roteiro, e podermos assim nortear nossas escolhas para colocar nu nossos caminhos mais alegria, mais 
felicidade e mais paz.
     Estes so meus votos.
                                                                                        Lucius
     So Paulo, 13 de julho de 1983
     
     
Captulo I
     
     
     Espanha! Terra do sonho! Sol, flores, msicas, colorido.
     Valena! Cidade do sol, das mulheres, dos amores e da msica. Suas mas esto cobertas pelas lembranas dos tempos e pela poeira dos sculos.
     Agosto, 1812. A cidade em festa e o rudo alegre dos romeiros que demandavam  Praa para o Dia de Graas.
     Carlos caminhava alegre, tinha asas nos ps, msica nos lbios, flores no chapu e alegria no corao.
     Mocidade: tudo muda a seu toque mgico, todas as coisas se embelezam!
     Agosto, 1812. Festa em Valena, vinte anos, juventude, fora e beleza. Como no sorrir? Como no brincar com o amor das mulheres ardentes da Andaluzia, como 
no tanger a guitarra em ritmos loucos? Como?
     Agosto, 1812. Espanha. Valena. Festa. Luz. Praa regurgitando. Cheiro gostoso das castanhas na brasa, dos biscoitos rosqueados e das brincadeiras ingnuas. 
O moo galgou a praa sentindo na boca o gosto de viver. O mundo era seu. Ele era o dono de tudo. No meio, as barracas coloridas de San Agustin, no prego dos leiles 
o alarido alegre e a fumaa das fogueiras, onde as carnes eram assadas. No centro, as pipas de vinho e os bebedores inveterados contando seus chasqueados e mitos.
     Carlos queria danar. O som da guitarra e da msica cigana o animava. Vestira a roupa colorida dos moos da rua, longe do palcio escuro dos seus e da disciplina 
dos parentes. Seus muros pesavam, sua severidade o esmagava. Era vero e havia festa entre o povo. Ele queria estar entre eles. Vestira roupa plebia. Ningum o 
vira sair. Caminhou contente. Danar! Era isso.
     De passagem, pegou uma caneca de vinho e bebeu deliciado. At o vinho comum pareceu-lhe infinitamente melhor do que o de sua adega.
     Uma cigana rodopiava entre os pares que danavam na rua. Mergulhou na msica e nos braos dela. Seu corpo jovem e belo parecia ter asas e em seu rosto corado 
havia satisfao e xtase. Parecia irreal e distante.
     Carlos a enlaou, danaram juntos, quanto tempo? Uma, duas, trs, quatro horas? At que a noite desceu e se atiraram rindo, exaustos e felizes, ao cho.
     A festa prosseguia e os lbios da cigana tinham a cor e a frescura dos botes de rosa. A certa altura ele no se conteve, levou-a para um local deserto e no 
campo ermo,  luz das estrelas, amaram-se loucamente.
     Depois, olhando-a nos olhos, Carlos indagou:
      Como te chamas?
      Esmeralda.
      Esmeralda! Jia preciosa.
      E tu, como te chamas?
      Ricardo  mentiu ele por fora do hbito. Ela alisou-lhe o rosto com suavidade.
      No s cigano. Quem s?
      Ningum. Um pobre-diabo. Mas eu te amo. Ela riu deliciada.
      No nos deixaremos mais  sentenciou decidida.  Virs conosco. Se no s ningum, podes ser cigano.
     Ele sorriu enlevado. Se ele pudesse! Por que no? Talvez fosse possvel ficar uns tempos com eles. Seria fascinante.
     Afagou a cabea morena da cigana, cujos cabelos sedosos e ondulados levantavam delicados caracis que a dana liberara.
      Posso ir contigo?
      Claro. Miro no vai importar-se. Quanto ao resto, deixa comigo. Ficaremos juntos para sempre. Amanh, depois da festa, seguiremos para Madri. Vens comigo?
      Vou. Mas antes preciso pegar minhas roupas e algum dinheiro. Tenho pouco, no me demoro.
      No te vs ainda  pediu ela.
     Abraaram-se de novo. S de madrugada, o dia amanhecendo, ele pde deix-la com a promessa de que voltaria quando o sol sasse e juntos partiriam para sempre.
     Cansado e feliz, Carlos regressou. A abertura secreta por onde ele entrava e saa do castelo cheirava a mofo e provocou-lhe nuseas. No bebera muito vinho, 
mas embriagara-o o amor de Esmeralda. Entrou no quarto onde seu valete dormia largado. Pobre-diabo. Uma caneca de vinho e pronto, no incomodava mais.
     Abriu as cortinas, pegou umas roupas e colocou-as num saco. Seu pai j se levantara, por certo. Tinha que lhe falar. O sol j ia alto quando Carlos entrou no 
salo e o viu ocupado no exame de uma caixa com armas de caa que estava aberta a sua frente.
      Carlos!
      Deus vos salve, meu pai.
      Deus vos abenoe, meu filho.
      Pai, preciso de vossa ajuda.
     O rico senhor, alto, moreno, caprichosa barba descendo-lhe sobre o peito alcanando o elegante gibo de veludo, seu olhar frio e meticuloso examinando as armas 
com ateno, respondeu:
      Fala.
      Preciso de vossos prstimos.
      Para qu?
      Preciso de vossa licena para ir a Madri.
      Que queres de l? Por acaso a corte te chama? Conhecendo-lhe o fraco, o moo aduziu:
      Meu amigo lvaro est em casa de D. Hernandez. Vo s festas de vero e por certo D. Maria estar l.
     O velho pareceu agradavelmente surpreso.
      Queres l ir?
      Sim. Com vossa permisso. Serei hspede de D. Hernandez, pai de D. Maria. Tenho vossa permisso?
      Com gosto. Leva este saco de ouro para tuas necessidades.
     Era com alegria que recebia a deciso do filho. H tempos sonhava com a unio de sua casa com a de D. Antnio Hernandez, nobre e conceituado senhor, rico e 
poderoso. Carlos sempre se mostrara indiferente e agora estava disposto a cooperar.
      Leva teu valete. No podes l ir sem ginete.
     Carlos cocou a cabea contrariado. Aquela mula poderia estragar tudo. Porm no podia contrariar o pai. No desejava ter problemas. Queria gozar a vida, mas 
no pretendia deixar de lado seu patrimnio familiar.
      Quando partes?
      Agora, se vossa senhoria permitir...
      Tanta pressa?
      Sim. Esperam-me l para abrir as danas.
      Certo. Podes ir com meus prstimos a D. Antnio. No podes partir sem mimos para a famlia. Seria imperdovel. Como hspede, tens a obrigao de ser delicado.
     Carlos disfarou o enfado. Tinha pressa em rever Esmeralda.
      Achais necessrio?
      Por certo. Aqui tens esta pistola cravejada, leva-a para D. Antnio. Quanto a D. Engracia e D. Maria, tua me te dar algumas jias delicadas. Vai ter com 
ela, que te vai servir.
     Carlos apanhou a caixa com a pistola e apressou-se em procurar seu valete. Sacudiu-o com fora.
      Acorda, diabo. Anda, arruma tuas coisas que vamos para Madri. Avia-te rpido.
     O criado acordou assustado e sem perguntar nada apressou-se a obedecer.
      Prepara os cavalos, que tenho pressa.
     Em seguida, dirigiu-se aos aposentos de sua me. Seu rosto encheu-se de ternura fixando a figura robusta e agradvel de D. Encarnao.
     Era jovem ainda, cabelos castanho-escuros caprichosamente penteados, presos em coque na nuca, tez clara e delicada, olhos castanhos e alegres, vivos e expressivos; 
porte ereto que o vestido severo afinava, dando-lhe gracioso aprumo.
      Deus vos salve, me querida.
     D. Encarnao voltou-se surpresa. Um brilho malicioso apareceu-lhe no olhar, tornando-a incrivelmente jovem.
      Que foras benditas arrancaram-te da cama to cedo? Ou ser que no te deitaste?
     Carlos tentou dissimular:
      Nada, preciosa. Vou viajar. Acordei cedo. Vou a Madri.
      A Madri? A que vais?
      s festas de vero. Vou hospedar-me em casa de D. Antnio Hernandez.
     A me abanou a cabea, pensativa.
      Por que queres l ir? Por acaso teu pai exigiu?
      No. Mas cansei-me daqui e resolvi ir s festas. Meu pai deseja ofertar mimos s damas na casa de D. Hernandez. Vim despedir-me de ti e buscar algumas jias 
de tua coleo.
     A me abraou-o com carinho.
      Certamente, meu filho. Mas v l o que fazes em Madri. Tens muita gana de divertimentos e a corte traz muitos perigos a um jovem como tu. L mata-se  espada 
por qualquer querela.
      Levo meu valete. H de proteger-me. Depois, sabes que sou trocista. No gosto de pelear. Quero danar e brincar. No entro em disputas ou brigas.
        suspirou ela , isso me acalma. Quanto tempo estars por l?
      No te apures. Dois ou trs meses. Se no gostar, volto antes. Agora preciso ir.
     D. Encarnao, resignada, apanhou uma caixa e dela escolheu dois regalos que acondicionou e entregou ao filho.
       A esto. O broche para D. Engracia e os brincos com o colar para D. Maria.
       Deus te bendiga, me querida. Sentirei tua falta.
     Carlos era sincero. Sua afinidade com a me era pronunciada. Apanhou o saco com as jias e beijando-lhe a face com carinho saiu apressado. Pediu a bno ao 
pai e deu-se pressa em alcanar o ptio onde o ginete o esperava com os cavalos, os sacos de cada um presos  sela do animal. Montaram e saram. Assim que o castelo 
ficou para trs, Carlos parou e chamou seu valete:
      Incio.
      Pronto, Dom Carlos.
      Quero que entendas. No me chames mais de Dom Carlos.
      No?!
      Vais me chamar de Ricardo. Meu nome agora  Ricardo.
      Como pode ser? Sois Dom Carlos.
      Escuta. Se me chamares de Dom Carlos, mais uma vez que seja, parto teu pescoo e te arranco a lngua. Entendeste agora?
      Sim, senhor. Sim, senhor.
      Vamos ao acampamento dos ciganos.
      Ciganos? Valha-nos Deus. Vo assaltar-vos. No podemos ir...
      Cala-te homem. Se abres a boca para contar a D. Fernando, arranco-te a lngua.
      Patro,  perigoso. D. Fernando quer que eu cuide do menino.
      Pois de mim cuido eu. Vais comigo e no vais abrir a boca. Nem para os ciganos. Eu agora sou Ricardo lvares, moo aventureiro e sem famlia.
      Mas no sois. E mentira.
      Mas estou sendo e se me desmentires, se algum souber meu nome certo, tua vida no vale mais nada.
      Ai, Deus meu! Que triste sorte! Se D. Fernando souber, me mata; se eu falar a verdade, o menino me mata. Estou morto de todo jeito...
      Pra de lamentar-te. Se me servires com devotamento, se me obedeceres, s tens a ganhar. Estars comigo e teremos muitas alegrias.
      Para vos servir vivo eu. Minha vida por meu amo e senhor. Mas ir aos ciganos  loucura! Levam vida devassa. Assaltam, roubam, meu amo no os conhece.
      Bobagens. Conheo-os muito bem. Sei o que fao, e no me chames de amo. Sou Ricardo e pronto. Vigia-te para no me trares. A primeira marotada que fizeres, 
no te levo comigo.
     Incio baixou a cabea magoado.
      No podeis fazer isso comigo. Eu vos vi nascer.
      No me venhas com essa histria. Se me obedeceres, tudo ir bem, ficaremos algum tempo e voltaremos para casa. Agora vamos, tenho pressa.
     Carlos esporeou o animal, que partiu a galope obrigando Incio a correr para alcan-lo.
     O sol j ia alto quando chegaram ao acampamento cigano. Este localizava-se em um belo bosque, onde tinham espalhado suas carroas, cada famlia fazendo sua 
prpria comida. Os cavalos pastavam sossegados, e as carroas sob as rvores estavam silenciosas, demonstrando que a maioria dormia. Pelo cho, vestgios da festa, 
garrafas vazias, objetos, fitas coloridas, canecas, restos de fogueira e pedaos de carne ainda nos espetos, mostrando que tinham continuado a festa no acampamento. 
Algumas crianas brincavam descuidadas.
      Acho que dormem  pensou Carlos, aspirando com delcia o cheiro de mato misturado ao odor particularmente excitante da aventura e do lugar.
     Incio olhava o amo, temeroso e aflito. Carlos desceu do cavalo e dirigiu-se s crianas.
      Menino, podes me dizer onde  a carroa de Esmeralda?
      Posso. Ide por ali e no fim encontrareis trs carroas: a do meio  a dela.
      Vamos embora, Dom Carlos... digo, Dom Ricardo...
      Cala-te, homem. No  Dom,  s Ricardo. E no facilites ou te arranco a lngua, assim ficas mudo e nunca mais dirs o que no deves. Fica aqui e espera.
      Sim, senhor  disse Incio amargurado.
     D. Carlos segurando o animal pelas rdeas adiantou-se rumo  carroa de Esmeralda. Ao lado, uma velha acendia uma fogueira colocando um tacho sobre ela.
     A carroa de Esmeralda estava fechada. Era de bom tamanho, em comparao com as demais, seus varais descansavam no cho, mas, apesar disso, ela continuava em 
posio reta, pois havia um encaixe onde os varais se movimentavam, tinha uns dois metros e meio de comprimento por um e oitenta de largo e estava coberta por espcie 
de lona de cor indefinida. Mas tanto na parte dianteira como na traseira, cortinas de panos coloridos colocavam uma nota alegre no acanhado veculo. Aproximando-se, 
Carlos chamou:
      Esmeralda, Esmeralda!  No obteve resposta.  Esmeralda!  continuou, elevando a voz.
     A velha continuava ao p do fogo indo e vindo na carroa contgua. Depois de chamar algumas vezes, Carlos dirigiu-se a ela.
      Mulher, podes me dizer onde est Esmeralda?
      Para que a queres?
      Ela me espera. Combinamos ontem em San Agustin. Ela no est? A velha sacudiu os ombros.
      Deve estar. Mas est cansada e dorme. Melhor no chamar. Ela no vai acordar.  capaz de dormir o dia todo.
      Disse que ia me esperar  retrucou ele, um pouco contrariado.
      Disse? , pode ser. Mas quando dorme, ningum se arrisca a acord-la. Fica contrariada e perde a alegria. E quando Esmeralda perde a alegria, tudo pode acontecer.
      Queres dizer que devo esperar?
      . Deves. Se queres mesmo falar com ela, espera que ela mesmo te chame quando acordar.
     Apesar de contrariado, Carlos resolveu esperar. No era de seu feitio ceder, mas Esmeralda danara muito e bebera muito vinho tambm, certamente no possua 
sua resistncia e no conseguia acordar. Chamou Incio.
      Vamos dormir um pouco.
      Mas eu no tenho sono. Dormi muito bem esta noite.
      Eu vou dormir. Se queres ficar acordado, no fales com ningum, nem saias daqui. Quando Esmeralda acordar, chama-me.
     Apesar de no saber quem era Esmeralda, Incio concordou. J suspeitava que devia ter rabo de saia na aventura. Apanhou a manta.
      Onde desejais repousar?
      Deixa que eu me arrumo.
      E se esses homens acordarem?
      O que tem?
      No vo nos expulsar?
     Vrios ciganos dormiam a sono solto espalhados pelas moitas, alguns ainda conservavam entre os dedos a caneca vazia.
      No tem perigo. Deixa-me dormir. Estou cansado. Escolhendo uma moita de capim macio, estendeu a manta e estirou-se com gosto. Afinal, estava mesmo cansado. 
Um bom sono lhe faria muito bem. Olhou as nesgas de cu azul que apareciam por entre as copas das rvores. Era feliz. Vinte anos, alegria, aventura, amor!
     O rosto de Esmeralda, corado e brilhante, surgiu-lhe na mente entre volteios de dana, o gosto de seus beijos ardentes aqueceu-lhe o corao. Embalado por doce 
amolecimento, adormeceu.
     Despertou horas depois com um retinir de ferros e um alarido. Esfregou os olhos tentando lembrar-se de onde se encontrava. Avistou Incio encolhido atrs da 
rvore.
      Que diabo fazes a?  indagou ainda sonolento.
      Nada. Estava esperando que acordsseis. Tive medo deles.
      Falaram contigo?
      No. Parece que nem nos notaram, mas tive medo. Falam aos berros. Soltam pragas, do altas risadas, no agem como gentis-homens.
      Claro que no. Viste Esmeralda? Incio sacudiu a cabea.
      No saiu da carroa?
      No saiu ningum.
     Carlos perpassou o olhar pelo acampamento. Os homens tinham acordado e movimentavam-se de um lado a outro. As mulheres e as crianas circulavam ao redor das 
fogueiras comendo batatas e milho verde assados e restos de carne da noite anterior. Alguns bebiam borra de milho. Os homens cuidavam dos animais e dos arreios. 
Pelo jeito preparavam-se para levantar acampamento.
      Preciso achar Esmeralda  pensou Carlos.
     Sentiu fome. Tinha provises que trouxera para viagem. Pedaos de carneiro e po. Incio trouxera vinho, mas Carlos estava um pouco enjoado. Comeu e impacientou-se. 
Dirigiu-se  carroa de Esmeralda.
      Esmeralda! Esmeralda!
     No obteve resposta. No ia esperar mais. Colocou a mo na cortina para abri-la. Violenta chicotada atingiu-lhe a mo crispada.
     Carlos deu um grito de dor e de susto, e furioso procurou a mo que o vergastara. Um cigano alto e muito forte estava de p ao lado da carroa tendo ainda na 
mo o chicote que o castigara.
      Esmeralda dorme. No pode ser perturbada. E no deves tentar entrar. Se puseres a mo de novo a, vou usar a espada e garanto que nunca mais ters mo para 
pr em lugar algum.
     O cigano falava sem altear a voz, mas seus olhos brilhavam como ao. Carlos percebeu que ele no brincava. Resolveu contemporizar.
      Ela combinou comigo. Mandou que eu viesse e quer me ver. Somos amigos. No vou lhe fazer nenhum mal.
     O cigano riu sonoramente.
      Fazer mal a Esmeralda? Tem graa. Mas se continuares amigo dela e ficares por aqui, tens que fazer o que ela quer. Quando Esmeralda dorme, eu vigio e s quando 
ela acorda e quer  que se levanta. Agora sai da e espera, se quiseres.
     A contragosto, Carlos afastou-se da carroa, indo deitar-se novamente em sua manta. Incio estava plido.
      Vamos embora, amo, enquanto  tempo. Isto no  lugar para ns. Esses ciganos vo nos matar.
      No vou embora sem falar com Esmeralda. Se ela no me quiser, voltaremos. Mas por enquanto vou esperar.
      Por que no vamos  vila e voltamos mais tarde?
      No adianta. No saio daqui. Vamos aguardar.
     Resignado, Incio sentou-se. Mas apesar de fingir descansar, observava os ciganos entre preocupado e temeroso.
     As horas foram passando e Carlos cada vez se impacientava mais. Sentado sob uma rvore, cerrava os olhos fingindo dormir, mas as cortinas da carroa da cigana 
o atraam e no conseguia desviar dali sua ateno.
     A atividade do acampamento prosseguia e algumas carroas j atrelavam os cavalos, preparando-se para viajar.
     Carlos irritava-se que ningum se preocupasse com a cigana. Ela podia at estar doente. Ser que ela no pretendia partir?
     A tarde j comeava a declinar quando finalmente uma mo nervosa correu a cortina da carroa. A figura graciosa da cigana surgiu fresca como uma flor de manh. 
Carlos levantou-se de um salto.
      Finalmente.
     Ela saltou da carroa com agilidade. E passou por Carlos parecendo no v-lo. Dirigiu-se aos ciganos com alegria, apanhou uma espiga de milho e a trincou com 
gosto.
     Carlos mal se continha. Ser que Esmeralda no mais se lembrava dele? Irritado, acompanhou-a com o olhar. Ela pareceu ignor-lo. Brincava com as crianas, chasqueava 
com os homens, abraava as mulheres.
     Essa mulher parecia-lhe distante. No era a mesma que suspirara de amor em seus braos. Certamente j o tinha esquecido. Profundamente decepcionado, Carlos, 
vendo-a abraada ao moo cigano que o chicoteara, decidiu:
      Acho que tens razo, Incio. Vamos embora.
     O ginete suspirou aliviado. Graas a Deus! Apanhou os cavalos, Carlos juntou seus pertences e desanimado comeou a preparar-se para partir. Afinal, sua aventura 
durara pouco. Puxando o animal pelas rdeas, foi se afastando vagaroso, lanando um ltimo olhar para os ciganos. No viu Esmeralda. Cabisbaixo, comeou a andar 
pelo bosque, puxando o animal e seguido por Incio aliviado.
      Vamos montar para ir mais depressa. Chegaremos antes que escurea.
      No podemos voltar para casa. Melhor seguirmos para Madri.
      Procurar D. Hernandez? Ests louco? Quero liberdade. Deixe-me pensar.
      Melhor era voltar ao castelo...
      Cala-te. Quem decide sou eu. Caminharam mais um pouco at que Carlos decidiu:
      Sim. Vamos para Madri.
      Vamos viajar  noite?
      O que tem?
       perigoso, amo.
      Vamos seguir.
     Montaram os animais e rumaram para a estrada que os levaria a Madri. Pelo caminho Carlos ia pensativo. Sua aventura comeara mal. Estava exasperado. Esperar 
por uma cigana como se fosse um criado! Se no estivesse no meio de sua gente, ela no teria sido to petulante. Haveria de dar-lhe uma lio. Iria a Madri e certamente 
l teria oportunidade de v-la. Talvez tivesse sido um pouco precipitado. J que tinha esperado tanto, podia ter ficado um pouco mais para ver o que acontecia. Claro 
que ela o tinha visto, e era ainda mais claro que o tinha reconhecido. Apesar de ter bebido, ela no se embriagara. Estivera lcida todo o tempo. Mas ento, como 
entender? Seria mulher daquele brutamontes?
     A figura do cigano com o chicote na mo enraiveceu-o. No podia ser. Se fosse assim, ela no teria abertamente namorado e se exibido com ele. Ento como entender? 
Ela o tinha convidado com insistncia para seguir com eles no acampamento. Por que fingira no v-lo?
     Apesar de tudo, a figura da moa cigana no lhe saa da mente. Que mulher! Jamais conhecera algum como ela! Apesar de muito jovem, Carlos tivera incontveis 
aventuras amorosas. Desde menino demonstrara acentuada vocao para o amor, possuindo aquele encanto que fazia as mulheres se tornarem submissas e apaixonadas, e 
no se lembrava de nenhuma que tivesse durante muito tempo resistido a suas investidas. O inconstante era ele. Esprito sonhador e apaixonado, mas adulto e mimado, 
acabava por cansar-se e o que de incio fora uma paixo irresistvel e avassaladora se transformava em tdio e insatisfao.
      Ela pensa que sou um pobre-diabo  pensou Carlos com raiva.  Se soubesse quem sou na realidade, iria cair a meus ps. Aquela interesseira!
     Mas ao mesmo tempo sentiu-se derrotado. Se Esmeralda o amasse por seu dinheiro, certamente ele se sentiria um incapaz de conquistar-lhe a preferncia, e seu 
orgulho se feriria ainda mais.
     Mas seu romance com a cigana no estava encerrado. Ela ainda havia de ser dele. Ainda a teria submissa e apaixonada nos braos e teria o prazer de ser seu amo 
e senhor. "Esmeralda acorda  hora que quer", pensou irritado. Parecia uma rainha. Ningum ousava perturbar-lhe o sono ou desobedecer-lhe a vontade.
     Teria o gosto de acord-la quando bem quisesse e determinar o que ela iria fazer. A esse pensamento, sentiu-se mais calmo.
     Foi quando, de repente, ao dobrar uma curva da estrada, viu um vulto e sentiu violenta dor na cabea, tombando sobre o animal, sem sentidos.
     Incio berrava por socorro, quando violenta pancada tambm o prostrou. Trs homens montados e vestindo escuro burel procuraram prender os animais de suas vtimas. 
Desceram e brutalmente jogaram os dois cavaleiros no cho. E vidos procuraram os haveres que pretendiam roubar. Encontraram as jias e o saco com o ouro. Levaram 
tudo, inclusive os animais. Carlos, ainda tonto, abriu os olhos no exato momento em que um deles lhe vasculhava as algibeiras e percebendo a situao reagiu agarrando-o 
pelo pescoo. Sentindo-se sufocar, o assaltante comeou a golpe-lo com ambas as mos enquanto os outros dois, em socorro ao companheiro, aplicaram-lhe pontaps. 
Um deles pespegou-lhe violenta pancada na cabea. Carlos estrebuchou e perdeu os sentidos.
     
     
Captulo II
     
     Era uma noite estrelada e agradvel quando os ciganos comearam a deixar a cidade. Iam alegres e bem-dispostos. Os bolsos cheios e, o estmago farto. Tinham-se 
divertido nas festas, mas tinham tambm amealhado recursos para o futuro.
     Pode parecer que eles tivessem vida livre e descontrada, o que at certo ponto era verdade. Seus preconceitos, porm, eram outros, bem diferentes das outras 
raas.
     Apesar de nmades, no eram imprevidentes e aproveitavam a primavera e o vero para angariar os recursos para o inverno e os tempos difceis.
     Sergei era um cigano forte e decidido. Prncipe da raa, possua o mesmo rigor de seus antepassados na liderana de seu povo. Sua palavra era lei. Seu cl contava 
com mais de cem componentes, e ele exercia a funo de chefe, juiz e autoridade suprema. Era muito respeitado por seu povo e tido como homem astuto e capaz. Alguns 
o consideravam sbio. Sabia ler, e isso exercia incrvel fascnio em seus subalternos. Cantava bem como poucos e tocava a guitarra como ningum antes o soubera fazer. 
Danava com leveza e elegncia, apesar de seus cinqenta anos, e ningum se atrevera jamais a desobedecer-lhe uma determinao. Era tido por homem justo e sem protecionismo 
a qualquer deles. Cuidava zelosamente dos interesses do grupo. Talvez por isso eles fossem menos belicosos entre si, e embora se tratassem grosseiramente por serem 
homens rudes, estimavam-se e conviviam pacificamente.
     Suas brigas tinham o sabor de uma disputa esportiva, eram assistidas e festejadas pelo bando todo, que tinha suas preferncias, cada um torcia por seu favorito. 
Mas muitos problemas da vida comunitria deles eram resolvidos assim no murro e na lei do mais forte, de frente e sem favoritismo. Quando algum incorria em falta 
que se reputava grave, muitas vezes Sergei reunia os chefes de famlia, os mais velhos, e faziam um verdadeiro julgamento do culpado, sendo-lhe aplicada a pena que 
deliberavam necessria.
     Durante a chefia de Sergei, tinham aplicado apenas duas penas de morte, e isso em trinta anos de autoridade. Isso representava nada em uma poca em que se matava 
com muita facilidade, principalmente nas cortes e no mundo tido por civilizado.
     Foram casos de traio violenta, e embora tivessem sido executados os dois ciganos, suas famlias no foram responsabilizadas e continuaram vivendo na comunidade 
e ningum jamais mencionou sua vergonha nem se referiu aos dois traidores. Ordens de Sergei.
     Mas nem sempre o grupo era to pacato. Ficavam furiosos e perigosos quando algum ameaava a segurana do grupo ou feria um de seus membros. Eram muito unidos. 
A vingana de um era de todos. O sofrimento de um era de todos. Embora levassem vida livre, misturando-se ao povo e dele arrancando seus meios de subsistncia, intimamente 
no gostavam de conviver com eles.
     Votavam aos homens de outras raas um desprezo enorme que levantava grandes barreiras e preconceitos. Na verdade, para sermos justos, tinham seus motivos. Olhados 
como seres inferiores, raros se aproximavam para entreter laos de amizade sincera. Suas mulheres, preparadas desde a infncia para exercerem a arte de agradar, 
danando, mascateando tachos de cobre, lendo a "buena dicha", eram motivo de grande atrao para os homens de todas as classes. E muitos havia querendo corromp-las 
ou us-las ao capricho de suas paixes srdidas. Muitos deles perderam a vida por isso. Apareciam mortos em locais ermos e se supunha que houvessem sido vtimas 
de assaltantes, coisa muito comum naqueles tempos.
     Contudo, eram afveis com todos, desde que no transpusessem o limiar de seus preconceitos ou de sua intimidade. No admitiam casamentos com homens de outra 
raa. Nos poucos casos que houvera, as ciganas tinham fugido e nunca mais voltado. Eram tidas por mortas e o caso encerrado. Nunca mais poderiam voltar ao cl.
     Uma a uma as carroas em fila indiana se puseram a caminho ganhando a estrada. Alguns cantavam, outros tocavam e o cortejo seguia tranqilamente.
     Dois homens de confiana iam  frente, ao lado da carroa de Sergei, que puxava a caravana.
     Esmeralda, sentada na bolia, tagarelava alegre. A seu lado, conduzindo as rdeas, o cigano cujo chicote castigara a impacincia de Carlos.
      Tu o feriste?
      Um pouco na mo. Ia perturbar teu sono. Fiz mal?
      Por certo que no. Fazia tempo que tinha chegado?
      Logo que clareou o dia. Fiquei de olho. No tirava os olhos de tua porta.
      No falou com ningum?
      S com Zilma. Mas ela o mandou esperar. Parecia impaciente. Gostas dele?
     Esmeralda deu de ombros.
       um belo homem. Pode ser que ainda esteja com ele algumas vezes.
      Cuidado. Pareceu-me arrogante e impetuoso.
      Sei cuidar deles muito bem. No queiras agora dar-me conselhos. O outro riu gostosamente.
      Nunca precisaste deles. s livre como um pssaro.
      . No gosto de nada que me aprisione. Posso gostar, mas amar, nunca!
     O cigano riu e pilheriou:
      Cuidado, que podes cair.
      No, jamais. Esmeralda vai viver! Vai arrancar tudo da vida, mas vai ser protegida sempre. Amar, nunca!
      Ele me pareceu de linhagem.  nobre?
      Diz que no. Mas no acredito. Se  rico, no sei. Tem mos finas e a pele delicada.  homem de trato. Uma coisa posso afirmar: nunca trabalhou.
      Ento s pode ser gentil-homem.
      . Quanto a ser rico, no sei, mas descobrirei. Ele me agrada por agora. Se tiver dinheiro, ser ainda melhor.
     O cigano de repente tornou-se srio.
      Deixa-o de lado.
      Por qu? Nunca te intrometeste em minha vida!
      Sou teu amigo, amo-te como filha. Quando ficaste rf, eu te aceitei como se fosse teu pai.
      Sim. Eu te amo mais que a um pai, embora sejas ainda moo. Mas nunca me pediste nada assim antes. Por que agora?
     O cigano abanou a cabea indeciso:
      No sei, Esmeralda. Alguma coisa me diz que deves deix-lo em paz. H tantos moos ricos e belos que seriam felizes por verem teu sorriso.
     Esmeralda riu sonoramente.
      Ests falando como um velho pai. s muito supersticioso. Acho... As carroas pararam uma aps a outra e Miro puxou as rdeas.
      Por que paramos?
     Um dos cavaleiros percorria as carroas avisando:
      Dois homens no cho. Quase mortos. Foram assaltados.
     Miro desceu rpido e Esmeralda foi atrs. Chegou ao local onde j um grupo cercava os dois infelizes. Sergei curvado sobre um deles ajuntou:
      Est mal. Se o deixarmos, morre; se o levarmos, no sei se agenta a viagem. O que acham?
     Esmeralda aproximou-se abrindo caminho.
      Sergei. Quero cuidar desse moo. Devemos lev-lo.
      Acaso o conheces?
      Sim.  um moo gentil e alegre que conheci nas festas.
      Achas que podes ajud-lo?
      Acho. Se me autorizas, agradeo muito.
     Falava com doura e sinceridade. Nem parecia a mesma de momentos antes.
      Est bem. Como queiras. Os ladres levaram tudo. Levem-no  carroa de Esmeralda. O outro no est to ruim, Zilma cuida dele.
     Em poucos minutos colocaram Carlos nas almofadas coloridas da cigana. Ela tinha alguma gua e comeou logo a limpar-lhe o ferimento da testa enquanto o moo 
gemia, apesar de desacordado.
     Miro, conduzindo a carroa, ia absorto nos prprios pensamentos. A uma ordem de Sergei, as carroas puseram-se a caminho.
     Na carroa, Esmeralda limpara os ferimentos e, percebendo que o moo gemia, derramou-lhe nos lbios uma bebida forte. Em seguida, com cuidado, tirou-lhe a roupa 
empoeirada e salpicada de sangue, vestindo-o com algumas peas de Miro que estavam ali.
     Tinha grande estima pelo cigano, e sua carroa era como uma continuidade da dele. A cigana olhou bem o jovem e arrepiou-se toda. Rpida, correu as cortinas 
que protegiam a bolia e sentou-se ao lado de Miro.
      Miro, precisas olhar para ele.
      Por qu?
      Acho que tem espritos morando com ele.
      Acha que tem feitio?
      No sei. Talvez no. Mas ele no est sozinho l dentro. Tem algum com ele.
     Miro no se perturbou.
      Acho que tem mesmo. Caiu em poder dos ladres.
      Achas que foi por isso?
      Acho. Os espritos do mal prepararam as ciladas, j que eles no tm corpo para atacar algum. Se estivesse bem guardado, no teria acontecido. 
      Tens poderes. Podes dar um jeito. Se no expulsares os maus espritos, ele pode morrer.
      Isso faria Esmeralda triste? Ela deu de ombros.
      Acho que sim. Ele  muito moo e alegre. Cheio de vida para morrer. Depois, sabes que no gosto de perder.
      s vezes  perdendo que se ganha  concluiu Miro, pensativo.
      No gostas dele?
      No se trata disso. Deixemos de lado o mau agouro, o que tem que ser tem fora. Ningum pode vencer o destino. Se te sentes feliz, posso afirmar que ele vai 
ficar bom. No precisas temer.
      Vais v-lo?
      Sim. Podes tomar as rdeas e deixar comigo.
     Esmeralda assumiu a direo e Miro entrou na carroa. Olhou a fisionomia inchada do moo e seus olhos anuviaram-se. Mas apesar do que sentia, aproximou-se de 
Carlos colocando uma das mos em sua testa.
     Sua fisionomia enrijeceu e ligeiro tremor o sacudiu.
      Eu te ordeno que o abandones  tornou o cigano com firmeza.
     Carlos estremeceu e contorceu-se como se estivesse sofrendo um ataque. Tentava, mesmo inconsciente, libertar-se da mo do cigano, que por sua vez parecia pregada 
em sua testa.
      Eu te ordeno que deixes o moo  tornou ele enrgico. Carlos empalideceu, estremeceu mais violentamente e depois ficou imvel.
      Graas dou a nosso Deus.
     Em seguida, benzeu o corpo do jovem murmurando palavras estranhas. Depois tirou uma corrente do prprio pescoo e a colocou no pescoo de Carlos. Feito isso, 
observou satisfeito que o moo dormia tranqilo. Tornou  bolia.
      E ento?  quis saber Esmeralda.  Como est ele?
      J te disse que ficar bom. Tinhas razo. Estava possudo. Agora est livre. Vamos ver at quando.
      Ele tem o corpo aberto?
      Tem. Se no se prevenir, pode entrar outro. Esmeralda sorriu:
      Eles pensam que sabem tudo e no crem nos espritos. Acham que ns somos ignorantes s porque no vivemos como eles. Mas quando esto mal, vm buscar nossa 
ajuda. A muitos desses empafiados prestaste servios. Se quisesses, podias ganhar fortuna.
     Miro sorriu tranqilo.
      Tenho o que preciso e vivo muito bem. Se carregasse muito dinheiro, talvez os assaltantes me matassem em qualquer esquina.
      Nem pareces cigano. Se no te conhecesse, duvidaria de ti.
      Porque no quero arrancar dinheiro dos outros?
      Sabes que, se eles pudessem, arrancavam no s nosso dinheiro, mas at nossa vida. Os homens no toleram os de nossa raa. Tm medo de ns e  por isso que 
nos respeitam. Pois eu, enquanto puder, hei de arrancar-lhes tudo que tiver chance.
      Apesar disso, no tens muito mais do que eu. No s rica. Ela deu de ombros.
      Ainda. Mas vou ser. Quero ser feliz! Miro olhou-a com benevolncia.
      Isso, Esmeralda. Aproveita enquanto podes. Ser feliz  bom. Ela sorriu deliciada e confiante e no viu o travo de amargura nas palavras do, cigano.
     Chegaram a Madri ao entardecer. J tinham o local onde costumavam acampar e assim que o encontraram foram instalando-se, de preferncia perto de um riacho que 
cortava o bosque.
     Enquanto as mulheres cuidavam das roupas e dos utenslios, os homens faziam o fogo e cuidavam da carne.
     Durante o trajeto tinham parado para negociar com pequenos comerciantes e adquirir gneros e carne em troca de suas panelas e tachos, canecas e colares que 
fabricavam durante os meses de inverno.
     Era fora de dvida que valorizavam ao mximo cada pea, conseguindo preos muito alm de seu real valor. Durante os meses de inverno montavam acampamento em 
Toledo e l compunham seu trabalho artesanal e quando chegava a primavera j se organizavam para sair pelas cidades, acompanhando as festas tradicionais e tornando-as 
mais pitorescas.
      claro que s se desfaziam de suas peas quando no tinham outros recursos, porque geralmente as mulheres, as ledoras de "buena dicha", os msicos, as danas, 
tudo lhes rendia dinheiro e gneros, que eles arrepanhavam com presteza. Alguns tambm surrupiavam o que podiam, com astcia e ligeireza.
     Viviam assim na fartura, dentro das limitaes de povo nmade. Cobriam-se de jias, de preferncia ouro e prata, alguns mais caprichosos incrustando enfeites 
na madeira de suas carroas e nos arreios dos animais. Por isso, o movimentar dos ciganos, dos animais e de suas carroas era sempre acompanhado de muito rudo, 
do tilintar dos metais, das correntes e das esporas. Adoravam esporas e alguns havia que as colecionavam com orgulho e capricho.
     Depois de instalados, Esmeralda foi ver Carlos. O moo acordara, mas, ainda meio atordoado e vencido pela fraqueza, tinha dormido novamente. Seu rosto desinchara, 
mas sua fisionomia parecia pior. Estava plido e com vrias manchas arroxeadas, os lbios intumescidos e rachados. Perdera muito sangue.
     A cigana tentou faz-lo ingerir um pouco de caldo que pedira a Zilma, quando, assustado e aflito, Incio apareceu na carroa. Esmeralda olhou-o com um brilho 
alegre nos olhos.
      Podes entrar.
     Incio aproximou-se lvido.
      Ele est mal. Precisamos de um mdico. Achas que posso lev-lo? Esmeralda sacudiu a cabea.
      No podes ainda. Melhor  descansar. No precisa de mdico. Miro cuidou dele. No vai morrer.
      Como sabes?  indagou Incio assustado.
      Miro sabe mais que mdico. Se disse que ele vai sarar,  porque vai. No precisas ficar com medo. Teu patro no vai morrer  arriscou ela, astuta.
     Incio pareceu aliviado.
      Pobre moo!  suspirou a cigana com fingida tristeza.  To belo e to rico, ser maltratado assim.
     Incio, sem perceber o jogo dela, tornou convicto:
      Nem diga! Se D. Fernando souber, me mata!
      Levaram muitos haveres?
      Claro  respondeu Incio, animado pela sbita ateno da cigana.  Tinha at jias para a famlia de D. Hernandez em Madri. Sacos de ouro. Levaram tudo, Deus 
meu! E quase nos mataram. Se D. Carlos me tivesse ouvido, no se teria metido nessa estrada no escuro da noite.
      Podes ir agora que eu tomo conta dele. Vai, Zilma te dar o que comer.
      Tens certeza de que ele vai sarar?
      Tenho  ajuntou Esmeralda, e continuou com ar misterioso:  Miro  mago. Se ele disse que D. Carlos vai sarar,  porque vai. Podes acreditar.
     Incio pareceu menos aflito. O ar alegre e descontrado da moa, sua beleza, sua ateno para com ele, seus cuidados para com seu patro o tranqilizaram em 
parte. Mas no via a hora de poder deixar aquele lugar estranho e aquela gente perigosa. S se sentiria seguro quando voltassem para casa.
     A azfama no acampamento era grande. gua para os animais, lavar roupas no rio, panelas, e banhar-se. Eles podiam viajar vrios dias sem se preocupar com a 
higiene, mas quando paravam perto de um rio, principalmente no vero, no resistiam ao prazer do banho.
     Os homens eram terrivelmente ciumentos de suas mulheres e por isso convencionavam um lugar mais discreto para elas, onde nenhum cigano pudesse chegar, ao passo 
que eles podiam utilizar-se do rio  vontade.
     Na verdade, muitos havia que no apreciavam o banho. Mas Sergei, com sua autoridade, os obrigava, alegando que o mau cheiro incomodava a comunidade. Alguns 
havia que eram a contragosto atirados na gua, com roupa e tudo, a fim de se lavarem.
     Esmeralda, contudo, adorava o banho. Para ela era verdadeiro ritual, onde permanecia horas inteiras, deliciando-se com a gua. Mas ningum no acampamento se 
atrevia a espi-la. Sergei era enrgico e justo. No tolerava a menor desobedincia.
     Assim, depois que acamparam, enquanto Miro cuidava dos cavalos, Esmeralda procurou um lugar sossegado e tranqilo, despiu-se e atirou-se no rio. Levara um sabo 
de banho que trocara por uma pulseira em Valena e carregara amarrado em um cordo em volta do pescoo.
     Depois do mergulho, sentou-se na margem e o esfregou pelo corpo todo, inclusive nos cabelos. Depois, atirou-se novamente  gua, onde nadou com prazer, deliciando-se 
com o aroma particularmente perfumado das flores das margens e com o alegre cantar dos pssaros.
     Uma hora depois, a cigana deixou o rio, descansada e feliz, vestiu-se e secou os cabelos, deixando o sol quente da tarde bater em seu rosto.
     Estava com fome. Esmeralda no gostava de cozinhar. Quase sempre, servia-se da comida dos companheiros, que a mimavam oferecendo-lhe as coisas das quais gostava. 
Esmeralda era muito querida pelos ciganos. Orgulhosa e bela, voluntariosa e altiva, astuciosa e inteligente, era bem um smbolo da raa que os homens admiravam e 
que as mulheres gostariam de ser. rf, era filha de todos. Sergei a estimava como filha. Ningum danava e cantava to bem quanto ela.
     Os homens morriam por ela e os ciganos tinham muito trabalho para proteg-la. At tentativa de rapto j tinha sofrido. Porm ningum a dominava. Livre e voluntariosa, 
tirava dos homens o que podia, sem importar-se com eles quando no mais estivesse com vontade de v-los.
     Fora ameaada de morte vrias vezes por amantes desprezados, mas todo o bando a protegia, principalmente Miro, que jamais a deixava.
     Sempre que Esmeralda saa ou tinha contato com o povo, Miro ficava por perto. Quando ela dormia, vigiava seu sono. s vezes chegava ao exagero, a ponto de os 
companheiros caoarem dele. Mas Miro no se importava. Havia em seu olhar determinao e um certo receio que procurava no demonstrar.
     Esmeralda, andando de fogueira em fogueira, comeu carne, milho, bebeu ch. Depois, pegando com Zilma uma tigela de caldo, subiu na carroa.
     Carlos, ouvindo-a entrar, abriu os olhos:
       verdade! s tu!  murmurou enlevado.
      Sou. Agora beba. Estiveste mal, mas vais ficar bom. Esmeralda cuidou de ti.
     Ele sorveu o caldo com prazer. Seu rosto cobriu-se de leve suor.
      Ests enfraquecido. Perdeste muito sangue.
      O que aconteceu?  indagou ele.
      Foste assaltado. Roubaram-te tudo quanto levavas.
      Lembro-me deles surgindo de repente. Lutamos e desfaleci.
      Passamos pela estrada onde estavas semimorto e te recolhemos.
      E Incio?
      Est muito bem. Carlos suspirou aliviado.
      Onde estamos?
      Em Madri. No fales muito, que ests fraco.
      Contigo aqui sinto-me muito bem. Ansiava por este momento, estar a teu lado tem sido meu maior desejo.
      No parecia. Deixaste o acampamento sem te importares comigo. Ele tomou-lhe o pulso, segurando-a com fora.
      Sabes que no  verdade. Vim a teu encontro conforme o combinado, mas tu fingiste nem me conhecer. Pensei que no quisesses estar comigo.
     Ela riu provocante.
      No te emociones, ainda ests fraco.
      Esta  tua carroa?
      .
      Estive aqui todo o tempo? Dormiste aqui?
      Sim... a teu lado. No te deixei um s momento. Ele suspirou contente:
      E eu dormindo. Como pude?
      Deliravas.
      Vem mais perto, d-me um beijo.
     A cigana curvou-se sobre ele, beijando-lhe delicadamente os lbios ressequidos. Os braos de Carlos envolveram Esmeralda apertando-a de encontro ao peito.
      Esmeralda! Deste-me a vida! Renasci para ti. Sers minha, viverei para ti.
     Ela deixou-se ficar ali, abraada, ouvindo as palavras loucas e amorosas que Carlos lhe sussurrava aos ouvidos. Naquele momento, estava submissa e tranqila, 
como uma gatinha no colo do dono.
     Nos dias que se seguiram, Carlos foi melhorando rapidamente. A presena de Esmeralda era como um nctar que o chamava para a fora da vida. Entretanto, as festas 
na cidade tiveram incio e Carlos desesperado tentou dissuadir a cigana a participar. Seu amor por ela era imenso e exigia-lhe a presena todos os minutos. Juntos, 
na carroa dela, entregavam-se ao amor sem que ningum do bando interferisse. Eram plenamente livres.
     Mas a cigana explicou a Carlos que precisava trabalhar na festa. Sua presena era indispensvel para o bando. Carlos tentou inutilmente dissuadi-la. Esmeralda 
tornou-se fria e indiferente.
      Carlos, vou danar com os meus. Sem Esmeralda no tem festa. Esmeralda  livre. No podes obrigar Esmeralda a nada.  bom que saibas. Se queres perder-me, 
tenta segurar-me. Ningum diz o que Esmeralda deve fazer.
      Ento no me amas. Vais danar para outros homens, e eu no vou deixar. s minha. Se outro homem olhar para ti, eu mato.
     Irritado, Carlos levantou-se segurando-a pelos ombros. Apesar de fraco, suas mos pareciam de ferro.
      No gosto de homem ciumento. Se me atormentas, te deixo. Esmeralda  livre e  preciso que saibas. Vou danar com os meus na festa hoje  noite. Se tentas 
me impedir, ters que te haver com nossos homens.
     Carlos recordou-se do chicote de Miro. Sabia que Esmeralda no estava brincando. Por outro lado, no tolerava ficar ali, ainda enfraquecido enquanto ela se 
exibia, toda tentao e beleza, aos outros homens.
     Seus olhos expeliam chispas. Aproximou-se dela, abraando-a com violncia.
      Esmeralda! s minha! Se no posso obrigar-te pela fora, fraco e indefeso, nem enfrentar a ira dos teus, posso dobrar-te com a fora de meu amor. Sentirs 
o fogo que me consome, estarei to dentro de ti como ests em mim, que nunca mais desejars outros homens, nem poders arrancar-me de teu corao. Vers como sei 
amar. Sei que me pertences, desde que te encontrei. No me poders esquecer. Vers.
     Comeou a beij-la com doura e ao mesmo tempo arrebatamento. A cigana, tensa, fria, toda concentrada na defesa de sua liberdade, sentiu-se estremecer. As palavras 
ardentes de Carlos penetravam-lhe o ntimo vibrantes e fortes. Esmeralda lutava resistindo, procurando repeli-lo, mas os braos de Carlos pareciam de ferro e fogo 
queimando-lhe o corpo e um calor brando e irresistvel banhou o corao de Esmeralda, derrubando o muro de sua resistncia. Suas idias se perderam nos beijos de 
Carlos, e suas emoes como uma avalanche irreprimvel desabaram sobre seu ser e Esmeralda, pela primeira vez em sua vida, perdeu o domnio da situao, entregou-se 
deslumbrada e sem pensar ao enlevo daquele instante.
     Durante algumas horas, emocionados e trocando carcias, no conseguiram falar. Depois, deitados nas almofadas coloridas da carroa dela, Esmeralda, rosto encostado 
no peito moreno de Carlos, tornou submissa:
      Carlos. Estar contigo  festa para Esmeralda. Se me amares sempre assim, fico contigo.
     Carlos olhou-a nos olhos sem poder falar. Jamais sentira tanta emoo por mulher alguma. Parecia-lhe vibrar a cada momento, s com a proximidade dela. Olhou-a 
nos olhos, querendo devassar-lhe o ntimo:
      Esmeralda  disse num sussurro , nenhuma mulher me fez sentir tanto amor. Digo-te que nenhum outro homem poder dar-te o que te dei. Somos um do outro, concordas?
     Um lampejo de luta perpassou pelos olhos da cigana. Ela fechou os olhos, sentiu o calor de seus beijos, suas carcias, sua fora e cedeu. Por agora deixaria 
de lutar. Queria estar com ele. Desejava isso com todas as foras de sua alma voluntariosa e livre.
      Enquanto morares dentro de mim com essa fora, estarei contigo. E os dois permaneceram abraados, coraes batendo descompassados frente  violncia do sentimento 
impetuoso e forte que brotara neles.
     No acampamento, o movimento era grande. Os ciganos que iam  cidade participar das festas de rua aprontavam-se com suas roupas mais bonitas e seus adereos 
mais brilhantes.
     Duas carroas especialmente preparadas, cobertas de panos coloridos, com sua mercadoria pendurada para vender. As mulheres, alegres e falantes; e os homens, 
com seus cavalos enfeitados e bem cuidados.
     Levavam guitarras e pandeiros, e algumas pinhas secas e preparadas, pintadas com arte, que eles batiam umas nas outras no compasso do ritmo. Esse era um instrumento 
antigo que eles conservavam por tradio e sabiam preparar muito bem, ao qual davam o nome de "cascuri" ou "cascurra", como vulgarmente era conhecida entre eles.
     Miro estava pronto, com uma tnica bordada e as botas luzindo. Porm havia em seu olhar um brilho triste. Seus olhos no conseguiam distanciar-se da carroa 
de Esmeralda, que silenciosa parecia estar vazia.
     Entre os ciganos havia um tcito acordo de liberdade. Ningum obrigava ningum a nada, porm certos deveres da raa eram exigidos.
     Ganhar a vida, para eles, era dever. Assim como cuidar dos doentes e incapacitados pela idade, com carinho e dedicao.
     Estavam diante de uma novidade. Esmeralda jamais se esquivara da participao no trabalho do bando. Era um ponto forte de atrao. Fosse qual fosse a situao, 
a cigana sempre participara com entusiasmo e alegria.
     Sergei passou uma vista de olhos no grupo preparado para sair.
      E Esmeralda?  perguntou a Miro.
      No saiu ainda  respondeu ele procurando aparentar naturalidade.
      Temos que ir. V saber o que h.
     A passos lentos, Miro aproximou-se da cortina, chamando-a.
      Esmeralda!
     Sua voz era tmida. No gostava de perturb-la quando ela no desejava. O rosto corado da cigana apareceu entre os panos coloridos.
      Miro  tornou baixinho , diz a Sergei que no estou bem para trabalhar hoje. Sinto nuseas e arrepios.
      Esmeralda!  exclamou o cigano com voz triste.  Cuidado! No entregues teu corao assim. No te deixes dominar! Tu s livre!
     Ela riu despreocupada:
      No te preocupes. No tem perigo. Hoje no quero ir,  s. Amanh ser outro dia.
     Miro saiu procurando espantar os pensamentos sombrios que lhe ocorriam e dentro em pouco o bando alegre e barulhento se afastava rumo  cidade.
     Na carroa, Carlos, extasiado, no se cansava de cortejar a cigana, que, sem se dar conta, mais e mais se enlaava nas chamas daquele sentimento de amor.
     Nos dias que se seguiram, o falatrio e o descontentamento se alastraram pelo acampamento. Esmeralda, a flor da raa, a danarina principal, o "mito" do grupo, 
se recusava a trabalhar.
     No se importavam com sua vida amorosa, porm o trabalho era sagrado. A contribuio dos mais dotados era exigida como dever  comunidade.
     Carlos exigia, Esmeralda se entregava s emoes novas e alguns passaram a hostiliz-la. Esmeralda procurou Sergei em sua carroa.
      Sergei, Esmeralda precisa falar.
      Entra, Esmeralda. Tambm quero falar contigo. Faz muito tempo que no conversamos.
      s como meu pai. s chefe de nosso povo. Esmeralda sofre, precisa tua ajuda.
      O que aconteceu com Esmeralda?
      Sergei. Estou amando! Amo com todas as minhas foras. Vivo e respiro com ele. Nunca passei isso antes! Podes me entender?
      Ele no  um dos nossos. No te far feliz!
      Por que dizes isso? Achas que no posso prend-lo para sempre a meu lado?
     Sergei a olhou com firmeza:
      Acho. Hoje ele est aqui, contente e bem-disposto. Mas, um dia, sentir a fora do sangue, querer regressar aos seus.  nobre de estirpe. O que fars, ento? 
Pretendes impedi-lo? Queres nos abandonar? Eles te aceitaro? Sers feliz, presa em um castelo sombrio, sem ver as belezas do cu ou viajar por nossos bosques?
     O rosto de Esmeralda sombreou-se de tristeza, porm esforou-se por afastar esses pensamentos. Sorriu e ajuntou confiante:
      Sergei, Carlos ama Esmeralda com muita fora. No vai embora. Quem sabe um dia aprenda a ser um dos nossos. Quero que aproves nossa vida. s nosso chefe.
      Como chefe, tenho o dever de prevenir-te. Ser cigano  carregar toda a fora de nossa raa no sangue. Ele no  dos nossos. Se quiser ficar para sempre, podemos 
ensinar-lhe nossos costumes, porm ele ser feliz vivendo como ns? Pretendes aprision-lo fora dos seus por toda a vida?
      Ele gosta daqui.  feliz ao meu lado. Os pais so severos e duros e Carlos ama a liberdade, a dana, o sol, a msica. Ser feliz aqui. Danarei e ele estar 
tambm junto trabalhando pelos nossos nas festas. Se deres tua aprovao e teu consentimento, ficaremos felizes aqui, e tudo estar bem.
     Sergei olhou-a bem nos olhos.
       o que queres?
      . Hoje eu o quero. Amanh, no sei. Mas  a primeira vez que quero um homem assim. No posso perd-lo. Tu me compreendes?
     A voz da cigana era doce e suave.
      Se eu o perder agora, nunca mais poderei danar, nem cantar, nem ser feliz.
      Tu o amas tanto?
      Amo. Acho que amo.
      Pois seja, Esmeralda. Amo-te muito. Quero que sejas feliz enquanto podes. Vive tua vida com ele. Falarei a nosso povo para que o aceite. Porm peo-te que 
participes do grupo, que dances para o povo, mesmo que vivas para teu amor. Eles sentem muito tua falta e no gostam de trabalhar sozinhos. Acham que no foram muito 
felizes nesses dias porque no foste com eles. Precisas compreender.
      Querem obrigar-me?
      No  por isso. Eles sentem tua falta e mostram-se enciumados do amor que sentes por Carlos. Se queres que eles o aceitem, trata de fazer as pazes com eles, 
afinal tens o dever de trabalhar com o grupo. Sabes bem que isto  verdade. Nunca te obriguei a nada, apesar de teu chefe e senhor, mas sabes que tenho razo.
     Sergei falava com calma e delicadeza. Esmeralda sentia por ele respeito e acatamento. O apoio que lhe dera, compreendendo seus sentimentos, a deixava grata 
e solcita.
      Tens razo  concordou , vou voltar ao trabalho. No posso ficar parada para sempre. Esmeralda cumpre seu dever. Carlos tem que pensar como um dos nossos.
      Isso, minha filha. Se fizeres isso, certamente ele ser aceito por todos. Eles te amam. No querem perder-te. Sabes como adoram ver-te danar e cantar. No 
podes tirar-lhes esse prazer.
      Vou trabalhar, prometo. E te agradeo a bondade. s mesmo como um pai.
     Beijou a mo do cigano, que procurou esconder um brilho emotivo no olhar. Sergei tivera mulheres, mas vivia s. Tinha um filho de quinze anos que procurava 
educar dentro dos padres puros da raa e que era seu orgulho. Esmeralda tocava-lhe o corao de forma especial.
     Amara profundamente sua me, Tnia, a linda cigana que um dia sara do acampamento apaixonada, em companhia de um jovem nobre e belo. Sergei sofrera rude golpe 
com a fuga da cigana e, durante vrios dias, fechou-se em sua carroa desesperado, bebendo sem parar. Porm Tnia se fora, feliz e descuidada.
     Cinco anos depois, foram encontr-la no sul da Itlia, sombra do que fora, doente e com a filha nos braos. Apareceu no acampamento ardendo em febre e desesperada.
      Sergei, peo-te perdo. Se podes perdoar-me, no me escorraces. Sei que no mereo, mas sofri muito. Os outros no aceitam nossa raa e fui desprezada e infeliz. 
No voltei de vergonha. Mas agora estou doente e peo-te que aceites minha filha. Em suas veias corre nosso sangue!  cigana! No tem lugar para ela no mundo. S 
entre os nossos ser feliz. Ah! Como me arrependo do que fiz...
     Um acesso de tosse a acometeu, e o sangue colorindo sua boca mostrou a Sergei seu estado. Apesar de ter acariciado a vingana, de ter odiado, sofrido, chorado, 
Sergei no pde ficar insensvel  transformao daquela mulher. O espetculo de sua desgraa feriu-lhe o corao e recordando a beleza daquele rosto que amara tanto, 
o sorriso alegre e contagiante, a frescura daquela pele morena e bela, sentiu forte emoo. O amor que sempre sentira ressurgiu sofrido e forte. Ela voltara! Sofrida 
e triste. Quem sabe haveria tempo para salv-la? Quem sabe poderia faz-la reviver? Agora era experiente, quem sabe ela o pudesse amar?
     Olhou-a curvada, com a criana nos braos e um pano comprimindo a boca contrada.
      Tnia! Eu te perdo. No vais mais sofrer. Eu ainda te amo! Lgrimas grossas corriam pelas faces dela.
      Como fui injusta contigo! No mereo teu perdo! Mas posso dizer-te que, quando a iluso passou, teu rosto no saa de minha frente. Sei o que vales. Como 
s bom e justo. Por isso quis ver-te antes de morrer. Apesar de tudo, quero confiar-te minha filha. Ela no tem culpa de nada. Quero que a eduques como os nossos 
para que ela seja feliz como eu era e poderia ter sido at hoje. Toma-a,  tua.
     Sergei segurou a criana nos braos com emoo.
      V como  linda. Esmeralda tem trs meses. Peo-te que a adotes. Preciso ir-me embora, no quero que ela apanhe minha doena!
     Sergei, assustado, colocou a criana adormecida sobre o leito e segurou Tnia apertando-a nos braos. Em sua voz havia dor e angstia.
      Tnia, no te deixarei ir. Se voltaste, no te quero perder mais. Se te arrependes de teres partido, fica. Teu lugar  aqui, entre os de teu povo, que te 
ama e que nunca te esqueceu!
     Tnia soluava.
      No posso. Fui ingrata, no mereo. Sergei, estou muito doente. Vou morrer! No quero contaminar ningum. Deixa-me morrer como mereo.
      No posso, Tnia. Quero que vivas. Vamos curar-te. Seremos felizes. Ainda criars tua filha, que ser nossa. Eu te amo, Tnia, com desespero. No quero que 
morras.
      A felicidade no  para mim, Sergei. No soube apreci-la. Agora  tarde.
     Sergei no quis ouvir. Entregou Esmeralda aos cuidados de Zilma e instalou Tnia em sua carroa, cuidando abnegadamente de sua sade. Entretanto, a doena da 
cigana se adiantara muito e um ms depois Tnia veio a falecer. Mas os cuidados, o carinho, a dedicao do cigano estabeleceram no corao sofrido de Tnia um amor 
profundo, intenso, que ela procurou expressar de todas as formas e que deu a ele uma gratificao profunda.
     Esmeralda lembrava muito a figura da me. Sergei amava-a como filha. Vendo-a envolver-se tal como Tnia nas tramas de um amor perigoso, sofria e preocupava-se 
por ela. Contudo, no queria ser intolerante como fora com Tnia, que por isso fugira do acampamento. Queria proteger Esmeralda. Acreditava que, no sendo contrariada 
e podendo dar expanso a seus sentimentos, acabaria por compreender as diferenas da raa e, quando o mpeto da paixo serenasse, acabaria por desinteressar-se do 
jovem aristocrata.
     Conhecia bem a cigana, sabia-a exigente e indcil. No toleraria durante muito tempo o domnio de Carlos. Era livre como o vento. Nunca suportara nenhuma cadeia 
que no fosse a que seus sentimentos estabelecessem.
     O melhor mesmo era apoiar-lhe as resolues para que ela se sentisse segura do afeto dos seus no acampamento. S assim poderia evitar que ela, tal como Tnia, 
sasse rumo a uma vida to diferente da sua e que lhe fecharia todas as portas.
     Suspirou fundo e mais uma vez a imagem delicada de Tnia passou-lhe pela mente saudosa.
      Ah! Se estivesses comigo! Como eu seria feliz!
     Um arrepio inesperado percorreu-lhe o corpo ao mesmo tempo que profunda emoo lhe sacudiu o esprito. Teve a ntida impresso de ver um vulto envolto por uma 
luz suave deslizar em sua direo. Assustou-se.
     Tnia! Tnia! Parecia-lhe sentir sua presena. Estaria delirando? Teria seu desejo imenso de t-la perto chamado seu esprito? Sbito receio o envolveu. Teria 
ela vindo como um agouro? Estaria para acontecer alguma desgraa? A tradio de sua raa rezava que os espritos dos mortos s apareciam para avisar das desgraas 
ou para orientar os destinos do grupo quando houvesse necessidade urgente de mudar de rumo. Qual dos dois motivos teria trazido Tnia at ali?
     Aterrado, o cigano ajoelhou-se, murmurando:
      Tnia, Tnia. Sinto que ests aqui. Por que vieste? O que queres? Aragem suave envolveu o esprito ansioso de Sergei e aos poucos ele foi se acalmando e o 
receio desvaneceu. Nada mais viu ou sentiu, talvez tudo tivesse sido fruto de sua mente apaixonada e ardente.
     Levantou-se. Estava mais calmo e sereno. Fosse o que fosse, procuraria fazer o melhor. Sua vida era dedicada ao bando e ao filho. Deus faria o resto.
     Esmeralda chegou na carroa pensativa. Precisava ter uma conversa sria com Carlos. Tudo quanto Sergei dissera tinha calado fundo no corao da cigana. Sabia 
da infelicidade de sua me. No pretendia ser como ela. Alm disso, adorava seu povo, sua vida, sua liberdade. Jamais poderia viver encerrada em um castelo enquanto 
o marido se consumia em viagens e em lutas a servios de causas sem importncia, at que a velhice o impedisse de combater ou a morte o impedisse de envelhecer. 
Essa era a vida triste das damas e dos nobres. Esmeralda detestava essas coisas. Queria amar, cantar, rir, danar, viver a vida livremente, sem peias nem proibies.
     Carlos, sentado em um tosco banco de madeira, olhava o cu azul por entre as copas das rvores que a brisa levemente balanava. Aquela vida era boa, pensava, 
mas um pouco sem objetivos nem segurana. No fosse pela presena fascinante da cigana, no teria se demorado tanto por ali. Sabia que precisava partir, mas ao mesmo 
tempo no queria deixar Esmeralda. Sentia pela cigana uma atrao irresistvel, e por mais que ponderasse voltar para casa, bastava Esmeralda aparecer para que ele 
se esquecesse de tudo.
      Em que pensas?  indagou a cigana de chofre, arrancando-o da meditao.
      Em ti  respondeu Carlos sem pestanejar.
      Mentiroso. Tinhas o olhar perdido na distncia e eu estou aqui bem perto.
     Ela sentou-se a seu lado graciosa.
       verdade. Pensava em ti. O quanto te amo.
      Carlos, preciso falar-te seriamente.
     Ele a olhou preocupado. Sentia a animosidade dos ciganos e a vira conversando na barraca de Sergei. Temia que fosse obrigado a sair do acampamento.
      Seja qual for o problema, eu no te deixarei. Ela sorriu.
      Sabes que os nossos esto magoados comigo.  meu povo. Minha famlia. Aqui trabalhamos todos pelo bando. No somos aceitos pelas outras raas. Unindo-nos, 
ficamos mais fortes. Trabalhando juntos, sobreviveremos. Entendes?
      Acho que sim  resmungou ele preocupado.
      Os fortes trabalham pelos fracos e cada um d o que tem. Assim temos tudo. Esmeralda no est cooperando. Os meus esto revoltados e enciumados. Preciso voltar 
a trabalhar.
      Queres dizer que vais danar para os homens?
      Vou danar para meu povo!  fez ela irritada.  E, depois,  preciso, se queres permanecer aqui comigo. Se me recuso,  bem capaz de exigirem teu afastamento.
      Te dizes livre! No ser isso uma imposio? Ela sacudiu a cabea.
      Os deveres da raa precisam ser respeitados para que possamos viver. No entendes porque no s um dos nossos. Por outro lado, se eu cumprir com meu dever, 
eles no vo interferir em nossa vida. Poderemos estar em paz e sers aceito por todos como um dos nossos.
      No tolero que dances para os outros.
      Todos os nossos homens teriam orgulho de que sua mulher danasse e fosse aplaudida. Para ns  uma honra! Nem todas podem fazer isso com sucesso. Eu posso! 
Deves ter orgulho de me possuir. Admirada por todos, mas s vivendo para ti.
     A voz da cigana era doce e meiga. Nem sequer parecia a Esmeralda fria e indiferente. Carlos sentiu que no podia recusar. No desejava afastar-se dela. Concordaria, 
mas iria sempre v-la e acompanh-la.
      Est bem  concordou por fim , se  assim que pensas, eu no posso recusar. No quero perder-te. Mas estarei por perto e que nenhum homem ouse aproximar-se! 
No permitirei.
      Esmeralda no quer outros homens. Quem resolve isso  Esmeralda. Carlos puxou-a para si e beijou-lhe os lbios tentadores.
      s minha, no te esqueas disso  murmurou com voz rouca.
      Serei tua enquanto te amar  tornou ela provocante.  Lembra-te sempre disso. O nico lao que nos une  meu amor.
      Esmeralda  tornou ele com veemncia , dizes isso para atormentar-me. Sabes que nosso amor no vai acabar.
     Ela riu bem-humorada.
      No quero pensar no amanh. Hoje eu te quero e isto basta. Amanh Esmeralda vai danar.
     Os olhos da cigana reluziam de satisfao.
     
     
Captulo III
     
     A praa Mayor regurgitava de gente. Passava das nove e a noite descera calma e quente ao brilho delicado das primeiras estrelas.
     Pelo ar, o cheiro agradvel dos assados e o vozerio popular. Carrocinhas de saltimbancos exibiam seus nmeros alegres aos apupos do populacho e aos aplausos 
das crianas aqui e ali.
     Msicos tocavam e o povo danava em plena praa cantando e sapateando no desafio do ritmo, ao grito dos ols e dos aplausos. Por toda parte, pipas de vinho 
e rum que o povo comprava e consumia deliciado.
     Os ciganos instalaram-se a um canto, as ledoras de "buena dicha" espalharam-se entre o povo, e os msicos tocavam alegremente.
     Esmeralda danava! Descala, os cabelos negros e sedosos soltos sobre os ombros, coberta de colares, os dedos cheios de anis, parecia que nem pisava no cho. 
Lbios entreabertos, olhos semi-cerrados na volpia da msica, a cigana parecia irreal.
     Suas saias rodopiavam descobrindo nesse volteio pernas geis e bem torneadas e os gritos de entusiasmo do povo pareciam incentiv-la mais e mais aos caprichos 
improvisados e exticos de sua dana.
     Respirao presa, Carlos fascinado no podia desviar o olhar do vulto da cigana. Tinha cime, mas mesmo assim pde compreender por que os ciganos se orgulhavam 
dela. Possu-la o envaidecia. Na verdade, no devia ser fcil prender o amor de Esmeralda. Pelo que sabia, amada por muitos, era a primeira vez que Esmeralda amava. 
Sentia-se orgulhoso e feliz. Parecia hipnotizado.
      Carlos! Que surpresa!
     Arrancado de seu mundo ntimo, Carlos sobressaltou-se:
      lvaro!
     Trocaram um abrao entre exclamaes de alegria e cumprimentos. lvaro era sobrinho de D. Antnio Hernandez e amigo de infncia de Carlos.
     Seus pais e D. Hernandez eram amigos e nas temporadas da corte costumavam visitar-se, chegando mesmo a se hospedarem por longas temporadas.
      Com que ento ests em Madri! Quando chegaste? Por que no foste  minha casa?
      Tive alguns contratempos durante a viagem, mas agora estou bem.
      Estiveste doente.
      Pior, fui assaltado e ferido, roubaram-se todos os haveres. Inclusive os mimos que trazia para a famlia de D. Hernandez.
      Que lstima! No se pode andar sem escolta por essas estradas. Mas onde ests hospedado? Naturalmente irs para minha casa.
     Carlos abanou a cabea.
      No posso. Estou com alguns amigos a quem devo a vida.
      No digas!
      Pretendo ficar com eles mais algum tempo. E tu, o que contas de bom?
      Nada. A vida na corte  sempre a mesma. As mulheres, o vinho, as peleas, as intrigas. Os sales esto perdendo seu encanto.
     Carlos sorriu malicioso.
      Logo tu, a dizeres isso.  por ti que as damas suspiram quando cantas.
      No  bem assim... Em todo caso, fao o que posso. Mas, olha, Carlos, que mulher! Jamais vi outra igual.
     Carlos estremeceu. lvaro, olhos brilhantes, lbios entreabertos, um sorriso alegre, fixara-se em Esmeralda, que sob os aplausos frenticos encerrara sua dana. 
Afogueada, com os olhos brilhantes, a cigana sumira para dentro da carroa, enquanto o povo pedia sua volta e os msicos recomeavam a tocar, concitando o povo a 
danar. Mas eles exigiam a volta da cigana e para isso dispunham-se a pagar. As moedas comeavam a chover e os ciganos as recolhiam com presteza. Quando Miro julgou 
oportuno, anunciou que aps um pouco de descanso a cigana retornaria.
     Carlos sentiu-se preocupado. No queria que lvaro conhecesse a cigana. Queria despedir-se, mas o outro parecia muito  vontade.
      Buena dicha, senr? Passado, presente, futuro...
     Uma cigana passava por eles e lvaro divertido estendeu a mo para ela.
      Dize-me, o que tenho para o futuro?
     A cigana parou, olhou-o bem como se quisesse penetrar-lhe o ntimo. Depois, sria, tomou-lhe a mo, apalpando delicadamente sua palma.
      Senhor, homem rico, sereis poderoso, tereis fortuna e poder. Sade boa, amores fceis. H uma mulher que pode elevar-vos ao poder ou atirar-vos no p das 
estradas.
      Queres dizer que uma mulher pode fazer isso comigo?  gracejou lvaro com ar incrdulo.
      Far, senhor. Estou vendo. Cuidado, porque aqui h uma encruzilhada. No posso ver mais. S sei que haver dois caminhos, mas sero decisivos. No sei qual 
ides escolher. No consigo ver...
      Como no? No prevs o futuro?
     A cigana o olhou sria. Parecia plida e um pouco trmula.
      Sim, vejo. Um caminho vos levar  glria e ao poder. O outro  destruio e  morte. Tudo por uma mulher! Deus!
      O que foi?  indagou lvaro meio agastado.
      No posso, senhor. No posso! No sei qual ides escolher. Vejo-vos parado em uma encruzilhada e os dois caminhos se estendem a vossa frente. Vejo os extremos 
onde eles vos levaro. Cuidado! No sei qual ides escolher. Se for um, ser feliz; se for o outro, a tragdia vir.
      Ora, cigana! Queres assustar-me. Toma estas moedas e vai-te.
      Mina no quer suas moedas. Guardai-as. S quer que penseis bem quando chegar a hora da deciso.
      Por que no queres meu dinheiro?  fez ele irritado.  Por acaso no o achas limpo?
      No  isso. S sei que no devo aceitar vosso dinheiro. No posso!
     A cigana afastou-se de repente e, antes que lvaro pudesse segur-la, sumiu por entre a multido.
      Maldita cigana!  fez ele irritado.
     Parecia impressionado. Carlos assistia  cena intrigado. Sabia que os ciganos jamais recusavam o dinheiro, e o comportamento da cigana o deixara muito surpreso.
      Mulher estranha  murmurou Carlos admirado.
      Conseguiu tirar-me o bom humor.
      Bobagem, homem! O que ela disse  fantasia. Mas mesmo que seja verdade, no  to ruim. Lembra-te que poders escolher e certamente escolhers o melhor.
     lvaro sorriu.
      Tens razo. Deixemos esses ciganos repelentes. Onde vamos?
      Sinto, mas preciso ir. Meus amigos esperam-me.
      Sabes o que eu acho? Que andas metido com alguma mulher. Nem sequer me convidaste a conhecer teus amigos. Pela tua cara, que conheo bem, tramas alguma.
      Se s meu amigo, deixa-me agir  vontade. Amanh ou depois vou a tua casa.
      No negaste, hein, maroto? Bem, eu compreendo. Mas, pelo menos, conta-me alguma coisa a respeito dela.  bonita?
      Alguma vez tive mau gosto?
      Est bem. Est bem. Espero-te em casa.
     Abraaram-se. Quando lvaro desapareceu entre o povo, Carlos foi  procura de Esmeralda.
      Onde estavas?  perguntou ela.  No te vejo faz tempo. Quem era aquele fidalgo?
      Um amigo meu de infncia. Mora aqui em Madri. Estranhou por eu no o ter procurado.
      E tu?
      No quis ofend-lo. No disse que estava em melhor companhia.
      Ou ser que tens vergonha de ns?  fez ela, um pouco irritada.
      Por que dizes isso? Por acaso no te amo e te prefiro a tudo e a todos?
      Pode ser.
     Esmeralda olhou-o como querendo penetrar-lhe o ntimo:
      Farias isso publicamente? Serias capaz de dizer a teus amigos fidalgos que amas uma cigana, que vives em nossa carroa e que queres ser um dos nossos?
     Carlos pareceu um pouco embaraado.
      Que idia, Esmeralda! Se estou aqui,  porque quero. Mas sabes que os outros no pensam como eu e certamente enfrent-los nos traria aborrecimentos. Quero 
poupar-te.
      Ah! Queres poupar-me!  fez ela irnica.  Pois se eu te disser que no quero ser poupada, se eu te disser que quero que grites que me amas a todos esses 
hipcritas decadentes que deitam com nossas mulheres, bebem nosso vinho e vo para casa fingindo respeito, escondendo a podrido e desprezando nossa raa?
     Os olhos dela faiscavam de raiva.
      Esmeralda  fez ele em tom conciliador , acalma-te. Sabes que no sou como eles. Eu te amo!
      Dizes isso, mas no fundo pensas como eles! No te afinas com os meus. Se pudesses, me levarias para longe dos meus, para um lugar qualquer, mas nunca para 
a casa de teus pais ou de teus amigos. Deixa-me, Carlos. Talvez seja melhor. Enquanto  tempo, deixa-me. Esmeralda quer viver, ser livre e feliz. Vai embora de minha 
vida!
     Carlos sobressaltou-se.
      No podes dizer isso, Esmeralda. s injusta. Jamais te deixarei! s minha.
     Agarrou-a, abraando-a com fora, beijando-lhe os lbios midos. O corao da cigana batia descompassado.
      Esmeralda  sussurrou Carlos em seu ouvido , se no te apresentei a lvaro, foi por cime. Ele  um belo homem e estava entusiasmado com tua dana. Estou 
certo que te desejou. No quero que o conhea.
     Esmeralda sorriu. Toda sua raiva desapareceu. Essa linguagem ela podia entender.
       um belo homem  disse provocante. Carlos apertou-lhe o brao com fora.
      No me provoques. Se olhares para ele, te arrependers, eu juro! Carlos estava plido. Esmeralda olhou-o com doura:
      Sabes que te amo. Agora deixa-me. Vou danar. O povo me chama.
     Realmente, as vozes l fora chamavam pela cigana e a msica convidava a danar. Carlos saiu e recostou-se na carroa enquanto Esmeralda, espicaada pela assistncia, 
rodopiava envolvente. Mas o rapaz no estava tranqilo. Seu amor por Esmeralda era violento. Aonde o levaria?
     Lembrou-se de lvaro e do comportamento da cigana. Se fosse com ele, compreenderia porquanto ele sim estava numa encruzilhada por causa de uma mulher. Mas lvaro, 
to insensvel s mulheres, usufruindo sem dar, despertando paixes sem corresponder, sempre senhor de si, era impossvel. Fantasias da cigana, com certeza. Mas 
com que fim? Recusara o dinheiro dele. Por qu? Eles faziam tudo aquilo por dinheiro. Isto o intrigava realmente.
     Foi perdido em seus pensamentos que Carlos permaneceu o resto da noite. E quando de madrugada voltando ao acampamento, conduzindo a carroa de Esmeralda, vendo-a 
cansada e alegre sentar-se a seu lado, perguntou:
      O que pensas da "buena dicha"?
      "Buena dicha?
      Sim. Das profecias que os teus fazem s pessoas.
      Por qu?
       s para ganhar dinheiro, no ?
      No crs nas predies?  perguntou ela admirada.
      Ora, Esmeralda, tu mesma j falaste sobre alguns truques para arranjar dinheiro...
       verdade. O povo gosta de saber o futuro.
      E os teus se aproveitam. Inventam histrias, mentiras.
      Nem sempre. Eu acredito nas vises e nas profecias. Por que perguntas? Nunca te vi interessado nisso.
       que Mina teve um comportamento estranho com lvaro, intrigou-nos muito.
      Eu no duvidaria de Mina. Ela  iniciada nas foras do bem e do mal.
     Carlos sentiu um arrepio pelo tom da cigana e relatou-lhe a estranha predio.
      E depois, o que  mais raro, recusou as moedas, no  estranho?
      No. Ela sabe que quando tem uma viso real e prediz alguma coisa, no deve receber dinheiro por isso, para no perder o poder.
      Mas se ela tem esse poder, por que o dinheiro a faria perd-lo?
      No sei. No entendo dessas coisas. No sou iniciada. Mas sei que quando Mina recusa o dinheiro,  porque fala a verdade.
     Carlos permaneceu pensativo.
      Seria bom que teu amigo fidalgo a escutasse. Mas deixemos essas coisas, Esmeralda est cansada.
      Estamos chegando.
     Naquela noite, Carlos custou muito a conciliar o sono. A figura do amigo de infncia vinha-lhe  mente de quando em quando e nesses momentos no podia evitar 
uma apreenso, como um sobressalto que a custo procurava vencer.
     No dia imediato, o acampamento custou a acordar. Apenas as crianas e algumas mulheres que no tinham participado da festa estavam em atividade.
     Carlos despertou cansado e mal disposto. O sol ia alto e ele levantou-se. Procurou algo para comer. Mastigando um pedao de po, saiu da carroa e procurou 
algo para tomar. Miro estava perto de uma fogueira com uma caneca na mo.
      Pela sua cara, acho que no est bem  fez bem-humorado.  Temos leite. Vi uma vaca e consegui um bom balde. Nada mau depois do vinho.
     Carlos aceitou a caneca automaticamente.
      Mina j levantou?  indagou Carlos pensativo.
      Que queres com Mina?  perguntou Miro curioso.
      Falar-lhe. Ontem a vi prevendo o futuro e fiquei interessado.
      Queres ler a "buena dicha"? Eu mesmo posso fazer isso. No sabes que tambm sou iniciado?
     Miro falava em tom de brincadeira, mas Carlos sabia que dizia a verdade. Miro tambm fazia parte dos verdadeiros conhecedores desses poderes.
      No  propriamente para mim. Mas ontem ela predisse algo a um amigo meu. Fiquei preocupado.
      Se queres, podes procur-la naquela carroa, mas estou certo de que no te dir nada.
      Achas que se recusar?
      Acho que j esqueceu. No sabes, mas as vises surgem sem esperar e se vo da mesma forma. No creio que te possa ajudar.
      Ainda assim quero v-la.
       ali. Podes cham-la.
     Carlos engoliu o leite morno, depositou a caneca nas pedras da mesa improvisada e decidido foi  carroa de Mina.
      Mina, posso entrar?
     A voz da cigana respondeu prontamente.
      Espera um pouco.
     Segundos depois, sua mo morena arrepanhou as cortinas que serviam de porta da carroa, e gil saltava ao cho ao lado de Carlos.
      Melhor conversar fora. Gilka dorme. No quero despert-la. Carlos se esquecera da pequena filha de Mina.
      Preciso falar-te.
      O que queres? Nunca me procuraste.
      Ontem na praa, tua viso. Quero que me esclareas. Estou preocupado com meu amigo.
      Nada tens com ele. Deixa-o em paz. No o procures. O rosto da cigana era srio.
      No posso evitar.  meu amigo de infncia, nossas famlias se estimam e se visitam. O que viste com ele? Qual a viso que te fez dizer tudo aquilo?
      Minha parte fiz. O recado j dei. A viso se apagou e no quero busc-la de novo. Nem quero envolver-me com ela. Deves fazer o mesmo.
      No podes me dizer nada? Vais deixar-me to intrigado?
      De que te adiantaria conhecer cenas do futuro, pedaos de um acontecimento que vir?
     Carlos no se deu por satisfeito:
      Mina, no me deixes sem resposta. O que queres dizer com isso? No entendo dessas coisas, mas gostaria de apaziguar meu esprito. Sempre que penso no que 
disseste ontem, sinto um aperto no corao. Por acaso tua viso no se referia a mim? No terias te equivocado atribuindo-a a ele?
     Mina olhou fixamente para o rosto expressivo de Carlos. Depois disse com voz firme:
      Sei o que sentes, e o que se passa em teu corao. O amor cigano tem seu preo. E no sei se estars disposto a pagar. Mas minha viso foi com ele. Isso posso 
afirmar. Jamais me engano nessas coisas. No penses que conheo todo o futuro e que tenha entrevisto todos os acontecimentos. O poder da viso se manifesta de repente. 
Por um instante, sem que eu tenha pedido, sinto um frmito, um tremor, e sei que ela vai acontecer. Todos os meus sentidos se aguam na espera e ento tenho diante 
dos olhos cenas rpidas de acontecimentos futuros. Elas desaparecem e eu as esqueo logo.
       curioso. Pensei que soubesses tudo! A cigana balanou a cabea.
      Te enganas. Pelas cenas que vejo, posso pressentir os perigos, ou sossegar os coraes aflitos. Sei quando vo acontecer coisas boas ou ms, mas por que ou 
quando ou como vo acontecer, isso no sei.
      Estranho poder o teu. Mas de que te serve se no podes compreender tudo?
      No sabes o que dizes. Ele tem sido til a minha gente. Consigo ver o essencial. E no quero saber demais. Como poderia viver conhecendo o futuro de todos 
e sem poder impedi-lo de consumar-se? J  difcil e doloroso para mim prever o futuro.
      lvaro no acreditou muito no que disseste.  desconfiado e descrente.
      Lembrar-se- de mim quando chegar a hora da deciso.
      E no podes prever o que ele vai escolher?
      Pude ver o fim dos dois caminhos. Um leva  felicidade, o outro  tragdia, mas a escolha  deciso dele.
     Carlos suspirou um pouco decepcionado. Esperava maiores esclarecimentos.
      Se queres um conselho: evita-o. No o procures nem te ligues a ele.
      No posso ajudar?
      No ters condies para isso.
      E quanto a mim, meu futuro e o de Esmeralda, no sabes de nada?
      J te disse que a viso ocorre sem que eu queira. No tenho poder de produzi-la  vontade. Mas s muito invejado. Toma cuidado com isso. No te descuides.
      Como assim? A cigana sorriu:
      No s cristo? Teu Deus no tem fora para te proteger?
      Achas que devo ir  igreja?
     Ela riu gostosamente. Seu rosto magro e ossudo tornava-se mais suave quando ria.
      Se acreditas que Deus est encerrado entre as paredes tristes e frias de uma casa de pedra e que de l pode ajudar-te, realmente tenho pena de ti.
      Porqu?  fez Carlos picado.
      Porque teu Deus  muito pobre. No te poder ajudar muito. Nosso Deus  muito mais poderoso!
      Falas como herege. Deus  um s para todos.
     O rosto da cigana distendeu-se. Seus olhos pareciam perdidos no horizonte infinito:
      Os brancos no sabem enxergar o verdadeiro Deus. Ele  grande e poderoso. Est em tudo. Podemos sentir sua presena no cu, nas estrelas, no sol, nas rvores, 
nas flores e nos rios, ele  a fora da vida.
     A voz de Mina era firme e adquirira modelaes suaves. Carlos a olhava admirado. Ela prosseguiu:
      Se queres ajuda, conversa com ele em teu corao. Ele te dar proteo e fora. Agora esquece tudo. Deixa teu amigo em paz.
     Carlos se afastou impressionado. Miro continuava assando carne no fogo, absorto em seus pensamentos. Carlos aproximou-se.
      Estranha essa mulher. Diz coisas que nunca ouvi. Acho que no  muito certa da cabea.
     Miro soltou uma risada.
      Mina te perturbou? Carlos deu de ombros.
      A mim, no. Mas ela  diferente, sobrenatural. Diz coisas, muda a voz de repente, parece possuda. Se os inquisidores a virem, est perdida.
      Eles no se metem conosco. Nossos punhais so to afiados quanto suas mquinas de tortura. Podemos sumir com eles antes que a malta de seus asseclas d pela 
coisa. Por que os mencionaste? Por acaso os conheces?
      No me honraria conhec-los. No sou afeito s coisas da religio. Tenho-os visto entrando e saindo na corte, ou na casa de meu pai. Levando nosso ouro, e 
sei at que tm imposto sua vontade a El-rei. Acho-os intrigantes e falsos. Usam sotaina, mas surpreendi alguns em trajes falsos nas tabernas onde as mulheres e 
as bebidas jorram em abundncia. Se pudesse, desmascarava-os a todos. Miro estava srio.
       prudente no te meteres com eles. Nunca se sabe at onde chega sua maldade. No terias poder para lhes fazer oposio. Parecem donos do mundo. Trazem as 
pessoas escravas a seus ardis, manietadas e subjugadas. Fazem isso porque houve os que se submeteram, mas ns somos livres. Eles nos temem.
      Nunca procuraram aproximar-se?
      Vrias vezes tentaram subjugar-nos. Pela fora, pela perseguio e at pelo ouro. Mas Sergei sabe como enfrent-los. No confia na hipocrisia. Fez sentir 
o peso do poder cigano. At que eles resolveram nos deixar em paz, desde que no nos metamos com eles. Assim, temos vivido h j algum tempo.
     Carlos estava interessado. Enfrentar os inquisidores e venc-los fora um dos sonhos hericos de sua adolescncia. Detestava aqueles vultos negros circulando 
pelo castelo de seu pai, delatando suas traquinices, levando o dinheiro paterno, interferindo nas decises de famlia, revelando uma cupidez insacivel e um fanatismo 
que o irritava.
     Por que seu pai, to austero, to senhor de si, to honesto, se submetia? Sempre se revoltara quanto a isso, mas o assunto era intocvel. E toda vez que o mencionava 
era punido severamente. Seu pai recusava-se a lhe dar alguma razo ou explicao para aquela subservincia, to em desacordo com sua altivez e sua honra de fidalgo 
honesto e valente.
     As histrias que circulavam entre os jovens de sua idade sobre os inquisidores eram de estarrecer. Sempre a injustia vencendo, a mentira, o embuste, a maldade 
derrotando os bons, os humildes, os honestos.
     Impossibilitado de fazer algo, de poder vencer essa fora arrasadora, Carlos procurara omitir-se desses assuntos, evitando-os para que sua revolta no o fizesse 
tomar atitudes perigosas e inteis.
     Nunca conversara sobre isso com os ciganos. Saber que tiveram a coragem imensa de enfrent-los era glorioso. Carlos vibrava s de pensar.
      Queres dizer que houve poca em que se combateram?
      Houve. O sangue jorrou de parte a parte. Mas cigano no ataca ningum. Cigano toma alimentos e dinheiro para poder viver. No vivemos fincados na terra. Nossa 
casa muda-se com a estao, no plantamos a terra, no temos como comer. Levamos ao povo nossa alegria, nossa msica, nossos tachos e objetos de adorno; em troca, 
queremos alimentos, roupas, paz. Jamais agredimos algum. Mas precisamos nos defender, no toleramos agresso.
     Miro sentou-se no cho e Carlos sentou-se a seu lado. Permaneceu silencioso alguns instantes. Carlos perguntou:
      Miro, no seria melhor que teu povo fundasse uma vila ou cidade e procurasse cultivar a terra, criar animais para viver? .
     Miro o olhou pensativo.
      Impossvel. A alma de nosso povo pereceria em pouco tempo. Nossa natureza  livre e no suportaramos a monotonia de um s lugar.
      Os nossos acham que tomar o que no lhes pertence  roubar. Tu e os teus acham isso natural.
     Miro riu despreocupado.
      Tambm pensas como eles?
      Bem... Eu no tomaria nada a ningum.
      Pois morrerias de fome. Posso te garantir. Ns ciganos temos vida simples. Queremos comida e bebida farta, alguns panos para cobrir o corpo, alguns enfeites 
para alegrar nossos animais, nossas carroas e tornar mais belas nossas mulheres. Vivemos com pouco. Todos somos iguais no bando. E at nosso chefe ouve nossas dificuldades 
e procura resolver nossos problemas. Somos fortes porque somos unidos. Mas os fidalgos, como tu, ficam escravos do ouro. Apodrecem nesses castelos cheios de mofo, 
cobertos das maldies de seus feudos que trabalham de sol a sol, plantando a terra para encher vossos celeiros, levando vida miservel de fome, de doena, sem alegria 
de viver. O senhor de tudo, fidalgo do castelo, sacrifica a mulher, trancada em suas paredes de pedra como numa masmorra, prende seus filhos, dando as filhas em 
casamento a velhos ricos e desapiedados e os filhos nas batalhas inglrias das guerras sem sentido. E ajuntando tudo para dividir com os padres, que usufruem, dominam 
e arrasam tudo. Quem  mais feliz: ns ou eles?
     Carlos estava admirado. Por estranho que pudesse parecer, o cigano tinha razo. Entre a vida montona e pesada de seu castelo, mil vezes o acampamento cigano. 
Pela mente de Carlos passaram cenas de sua infncia, a resignao da me sempre cerrada em suas salas e sem acesso s decises familiares. Uma onda de tristeza o 
acometeu. Amava a me. Certamente sua prolongada ausncia iria preocup-la.
     Sacudiu a cabea tentando afastar as idias tristes.
      Acho que tens razo, Miro. Aqui se vive feliz e livremente. Eu prefiro esta vida  que levava na casa de meu pai.
      . Preferes esta vida, mas no sei se com o tempo continuars pensando assim.
      Amo Esmeralda. Gosto daqui. Ficarei para sempre. Miro o olhou com um brilho indefinvel nos olhos.
      Vamos ver. O chamamento familiar  muito forte. E a ambio  trao marcante entre os fidalgos. Muitos crimes temos visto por causa de heranas e ouro. Conseguirs 
resistir?
     A voz do cigano penetrou fundo o corao de Carlos. Essa pergunta ele se recusava a formular no prprio ntimo. Temia o conflito, receava a hora da opo definitiva 
e absoluta. Pressentia que a fora das coisas a colocaria em seu caminho, recusava-se a pensar nisso. Queria retardar o mais possvel.
      Estamos falando de assuntos muito srios. Mas eu gosto de Esmeralda, gosto daqui, gosto muito. Gosto desta vida. Gostaria imensamente de ser um dos vossos.
      Seria melhor para ti e para Esmeralda. Mas no tens sangue cigano. No pensas como ns. E um dia o apelo de teu povo te chamar a outros caminhos. Ento, 
no sei o que decidirs.  a fora das coisas.  a luta. Amar Esmeralda e ela te amar foi fatalidade. Desejo que ela no sofra. Se a ferires, podes ter certeza de 
que ferirs a mim tambm. Eu a defenderei contra tudo e contra todos.
     O olhar de Miro fuzilava de emoo. Carlos sentiu um arrepio desagradvel. Procurou sorrir.
      Podes estar tranqilo. Jamais magoarei Esmeralda. Eu a quero muito. Agora vou ter com ela. Apreciei conversar contigo. Gostaria de ser teu amigo. Falo com 
sinceridade. Faz-me falta algum para trocar idias, e como s amigo de Esmeralda, eu te admiro e respeito.
     Miro sorriu descontrado. Carlos falava com sinceridade e Miro observou:
      Eu tambm te admiro. Conquistar o corao de Esmeralda foi tua maior vitria. s sincero e simples. Podemos ser amigos.
     Apertaram as mos.
      Talvez possas ensinar-me alguns de teus truques de montaria. Miro deu uma piscada maliciosa:
      Posso, desde que me ensines a conquistar as mulheres. Deves ser mestre nesses assuntos.
     Carlos saiu alegre e bem-disposto. Conversar com o cigano o fizera esquecer um pouco os problemas de lvaro. O mau pressgio se esvara. Miro era um homem muito 
interessante. Poderia contar-lhe coisas e aspectos da vida daquele povo, que julgara to atrasado mas que se revelava mais feliz e mais sbio do que os pretensiosos 
fidalgos que tanto alarde faziam de seus poderes e no passavam de escravos enfatuados e tristes de uma sociedade corrompida e devassa.
     Viver ali, livre e com o amor de Esmeralda, no era uma felicidade?
     Entrou na carroa onde a cigana ainda dormia e abraou-a com carinho. Olhando seu rosto delicado e adormecido, aconchegando a seu peito, pensou comovido:
      Est decidido. Ficarei para sempre contigo, Esmeralda. Nunca te deixarei.
     E cansado pela noite mal dormida, sentindo o brando calor de Esmeralda junto a si, suavemente adormeceu.
     
     
Captulo IV
     
     A tarde morria no acampamento, mas o movimento ainda era grande. Preparavam-se para partir. O outono ia em meio e havia movimento na cidade, onde a maioria 
cuidava de se abastecer para o inverno.
     As donas de casa cuidavam de suas conservas e de suas carnes, que deveriam sustent-los nos dias difceis de inverno. Os ciganos no tinham celeiros nem gneros 
para armazenar, mas tudo quanto puderam obter nas festas de vero, e ainda durante o outono, procuravam acomodar nas pitorescas carroas onde viviam.
     Para eles o outono era mais curto, porquanto o vero se alongava ao mximo. Profundos conhecedores da natureza, com a qual viviam em constante contato, estabeleceram 
um roteiro que lhes permitia acompanhar a estao quente viajando com ela. Observavam atentamente as rvores e as aves, cuja migrao e ciclo conheciam perfeitamente 
e, de acordo com seus sinais, resolviam tambm a viagem e o rumo.
     Tinham sado de Madri rumo a Contrera, Crdoba e Cceres. Seguiram pelo litoral parando em S. Eleutrio e El Prncipe. Barcelona e Alcntara. Agora rumavam 
para Toledo, onde deveriam permanecer mais tempo.
     Sergei marcara a sada para a madrugada seguinte e as atividades eram muitas. Durante o vero, acondicionavam as roupas de inverno no fundo da carroa e colocavam 
as almofadas ou o colcho de penas de ganso por cima. Agora tinham que fazer o contrrio. Tirar a roupa quente, os acolchoados e os agasalhos e guardar as roupas 
de vero. Deveriam ainda acomodar os objetos e vveres que tinham conseguido para consumir durante o inverno. Os tachos, os arreios e enfeites tinham sido vendidos 
e levavam dinheiro, com o qual pretendiam adquirir o que precisassem.
     Carlos, curioso, observava o movimento e seu criado aproximou-se. Durante todos aqueles meses, Incio permanecera no acampamento com a vida que pedira a Deus. 
Fizera amizade com vrios ciganos que a princpio riam-se dele, mas que depois percebendo-lhe a humilde dedicao e a limitada inteligncia se acostumaram com sua 
presena.
     Perdendo o medo dos primeiros tempos, e sem coragem de ir-se embora abandonando o patro, mostrou-se prestativo e til, e acabou tornando-se aceito e at querido, 
principalmente das mulheres, cujos afazeres mais pesados aliviava, cooperando. Ia buscar gua, acendia o fogo, cortava lenha, apanhava frutas, brincava com as crianas, 
cuidava dos doentes.
     Com isso, granjeara a simpatia e era solicitado por elas, que lhe ofereciam guloseimas e at roupas. Ele sentia-se livre e querido. Aproximou-se de Carlos, 
olhando-o com curiosidade.
      Senhor, vamos com eles?
      Certamente.
      No vamos voltar ao castelo de D. Fernando?
     Carlos franziu a testa preocupado. A figura delicada da me surgiu-lhe na mente e sentiu funda saudade. Mas reagiu:
      No penso em voltar por agora. Estamos bem aqui. Por acaso queres ir embora?
      Oh! No. Gosto daqui.
      Ento deixemos esse assunto. Vamos ajudar Esmeralda.
     Mas Carlos no conseguia esquecer. As saudades do lar eram fortes e pungentes. Esmeralda observou pensativa:
      Ests triste. Por qu?
      No gosto do inverno. Sempre me pe triste. Amo o sol, a luz, o calor.
     A cigana deu de ombros.
      No se pode mudar a natureza.
      . Se eu pudesse, mudava. Ela riu.
      Falas como criana.
     Carlos procurou sorrir, mas sentiu o corao apertado. Tratou de reagir. Abraou a cigana com fora.
      Esmeralda, deixa isso e fica comigo. Ela riu distrada.
      Espera. Deixa-me acabar.
     Mas Carlos no podia esperar, estreitou-a ainda mais, mergulhando nas emoes que Esmeralda lhe provocava, beijou-lhe os lbios com ardor. A cigana retribuiu 
e Carlos, naquele instante tendo a mulher amada entre os braos, esqueceu sua preocupao, sua saudade. Esmeralda era sua fora, sua vida, seu alento. Ficaria a 
seu lado para sempre.
     Os dias que se seguiram foram montonos e tristes. Tinham partido de madrugada. Uma chuva persistente e fria caa sem cessar, dificultando a marcha pelas estradas, 
transformadas em lodaal, e um vento frio soprava prenunciando o inverno.
     Carlos no conseguia dissimular o tdio. Presos na carroa pelo mau tempo, o rapaz se sentia abafado e intil. Esmeralda, sentindo-lhe a m disposio esforava-se 
por tornar a habitao mais confortvel. Tinham lenha seca e a cigana acendera branda fogueira no aquecedor. Chegara at a preparar milho para ele, assando-o com 
cuidado no curioso e primitivo aquecedor que conforme a necessidade tambm podia esquentar o ch ou assar o milho e at, se a chuva fosse muito demorada, assar um 
pedao de carne. Era feito de ferro e consistia numa caixa com pequena abertura lateral e uma grelha por cima; atrs, um grosso cano de lato fazia as vezes de chamin, 
conduzindo a fumaa para o alto da carroa e jogando-a para fora.
     Esmeralda no gostava de cozinhar e sempre comia com os companheiros, mas agora cuidava de seu homem com amor. A viagem se arrastava, morosa, e as crianas 
em grande parte estavam doentes e irritadias. Parecia que o humor dos ciganos mudara. A maioria adorava o sol, as flores, o vero. O inverno era-lhes penoso sacrifcio 
que tinham aprendido a suportar com coragem, mas que lhes roubava a alegria de viver. O vinho era usado com insistncia e muitos tornavam-se belicosos e irascveis. 
Brigavam com as mulheres e disputavam com os amigos por questes insignificantes.
     Os velhos viviam medrosos porque a cada inverno sempre os mais enfraquecidos morriam. Sergei precisava manter a vigilncia a fim de conseguir preservar a paz 
e a sade de todos. Com dificuldades e sacrifcio, carroas quebradas e consertadas com pacincia, chegaram a Toledo, onde se instalaram, perto da cidade.
     Puseram as carroas em crculo, para protegerem-se do vento frio, e no centro armaram algumas barracas.
     No dia seguinte os homens foram  cidade para adquirir o material que precisavam para trabalhar, porquanto em Toledo, embora extrassem a matria-prima e a 
ligassem preparando-a para uso, no se dedicavam a labor artesanal. E os trabalhos originais e pacientes dos ciganos eram muito bem recebidos pelos nobres e viajantes 
da cidade. Havia, nas montanhas, vrias forjas onde se podia negociar o cobre, o estanho e o lato.
     Tinham j os conhecidos dos quais obtinham a matria-prima pagando ou negociando seus arreios e objetos artesanais, inclusive de metal. Os comerciantes dedicavam-se 
mais  ferrao dos animais do que aos objetos de adorno ou utilidades domsticas.
     Carregando sacos com os pedaos de metal, os ciganos, de volta ao acampamento, montavam um trip na frente da barraca e sobre ele o fogareiro, o malho, a bigorna, 
todos os seus instrumentos de trabalho.
     Enquanto as mulheres cuidavam de conseguir comida, lendo a "buena dicha" pelas vizinhanas, eles comeavam a trabalhar. Eram tempos duros e difceis. As ciganas 
faziam verdadeiros milagres conseguindo guloseimas nos castelos da redondeza, predizendo o futuro, vendendo amuletos e ervas para as doenas, e o que era mais importante: 
filtros do amor, de vrias graduaes e para todos os casos.
     Havia-os para ser atraente, para conquistar um jovem da nobreza ou velho fidalgo. Para manter a beleza e a mocidade, para o fidalgo conquistar o poder, o dinheiro, 
a mulher do outro ou a jovem amada. Para manter a sade, contra a impotncia e at ervas abortivas. Nada faltava nos bolsos ocultos e na roda das saias das ciganas.
     O povo as temia no s pelos roubos e embustes que praticavam, mas principalmente pelas maldies que lanavam sem d nem piedade sobre quem se furtasse a atend-las 
ou dar-lhes algo.
     Assim, fascinando alguns, atemorizando outros, agradando a muitos, pelas predies felizes e sugestes para o futuro, conseguiam arrecadar de tudo. Roupas, 
adereos, guloseimas, frutas, jias, tudo servia, tudo levavam. Chegavam ao acampamento e com Sergei dividiam o produto do dia. Podiam ficar com o que gostassem 
de enfeites ou roupas, mas tinham que dividir igualmente a comida.
     As pessoas velhas e as crianas tinham que ser vestidas por elas. As que tinham famlia cuidavam dos seus; as que no, davam uma parte para as outras. Estavam 
to habituados a este sistema que raramente discutiam pela posse das coisas. Tudo era de todos, mas se houvesse alguma dvida, Sergei decidia, e como era o chefe, 
justo e estimado, a disputa cessava a.
     Esmeralda saa com as mulheres, o que irritava Carlos. No gostava de v-la esmolando nas cozinhas dos palcios ou ludibriando os outros. Sabia o desprezo que 
os fidalgos nutriam em relao aos ciganos e no desejava exp-la a esse vexame.
     Havia tambm o receio de que alguns se interessassem por ela, to linda e insinuante. Sabia com que facilidade os homens vencem os preconceitos quando se trata 
do amor de uma bela mulher. Socialmente consideravam os ciganos seres desprezveis, mas no hesitavam em conquistar suas mulheres para satisfao de suas paixes 
e de seus vcios pessoais.
     Carlos estava irritado e nervoso. Se durante aqueles tempos se sentira pouco aceito pelos ciganos, isso no o afetara muito porquanto tudo era alegria, sol, 
luz, msica e festa. A natureza perfumada, alegre e o acampamento era um agrupamento fascinante, festivo, onde os sons das guitarras e o crepitar do fogo se misturavam 
ao luar safirneo e  brisa perfumada. Tudo era beleza, cor, dana, luz, perfume, amor.
     Agora, o que restava? Frio, cu cinzento, rostos vermelhos pelo vinho, crestados pelo vento e pelo calor do fogo. Irritados e praguejantes, meio bbados e mal-humorados. 
As mulheres ausentes o dia inteiro, como mendigas de porta em porta, suportando os maus tratos e distribuindo mentiras, iluses, por entre maldies e desregramento. 
Carlos estava deslocado e s.  noite, tinha o aconchego do corpo cheiroso de Esmeralda, mas ele queria mais, queria viver, sair daquela misria, daquela sujeira 
e daquele mundo.
     Dia a dia, tornava-se mais triste e irritadio. Esmeralda vibrava de dio, percebendo a modificao de Carlos. As discusses se repetiam, tornando a situao 
insustentvel. At que, um dia, Carlos explodiu. Tinha bebido e estava muito nervoso. Esmeralda se demorara na cidade e ele vira exasperado as outras regressarem 
sem que a cigana voltasse.
     A noite j tinha cado quando ela chegou. Carlos olhou-a com raiva:
      Esmeralda, isto tem que acabar. No podes fazer o que queres. No vais mais sair por a feito mendiga. No vou permitir.
     A cigana enrubesceu de raiva. No entendia Carlos. Qualquer homem do bando estaria grato por seu esforo em conseguir o mximo, mas ele no, criticava-a e, 
o que era pior, queria mandar nela.
     Uma onda de rancor inundou o corao de Esmeralda.
      Como te atreves a falar assim comigo? Esmeralda  livre. No tem dono, a nica coisa que prende  o amor.
      Ora deixa de fita. Queres andar por a, ver outros homens, enquanto eu fico aqui, nesta pocilga infecta, ouvindo o praguejar dos teus e o malho na bigorna. 
No agento mais. Ou deixas essa vida de mendiga ou eu vou-me embora.
     De rubra, Esmeralda empalideceu. Seu orgulho estava ferido, mas apesar disso ainda considerou:
      Ento  isso. Cedo cansaste de nosso amor e queres partir. Pois escolhe agora, j: ou ficas para sempre, ou vais e, ento, nunca mais voltes a procurar-me. 
Eu te amo, mas isso no importa. No quero que fiques contrariado. No vou mudar minha vida. Eu sou cigana. Se me amas, fica comigo, mas se no, parte e que seja 
para sempre.
     Havia tal expresso no olhar da cigana que Carlos teve medo. Abrandou e tentou conciliar as coisas.
      Esmeralda! Eu te amo. Sabes que s tudo para mim. Di ver-te sair por a, do jeito que vais.
      Sabes que tenho deveres com os de minha raa. Se eu no sasse, no terias como comer. s um ingrato. Tudo quanto fao  por ti, para teu bem. Mas se no 
ests feliz, vai-te. Ultimamente andas triste e inquieto. No dormes tranqilo. Tens emagrecido e perdido a cor.  hora de saber o que tens. Fala, Esmeralda quer 
saber.
      Est bem  tornou Carlos conciliador , tenho saudades dos meus.
      Agora j no te sou suficiente. J no me amas mais.
      No se trata disso, Esmeralda. Eu te amo como sempre. Mas minha me sempre foi muito boa e me quer muito. Deve estar sofrendo sem saber de mim, estar pensando 
que eu morri, ou que estou doente em alguma parte. Deve estar desesperada. Tenho sonhado com ela e seu rosto apreensivo no me sai do pensamento.
      No acredito. Antes meu amor era o bastante. Agora j no basta. Disseste que ficarias comigo para sempre, agora j queres ir embora.
      Olha, Esmeralda. Tenho pensado muito. Acho que vou viajar. Vou at a casa de meu pai. Quero ver minha me, dizer que estou bem. Apanhar alguns haveres e voltar 
para c. At l o inverno j ter ido e poderemos viajar novamente pelos campos em flor. Cantar e danar como nos primeiros tempos.
     A cigana o olhou com tristeza.
      No me enganes, Carlos. Se voltas para os teus, no mais nos veremos. Sei que no conforto da casa de teu pai, Esmeralda ser esquecida.
      Nunca te esquecerei. s minha vida!
      No te acredito. Queres Esmeralda com paixo, mas o amor exige muito mais, e no queres pagar o preo. Se fores embora, nunca mais nos veremos!
      Enganas-te. Vou viajar, mas voltarei breve. No suporto ficar longe de ti por muito tempo. Estou com remorsos por causa de minha me. Acalmo seu corao e 
volto para teus braos. Trarei para ti as jias mais lindas e os vestidos mais ricos. Compreende meu corao, eu te peo!
     A cigana abanou a cabea, desalentada.
      No me amas. No tanto quanto eu te amo. No te reparto com nenhuma mulher, mesmo que seja tua me. Ou ficas para sempre, ou nunca mais quero ver-te.
     Carlos tentou demov-la dessas idias sem conseguir. Esmeralda no aceitava a idia de sua partida, ainda que fosse por pouco tempo.
     Ele estava sendo sincero. As saudades do lar, da me e de seu ambiente lhe amarguravam as horas e ele sentia desejo incontrolvel de ir at l. No pretendia 
abandonar a cigana. Amava-a muito. Tencionava voltar na primavera. Confiava que a viagem lhe fizesse espairecer e iria reforar os laos de amor entre ambos. Pretendia 
trazer dinheiro para no depender dos ciganos. Pouparia Esmeralda impedindo-a de exercer essas detestveis atividades que eles chamavam de trabalho. Voltaria o mais 
breve possvel.
     Em vo tentou convencer a cigana de seus bons propsitos. Ela se recusava a aceitar. Entretanto, a cada momento mais e mais essa idia tomava conta de Carlos.
     Uma noite procurou Miro e,  luz do fogo, exps a ele seus desejos.
      Tenho notado que no estais felizes. Miro no gosta disso. Esmeralda triste. Agora sei por qu. Desejas ir embora.
      Quero viajar. Voltarei logo. Preciso ver minha me.
     O cigano olhou-o nos olhos procurando examinar o que lhe ia na alma.
      s sincero. Pretendes voltar. Mas l, longe de Esmeralda e no conforto dos teus, pensars assim?
      Claro, Miro. No tenho dvida. Amo Esmeralda e no posso ficar longe dela. Vers que voltarei breve.
      Esmeralda vai sofrer. Sabes que no permitirei isso. Carlos sorriu confiante:
      Sossega teu corao. Eu seria muito infeliz sem ela. Voltarei na primavera. Eu juro. Quero que me ajudes a convenc-la de que digo a verdade. s meu amigo. 
Sabes que a amo. Vais ajudar-me?
     Miro estava srio:
      Sei que irs de qualquer forma. Sinto que ests determinado. Nada te far mudar. Sei que amas Esmeralda, mas sei tambm que a voz do sangue e da raa  muito 
forte. Porm lembra-te de uma coisa: estou esperando-te. Se no voltares e Esmeralda sofrer, hei de procurar-te at os confins da Terra e juro que te farei pagar. 
J tinha te avisado. Se Esmeralda sofrer por tua causa, por teu abandono, passe o tempo que passar, haja o que houver, ajustaremos contas.
     Os olhos do cigano expeliam chispas, seus lbios comprimiam-se com fora, dando nfase a cada palavra. Carlos no se furtou a um arrepio de medo. Depois sorriu 
confiante:
      No temo tua ameaa. A felicidade de Esmeralda  a minha. Voltarei para ela, para sempre. Enquanto eu estiver fora, no a deixes ficar triste, dize-lhe que 
eu jurei voltar e que me espere.  Hesitou um pouco e concluiu:  E, por favor, no a deixes sair com outros homens. No suportaria uma traio.
     Miro o olhou admirado:
      s ingnuo, rapaz. Esmeralda  muito bela. Se a abandonas, no sei o que far. Sabes que  livre e no aceita ordens de ningum.  altiva e orgulhosa. Se 
me ouvisse, no se teria envolvido contigo.
      No me aprecias?  reclamou ele agastado.
      No  por isso. Sabes quais meus motivos. Sou teu amigo, mas no s um dos nossos. Teus apelos so outros. No fars Esmeralda feliz. Ainda agora vais deix-la. 
Faz-la sofrer.
      Sabes que ser apenas uma viagem. Voltarei cheio de presentes e amor para ela. Vers como seremos felizes!
     Miro olhou-o srio.
      Assim espero para teu bem. Se no cumprires o prometido, e ela no sofrer e deixar de te amar, poders viver em paz; mas se ela for infeliz, podes esperar 
por minha vingana. Eu juro.
     Carlos no se preocupou. Tratou de procurar Incio e combinar a viagem. Estava eufrico. Ver sua me, sua casa, seus amigos. Levaria dois cavalos emprestados 
e alguns vveres. Quando voltasse, pagaria regiamente o emprstimo.
     Naquela noite amou Esmeralda como nunca. Entre um beijo e outro, jurou amor para sempre, mas no mencionou a viagem que tencionava empreender no dia imediato. 
Queria evitar discusses inteis.
     Carlos levantou-se cedo e procurou Sergei para despedir-se. Recebido com ateno, exps ao cigano seu desejo de afastar-se por algumas semanas, levando dois 
animais e alguns vveres que devolveria em dobro no regresso.
     O cigano ouviu-o em silncio e respondeu calmo:
      Foi bom teres-me informado. Esmeralda no vai gostar. Seria melhor que contasses a ela.
      J tentei, mas ela no quer concordar. Acha que vou abandon-la. Mas no  verdade. Voltarei logo. Dize isso a ela em meu nome. Preciso dar notcias a minha 
me, que sofre sem saber onde estou. Apanhar minhas roupas, meus haveres. Voltarei muito breve. Ento, Esmeralda ver que no a enganei. Mas preciso ir. Sergei abanou 
a cabea:
      No obrigamos ningum a ficar aqui, s livre para fazeres o que quiseres. Mas lembra que os desejos de Esmeralda sero respeitados. Ela tem seus direitos; 
e ns, nossas leis. Se quando regressares ela no te quiser mais, no poders ficar aqui. Depender dela, s dela.
      Eu sei. Agradeo tua tolerncia permitindo que eu viva aqui com ela e teu povo. Podes crer que te respeito e admiro muito. S quero que digas a Esmeralda 
que a amo e que voltarei na primavera.
     O dia ia em meio quando Carlos, aproveitando a ausncia de Esmeralda, acompanhado de seu criado, montados em dois cavalos a cuja sela amarraram um saco com 
algumas provises, deixaram o acampamento.
     Carlos seguia despreocupado e contente, pensando no rosto amoroso da me, a quem no via a hora de abraar. Estivera ausente de ante seis meses e certamente 
estariam apreensivos quanto a seu destino.
     Realizaram a viagem sem incidentes e no dia imediato chegaram a Valena. Divisando o castelo de seu pai, Carlos no pde furtar  emoo. Nunca lhe pareceu 
to belo e suntuoso.
     O guarda que se aproximara da entrada quando os viu chegar, reconhecendo-os, soltou uma exclamao alegre:
      D. Carlos! Bendita seja a Virgem! Estais de volta!
     Carlos sorriu contente. Sim. Estava de volta e se sentia em casa. No ptio, foi um alvoroo. Os serviais reconhecendo-o davam-lhe as boas-vindas. Carlos sempre 
fora estimado pelos servos de sua casa, por sua simplicidade e tambm por sua bondade. A todos tratava com brandura, e muitas vezes durante sua infncia e adolescncia 
permanecera entre eles conversando, brincando com seus filhos, despreocupadamente.
     Embora advertido pelo pai, Carlos continuava a tratar a todos com certo carinho e por isso era estimado e querido. Seu belo rosto travesso, sua galanteria, 
suas conquistas, eram comentadas com orgulho por todos quanto o viram crescer. Sua chegada consistiu-se em um acontecimento vibrante e feliz.
     Ouvindo o alarido, D. Encarnao aproximou-se e vendo Carlos abraou-o com arroubo.
      Filho meu, finalmente! Carlos apertou-a com fora:
      Me! Que saudade! Estou de volta. No suportava mais ficar longe de ti.
     Passados os primeiros arroubos, ainda abraados foram sentar-se no salo. O pai estava percorrendo a plantao, mas a me estava ansiosa por saber o que acontecera.
      Um ms depois que partiste, ns recebemos um portador da parte de D. Hernandez repetindo o convite que nos fizera e insistindo por tua presena nas festividades 
que j se estavam processando. Ficamos preocupados. Desde ento debalde mandamos nossos emissrios a tua procura e no conseguiram saber de nada. Teu pai temia pelo 
pior, mas eu pressentia que voltarias. Sabia que ainda te teria em meus braos, como agora. Conta-me tudo. O que aconteceu?
     Naquele instante, observando o rosto emotivo de sua me se transtornando, olhos angustiados, suas mos trmulas, sentiu-se egosta e mau. Pensara s em si, 
sem se importar com os sentimentos de sua querida me.
      Quando sa daqui, pretendia ir  casa de lvaro, para irmos juntos  casa de D. Hernandez, mas fomos assaltados na estrada por alguns bandidos que nos roubaram 
tudo, deixando-nos meio mortos no cho.
      Valha-me Deus!
      E Deus valeu-me mesmo. Fomos recolhidos por um bando de ciganos que, apiedados de nossa infelicidade, trataram de minhas feridas.
     Virgem Santssima! Ciganos! Que perigo! No tiveste medo deles?
      Eu estava desacordado. Eles me trataram com muito cuidado. Cuidaram de mim com muito amor. Estava muito doente e fraco. Tinha perdido muito sangue. Demorei 
muito a recuperar a sade.
      Durante todo este tempo ficaste com eles?
      Sim. Foram muito bons para mim.
      Eu no confio. Vai ver que esperam explorar-te mais tarde. Cigano  raa maldita!
     Carlos se entristeceu:
      No fales assim, me. Salvaram-me a vida. Nem sabiam quem eu era. Encontraram-me atirado na estrada, ferido e despojado de todos os meus haveres. Jamais lhes 
paguei pelo benefcio que prestaram.
     D. Encarnao ficou muito aflita:
      Filho, promete-me que te afastars deles! Que nunca mais irs v-los! Por Deus!...
     Carlos admirou-se.
      E esta agora! Por qu?
      So perigosos. Terrveis! Por favor, dize-me que no mais os vers. Vendo o rosto crispado de sua me, sentindo o tremor de suas mos em seu brao apertando-o 
nervosamente, Carlos sentiu penosa impresso.
      Acalma-te. Vem. Senta-te aqui comigo. Quero dizer-te que no posso ser ingrato. A roupa que me cobre, os cavalos que me trouxeram, os alimentos que me sustentam 
foram dados por eles. Ests enganada. So gente como ns. Lutam, sofrem, amam, se defendem.
     D. Encarnao no se acalmava. Sentada ao lado do filho, estava trmula e angustiada. Ele continuou:
      H lendas sobre eles, fantasias, histrias. Tudo falso.
      No penso assim. So poderosos e terrveis. Tm parte com o demnio. Pobre filho. Vejo que ests fascinado por eles! Preciso pedir a Deus que te liberte.
     Carlos sentiu-se triste. Esperava encontrar na me a confidente, a aliada que o ajudaria a transformar Esmeralda na mulher que ele desejaria. Em seus sonhos, 
ele tinha imaginado transform-la em dama misteriosa, to ao gosto da poca, casando-se com ela, sem apresent-la na corte a pretexto de cime. Pretendia que a cigana 
pudesse manter com ele uma vida dupla. No vero, ambos seriam ciganos, viajando com o bando, participando das festas e das alegrias, e no inverno iriam viver em 
um castelo, que ele faria construir, ou, quem sabe, no castelo dos pais.
     Sabia que D. Fernando era rigoroso, certamente nunca aceitaria seu casamento, mas talvez pudesse engan-lo de alguma forma. Agora, a me com sua superstio 
parecia derrubar seus projetos de um s golpe.
      verdade que nunca falara a Esmeralda sobre esse assunto. Mas era justo que se ele participasse da vida dela, com os seus, ela tambm pelo menos alguns meses 
por ano deveria participar da dele.
     Depois, o inverno no acampamento era-lhe insuportvel. Por que no viverem em um castelo durante esse tempo?
     Se Esmeralda alegasse a necessidade de "trabalhar" para arranjar os viveres para os seus, ele poderia mandar-lhe uma quantidade de vveres que cobriria de muito 
a irrisria parcela que Esmeralda arrecadava. Afinal, ele era rico. Devia sua vida quela gente. Nada mais justo que retribusse sustentando-os durante a rudeza 
do inverno. Mas a atitude da me, inesperada, o colocava de chofre ao contato com a realidade, bem diferente daquilo que imaginara. Resolveu contemporizar:
      Bem, me, tem calma. Depois falaremos a esse respeito. Mas ela parecia frentica. Carlos nunca a vira to aflita.
      Meu filho, promete que nunca-mais irs ter com eles!
      A que vem isso agora?
      Vamos, promete. Ele desconversou:
      Sabes que no desejo causar-te problemas. Mas deixemos esse assunto sem importncia. Conta-me como vo as coisas por aqui! Estive tanto tempo fora, estou 
ansioso!
     Procurando conter-se, ela comeou a falar dos problemas da casa, dos familiares, e Carlos escutava procurando demonstrar um interesse que no sentia. Seu corao 
estava oprimido. Teria feito bem em regressar?
     Procurou dissipar esses pensamentos desagradveis. Mas,  noite, remexendo-se no leito, teve muita dificuldade em conciliar o sono. O rosto aflito da me sobrepunha-se 
 fisionomia crispada de Esmeralda, onde o dio e a revolta estampavam-se. Pareceu-lhe at, a certa altura, ouvir a voz da cigana dizendo rancorosa:
      Se no voltares, eu me vingarei!
     O dia j despontava quando Carlos, cansado e deprimido, adormeceu.

Captulo V
     
     Era j dia alto quando Carlos foi despertado pela voz de Incio.
      D. Carlos, acordai. J se faz tarde e D. Fernando vos chama. Mal-humorado, Carlos resmungou:
      Para qu? Falamo-nos ontem, j esmiucei tudo quanto ele quis saber. Agora deixa-me em paz.
      Sabeis que ele manda e exige. Foi categrico. Est esperando-vos em seu gabinete. Depois, o sol j est quase a pr-se.
      Est bem. Est bem. Dize-lhe que j vou.
      Deixai-me ajudar-vos.
     Carlos no teve remdio seno levantar-se. Seu pai o esperava com a austera fisionomia mais sria do que de costume.
      Deus vos salve, meu pai.
      Amm. E a ti que te bendiga. Agora senta-te. Precisamos conversar.  Vendo-o acomodado, continuou:  s j homem feito. Essa viagem desastrosa, acredito que 
te tenha amadurecido o bastante para que possas pensar com mais seriedade em tuas responsabilidades como nico herdeiro de nossa casa e de nosso nome de famlia. 
Sabes que o marido de minha irm Leonor, homem sem carter, dissoluto e irresponsvel, deseja a todo custo aambarcar nossos bens. Sei at que, tendo dissipado a 
parte de dote de Leonor, pretende pr as mos em nossos haveres e j organiza um contingente de homens armados com os quais pretende tomar este castelo pela fora. 
Meus informantes descobriram que ele conta com elementos dentro de nossa casa e no vai titubear em me destruir. Por isso, tenho um servo que prova nossa comida, 
que pode estar envenenada.
     Carlos ouvia assustado. Uma sensao desagradvel o envolveu.
      Que audcia de D. Fabrcio! Indignado ouvia o pai esclarecendo:
      Tenho procurado defender nossa casa. Temos homens bem armados e treinados em vigilncia constante, mas, se algo me acontecer, quero que estejas ao par de 
tudo para que te defendas e defendas os nossos desse patife. s meu nico filho. Meu herdeiro. Quero que assumas j a posio que te compete. De amanh em diante, 
sairs comigo para aprender tudo e estares preparado, se me acontecer algo, para enfrentar essa luta. At agora te recusaste a assumir tua posio. Eras um menino 
e eu queria que amadurecesses. Mas no posso mais esperar. Por isso, agora mesmo, vou depositar em tuas mos nossos haveres e conhecers nossos negcios. Carlos 
estava emocionado. Pela primeira vez o pai o tratava como um adulto. Sua confiana o honrava e ele de repente comeou a amar seu castelo, sua gente, seu nome, a 
dignidade de sua famlia honrada e laboriosa. Foi em tom solene e sincero que respondeu:
      Sou grato por vossa confiana. Farei o possvel para corresponder. Pela fisionomia de D. Fernando passou um rasgo de emoo que ele tratou de controlar para 
no parecer fraco.
      Espero que seja assim. Lembra-te que o dever exige, s vezes, muito de ns, mas a honra deve vir em primeiro lugar. Antes morrer com honra do que viver desonrado! 
Esse  o lema de nossos antepassados.
     Carlos no se deteve para pensar. Estava empolgado. Respondeu com entusiasmo:
      Podeis contar comigo.
      Receei que no mais voltasses. Temi por tua vida. Julguei terem cado por terra meus planos mais caros. Se tivesses morrido, no seria difcil a Fabrcio 
tramar nossa destruio e morte, porm, contigo aqui, jovem e forte, ele no nos poder destruir. Amanh D. Gervsio rezar uma missa em nossa capela s seis horas. 
E em ao de graas por tua volta. No podes faltar.
     Carlos procurou encobrir a contrariedade. Que maada! Logo s seis horas no inverno!
      Certamente, meu pai! No queria contrariar-vos.
     Pela primeira vez se aproximava dele, e essa atitude o lisonjeava muito. Talvez fosse melhor no irrit-lo. Assumindo os negcios de sua casa, poderia usufruir 
de maior liberdade e formular planos para seu futuro, com Esmeralda, naturalmente.
     Carlos no cogitava sequer em separar-se da cigana, cujo amor continuava a aquecer-lhe o corao.
     Nesse instante, o criado anunciou a presena de D. Gervsio. Carlos fez meno de retirar-se, mas o pai objetou:
       preciso que fiques. Se vais conhecer os negcios, no te podes afastar.
     Procurando dominar a contrariedade, Carlos permaneceu na sala, levantando-se quando a figura do jesuta apareceu no limiar.
     Era um homem alto, forte, quarenta anos presumveis, sorriso amvel nos lbios, olhos penetrantes e geis. Carlos o vira algumas vezes circulando pelos sales 
de seu castelo, mas sempre se esquivara de sua proximidade.
      Louvado seja Deus  tornou o padre.
      Para sempre seja louvado. A vossa bno, senhor cura. D. Fernando tomou a mo do padre e a levou aos lbios.
      Deus vos abenoe, meu filho.
     Carlos estava profundamente irritado. Repugnava-o a proximidade daquele homem, cujo sorriso um tanto formal o incomodava, mas sentindo o olhar imperativo do 
pai aproximou-se por sua vez tomando com repugnncia a mo do padre:
      A bno, senhor.
      Deus vos abenoe, meu filho.
     Quando ele fosse o chefe da famlia, aquele homem no pisaria em sua casa, pensou ele. No gostava de seu ar maneiroso, nem de seu sorriso que parecia falso. 
Porm, no momento, precisava contemporizar com o pai.
      Estai a gosto, D. Gervsio. Deixai-me servir-vos de um excelente vinho que reservei para esta ocasio to especial.
     A fisionomia do padre distendeu-se enquanto se acomodava na poltrona. Enquanto saboreava o delicioso vinho com agrado, D. Fernando foi dizendo:
      Foi muita bondade de Vossa Reverendssima ter vindo pessoalmente para este ofcio. Desejo dizer-vos que a volta de meu filho tem para mim um sentido especial. 
No s a alegria de um pai, mas a prpria segurana de nossa casa.
      Sabeis, D. Fernando, que os interesses de vossa famlia so nossos tambm. Ficamos felizes com a presena de vosso filho.
      Sabeis  continuou D. Fernando  o quanto preciso de um brao forte que cuide dos interesses de minha casa. Tendes acompanhado nossos problemas e at nos 
oferecido vossa ajuda prestimosa. Agora, preciso de vosso apoio para o que pretendo fazer.
     Carlos sentiu nuseas. No confiava naquele homem. Por que seu pai, sempre to seguro de si, precisava dele? O padre sorriu, baixando o olhar.
      Podeis contar com meus humildes prstimos.
      Vou dividir com Carlos a tarefa de dirigir nossos bens. Ele  jovem e se algo me acontecer precisa estar preparado.
     O padre suspirou triste:
      Tendes razo. Tenho tentado convencer D. Fabrcio a desistir de sua ambio, mas at agora tem sido intil. Est arruinado e pensa como nica soluo aambarcar 
vossa fortuna. Estava certo da morte de D. Carlos. To certo que at fiquei desconfiado.
      Carlos foi vtima de salteadores na estrada. Acha que ele poderia...
      Deus nos livre de julgar o prximo  fez ele compungido.  Mas que ele est disposto a tudo, l isso est.
     Carlos interveio:
      No creio que ele tivesse algo com isso. Fui assaltado por ladres na estrada. H muitos deles por a nos dias de hoje.
      No nego, meu filho, mas por acaso viste esses homens?  tornou o padre insinuante.
      No. Estava escuro e fui atacado de surpresa com golpes na cabea. No lhes vi a fisionomia.
      Neste caso, torna-se difcil saber...  continuou ele reticencioso.
      Patife  fez D. Fernando, irritado.  Pode bem ter sido ele. Vede, D. Gervsio, como tenho razo. Do-me ganas de ir atac-lo com meus homens em seu reduto, 
antes que ele traioeiramente nos mate.
      Deus est de vosso lado, D. Fernando. Vossa luta ser abenoada.  justo defenderes vossa casa.
     Carlos preocupou-se. Seu pai sempre fora justo e no gostava de disputas nem de desavenas. Sempre primara pela austeridade, pela justia e nunca sara de sua 
casa para atacar ningum. Sempre fora muito respeitado pela lisura e honradez com que se atinha em seus negcios e pendncias, de tal sorte que era chamado por vezes 
como mediador de disputas dos fidalgos e at de seus servos.
     Carlos admirava-se ao perceber a paixo e o olhar de dio que lhe surpreendera. Teria ele se modificado ou s agora se revelava?
     O moo sentiu-se inquieto:
      Talvez nos estejamos precipitando  tornou conciliador.  Afinal  s uma suposio. Ningum sabia de minha viagem, que foi um tanto imprevista. Como ele 
poderia ter planejado isso?
      Quanto a isso, no lhe seria difcil. Sei de boa fonte que ele possui vrios espies por toda parte.
      ... tendes razo. Morto Carlos, ele teria mais facilidade em me destruir. Acho que precisamos resolver este assunto o quanto antes. Tomar a iniciativa antes 
que ele nos mate pelas costas.
        tornou o padre.  Bem pensado. Vou rezar para que a soluo aparea.
     Carlos olhou-o com revolta procurando dissimular seu mal-estar. Sentiu a animosidade do padre para com seu tio Fabrcio. Por qu?
     Algum interesse ele tem, pensou Carlos preocupado, e o pior  que seu pai parecia muito influenciado por ele. Haveria de investigar e descobrir. J que seu 
pai o convocara para participar da direo dos negcios, estava disposto a dar o melhor de si em favor da famlia.
     Durante o jantar, conversaram sobre vrios assuntos e Carlos cada vez sentia mais antipatia pelo padre. Sua me pouco falou, mas quando a ss com ela, Carlos 
perguntou sobre D. Gervsio. Ela esclareceu:
      Conheo-o muito pouco. Faz menos de dois anos que ele veio aqui trazer seus ofcios. Seu pai o trata com deferncia. Parece que ele  muito importante na 
ordem dos jesutas.  muito considerado e todos acatam suas decises. H at quem diga que ele est para ser designado Prior, e embora ainda no o seja, j  considerado 
e havido como tal.
      E tu, o que pensas dele? O que aprecias?
      Se teu pai o aprecia, eu acho que  homem justo.
     Carlos no se deu por satisfeito. Pobre me, sem opinio ou vontade. Lembrou-se de Esmeralda. Que mulher! Certamente com um olhar teria percebido a tibieza 
daquele homem.
     A convivncia com ela e com os seus desenvolvera muito seu senso de observao e o tornara arguto. Em outros tempos talvez a figura do padre no lhe chamasse 
a ateno, mas agora, depois da vivncia no acampamento, no se pudera furtar a isso. Com habilidade, Carlos tornou:
      Me, que achas de D. Fabrcio?
      Como sabes, ele no freqenta nossa casa. Mesmo Leonor, depois de casada, raramente veio por aqui. Teu pai nunca aprovou esse casamento e demonstrou desgosto 
de tal forma que eles agastados se afastaram, pouco depois do casamento.
      Que te parece ele?
     D. Encarnao olhou-o admirada:
      Por que te interessas em saber? Ele a abraou com carinho:
      Porque D. Fernando quer que eu o ajude na direo da famlia e conhea tudo. So nossos parentes, quero conhec-los.
      Sabes que teu pai no fala comigo sobre os negcios. Nem nunca me contou o porqu de sua antipatia com D. Fabrcio.
      Me  objetou Carlos com seriedade , no perguntei o que D. Fernando acha, mas o que tu achas. No o conheces?
      Sim. Mas como sabes nunca vivemos na corte. Ao que sei, D. Fabrcio sempre foi homem galante com as damas, mas muito conhecido pelas festas que dava, onde 
havia sempre muito vinho e muito desperdcio.
     Me iludo a beber e contam-se suas aventuras com mulheres, mesmo depois de casado.
     D. Encarnao estava um pouco corada de emitir sua opinio e principalmente sobre esse assunto. Fingindo ignorar a timidez da me, Carlos riu com gosto.
      Sabes de alguma aventura dele?
      Conta-se que certa vez subiu ao balco de uma jovem dama cujo marido batalhava em defesa do rei, e sabendo que o guerreiro regressaria naquela noite, colocou-a 
em seu cavalo e a levou para seu prprio castelo. Quando chegou o marido trado, encontrou em sua cama dois homens disfarados que o mataram.
     Carlos ficou srio:
      Acreditas nisso?                                    
     Ela deu de ombros.
      Pode ser. Os criados falam muito. Mas ele de fato foi achado morto na prpria cama no dia de seu regresso e sua linda mulher nunca mais foi encontrada.
      Ele era querido das damas?
      No sei. No o achava um belo homem, mas era violento e tambm quando queria uma mulher comprava-a com jias e dinheiro.
      Muito esperto tio Fabrcio!
      Acho que, por causa dessa fama, teu pai no o queria na famlia. Antes do casamento, por pouco no duelaram. Quase nos mataram de medo. Foi um ms depois 
de nosso casamento. Teu av era vivo ainda. Acho que morreu de desgosto.
      Ele consentiu no casamento?
      A princpio no queria, mas os padres vieram e tudo fizeram para isso. Depois, o dote que ele oferecia em jias a esta casa, os presentes, as gentilezas que 
fazia convenceram o velho D. Augusto, que aos poucos chegou at apreciar Fabrcio. Jogavam partidas de xadrez e conversavam muito, pareciam amigos. Quando casei 
com D. Fernando e vim para c, j encontrei as coisas assim. Leonor no parecia apreciar muito a D. Fabrcio, mas, quando o pai decidiu, teve que aceitar. Algumas 
vezes a vi chorando. Pediu a D. Fernando que no deixasse o casamento realizar-se e ele tentou impedir. Uma noite, no salo, ouvi o rudo de uma discusso muito 
acalorada entre ele e o pai. Quando chegou D. Fabrcio, Fernando quis desfazer o compromisso da irm, mas Fabrcio no aceitou e discutiram. No fosse Leonor intervir, 
o duelo teria sado.
     Afinal, casaram. S vieram a esta casa quando D. Augusto ficou doente, e em sua morte. Depois, nunca mais. Carlos ficou pensativo.
      Ser que tia Leonor foi feliz? D. Encarnao sorriu resignada:
      Felicidade  coisa que no existe.  iluso. Afinal, esto juntos at hoje.
     Carlos olhou a me, to bonita, to triste. Teria amado um dia? Nesse ponto as ciganas eram mais felizes. Escolhiam o homem que queriam e embora suas leis fossem 
severas para os casos de infidelidade conjugal e rigorosamente observadas, gozavam de liberdade para fazer o que gostassem, e se no queriam um homem para marido, 
sua deciso era respeitada. Uma vez escolhido, entretanto, deviam-lhe respeito e fidelidade. A traio era punida com o abandono e at com a morte. Se, porm ele 
se revelasse mau companheiro, desrespeitando o lar e maltratando-a, era tambm repreendido severamente pelos chefes e muitas vezes punido com a separao, caso a 
mulher desejasse. Carlos achava isso justo. Era cruel impor-se aos sentimentos de uma mulher como dono absoluto sem que ela o escolhesse, amasse ou mesmo aceitasse.
     Ele pretendia unir-se pelo casamento quando aceito pelo corao de sua companheira.
      Me, tu amavas D. Fernando ao casar? D. Encarnao surpreendeu-se:
      Que pergunta, Carlos. Teu pai  um homem bom e honesto. Fidalgo respeitado e temido. Casar com ele foi uma honra a que muitas damas aspirariam.
      Mas tu o amavas? Ela sorriu:
      Ests hoje muito curioso. Sempre o admirei e o estimo muito. Jamais o contrariei nas menores coisas. Tenho procurado ser boa esposa.
      No respondeste minha pergunta.
      No gosto de falar sobre essas coisas  tornou ela embaraada.  Mudemos de assunto. J que vais assumir os negcios,  bom conheceres os problemas e as necessidades 
de nossa casa, que so muitos. Nossos servidores esto velhos e cansados. Acho que no agentam o trabalho duro. Pensava falar a D. Fernando, mas receava intervir 
indevidamente. Contigo  diferente.
     Carlos abraou-a com carinho:
      Teus desejos so ordens que sempre cumprirei. Vou averiguar as coisas, para saber como atender o que desejas. Podes ficar descansada.
     Ela sorriu alegre.
      Foi Deus que te trouxe de volta  suspirou, e Carlos viu uma onda de profunda emoo brilhar em seus olhos castanhos.
     
     
Captulo VI
     
     Naquela manh, Esmeralda acordou cedo. Apesar do frio que fazia, no conseguiu ficar deitada. Sobressaltada, olhou ao redor. Estava s. Onde Carlos teria ido?
     Levantou-se e, agasalhando-se o mais que pde, saiu da carroa. A poucos metros de distncia, Miro tomava sua primeira refeio. Vendo Esmeralda aproximar-se, 
ofereceu-lhe uma caneca de ch.
      Toma que est muito frio.
     A cigana bebeu alguns goles e depois perguntou:
      Viste Carlos?
     Ele serviu-se de po, demorando a responder. Ela renovou a pergunta:
      E Carlos, onde est?
      No sei  respondeu ele.
      No o viste?
      Vi. Ele e seu valete. Estavam a cavalo.
     Esmeralda empalideceu, agarrando o brao do cigano com fora.
      O que sabes? Ele foi embora?
      Acalma-te, Esmeralda. Quem sabe ao certo  Sergei. Hoje ficaram conversando durante muito tempo. Melhor ires a ele.
      O que me ocultas?
      Nada  tornou ele srio.  No sei ao certo, mas acho que foi fazer uma pequena viagem. Prometeu voltar em breve.
     Os olhos da cigana expeliam chispas. Seu rosto estava contrado pela ansiedade. Saiu correndo at a carroa de Sergei. O chefe cigano f-la entrar.
      Senta-te, Esmeralda, precisamos conversar.
      Ele foi embora!  tornou ela com voz que a raiva abafava.
      Foi  tornou o cigano calmo.  Mas antes esteve comigo. Deu-me satisfaes como se eu fosse o chefe dele tambm. Disse que te ama muito. Foi buscar roupas 
e haveres, ver a me. Pretende voltar na primavera. Pediu-me que te falasse porque no querias consentir nessa viagem.
      Ele foi embora, Sergei. No volta mais. Trocou o amor de Esmeralda pela vida na corte.
     Sergei olhou srio o rosto contrado da cigana.
      Esmeralda! Sei o quanto queres a esse homem.  a primeira vez que amas! Avalio tua dor. Mas deves entender que ele no  um dos nossos. Sente-se humilhado 
em ver-te trabalhar para ele. Os fidalgos acham o trabalho desonroso. Muitas vezes eu o vi revoltado quando ias em busca de recursos.
      Ele odiava que eu trabalhasse.
      Precisas compreend-lo, j que o amas. Ele pensa diferente dos nossos. Qualquer cigano ficaria feliz com tua dedicao ao trabalho, ele sente-se aviltado. 
Foi por isso que quis ir buscar seus haveres. No gosta de ser sustentado pelos nossos, condena nossos costumes.
     Esmeralda caiu em pranto.
      Sergei! Que sofrimento! Longe de mim, ele me esquecer. Sergei abraou-a com carinho:
      Se ele te esquecer,  porque no merece teu amor. s o tesouro mais caro de nossa raa. Sempre tiveste os homens a teus ps. Mas Carlos estava sendo sincero. 
Sabes que no sou capaz de enganar-te. Acho que te  ama muito.
       a primeira vez que choro por um homem e te garanto que ser a ltima. Vou arranc-lo de meu corao ainda que para isso tenha que mergulhar no inferno. 
Depois, ele me pagar. Ningum despreza Esmeralda.
      Precipitas-te. Aconselho-te a esperar pela primavera. Ela o trar de volta para sempre!
     Esmeralda permaneceu calada, olhos perdidos na distncia. Sergei continuou:
      Se queres viver para sempre com ele, deves aprender a compreender como pensam os fidalgos. Mesmo que ele viva aqui, tem outros costumes. Seus pais o ensinaram 
de outra forma, e ele, apesar de te querer, ainda no consegue mudar.
      Nos ltimos tempos ele no era mais como antes, parecia infeliz e nervoso. Brigava quando eu ia para a vila trabalhar, o ingrato.
      Vs que tenho razo. Precisas entender o que ele sente. Se queres viver com ele, tens que conhecer suas idias. Ningum muda de repente. Ele, por ser fidalgo, 
at que viveu bem entre ns!
      Sergei  tornou ela com voz triste , acho que meu amor no foi o bastante para ret-lo aqui. A fora do sangue foi mais forte. Nunca mais voltar!
      Apesar de tudo quanto dizes, eu acho que ele te ama e h de voltar. Levou cavalos emprestados e garantiu que os devolver na primavera. Sempre me pareceu 
homem de palavra.
     A fisionomia de Esmeralda estava sombria quando disse:
      Seja. Esperarei at a primavera. Mas se ele no voltar, ento ser melhor nunca mais cruzar meu caminho, porque conhecer toda a fora de meu dio.
     Foi com o corao opresso que Sergei abraou a cigana, tentando confort-la.
     Carlos, entretanto, aps comparecer  missa na capela, sonolento e contrariado, tratou de dissimular seus sentimentos. No queria aborrecer o pai. Terminado 
o ofcio, D. Fernando, aps o desjejum, levou Carlos para percorrer a propriedade.
     Vendo a fisionomia do pai transformada ao fixar os campos, o moinho de trigo, o pomar, Carlos ficou emocionado. D. Fernando parecia outro homem. Sem perder 
seu aprumo e a sobriedade de fidalgo, revelava-se profundo conhecedor dos problemas agropecurios e o quanto era importante para ele aquela propriedade.
     O moo sentiu-se orgulhoso, verificando o quanto eram belas suas terras. Quanta gente vivia nelas, tirando seu sustento e o de suas famlias. O carinho que 
todos tinham por D. Fernando, sempre to enrgico, mas reconhecidamente um homem honesto e justo.
     Interessou-se por tudo aquilo, que tambm lhe pertencia mas que lhe parecia estar vendo pela primeira vez. D. Fernando parara diante de uma pequena estrada, 
ladeada por rvores e que conduzia ao lago.
     Apesar do inverno, a paisagem era de rara beleza, as rvores, crestadas pelo frio, pareciam de prata e o lago tinha reflexos multicoloridos, que se modificavam 
conforme o vento balanava os galhos das rvores.
      V, Carlos: estas rvores foram plantadas por teu av. Cada filho que nascia, plantava uma. Continuei a plantar. No dia em que me casei foi plantada esta 
aqui. A outra ao lado, foi quando nasceste; e aquela ali, foi no dia em que nasceu tua infeliz irm.
     Carlos estava comovido. Jamais soubera detalhes do temperamento paterno. Sua irm nascera antes dele, mas morrera aos dois anos de idade. Olhou sua rvore. 
Sentiu-se tocado de viva alegria.
      Espero que continues nossa tradio. Ao casares, plantaremos outra a teu gosto, e a cada filho mandars plantar mais uma. Dizia meu av que isso d boa sade 
e fora s pessoas. Que todos deveriam ter uma rvore ao nascer, que cuidassem e a ela se ligassem durante toda a vida.
      Mas eu no cuidei da minha, nunca me falaram dela.
      Fiquei contrariado com a morte de Maria e achei tolice essa crena.
      Pode ser. Mas fez-me bem saber que ela existe e nasceu ao mesmo tempo que eu.
      Carlos, a fora da terra  muito forte.  preciso amar o cho que  nosso. Alegra-me saber que te sentes assim. Logo agora que precisamos lutar para conserv-la. 
Fabrcio no conseguir seus intentos.
      Pai, posso indagar algo?
      Fala.
      Por que no gostais de D. Fabrcio? Ou melhor, por que comeastes a desentender-vos? Ele vos ofendeu?
      Fabrcio no presta. Isso  o suficiente.
      J que vou entrar nessa luta, quero saber de tudo. Preciso preparar-me para poder defender nossos interesses.
     Depois de pensar um pouco, D. Fernando concordou:
      Acho justo. Se me acontecer algo, quero que conheas tudo. Voltemos para casa. L conversaremos.
     No calor agradvel do gabinete, onde o fogo crepitava na enorme lareira, Carlos tomou assento e aguardou que seu pai falasse sobre o assunto:
      J ests homem feito. Por isso podemos falar livremente. D. Fabrcio, apesar de pertencer a famlia ilustre, sempre foi desmiolado. Desde muito moo nos jogos 
ou nas disputas sempre se revelava desonesto e leviano. Vivia na taberna, onde pagava vinho e mulheres, para ele e seus amigos, dando inmeros desgostos a seu honrado 
e infeliz pai. Certa vez esteve desaparecido durante muito tempo. Um dia soube por um amigo que ele se tinha juntado a um grupo de saltimbancos e andava gazeteando 
por a, feito cigano, cantando e danando, tocando guitarra. Perdeu-se de amores por uma mulher que lhe gastou tudo quanto levava. Voltou para casa coberto de dvidas. 
O pai pensou logo em bem cas-lo para ver se o acomodava. E escolheu Leonor, moa prendada e bela, muito bem dotada. Fiquei revoltado. Preveni a meu pai do perigo 
de unir nossa famlia  daquele patife. Ele concordou, mas parece que Fabrcio, vendo Leonor, por desgraa interessou-se. Ento, fez o que pde para conseguir casar-se 
com ela. Procurou mudar de vida, para agradar ao pai e a ns. Iniciou amizade com teu av, que, lamento dizer, era muito condescendente. Tentei evitar o desastre. 
Mas o malvado vinha a nossa casa em minha ausncia e envolvia meu pai, a quem conseguiu convencer que era outro homem. Demonstrava retido e carter. Conseguiu conquistar 
a confiana de meu pai. At que pediu a mo de Leonor. Ela no queria, e eu tambm no. Fiz o que pude para evitar, mas no consegui. Hoje vejo como tinha razo. 
Assim que se viu casado, com o dote dela entre as mos, tratou de voltar  vida antiga de devassido. Apesar de gostar muito de Leonor, nada posso fazer. Ela  casada 
com ele. Pertence-lhe de direito. Envolveu-se em vrios escndalos, est arruinado. Agora, quer o que  nosso. No comeo disse estar arrependido, querer nossa amizade. 
Mas a mim no consegue enganar. No  digno de nossa confiana: padre Gervsio sabe tudo, conhece-o bem,  seu confessor e tem-me aconselhado a fugir dele. Tem-me 
prevenido de suas idias vis. Carlos ficou pensativo.
      Pai, conheceis bem D. Gervsio?
       homem poderoso na igreja. Sua proteo nos tem ajudado e tem-se mostrado sempre nosso amigo.
      No vos parece um homem perigoso?
      Perigoso? Porqu?
      A mim me pareceu hipcrita e interesseiro. Se me permitsseis, gostaria de dizer mais...
      Fala.
      Pareceu-me muito interessado em fomentar as intrigas entre nossa casa e D. Fabrcio.
      Exageras teu zelo. D. Gervsio  astuto, um pouco vaidoso e amante do ouro, mas quanto a ser intrigante acho que no. Que interesse teria?
      Isso  o que eu gostaria de saber. Quem no nos garante que em casa de D. Fabrcio no faa o que faz aqui?
      ... Talvez. Um padre deve viver bem com todos, ainda que com homens como Fabrcio. Faz parte de seu ministrio. Se tomar abertamente partido, no ser recebido 
l. Apesar disso, temos interesse em trat-lo bem.
      Por qu?
      Ignoras que todos pagamos dzimos de nossas terras  Igreja?
      No sabia. Sei que eles levam nosso ouro, mas no sei como ou quando.
      Sempre. J vi que s ainda muito ignorante, mas a culpa  minha, que nunca te coloquei ao par dos negcios. Parecias to indiferente.  Vendo-o atento, continuou: 
 A Igreja  dona espiritual do mundo. Logo, todos ns que temos terras e somos donos devemos a ela uma parte. Administradora dos bens de Deus, precisa viver na 
Terra, alimentar seus sacerdotes, vesti-los, e por isso cada proprietrio deve-lhe uma parte de suas terras, que em ltima anlise so deles, porque so de Deus.
     Carlos estava admirado:
      Todos os fidalgos aceitam isso?
      Certamente. At o rei paga o dzimo  Igreja e seus prncipes. Eles so os donos do mundo.
      Por qu? So homens como ns e aproveitam-se de nossos bens. D. Fernando assustou-se:
      Cala-te, Carlos! Se algum te ouvir! Pode parecer heresia! Precisas aceitar essas condies. Sabes que eles detm nas mos poderes de vida e morte sobre todos 
ns. Que nunca mais penses sequer em pronunciar essas palavras. Se D. Gervsio souber, tem poderes para nos denunciar e prender, confiscar nossos bens e at tirar-nos 
a vida.
     Carlos levantou-se irritado:
      Parece incrvel que tenhamos chegado a esse ponto. Tantos fidalgos comandando tantos homens! Unidos, poderamos acabar com eles de uma vez!
     D. Fernando fez-se plido e aproximou-se do filho segurando-lhe os braos com fora:
      Carlos! Promete-me que jamais tentars pensar no assunto. Exijo que esqueas isso, se no queres destruir-nos e pr a perder tudo quanto temos!
     Apesar de agastado, Carlos assustou-se ante a fisionomia alterada do pai.
      Tendes tanto temor assim?  murmurou desalentado.
      Promete o que te peo. No te envolvers nesses assuntos e concordars com eles, sempre, mantendo nossas boas relaes.
      Est bem. Prometo. Se  o que desejais. Mas revoltam-me tantas injustias. Sabeis como eles tm sido cruis e interesseiros. Como pactuar com eles?
      Meu filho, o povo fala muito e h muito exagero nessas histrias. Eles tm tambm ajudado muita gente. Depois, reagir seria loucura, so ministros de Deus, 
podem excomungar-nos. A maior parte dos fidalgos no teria essa coragem. Quanto a ti, deves aprender desde j que, se pretendes viver em paz e administrar nossa 
casa, deves fugir de desagrad-los, por mais difcil que isso te parea. Enquanto os receberes na qualidade de amigos, tudo nos ser facilitado. A vontade deles 
est acima do prprio rei.
     Carlos sentiu-se arrasado. No era muito dado aos rituais da religio e a considerava injusta e opressiva. Tinha averso profunda pelos padres, a quem considerava 
hipcritas e cruis. Como aceitar a imposio deles?
     Saiu do gabinete irritado, muito embora tivesse procurado tranqilizar o pai, prometendo atend-lo em sua orientao. Mas, no ntimo, o moo sentia-se humilhado 
com o servilismo a que seu pai se submetia e no aceitava de forma alguma. Pensou nos ciganos que se tinham libertado de sua danosa influncia. Como eram fortes! 
Haveria povo mais inteligente?
     Sentiu saudades de Esmeralda. Como teria recebido a notcia de sua partida? Revoltara-se, certamente, mas confiava que seu amor a tornaria dcil e quando regressasse 
a encontraria submissa e amorosa como sempre.
     Pensou em D. Gervsio. Se ele era astuto, hipcrita e interesseiro, Carlos tambm usaria os mesmos recursos para combat-lo. No podia medir foras com ele, 
francamente. Estava sozinho diante de um poder quase absoluto. Temia prejudicar sua famlia. Mas no ia desistir de lutar com todas as suas foras. Dissimularia, 
tramaria s ocultas e quando pudesse ou tivesse condies de derrot-lo o faria com prazer. Quando voltasse ao acampamento, haveria de buscar ajuda entre eles. Sabia 
que conseguiria.
     Nos dias que se seguiram, Carlos pareceu esquecer o delicado assunto e D. Fernando, preocupado com problemas da propriedade, deu-se por satisfeito. O sbito 
interesse do filho pelos problemas domsticos enchia D. Fernando de orgulho. Nunca pudera supor que ele se revelasse to atento e decidido a seguir-lhe os conselhos 
e atender seus desejos.
     No queria desgost-lo com assuntos desagradveis. Precisava dele e queria mant-lo interessado. Sempre temera seu carter impulsivo. Receava que ele fosse 
correr mundo, desinteressando-se dos problemas familiares. Mas, merc de Deus, ele estava mudado. D. Fernando sentia-se feliz. Seu maior sonho concretizava-se.
     Assim, animava-se em melhorar a propriedade para que Carlos com sua mocidade e entusiasmo pudesse sentir-se orgulhoso e rico.
     Foi com facilidade que Carlos atendeu o pedido de sua me, melhorando o servio do castelo, conseguindo novos servidores, mais jovens, e aliviando as tarefas 
dos velhos e antigos trabalhadores da casa.
     Os dias corriam cleres e Carlos absorvia-se nessas atividades. Tornara-se inseparvel do pai e procurava secund-lo em seus esforos. Nunca D. Fernando se 
sentira to alegre. Contar com o filho era-lhe sumamente agradvel.
     A propriedade como que adquirira novo impulso, e ao influxo das generosas idias do moo, transformava-se. Por toda parte havia renovao, trabalho, progresso 
e esperana. Se D. Fernando era respeitado, Carlos era amado, por sua beleza, por sua mocidade, por sua alegria e, principalmente, por sua maneira afvel; interessava-se 
pelos colonos, procurando melhorar-lhes as condies de vida e a disposio para o trabalho.
     D. Fernando, preocupado, por vezes considerava:
      Acho que s muito condescendente. Eles vo abusar de tua autoridade.
     Mas Carlos retrucava:
      Pai, eles precisam gostar da terra e de nossa casa. Ns necessitamos de servos leais que se for preciso empunhem o mosquete para defender nossos interesses. 
Vistes como trabalham com afinco e alegria? No achais que so nossos amigos?
      Nunca vi ningum fazer o que fazes. Deus permita que estejas certo.
      A violncia cria dio e a represso forma traidores. Quando um homem se sente mais fraco e  obrigado a fazer as coisas pela fora, quase sempre trama na 
sombra e se torna alvo fcil para os inimigos. No, meu pai, enquanto eles forem nossos amigos pelo corao, sero leais e fiis.
     D. Fernando considerou:
      Pode ser que estejas certo, mas tuas idias so revolucionrias. No sei de onde as tiraste.
     Carlos calava-se para no aludir aos ciganos. Fora com eles que aprendera tanto sobre o comportamento humano, mas o pai tinha-lhes horror, tanto quanto a me. 
Carlos, porm, reconhecia que eles eram sbios em muitos aspectos.
     Embora estranhando os mtodos do filho, D. Fernando era homem suficientemente inteligente para compreender e observar os resultados. Estava satisfeito com o 
que via: a alegria nos rostos dos camponeses, que trabalhavam mais, apesar do inverno, e com alegria.
     Quando passavam para ver a propriedade e a plantao, os rostos eram distendidos, e quando Carlos aparecia, D. Fernando observava que eles o olhavam com enlevo. 
Muitos, vendo-o aproximar-se de suas casas, traziam-lhe pequenos agrados, oferecendo-lhe guloseimas, mimos e ficando emocionados quando o moo os aceitava contente 
e agradecido.
     Certo dia D. Fernando comentou:
      No sei o que tens, mas eles te admiram tanto que tudo quanto disseres faro.
     Carlos sorriu alegre.
      No vos esqueais, meu pai, de que so gente boa e simples. So nossos amigos. Se precisarmos lutar, eles o faro com gana. A um gesto meu, sei que obedecero 
sem pensar.
      Fico admirado. Nunca vi tal coisa. s condescendente, mas eles no abusam de tua autoridade.  mais fcil comand-los assim. Muito mais suave.
      E mais seguro. Sei que no vo nos trair. D. Fernando comoveu-se:
      Foi Deus quem te trouxe de volta para nossa casa. Sem teu apoio, tudo pereceria.
      Exageras, certamente. Tudo sempre andou muito bem em vossas mos. Os servidores sempre te respeitaram e serviram com lealdade.
      Minhas foras esto se acabando. O desgosto, a desiluso, a vida tem-se desgastado. Agora tudo  diferente, posso contar contigo.
     Carlos no tinha como argumentar. Seu pai colocara a salvao de sua casa em suas mos e ele tinha o dever de aceitar a incumbncia. Por outro lado, o tempo 
ia passando e o inverno logo estaria terminado. A primavera viria e ele deveria ir ao encontro de Esmeralda, a quem continuava a amar. Noites havia em que a saudade 
o acometia deixando-o insone e angustiado. O que fazer?
     Sentia-se preso aos encantos da cigana e, ao mesmo tempo, no podia negligenciar os deveres de sua casa. Como conciliar coisas to opostas? No sabia ainda 
como, mas precisava conseguir as duas. No se sentia com foras para renunciar a nenhuma delas.
     Quando chegasse a primavera, os ciganos iriam a Madri, e Carlos sabia que seria esperado no acampamento. Precisava ir para que a cigana to ciumenta e temperamental 
no se julgasse esquecida e abandonada. Ansiava por v-la, mas como sair, largar os compromissos de sua casa?
     Carlos recusava-se a pensar muito. Quando chegasse o momento haveria de encontrar a soluo adequada. Se Esmeralda fosse mais humilde, tudo se resolveria melhor, 
mas ela era voluntariosa e difcil. Contudo, ele a queria e no desejava perd-la.
     A tarde era fria e o inverno estava em pleno rigor. O fogo crepitando na enorme lareira. D. Encarnao trabalhava delicada pea de tapearia enquanto Carlos 
cismava, olhando as chamas do fogo, pensando, perdido na distncia. D. Fernando, a um canto, sobre a escrivaninha artisticamente lavrada ocupava-se em consultar 
alguns mapas. Apreciava imensamente estud-los e conhecia todos os acidentes geogrficos da Europa, principalmente da Espanha, clima e mormente a agricultura, que 
muito apreciava.
     Foi quando pancadas fizeram-se ouvir na porta principal, arrancando-os das profundezas de seus pensamentos. Tiritando de frio, D. Gervsio entrou no aposento 
to logo o servo abriu a porta. D. Fernando levantou-se surpreso.
      D. Gervsio, com um tempo destes! Louvado seja Deus!
      Louvado seja! Que dia frio! Quase morri gelado.
     Carlos levantou-se para saudar o padre. D. Encarnao, depois de beijar-lhe a mo e pedir-lhe a bno, retirou-se discretamente para seus aposentos. Jamais 
recebia com o marido. S ficava quando chamada ou convidada por ele.
     O padre aproximou-se do fogo procurando aquecer-se enquanto D. Fernando lhe servia um clice de conhaque.
      Arre! Finalmente cheguei e tudo est melhor.
      Sair com um tempo destes  temeridade. Presumo que o assunto de vossa visita seja muito importante.
      Certamente, D. Fernando.  da mxima gravidade, nem quis mandar um portador. Eu no podia esperar para no pr em risco a segurana de vossa casa.
      Por Deus, D. Gervsio. O que houve?
      Podemos falar a ss?  inquiriu ele lanando olhares desconfiados ao redor.
      Vou dar algumas ordens e ningum nos interromper. Carlos fez meno de retirar-se. D. Fernando o deteve:
      Fica. No h segredos entre ns. Quero que estejas ao par de tudo.
     Carlos sentou-se novamente. Teria preferido sair, embora a curiosidade o incomodasse. No gostava do jesuta. D. Fernando saiu, voltou logo e sentou-se em frente 
do padre. Este, que se sentia muito  vontade, graas ao calor da bebida e do fogo, estava mais calmo.
      E ento?  perguntou o fidalgo.
      Aconteceram coisas terrveis e preciso colocar-vos ao par de tudo. Venho do castelo de D. Fabrcio. Graves ocorrncias tenho a relatar.
      O que foi?
      Como sabeis, D. Fabrcio, infelizmente, desde que casou voltou a sua vida devassa, mas embora tenha aventuras com outras damas, sua paixo por D. Leonor atinge 
as raias da loucura.
     D. Fernando suspirou triste:
      Pobre Leonor! Que triste sorte!
      Tem-lhe o marido um cime mortal. A pobre senhora muito tem sofrido e eu que sou seu confessor conheo a profundidade de seus padecimentos. Ela tem-lhe verdadeiro 
horror e tem-se recusado a aceitar suas extravagncias e caprichos. Ele, sentindo seu desamor, torna-se cruel, agravando-lhe os padecimentos.
     D. Fernando tornou tristemente:
      E pensar que tudo podia ter sido evitado se meu pai me tivesse escutado.
      Agora est feito  comentou o padre, e continuou:  Devo dizer que ela no se importa com o comportamento dele, que leva as amantes para o prprio castelo, 
e at acha bom que ele procure as outras a fim de deix-la em paz. Mas ele no aceita ver-se recusado. Agride-a. Quer obrig-la a uma srie de baixezas que ela prefere 
morrer a aceitar. Ento, ele perde a cabea e a agride pela fora. Esta manh, fui chamado ao castelo de D. Fabrcio por uma aia de D. Leonor. Ele a prendeu em uma 
ala do castelo e recusa-se a deixar sequer os servos entrarem. Disse que no lhe vai dar de comer ou beber at que ela fique mais humilde. Tentei falar com ele. 
Parecia louco. No me deixou v-la. Garantiu-me que cuidar bem dela. Quase me mandou embora de l. Era impossvel convenc-lo. Ento, como sabeis, tenho l nossos 
informantes. H algum tempo que, zeloso por vossos interesses, procuro ficar ao par de tudo. Fui informado que aps uma cena terrvel, que ningum viu, mas cujos 
gritos foram ouvidos pelo lado de fora, ele a colocou incomunicvel e parece que D. Leonor perdeu sangue e est muito fraca. Ele, ao sair, tinha sangue nas vestes. 
A pobre senhora est precisando de nossa ajuda. Ele vai mat-la!
     D. Fernando levantou-se indignado:
      Isto  demais! Fera, atrever-se a tanto com uma Avelar da casa de Avis.
     O padre fez uma pausa e continuou:
      Ainda h mais! O furor de D. Fabrcio no parou a. Arrancou todas as jias de D. Leonor e mandou chamar D. Ortega. Assim que o viu, contratou a ele e a seus 
homens para "defender seus direitos". Disse que foi espoliado por vosso nobre pai e que precisa apossar-se de tudo quanto lhe pertence de direito.
      Miservel!  tornou D. Fernando roxo de clera.  Achais que ousar?
      Por isso vim. Acho que o far e muito breve. D. Ortega mantm muitos homens a seu servio e por dinheiro  capaz de tudo. Se vim aqui com um tempo destes, 
 porque no duvido que ele seja capaz de vos atacar. Vim para prevenir-vos.
     Carlos sentiu um frio no estmago. No temia a luta. Abominava-a. Pelo exposto, a situao era muito grave. Por mais que no gostasse do padre, devia reconhecer 
que no podia arriscar duvidando de sua palavra. Precisavam defender-se.
     Era provvel que assim que a tempestade cessasse e o tempo melhorasse um pouco eles partissem para o ataque e tanto ele como o pai precisavam defender a vida 
de sua gente e de todos de sua casa.
      Pai, no temos tempo a perder. Quando achais que viro?  indagou.
      Logo que o tempo melhorar. Os homens de D. Ortega so habituados s intempries. Esto curtidos de vinho e para eles nada importa.
      Precisamos estar prevenidos. Pode ser que nem esperem o tempo melhorar. Precisamos ajudar tia Leonor. Achais que temos chance?
     D. Gervsio balanou a cabea pensativo:
      No sei como ela est agora. Tenho medo de que no resista. Apesar de temente a Deus, no tem vontade de viver. J me disse que a morte lhe ser alvio. Deveis 
pensar que D. Fabrcio deseja surpreender-vos. No sabe que vim prevenir-vos. Isto vos dar vantagem.
       verdade  tornou D. Fernando com seriedade.  Vamos planejar primeiro a defesa e, se houver tempo, partiremos para o ataque. Estou decidido. Precisamos 
acabar de uma vez com esta ameaa. Chega de tolerncia para com ele! Agora nosso destino est selado. Ser uma luta de morte. Ou ele ou ns. Ou nossa casa ou a dele. 
Fiz o possvel para evitar, mas agora precisamos enfrentar a realidade! Veremos quem  o mais forte.
      Que Deus abenoe vossos propsitos. Deus est do vosso lado! Carlos, olhando o rosto corado do padre, o brilho de prazer de seus olhos astutos, pensou agastado:
      Deus est do nosso lado! E se os do outro tambm recorrerem a Ele, como ser? No tero tambm um padre que os abenoe?
     Apesar da preocupao, no podia deixar de perceber o prazer do jesuta pela guerra entre as duas famlias, que se refletia em seus olhos vivos.
     D. Fernando, porm, nem sequer notou esse detalhe e tornou com voz comovida:
      Vossa dedicao comove-nos muito. Jamais nos esqueceremos dessa hora. Crede que saberemos ser gratos a tanta amizade. Assim que vencermos essa batalha, recompensar-vos-emos 
devidamente.
     O rosto do padre iluminou-se. Baixou o olhar e aduziu:
      Sabeis que no me move nenhum interesse temporal. Apenas o dever, a justia e o direito.
     Embora Carlos preferisse ficar a ss com o pai para traarem os planos de defesa, no pde evitar que eles fossem elaborados ali mesmo diante do jesuta, que 
atento seguia todos os detalhes, aprovando ou objetando, a cada projeto.
     Carlos estava inquieto e pouco  vontade. No confiava nele e, por isso, no desejava que ele estivesse ao par de tudo. Mas D. Fernando parecia pouco inclinado 
a deix-lo de fora.
     Resolvidos a no perder tempo, Carlos chamou Incio e o incumbiu de convocar todos os homens, chefes de famlia, para imediatamente agruparem-se no salo do 
castelo. O assunto era urgente.
     Ao mesmo tempo, D. Fernando mandou alguns servos descerem na ala subterrnea da casa, onde se armazenavam as armas bem como a munio, dando ordens para que 
se inventariasse e revisasse tudo, preparando para uso imediato.
     Vendo o movimento inusitado, D. Encarnao preocupada abordou o filho:
      Carlos, o que est acontecendo?
      Estamos na iminncia de sofrer um ataque pelos homens de D. Fabrcio. Preparamos a defesa. J mandamos reunir os homens e quando chegarem peo-te que permaneas 
em teus aposentos com as mulheres.
      Estou com medo!
      Acalma-te. Por enquanto  s uma hiptese. Pode ser que ele no venha. No queremos ser surpreendidos.  s isso.
      Temo por ti!
      Sei cuidar-me. Sabes que no me exponho. Guarda calma e recolhe-te. Irei colocar-te ao par de tudo, prometo.
     D. Encarnao abraou o filho com ternura.
      s meu tesouro! Estarei rezando por ti!
     Um brilho de emoo refletiu-se nos olhos do jovem fidalgo. Abraou-a e afastou-se j preocupado com o momento que estavam vivendo. Enquanto a tempestade continuava 
l fora, dentro do castelo a azfama aumentava.
     A cada momento chegava mais um campons que, convocado, se dispunha a defender a propriedade. Quando os viu em bom nmero no salo de entrada, D. Fernando solene 
dirigiu-lhes a palavra.
      Estamos em perigo. Nossos lares ameaados. Soubemos que D. Fabrcio se prepara com os homens de D. Ortega para tomarem esta casa. S o faro sobre meu cadver. 
Estou disposto a defender nossos direitos, e conto convosco nessa luta que  de todos ns.
     Um clamor de aprovao e de indignao levantou-se, espontneo. Eram cerca de trinta homens afeitos  luta com a terra, mas dispostos a defenderem a propriedade 
com garra. Sabiam que os homens de D. Ortega no respeitavam os vencidos, matando os homens, violentando as mulheres, carregando os haveres. Eram verdadeiros bandidos, 
odiados e temidos por todos. Vendo-os decididos, Carlos tomou a palavra para coloc-los ao par do plano de defesa. Foram escolhidos os que iam revezar-se nos pontos 
estratgicos das terras para vigiar e dar o sinal a qualquer movimentao estranha. Enquanto alguns permaneceriam no castelo preparando as armas e munies, os outros 
fariam em sua prpria casa um pequeno arsenal para defesa, no caso de os opositores invadirem e passarem a barreira formada por alguns homens decididos e bem armados.
     Tudo disposto e organizado, teve incio a terrvel espera.
     As horas comearam a transcorrer lentas. D. Gervsio recolhera-se, esclarecendo que dormiria vestido, para qualquer eventualidade. Carlos e D. Fernando recostaram-se 
nos bancos, acordando de quando em vez assustados e atentos ao mais ligeiro rudo.
     Foi uma longa noite e j s primeiras horas da manh a guarda rendeu-se, vindo os camponeses relatar que tudo parecia em ordem. Durante a fria madrugada nada 
tinham percebido de diferente.
     D. Fernando despediu-os aliviado, ordenando que se apresentassem depois do almoo para troca com os vigias que deveriam manter ininterrupta a guarda. Mandou 
que lhes servissem uma refeio. Estava com fome e Carlos tambm. A tenso cedera ao cansao e ao amolecimento pelo sono.
     Um servo deps na mesa do salo nacos de carne assada, po e um jarro de vinho. Quando os dois tomaram o assento para comer, surgiu D. Gervsio:
      Deus vos salve  tornou ele amvel.
      E a vs, vos bendiga  retrucou D. Fernando, e continuou:  Chegais a propsito para abenoardes nossa refeio.
     O jesuta concordou e abenoou as iguarias rapidamente, sentando-se ao lado de Carlos.
      Parece que Deus ouviu minhas preces. No houve sangue  tornou ele, servindo-se de um pedao muito bem escolhido de carne.
      Tero desistido  considerou Carlos, como que falando consigo mesmo.
      Quem dera que assim fosse  lamentou o padre com ar compungido. Mas pelo que ouvi e vi no castelo, D. Fabrcio est decidido e no vai desistir, a no ser 
que algo lhe acontea, algum impedimento. Talvez a vontade de Deus.
        considerou D. Fernando , se bem o conheo, no  homem que volte atrs em uma deciso. Se convocou D. Ortega, no vai desistir.  s questo de tempo. 
Afinal ele pensa que ignoramos tudo.
      Isso  verdade  anuiu Carlos , mas no importa. Vamos manter a casa preparada para qualquer ataque.
     O padre sorveu um gole de vinho, limpou a boca com as costas da mo e permaneceu silencioso. Fundo suspiro escapou-se-lhe do peito. Os dois homens o olharam 
admirados.
      Estou pensando em D. Leonor. Pobre dama! Nem sei se estar viva a estas horas. Suplicou-me que a ajudasse! Infelizmente nada posso fazer.
     D. Fernando estremeceu. Por um instante seu rosto sombreou-se e seus olhos brilharam rancorosos.
      Pobre irm! Quisera arranc-la desse patife!
      Calma, pai. No nos devemos precipitar.
     Carlos, embora revoltado com o sofrimento da tia, no confiava no padre, e sua atitude no lhe parecia sincera. O que pretendia ele? Tinha a impresso de que 
ele procurava incit-los  luta. Estaria dizendo a verdade?
      Tens razo, Carlos. Leonor tem suportado todos estes anos, certamente agentar um pouco mais.  melhor guardar a calma.
     Passados alguns instantes em que o padre esteve imerso em seus pensamentos, ele tornou:
      D. Fernando, como sabeis mantenho as boas graas com D. Fabrcio. Tenho corajosamente suportado suas injustias, para poder aliviar o sofrimento daquela pobre 
senhora cuja f em Deus  admirvel. Ele me tolera e at distingue com alguma amizade. Naturalmente no quer indispor-se com nossa congregao. De qualquer forma 
tenho livre trnsito no castelo. Se desejardes, posso ir at l ver o que est-se passando. De volta trar-vos-ei as notcias de vosso interesse.
      No seria perigoso para vs?  indagou D. Fernando.
      Naturalmente, procurarei no me expor. Agirei com cuidado. Ele no saber.
     Carlos levantou-se:
      Qual vosso interesse em prestar-nos semelhantes servios?
     Seu pai olhou-o admirado, mas o moo olhava fixamente os olhos do padre, que baixaram em atitude humilde.
      Por favor, D. Carlos, D. Leonor  uma pobre vtima da maldade desse homem que quero defender. E se isso no fosse motivo suficiente, laos de amizade me unem 
a esta casa, os quais tenho preservado e protegido.
      Peo-vos perdo, Carlos est nervoso. Passou a noite velando e alm do mais esteve ausente durante muito tempo. Ignora o quanto devemos a Vossa Reverendssima.
     D. Gervsio fez um gesto largo com a mo dizendo:
      Por favor, D. Fernando, os moos so curiosos e certamente merecem resposta. D. Carlos preocupa-se pelos negcios de sua casa e louvo-lhe o zelo. Sabei, D. 
Carlos, que vossa atitude assumindo os negcios de vossa famlia muito vos honra como filho e como fidalgo. Estou feliz com vossa atitude e vos admiro com sinceridade.
     Carlos desviou o olhar para que os dois homens no lessem neles a repulsa que o jesuta lhe causava. Sua hipocrisia o incomodava. Que fazer? Seu pai o temia 
e talvez tivesse suas razes. O melhor era no provoc-lo inutilmente. Se conseguisse vencer a repulsa, poderia pelo menos fingir-se crdulo para descobrir o que 
ele pretendia. Tinha certeza de que ele pouco se importava com o destino de sua infeliz tia, mas parecia interessado em levar a discrdia entre as duas famlias. 
Por qu?
      D. Fernando, renovo o convite. Sabeis que no posso pegar em armas, mas no posso prestar esse servio se Vossa Senhoria aceitar.
     Levantou-se, curvando-se. D. Fernando colocou a mo em seu brao.
      Vossa atitude comove-me e no posso recusar. No nego que me impaciento por notcias.
      Nesse caso, parto agora mesmo. A tempestade passou, e se eu for agora, voltarei com mais brevidade. Minha carruagem j deve estar preparada, portanto parto 
imediatamente.
      S Deus vos poder pagar por mais estes servios que to dedicadamente nos prestais. Ser-vos-ei eternamente grato.
      Chama-me o dever cristo. Nada me deveis.
     Curvando-se novamente, afastou-se, depois de D. Fernando ter-lhe beijado a mo. Foi com repulsa que Carlos, ao imprio do olhar do pai, fez o mesmo.
      Foste impertinente com D. Gervsio  tornou ele quando se viram a ss.  No sabes que  um representante do Santo Ofcio?
      Sei. E  por isso mesmo. Diz-se cristo e presta-se ao vil papel de intrigante e de espio  desabafou Carlos com raiva.
      Est fazendo isso para nos prestar um favor.
      Pai, no acredito nisso. No confio nele.
      Podes no gostar dele. Acho at que  um pouco falso, mas por isso tambm no vamos julg-lo to mal. Quis fazer-nos um favor. E no deves esquecer que, se 
no fosse por ele, estaramos sem defesa,  merc daquele patife.
       verdade. No creio que faa isso tudo s para nos ser til. Deve ter alguma coisa mais em jogo. Parece muito interessado nessa briga de famlia. Faz o que 
pode para foment-la.
      No digas isso. s muito maldoso. Exageras, com certeza. Fez muito bem em prevenir-nos. Afinal, freqenta nossa casa.
      Fao votos de que seja s isso. Agora, acho melhor dar uma olhada, para saber como vo as coisas l fora.
      Vou contigo.
     Juntos saram a inspecionar a propriedade.
     Apesar dos cuidados constantes na manuteno do esquema de defesa e prontido dos homens, trs dias decorreram sem que a situao sofresse alterao. Os homens 
comearam a duvidar de que o ataque se consumasse.
     
     
Captulo VII
     
     
     Sentado na carruagem rumo ao castelo de D. Fabrcio, D. Gervsio tinha a fisionomia endurecida e sria. As coisas se objetivavam de acordo com seus desejos 
e dentro em pouco sua vingana estaria consumada. D. Fabrcio pagaria por seus crimes e se afastaria completamente de seu caminho. Ento, Leonor seria sua para sempre. 
Ningum conseguiria afast-la de seus braos.
     D. Gervsio, ao pensar nela, sentiu uma onda forte de calor aquecer-lhe o peito. Seus olhos tristes e chorosos, sua palidez, sua beleza e principalmente sua 
dignidade tinham acendido em seu peito uma paixo avassaladora e irreprimvel.
     D. Gervsio, dono de temperamento fogoso, jamais conseguira observar a castidade que lhe era exigida. Tivera paixes correspondidas, ligaes amorosas dissimuladas 
pelos preconceitos sociais, facilitadas por sua profisso e pelo prestgio que gozava na intimidade das famlias, numa poca em que as mulheres eram confinadas e 
relegadas a uma subservincia escravocrata e abusiva.
     Explorando o esprito rebelde de algumas, cuja dedicao ao lar e ao esposo era apenas aparente, lograva alcanar seus dbios objetivos, chegando por vezes, 
em seus pensamentos mais ntimos, a julgar-se benfeitor daquelas infelizes criaturas cujo matrimnio imposto representava dolorosa cadeia, fazendo-as conhecer a 
paixo e os prazeres dos jogos amorosos.
     Mas com Leonor fora diferente desde o princpio. Desde que a viu, deslumbrou-se com sua beleza e acariciou intimamente o desejo de conquist-la. Para isso, 
envolveu D. Fabrcio com atenes, aparentemente concordando com sua maneira de ser e de pensar. Freqentou-lhe a casa, e manhosamente foi ganhando sua confiana.
     Certa ocasio, foi ao castelo aparentando preocupao e tristeza. D. Fabrcio o recebeu admirado diante do inusitado da hora.
      Venho prevenir-vos de algo muito grave  tornou srio.
      De que se trata?
      De uma denncia ao Santo Ofcio. Fostes denunciado, e pelo que ouvi de meus superiores, trata-se de algo muito grave.
     D. Fabrcio empalideceu.
      Como assim?
      H aqui em seu castelo encontros de bruxaria. Pessoalmente, eu no sabia de nada, mas algum deu a denncia, e como somos amigos, vos previno. O caso  muito 
srio.
       uma infmia!
      Acredito, mas parece que h testemunhas. Hospedastes aqui um homem que ouve vozes e se diz profeta e com ele fizestes uma sesso de magia proibida por lei.
      No foi isso. Ele passou por aqui, pediu pousada, e agradecido quis vaticinar sobre meu futuro. Alis quase o pus para fora a pontaps porque disse coisas 
amargas e fez duras previses. Acabou por querer que eu fizesse algumas coisas e abandonasse tudo que eu gosto. Falou de desgraas e eu por pouco no o matei aqui 
mesmo. Atirei-o fora, se quer saber.
      No  isso o que consta no Santo Ofcio. Por causa disso pode haver interveno em vossas terras.
      Isso  uma calnia. Nada fiz de mal! Sou catlico e obediente  Igreja.  uma injustia!
      Acalmai-vos. Somos amigos e vou procurar defender vossos interesses. Podeis confiar em mim. Intercederei junto aos superiores.
      Fazei isso. Eu doarei um pedao de minhas melhores terras  Igreja.
     D. Gervsio sorriu magnnimo:
     - No. Isso no. Mas a Congregao aceitar metade da safra deste ano e algumas jias para nossos pobres. Verei o que posso fazer, embora o problema seja grave.
     E o padre se retirara, voltando trs dias depois para dizer ao fidalgo que finalmente afastara o perigo, conseguira impedir a priso dele e obtivera o arquivamento 
do processo. D. Fabrcio respirou aliviado.
     Sabia que eles eram todo-poderosos e que estavam sempre atentos para, sob qualquer pretexto, confiscar os bens e apoderar-se das terras. Para isso valia tudo. 
A amizade de D. Gervsio tornara-se-lhe preciosa, e devia conserv-la a todo custo.
     Cumulou o padre de gentilezas, hospedando-o com fidalguia. At que um dia ele presenciou um ataque de mau humor de D. Fabrcio. Finalmente ele o tomara por 
confessor. Crendo-o amigo, desabafou-se com ele:
      Sou infeliz, padre!
      Por qu, meu filho? Sois rico fidalgo a quem no faltam belas mulheres e poder.
      Se tenho a todas, no tenho Leonor. Ela me odeia.
     Gervsio exultou. Aparentando tristeza, tornou:
       vossa esposa e vos deve obedincia. Por acaso no estar cumprindo com seus deveres sagrados?
      Quer levar-me  loucura.  fria e distante. No cede aos agrados nem aos castigos. E se cobro meus direitos, parece que estou possuindo um cadver. E o pior 
 que isso me exaspera e a quero cada dia mais.  um fogo que me est matando.
     Seu rosto, de traos voluntariosos e firmes, se contraa em rictos de revolta e paixo. Lgrimas saltavam de seus olhos congestionados. D. Fabrcio fora homem 
requestado pelas mulheres, iludidas com seu fsico forte, seu porte elegante, seu rosto sensual e seu temperamento ardente. Jamais sofrera derrota amorosa. No entendia 
a repulsa da esposa, a qual nunca conseguira vencer.
     Ela o tratava com respeito e obedincia, mas jamais correspondera a seu amor. Carter honesto, desde antes do casamento suplicara liberdade, alegando que no 
o amava e que no desejava casar-se com ele. Mas, obstinado e envaidecido, D. Fabrcio acreditava poder fazer-se amar por Leonor com o tempo. Contudo, mulher delicada 
e sensvel, cujo sentimento ele estava muito longe de alcanar, sentia-se cada dia mais chocada com o comportamento do marido, sensual e voltado aos instintos mais 
animalizados do homem.
     Leonor sofria s com a proximidade dele, com sua paixo doentia e insacivel. Ele fez tudo quanto entendia possvel para conquist-la. Usou carinho, exigiu, 
obrigou, desprezou, arranjou outras mulheres que levava no prprio lar e com as quais se exibia diante dela. Mas Leonor era indiferente. Percebeu, at, que, quando 
ele tinha outras, ela parecia aliviada.
     D. Gervsio encontrou sua oportunidade.
      Sois meu amigo. Se me permitirdes, falarei com ela. Tornar-me-ei seu confessor e assim poderei aos poucos ganhar sua confiana e a ensinarei a vos amar como 
 o dever de uma boa esposa. Tenho certeza de que conseguirei.
      Ela j tem seu confessor: D. Alberto, que vem sempre ouvi-la. Desde sua infncia ele a orienta. Foi algo que me pediu e que concedi.
     D. Gervsio no se deu por achado:
      Quem sabe  por isso que ela no vos aceita. Ele  vosso amigo?
      No. Acho at que me evita, embora me trate com respeito. Pensando melhor, acho at que no me aprecia.
     D. Gervsio fez um gesto largo.
      A est. Vai ver que descobrimos a causa do descontentamento de D. Leonor. No est sendo bem orientada por seu confessor.
     D. Fabrcio teve um brilho maldoso no olhar.
      Nesse caso, eu no mais permitirei sua presena aqui. Como no pensei nisso antes?
      No acho prudente essa proibio. Se quiserdes conquistar sua estima, no deveis contrari-la.
     D. Fabrcio impacientou-se:
      E ento?
      Deixai comigo. Hoje mesmo intercederei para que ele seja mandado para longe, talvez at fora do pas. No poder recusar, e ela nunca saber de nossa interferncia.
     D. Fabrcio sorriu aliviado.
      D. Gervsio. Que seria de mim sem vossa proteo? Vamos comemorar. Abrirei o vinho mais velho de minha adega. Com um aliado assim, a vitria ser fcil.
     Enquanto a carruagem corria renovando a paisagem, vencendo a distncia rumo ao castelo de D. Fabrcio, D. Gervsio rememorava cenas do passado.
     Foi um ms depois que obteve a primeira entrevista com D. Leonor a ss. Embora estivesse emocionado, jubiloso, procurou aparentar calma e dignidade. Sempre 
agia de acordo com a pessoa a quem se dirigia e era sensvel o bastante para perceber a maneira de ser de seu interlocutor.
     Sabia que, para conquistar a confiana daquela dama, devia aparentar virtudes, honestidade, bondade e carter. Foi investido desse papel que entrou em cena.
     D. Leonor, apesar de seus 36 anos, era mulher de beleza invulgar. Tez clara, de uma alvura que a vida de clausura a que era obrigada acentuara, parecia de loua, 
tal a delicadeza. Os cabelos castanhos, vastos e brilhantes, emolduravam seu rosto de traos delicados. Embora despida da vaidade comum s mulheres, seus olhos expressivos 
e luminosos, escuros e aveludados, traduziam sensibilidade e emoo. Vestia-se com simplicidade, sem jias ou adereos, cabelos presos em coque na nuca.
      Sou padre Gervsio, senhora D. Leonor. Tenho a honra de substituir o estimado D. Alberto, que em to m hora foi obrigado a nos deixar.
      Tambm pensais assim?
      Claro. E um verdadeiro servo da Igreja e de Deus. Ele  insubstituvel. Quando me designaram para vir aqui, confesso que fiquei muito preocupado.
      Por qu?
      Porque  uma empresa difcil essa. Espero contar com vossa compreenso.
     Ela deu de ombros.
      A princpio me revoltei, acreditei tratar-se de mais uma de D. Fabrcio. Agora comeo a duvidar.
      Cometeis sria injustia com D. Fabrcio. Por ter prestado servios, D. Alberto fez jus a uma promoo.
      Mas ele no queria ir...
     D. Gervsio fez um gesto vago.
      Quem somos ns pobres servos da Igreja para discutirmos ordens superiores? Naturalmente ser bom para ele e para os interesses de nossa Igreja.
     Ela suspirou triste:
      Acredito. D. Alberto  um dos raros homens de bem que conheci. Mas no  a primeira vez que vindes ao castelo. J vos tenho visto com D. Fabrcio em boas 
relaes.
      Sempre a servio da Igreja. Vs bem o sabeis que so os pecadores os mais necessitados de ajuda. A sagrada escritura diz que no so os sos que precisam 
de mdico.
      Falais com sabedoria.
     Ele baixou o olhar com humildade:
      No sou eu, D. Leonor. Foi Deus quem disse isso. Ela suspirou triste:
      Ainda bem que pensais assim. Temi que me fosse faltar o conforto da religio. Estava triste e angustiada.
     Seus olhos brilhavam emotivos e seus lbios tremiam dolorosamente. D. Gervsio estava perturbado. A proximidade daquela mulher que lhe povoara os pensamentos 
durante os ltimos meses, sua beleza, sua emoo faziam-no vacilar. Tinha mpetos de abra-la, apertando-a contra o peito, beijar-lhe os lbios delicados e puros.
     A onda de paixo que o acometeu era como uma dor fsica e ele precisou lutar muito para cont-la. O esforo foi doloroso e seu rosto contorceu-se em ricto involuntrio. 
Sabia que, se trasse, poria tudo a perder.
     Tocada pela fisionomia sofrida do padre, ela comoveu-se:
      Vejo que sois sensvel. Estais emocionado. Mas podeis crer que no vos darei trabalho. J aceitei minha condio e sei que, nesta vida, no tenho direito 
 felicidade. Confio em Deus. Espero alcanar o paraso.
      Certamente  tornou ele com voz trmula.  H algum tempo tenho sido testemunha de vossos sofrimentos. E quero dizer-vos que estou aqui para ajudar. Venho 
para vos servir com toda a dedicao, deixar-me matar se for preciso, para vos ser fiel. Tendes mais do que um amigo, um servo obediente e atento.
     Leonor colocou a mo delicada no brao do padre.
      Foi Deus quem vos mandou aqui  tornou comovida.  Agradeo vossa dedicao do fundo de meu corao.
     Os olhos de D. Gervsio brilharam de alegria. Estava indo muito bem. Sabia que a primeira impresso  muito importante. Agora, era questo de tempo. Tudo sairia 
conforme seus desejos.
     Com ar compungido ouvira o desabafo de Leonor, que lhe contou seu passado, ouvira seus pecados, que se resumiam a no conseguir amar a seu marido, e sara dali 
exultante, depois de mostrar-se compreensivo e digno at o fim.
     D. Leonor acalmou-se e de boa-f, em sua inexperincia, nem sequer suspeitou de sua sinceridade. Nos dias que se seguiram, D. Gervsio continuou fazendo seu 
jogo. De um lado D. Fabrcio confidenciava sua paixo, pressionando-o a que forasse Leonor a aceit-lo. De outro lado, ela, confiante, preocupada com seus problemas 
de conscincia, por no conseguir submeter-se aos caprichos do marido.
     Ele ganhava tempo com D. Fabrcio, iludindo-o e obrigando-o a esperar, e procurava a cada dia tornar-se indispensvel a ela, envolvendo-a com carinho, apoiando-a 
em seu desamor com o marido.
     Parecia-lhe at que ela o esperava com ansiedade e que se emocionava com sua presena. Estava conseguindo seu intento. Dentro em pouco ele comearia a representar 
o papel sofredor por um amor impossvel e certamente ela, sensvel e dominada j por um novo sentimento, lhe cairia nos braos. Ah! O encanto desse instante! Ele 
o imaginava de mil modos, culminando no beijo ardente e revelador e na vivncia de um amor pleno e maravilhoso. Mal podia esperar.
     Tinha que ser discreto. Leonor no era como as outras. Um gesto impensado poria tudo a perder.
     Houve um dia em que, chegando ao castelo, D. Fabrcio o esperava impaciente e colrico. Arrancado de seus devaneios, D. Gervsio preocupou-se. Conhecia bem 
aquela expresso do fidalgo. Algo muito grave estaria passando.
      Ainda bem que chegastes  resmungou impaciente.  Precisamos falar. Acomodai-vos.
      Estais aflito. Ocorre algo?
      Ms novas, que sempre chegam muito depressa.  uma infmia o que me est sendo exigido.
      De que se trata?
      De uma dvida. D. lvarez e Arreda exige este castelo como pagamento, sob pena de tom-lo pela fora. Como se isso no bastasse para me atormentar, tive uma 
cena com Leonor, que me ps louco.
     D. Gervsio empalideceu:
      O que aconteceu?
      Vossa intercesso nada adiantou. A princpio ela parecia mais calma e at me olhava sem rancor e eu, a noite passada, amargurado e abatido, fui  sua alcova 
e ela me repeliu. Compreende? Ela me repeliu. Estava linda, cabelos soltos, camisa de dormir, parecia uma viso, e, quando a abracei com paixo, ficou plida, desmaiou. 
Assustado, dei-lhe sais o no posso negar que, mesmo ela desacordada e fria, tirei-lhe as vestes e contemplei seu corpo. Ah! padre, que loucura! Quase perdi a razo! 
Esqueci de tudo at que ela acordou em meus braos.
     O padre sentia a boca seca e o suor comeava a brotar em sua testa. Ele ousara, ele a possura. Nem sequer pensou que, como marido, ela lhe pertencia. Um dio 
mortal encheu-lhe o corao. Ao mesmo tempo, v-la conforme ele a descreveu era o que sempre povoava seus devaneios: ela desmaiada de amor em seus braos!
     Lutou com o cime feroz e fez-se plido. No se conteve:
      Isso foi um abuso!
      Como?!  tornou ele assustado.  Por acaso no sou seu marido? D. Gervsio cerrou os olhos com fora, procurando controlar-se:
      Quero dizer que ela  uma bela dama delicada e  imprpria vossa atitude. Pusestes todo meu trabalho a perder. Tenho lutado para demonstrar a D. Leonor que 
sois homem bom e digno. Que a respeitais e amais muito. Vossa atitude s deve t-la revoltado.
      Pois foi. Ela, de repente, quando acordou, pareceu-me tomada de horror. Nunca a vi assim. Parecia fora de si. Cobriu-se e, enrolada no lenol, gritou que 
eu era um animal, que me odiava, que ia acabar com a vida para ver-se livre de mim. Confesso que perdi a cabea. Chamou-me de perverso e sem carter. Foi a primeira 
vez que tal aconteceu. No suportei. Avancei contra ela, dei-lhe alguns safanes e deixei-a estirada no leito. Aos gritos de sua aia, sa como louco. Mais uma cena 
destas e a mato. Nenhuma mulher jamais teve coragem para dizer-me isso cara a cara.
     D. Gervsio tinha mpetos de mat-lo, tal o dio que sentia. A brutalidade daquele homem o enojava, ao mesmo tempo que exultava com a atitude dela. Se ousara 
enfrent-lo, era porque agora tinha coragem. Talvez at o amor j envolvesse seu corao. Ele podia ter sido a causa de tudo.
      D. Fabrcio, deixai-me falar com D. Leonor. Preciso apagar a penosa impresso que lhe deixastes no corao, caso contrrio ela principiar a vos odiar.
      E como se no bastasse  resmungou ele , a ameaa da tomada do castelo! Mas isso no vai ficar assim, preciso dar um jeito. Isso no pode esperar. Quanto 
a Leonor, deixo-a a vossos cuidados, mas acho que nem todo vosso esforo conseguir vencer sua obstinao.
      Apesar de tudo,  dever de um padre tentar unir um casal.  difcil quando as pessoas se obstinam  suspirou angustiado.  Verei o que posso fazer.
     Conduzido  alcova de Leonor, D. Gervsio a custo reprimiu uma onda de indignao. Emocionado ao penetrar ali, vendo-a estirada no leito, a sensao excitante 
foi substituda pelo rancor.
     Plida, Leonor parecia morta, mas seu rosto inchado e as marcas arroxeadas em sua pela branca atestavam a brutalidade de que fora vtima.
     D. Gervsio, revoltado, tentou dominar o rancor. D. Fabrcio no perdia por esperar. A aia esclareceu:
      Senhor, ela est muito debilitada. Perdeu muito sangue pelo nariz.  A serva chorava aflita.  Por favor! O senhor, que  ministro de Deus, ajudai minha pobre 
ama. Aquela fera fechou a porta e no pude entrar. Ouvi os gritos de minha pobre ama e no pude socorr-la. Perdoai-me, Vossa Reverendssima, mas tive ganas de mat-lo. 
Tanta maldade com a pobre senhora, to bondosa e santa!
     Algumas lgrimas brilhavam nos olhos do padre.
      Acalma-te. s uma serva fiel. Sei que s devotada. Podes crer que tudo farei para salvar tua ama das garras desse mau servo de Deus. A justia deve ser feita!
      Ah! Senhor padre, como sois bondoso!  A pobre mulher tomou a mo do padre e a beijou com arroubo.  De hoje em diante serei vossa serva obediente. Se puder 
ajudar, darei a vida para salv-la.
     D. Gervsio exultou. Era uma aliada poderosa. Aproximou-se do leito e murmurou carinhoso:
      D. Leonor, sou eu, vosso confessor. Por favor, falai comigo, que estou ralado de angstia por vossa dor.
     Ela abriu os olhos devagar e, vendo-o, seu peito explodiu em soluos:
      Ah! Meu bom amigo! Como sou infeliz!
      Preciso conversar com tua ama, ministrar-lhe o conforto da religio. Vigia a porta para que ningum nos interrompa.
     A serva obedeceu diligente, saiu e ficou guardando a porta do lado de fora. D. Gervsio sentou-se em uma banqueta ao lado do leito. Procurou a mo de D. Leonor 
e a segurou comovido:
      Senhora, vim para vos confortar. Gostaria que me recebsseis no s como amigo e confessor, mas como um irmo muito querido que est sofrendo muito por vossa 
causa.
     Ela suspirou e fixou o rosto aflito do padre: havia sinceridade em sua voz. De suas mos fortes vinha um calor agradvel e reconfortante.
      Ah! Que seria de mim sem vossa presena! No fora vossa amizade e f em Deus, no mais encontraria razo para viver.
     D. Gervsio assustou-se. Apertou-lhe a mo com fora.
      Por favor, D. Leonor. Que nunca mais tal pensamento passe de leve por vossa cabea. Para tudo se d jeito neste mundo.
      Para mim, no h soluo. Se ao menos eu tivesse algum para me defender!
      Tendes a mim  tornou ele com arroubo.  Tendes minha vida, se preciso for.
      Por qu?  perguntou ela assustada tentando retirar a mo. Por um instante vislumbrara uma chama violenta no olhar do padre.
     Percebendo que se trara e que o momento ainda no lhe era favorvel, largou a mo que prendia e baixou a cabea com humildade. Algumas lgrimas rolaram de 
seus olhos cerrados. Era-lhe sumamente difcil o papel de irmo quando desejava apert-la de encontro ao peito e confort-la cobrindo de beijos seus cabelos macios.
      Chorais? Por acaso vos magoei?
      No. Mas, pobre de mim, homem solitrio e triste, sem famlia e sem ningum! Perdoai-me, senhora  sua voz irrompeu em soluos , perdoai-me.
     Ela de fato assustou-se. Aquele homem forte, corajoso, que sempre a encorajara, parecia uma folha batida pelo vento. Compadeceu-se:
      O que acontece ?
      Senhora, em minha vida de solitrio, sem famlia nem amor, surgiu uma fora nova que me alimenta e aquece.
     Ela parecia no entender. Ele prosseguiu:
      Perdoai-me. Juro-vos que nunca mais voltarei ao assunto, no tenho esse direito! Sou um pobre homem sofrido e s!
     O rosto dela contraiu-se dolorosamente. Estaria entendendo bem? Sentou-se no leito com dificuldade. Apesar de lhe doer a cabea, condoeu-se do padre e chegou 
at a esquecer seu prprio drama. Colocou a mo delicada sobre a mo dele.
      Por favor, D. Gervsio. Quero saber.
      Temo vosso julgamento. Sou um padre e confundido pecador! Jamais me perdoarei...
      Contai-me tudo, peo-vos. Somos todos humanos.
     Ele suspirou, tentando conter as lgrimas que bordejavam, tanta fora a tenso, e que agora se transformavam numa catadupa emotiva que no tinha interesse em 
conter.
      Senhora, convivendo de perto com vosso elevado esprito, cheio de virtudes e de dignidade, a princpio no pude conter a admirao. Tanta abnegao, tanta 
renncia me faziam comparar-vos a Santa Margarida e outras damas de minha venerao. Tanto admiro vossas virtudes que aos poucos, em minha vida solitria, passastes 
a ser o sol e a esperana, a luz e a alegria.  Baixou os olhos e continuou:  Perdoai se vos ofendo com meu afeto. Mas ele  puro e nada pede a no ser vosso bem-estar 
e vossa felicidade. Ah! Pobre de mim, que deverei carregar essa cruz pelo resto da vida! Infeliz que nada pode para vos salvar e que daria sua pobre vida para vos 
ver feliz.
     As palavras do padre, apesar de envolverem uma declarao de amor, foram um blsamo ao dorido corao de Leonor, violentada de corpo e esprito pela grosseria 
do marido. Ela pensava que havia ainda no mundo homens delicados como aquele capazes de um amor espiritual e grande, doando tudo sem nada pedir.
     Romntica e inexperiente, Leonor deixou-se envolver por agradvel sensao de proteo e de confiana. Segurando a mo dele, tornou com voz doce:
      Sois um homem bom. Vosso amor me conforta e balsamiza a ferida de uma vida triste e vazia. Mesmo sem esperana, impossvel e triste, foi a coisa mais bela 
que j ouvi, embora sofra por vos ter causado tanta dor.
     Ele exultou. Estava indo muito bem. Custava-lhe muito o domnio para representar seu papel. Mas amava ardentemente aquela mulher e tudo faria para possu-la 
de corpo e alma. No queria s seu corpo, mas seus pensamentos, seu amor. Conhecia-lhe a ndole e sabia que para conquist-la era o nico caminho. Lutou com o desejo 
de beijar-lhe a boca delicada. Segurou a mo dela enquanto dizia:
      Permita agradecer vossa compreenso. Isso diminui meu sofrimento.  Delicadamente deps um beijo na mo que segurava e sentiu que Leonor estremecia, enrubescendo-lhe 
o rosto.
     Afastando-se um pouco e largando a mo, disse com voz que tentou tornar natural:
      Agora, estudemos vosso caso. O que desejais fazer?
     Ela pareceu mais calma. Era-lhe extremamente agradvel a dedicao incondicional daquele homem, na penosa situao em que se encontrava. Era horrvel sentir-se 
aviltada pelo marido, agredida e subjugada sem ningum que a pudesse defender ou orientar. Ele era todo-poderoso; ela, a escrava, o objeto de uso, e ningum teria 
a coragem de critic-lo, porque a mulher lhe pertencia. O marido era o dono absoluto, tinha o poder de vida e morte sobre a mulher. Nem seu irmo, homem correto 
e seguidor dos costumes, ousava interferir.
     A coragem do padre, nico amigo, disposto a dar sua vida por ela, animava-a e parecia providencial. Seu amor era puro e desinteressado, por que no utiliz-lo? 
No seria ele um emissrio da Providncia divina para salv-la?
     Animada, tornou:
      Surgiu-me agora uma idia. Vossa presena  providencial.
      Podeis falar.
      Pretendo sair do castelo. Fugir daqui para sempre. Ele exultou:
       uma idia boa.
      Jamais pensei nisso antes. Mas, agora, depois de ontem... Pensei morrer. Ele me agrediu, parecia um louco, mil vezes a morte do que suportar de novo sua intimidade!
     Ele concordou. No suportava mais o cime. Pensar que D. Fabrcio podia, a qualquer momento, possuir sua mulher sem que ningum pudesse impedir era uma idia 
insuportvel.
      Pensei em meu irmo. Ele talvez me possa socorrer. Se fordes ao castelo de Fernando e pedirdes ajuda, certamente ele no vai negar.
      Claro. Conheo D. Fernando,  homem de bem.
     Mas a D. Gervsio no agradava a soluo. Uma vez em casa do irmo, ela no precisaria mais dele e lhe seria difcil conseguir seus objetivos. Por isso tornou:
      Apesar de que D. Fabrcio no se conformaria. Vossa presena l despertaria uma guerra entre as duas armas. E se D. Fernando perdesse?
      Valha-me Deus! Fabrcio  capaz de tudo. No quero que mate meu irmo. Ento, o que fazer?
      Deixai comigo. Vou preparar vossa fuga. Vossa aia  de confiana?
      Certamente. Dar a vida por mim.
      Ento podemos contar com ela. Traarei os planos e depois ireis com ela para um lugar seguro, onde jamais ele vos encontrar. Quando tudo estiver esquecido, 
podereis retornar ao castelo de D. Fernando em paz.
     Ela suspirou:
      Quando chegar esse dia?
      Tende calma e esperai. Havemos de vencer!
      O que seria de mim sem vosso apoio?
      Mais recebo de vs. Sois a luz que brilha em minha cela solitria. A santa que me conduz mais perto de Deus!
     Tomou a mo dela e a levou aos lbios.
      Tende coragem. Cuidarei de tudo. Enquanto isso, procurai ganhar tempo com D. Fabrcio. No o irriteis inutilmente. Que Deus vos abenoe.
     Quando a serva entrou, admirou-se vendo o rosto corado e tranqilo de sua ama.
       um santo homem!  tornou ela com alegria.  Que bem lhe fez sua presena!
       sim, Maria.  um santo homem! Vai dar sua vida se preciso for para nos ajudar. Resolvemos fugir.
      Louvado seja Deus!  tornou a ama com entusiasmo.  Finalmente, senhora, sereis libertada de tanto sofrimento. Vou agora buscar um caldo quente. Deveis recuperar 
vossas foras. A fuga exige preparao.
      Tens razo. Estou com fome. Tomarei o caldo.
     A aia sorriu feliz. At que enfim sua ama saa da prostrao e demonstrava vontade de viver.
     D. Gervsio, a partir desse dia, comeara a planejar a fuga. Mas Fabrcio, temeroso de ser surpreendido por seu credor, transformara o castelo em praa de guerra, 
colocando vigias em toda parte e tornando a fuga praticamente impossvel. Precisava esperar a oportunidade. Afast-lo do castelo, uma luta ou uma guerra seria bom, 
porquanto ele sairia com seus homens e tudo se arranjaria. Tinha j um local, longe dali, onde pretendia escond-la. Uma pequena casa de campo, que conservava secretamente, 
onde j realizara encontros amorosos clandestinos e reservava para esconder-se em caso de necessidade. L, Leonor ficaria com a aia e ningum a encontraria. Ento 
ele teria ocasio para conquistar seu amor.
     Tremia s em pensar nisso! O dia em que ela finalmente o amasse. Para conseguir o que pretendia, ai de quem se opusesse em seu caminho! Tinha o objetivo, e 
os meios no importavam. Lutaria com todas as armas at conquist-lo.
     Foi naquele dia que traou seu plano. Se o castelo fosse atacado por Arreda, ele aproveitaria a confuso para promover a fuga, quem sabe at com a ajuda do 
prprio D. Fabrcio. Esperou exultante.
     Mas Fabrcio no era homem disposto a esperar. Mandou chamar D. Ortega e entreteve com ele um acordo. O aventureiro comprometeu-se a exigir de Arreda satisfaes 
e invadir-lhe o castelo pela fora.
     D. Gervsio tentou dissuadi-lo, mas em vo. Sob a promessa de ouro e prata, D. Ortega juntou os homens e na calada da noite atacou a casa de Arreda, matando-o. 
Seus homens, surpreendidos, no tiveram tempo de defender-se e durante trs dias D. Ortega foi hspede de D. Fabrcio, festejando a vitria brutal sobre o inimigo. 
No tomara o castelo, porquanto D. lvarez e Arreda era muito estimado na regio. Assim que soubessem, certamente o atacariam. No lhe interessava lutar inutilmente. 
Tinham carregado tudo quanto puderam e liquidado D. lvarez. Resolvido o problema, D. Fabrcio pagaria uma boa soma. Comemoraram regiamente. Entretanto, na hora 
do pagamento, D. Fabrcio no possua a quantia que a ambio de Ortega pretendia. Insatisfeito, rugiu algumas ameaas. Mas a D. Fabrcio no interessava perder 
to grande aliado. Por isso, dominou o orgulho e, com malcia, procurando aparentar calma, convenceu-o a esperar. Garantiu que sua situao era temporria e que 
logo teria uma herana e poderia quitar sua dvida, prometendo compens-lo regiamente.
     D. Ortega, cujos olhos luziam ambiciosos, concordou, dando-lhe alguns meses de prazo. Quando partiram, D. Fabrcio comeou a pensar no problema. Preocupado, 
desabafou com D. Gervsio:
      Preciso arranjar um meio de contentar Ortega. Caso contrrio, teremos que lutar com ele, no que levaramos desvantagem. Seus homens so treinados, enquanto 
os meus no iam agentar muito tempo. Preciso pensar!
     D. Gervsio teve uma idia. Sugeriu:
      E a herana de vossa esposa? Acaso a recebestes?
      Miserveis. D. Fernando, tenho certeza, no deixou que nos chegasse s mos. No creio que D. Augusto fosse to cruel a ponto de nada deixar para sua nica 
filha. Acho que ele ficou com tudo.
      Eu tambm acho  tornou o padre, pensativo.  Se fsseis cobrar vossos direitos, talvez pudsseis solucionar a questo.
        fez ele satisfeito.  Tendes razo. Mas tenho certeza de que D. Fernando no me vai atender.  orgulhoso e me odeia. Sempre foi contra meu casamento com 
Leonor. Tudo fez para impedir. No vai me dar o que me pertence por direito!
      Nesse caso... tereis que enfrentar D. Ortega. Fabrcio deu um murro na mesa.
      Nem penseis nisso! Ele nos mataria como ces.
      Nesse caso, deveis ir e exigir vossos direitos. Quem sabe uma entrevista. Sem brigas.
      Sois um ingnuo. Acaso ele me receberia?
      Bem, neste caso no h soluo.
      A no ser...
      A no ser?
      A no ser que eu a tome pela fora! Se fizer um ataque de surpresa, poderei apanhar tudo quanto me pertence, at o castelo!
     Seus olhos brilhavam de cobia!
      Por que no pensei nisso antes? Orgulhoso e impertinente D. Fernando!
     O padre aconselhou:
      Cuidado, D. Fabrcio.  uma violncia. Achais necessrio?
      Claro. Eles nem sonham. Faremos uma surpresa! Tudo ser fcil.
     D. Gervsio exultou. Se ele sasse com os homens do castelo, no seria difcil promover a fuga enquanto todos estivessem preocupados com o combate e o castelo, 
desguarnecido.
     Preparou tudo, conversou com a aia, com Leonor, sem contar a verdade, mas dizendo que tudo estava indo bem. At que, dias depois, regressando ao castelo, soube 
a novidade. D. Fabrcio no iria em pessoa atacar o castelo de D. Fernando. Contratara Ortega, que interessado nos lucros se propusera a ajud-lo na empresa.
     D. Gervsio ficou furioso. Seus planos caram por terra. Foi ento que resolveu intervir diretamente. Preveniu D. Fernando das intenes do cunhado. Apesar 
de saber que o fidalgo era de paz e que no gostaria de tomar a iniciativa na luta, tentaria lev-los ao ataque. Se ele pegasse D. Fabrcio desprevenido, poderia 
acabar com ele. Enquanto isso, ele levaria D. Leonor para longe antes que descobrisse a presena do irmo no castelo. Enquanto Ortega se preparava, D. Fernando teria 
chance de ataque desbaratando os inimigos.
     D. Gervsio ia ansioso. Quando a carruagem chegou ao castelo de D. Fabrcio, o ambiente lhe pareceu calmo. Nada que evidenciasse preparao blica. Encontrou 
o fidalgo examinando algumas armas. Dissimulando, saudou-o com respeito. Convidado a sentar-se e a tomar um copo de vinho, perguntou aparentando zeloso interesse:
      Parece que tudo est calmo e resolvido. Por acaso j solucionastes vosso problema?
     Fabrcio deu de ombros:
      Claro. Ortega vai reunir os homens que esto espalhados. Sabeis que depois de uma bravura destas, como a que fizeram a D. Arreda, se espalham para gozar os 
haveres e fugir  vingana do povo e da famlia ferida. Quando ficam sem nada, voltam a Ortega e "trabalham" de novo. Mas se ele necessita dos homens, tem uma senha 
e um lugar para os reunir.  um gnio, nosso Ortega. Por isso no posso perder sua amizade. Enquanto for meu amigo, vai defender meus interesses e podemos ficar 
em paz.
     O padre concordou, perguntando a seguir:
      Neste caso, ele vos vai ajudar?
      Claro. Pediu-me tempo porque quer que os homens descansem, e o povo est revoltado por causa de D. Arreda. Ele no quer aparecer por agora. Depois, no temos 
pressa. Se ele quer esperar, melhor. O que vou fazer  por causa dele. Assim, est tudo calmo. Quando ele achar conveniente, atacaremos.
     D. Gervsio procurou ocultar a preocupao. Afinal, se D. Ortega assaltasse D. Fernando e o matasse, de nada lhe valeria. O que precisava era um jeito de tirar 
dali D. Leonor. Enquanto D. Fabrcio estivesse por perto, colocava homens em vigilncia, pois temia a todo momento que algum o matasse. O que seria um alvio, pensou 
o padre, irritado.
      Padre, no sei como, mas operastes um milagre com minha mulher. Desde vossa visita est mais calma.
      Sabeis que D. Leonor  alma religiosa  tornou ele com ar compungido.  Fiz ela compreender que precisa submeter-se  vontade de Deus, amar e honrar seu senhor 
e marido.
      Isso mesmo. Para isso vos tenho recebido. Agora, ide v-la e vamos ver se a convenceis a me receber melhor.
     Outra coisa no queria o padre, que, olhos baixos, foi ter  saleta de Leonor. Encontrou-a melhor e mais disposta. As manchas arroxeadas tinham desaparecido 
e ela lhe pareceu calma e mais forte.
     No passou despercebido  perspiccia do padre que ela estava mais galante. Penteara-se com mais cuidado e trazia algumas jias delicadas.
     O padre exultou. Para quem teria ela se enfeitado? No seria para o marido, certamente. Com o corao batendo forte, pediu  aia que ficasse na porta, do lado 
de fora. Ia ouvi-la em confisso.
     Uma vez a ss, tomou a mo de Leonor e levou-a aos lbios com delicadeza e ao mesmo tempo com ardor.
      Roguei a Deus por vossa sade e ele me atendeu  ajuntou, fitando-a com paixo.
     Ela ruborizou-se e baixou o olhar. D. Gervsio sentia o corpo formigando de desejo, a proximidade dela o atordoava, tirando-lhe o raciocnio. Apesar de habituado 
a conter-se, era-lhe difcil, naquele momento.
      Por Deus, padre  murmurou ela tmida , aguardava ansiosamente vossa presena para saber o que fazer.
      D. Leonor  murmurou ele, sentindo o corao descompassado , no tenho pensado noutra coisa.  mais forte do que eu. No terei sossego enquanto no vos tiver 
libertado dessas cadeias.  Tomou as mos dela.  Sabeis que farei tudo para vos ajudar! Tenho perdido o sono, procurando um meio para vos tirar desta priso. Mas 
confiai em mim que vos servirei fielmente at a morte.
     Ela estremeceu. A dedicao fervorosa daquele homem que todos consideravam poderoso e forte era-lhe confortadora. Jamais Leonor conhecera um sentimento de amor. 
A servido daquele homem a comovia, e a chama ardente de seus olhos despertara uma inquietude e uma emoo que ela no saberia definir.
     Era um padre! Que pecado! Certamente, ele deveria ser apenas um amigo dedicado. Mas no teve foras para tirar as mos quando ele as segurou com ardor e sentiu 
um frmito diferente ouvindo sua respirao ofegante, sentindo o fogo de sua emoo a lhe envolver o corao.
     Leonor estava perturbada. Apesar da exaltao, Gervsio conseguiu controlar-se. Temia precipitar-se, apesar de sentir a emoo que despertara nela. Homem experimentado, 
sabia-a despreparada para que ele extravasasse sua paixo. Contudo, no pde evitar um impulso ardente e pousou os lbios quentes nos dela de leve, beijando-a docemente, 
para afastar-se em seguida, caindo de joelhos a seus ps:
      Perdo, senhora, perdo. Sou um pobre pecador! Sonhei com essa hora, embora tenha lutado. No tornar a acontecer, eu juro!
     Leonor estava atordoada. Aquele beijo fora diferente de tudo quanto j sentira. Uma onda de emoo a acometeu com tal violncia que ela assustada afastou-se, 
procurando serenar a avalanche.
      Por favor  murmurou ela sem saber o que dizer. Ele tornou com voz triste:
      Depois do que fiz no devo mais voltar aqui. Certamente no me perdoareis. Vou me penitenciar! Por favor, D. Leonor, no h malcia em meu corao. Sois to 
bela, to pura, que eu no resisti, beijei-vos como a uma santa! Sois a santa de meu altar! Mas se no posso me conter, no mais virei aqui perturbar vosso sossego. 
Nunca mais me vereis.
     Ela sentiu-se tomada de desespero, foi at ele e procurou ergu-lo do cho:
      Por favor, padre. Sois meu nico amigo e nica esperana. Se me abandonais, a vida no ter mais razo de ser. Por favor! No deveis fazer isso. Posso compreender 
vosso deslize.
     D. Gervsio lentamente levantou-se e passou a mo sobre os olhos para enxugar as lgrimas. A aflio dela o encheu de esperana. Seu corao exultava de felicidade.
      Senhora! Mandai e eu obedecerei. Sou vosso escravo. Se quiserdes, tudo eu farei por vs, por vosso amor e por vossa felicidade.
     Leonor no continha as lgrimas, presa de grande emoo.
      S vos peo que no me abandoneis. Eu no teria mais foras para viver!
     Gervsio segurou a mo dela e olhou-a nos olhos com todo o ardor de seus sentimentos represados.
      Seja, D. Leonor. Ainda que me custe a morte, farei vossa vontade. Mas como lutar contra esse amor que me enlouquece? Como estar a vosso lado sem me ajoelhar 
a vossos ps e beijar a fmbria de vossos vestidos? Eu que gostaria de ter o paraso para vos oferecer e que nada tenho seno um corao dorido e despedaado?
     Leonor tremia como folha aoitada pelo vento. A fora daqueles olhos a magnetizava, despertando-lhe emoes violentas das quais nunca se julgara capaz. Tomada 
de incontida emoo, Leonor apertou com fora a mo que segurava a sua, enquanto dizia:
      Agradeo-vos e aceito o sacrifcio. Vossa presena trouxe novo alento a minha pobre vida. Nunca tive ningum que me amasse com essa dedicao e essa pureza. 
Ajudai-me. No me abandoneis!
      Podeis confiar em mim. Estou trabalhando para vossa libertao. Se tudo der certo, dentro em pouco estareis livre de vosso cativeiro. Por enquanto, tende 
pacincia com D. Fabrcio.
     Leonor estremeceu:
      A paixo dele me arrasa. Tenho-lhe nojo. No suporto sua presena.
     O padre exultou:
      Tendes razo. Ser por pouco tempo.
      No posso ser tolerante com ele porque cada vez que fao isso ele se apossa de mim com uma loucura que me mata. No posso suportar seu contato!
     Violenta onda de cime invadiu o corao do padre:
      No deveis permitir que ele cometa esse pecado. O amor  sagrado e no deve ser enxovalhado dessa forma. O amor  um sentimento delicado e profundo, que coloca 
o corao em um simples beijo, quando a alma se funde no mesmo abrao! Ah! Se eu pudesse, Leonor!... Se eu pudesse ensinar-te o que  o amor!
     Ele falava perto dela, esquecido do tratamento cerimonioso, ardente e apaixonado.
     Leonor, olhos semi-cerrados, sonhava com emoes novas e inesperadas que brotavam em seu peito com violncia.
      Conheceste j o amor?  indagou ele com ingnua timidez, baixando os olhos para que ela no lhe visse a malcia.  Eu o conheci agora, ao estar a teu lado! 
Perdoa-me, agora devo ir-me. No resisto ao fascnio de tua presena!
      Volta breve!  pediu ela, e ajuntou apressada:  Estou ansiosa para fugir daqui.
      Farei tudo para tirar-te daqui o mais rpido possvel.
     Num arroubo, beijou-lhe as mos com ardor e afastou-se rapidamente como para espantar uma tentao maior. Na verdade, ele a custo resistira ao desejo de tom-la 
nos braos. Sentiu que ela no mais resistiria a seu afeto. Porm convinha-lhe que ela pensasse no assunto, que desejasse conscientemente estar com ele, que o amasse.
     Nunca sentira por nenhuma mulher aquela paixo to violenta. Queria-a para sempre. Estava exultante. Ela estava aceitando seu amor! Se a tivesse ao lado com 
freqncia, dentro em breve teria alcanado seus objetivos.
     Esse pensamento enlouquecia-o, imaginando o ardor que vira nos olhos dela, ao mesmo tempo que o envaidecia. Ela no havia ainda amado a ningum. Ele seria absoluto!
     Saiu do castelo disposto a tudo. Sem ao menos repousar, alegando afazeres inadiveis, retornou a casa de D. Fernando. Pelo caminho foi imaginando como fazer.
     Ao chegar, era j noite fechada, e apesar de j se ter recolhido, D. Fernando foi receb-lo pessoalmente. O padre estava plido e cansado. As emoes, o esforo, 
a viagem davam-lhe aspecto abatido que ele acentuou procurando dar  fisionomia ar de preocupao.
      E ento?  perguntou D. Fernando assim que o viu acomodado com um copo de vinho entre os dedos.
     O padre suspirou:
      Infelizmente, as novas no so boas. D. Fabrcio meteu-se em apuros com D. Ortega e como j vos disse pretende atacar vosso castelo para pegar vossos bens, 
porquanto alega que com certeza metade do que possuis pertence a sua mulher.
      Ento, ele insiste!
      Insiste. E ainda no atacou porque os homens de Ortega espalharam-se depois do que fizeram a D. lvarez, para gastar em farras o ouro que roubaram. Mas Ortega 
j foi reunir os homens, e assim que os tiver, partiro para o ataque. Ah! D. Fernando, so bandidos cruis! Precisamos evitar essa chacina contra os vossos!
     D. Fernando estava plido. A sanha daqueles desordeiros era conhecida. Ele temia pelos seus.
      Ainda h mais! Vossa irm D. Leonor est sofrendo muito. Consegui convenc-la e ela suplicou-me que a ajude. Pediu que vs suplicasse auxlio. Quer fugir.
      Leonor?  tornou ele com doloroso acento.
      Sim. Ela no suporta mais. Tinha o corpo cheio de manchas roxas. Aquele homem  uma fera. D. Leonor garantiu-me que, se no conseguir fugir, mata-se. Prefere 
a morte  violncia a que est sendo submetida. Contou-me entre soluos que ele a tem submetido a prticas degradantes, espancando-a quando, revoltada, ela quer 
fugir a seu assdio. D. Fernando, trata-se de um homem anormal! Infelizmente no ouso tocar neste assunto, que minha castidade se recusa a aceitar, mas eu a ouvi 
em confisso! Confesso que foi horrvel! Precisamos salvar a pobre senhora.  um ato de Deus!
     D. Fernando,  medida que o ouvia, sentia crescer dentro de seu ntimo o rancor que sempre tivera pelo cunhado.
      Porco!  gritou enfurecido.  Irei at o castelo. Vai ajustar contas comigo!
     O padre exultou, mas procurou dominar-se.
      Tenho receio. D. Fabrcio  homem violento. No vai aceitar vossa intromisso. Precisamos agir depressa, antes de Ortega reunir os homens. Posso ajudar-vos. 
Mas o prudente seria um encontro com ele em algum lugar, j que seria perigoso vossa presena no castelo dele e ele certamente teria receio de vir at aqui. Poderamos 
arranjar esse encontro e simular negociaes com a herana. Ele sairia do castelo para esse encontro e eu poderia ajudar D. Leonor a fugir. Lev-la-ia para um convento 
onde ele no a acharia e onde ela poderia viver em paz at que tudo fosse esquecido. E, quem sabe, nesse encontro vossos problemas seriam resolvidos.
      No quero conversar com aquele patife!  tornou D. Fernando colrico.  Se o vejo, mato-o como a um co!
      Deveis ponderar! Deus determinou que no se deve matar. Sois cristo. S deveis faz-lo em defesa prpria.
      No teria calma para falar com ele. No teria nada a propor-lhe. A voz do padre era persuasiva:
      Podeis ouvir o que ele disser. Contemporizar para que eu possa libertar D. Leonor. O drama da pobre senhora me aflige muito. J pensastes se ela realmente 
vier a matar-se? Como ficaro nossas conscincias?
     Um arrepio passou pelo corpo de D. Fernando. O rosto aflito e ingnuo da irm no lhe saa do pensamento.
      Fazei isto por ela, que me mandou aqui suplicar vossa ajuda!
      Seja  concordou o fidalgo.  Mas como entrar em contato com ele? Certamente vai desconfiar.
      Deixai comigo. Arranjarei tudo sem que ele desconfie.
      Quanto trabalho estamos dando a Vossa Reverendssima.
       obrigao, D. Fernando.  dever ajudar aquela pobre senhora! Naquela noite, o padre dormiu tranqilamente. Tudo ia muito bem e a conquista de Leonor era 
uma questo de tempo.
     
     
Captulo VIII
     
     Carlos estava intranqilo e nervoso. No concordava com a idia de o pai sair ao encontro de D. Fabrcio. Apesar de preocupado com a sorte da tia, contava encontrar 
outra sada para libert-la, sem colocar em risco a segurana do pai.
     D. Gervsio partira no dia seguinte e trs dias depois retornara, com um recado de D. Fabrcio pedindo-lhe um encontro em local a ser combinado para discutir 
assuntos de famlia. D. Fernando concordou e mandou dizer que estaria dali a dois dias a sua espera na taberna do Leo Dourado, para ouvi-lo. Carlos tentou dissuadir 
o pai.
      Pode ser uma cilada. No confio naquele padre.
      Que idia! O pobre homem s quer ajudar Leonor. Vai expor-se por nossa causa. Depois, levo alguns homens e nada me acontecer.
      Por que um local to distante?
       melhor. No o queria por perto do castelo.
     Carlos sentiu um aperto no corao.
      Deixai-me ir em vosso lugar.
      No posso. O assunto tem que ser tratado por mim.
      Nesse caso, escolheremos homens de nossa confiana.
      Concordo.
      Eu irei convosco e permanecerei oculto se assim o desejais.
      No. Fcars para defender o castelo. Pode ser que Fabrcio intente afastar-nos daqui para Ortega atacar.
      Tendes razo. No tinha pensado nisso.
      Por isso no pretendo levar muita gente comigo. Tomarei precaues, podes estar certo de que saberei defender-me. Tu deves estar alerta. Fabrcio  traioeiro 
e mau.
      Ficai tranqilo. Estarei de olhos bem abertos.
     Juntos ento traaram planos de defesa, pensando numa maneira de fazer Fabrcio compreender de uma vez por todas que a nada tinha direito. D. Fernando sabia 
a empresa difcil, mas seu objetivo era o de ajudar a salvar a irm. Assim, queria ganhar tempo para que o padre pudesse ajud-la a fugir.
      O melhor ser no irrit-lo  tornou Carlos, lembrando-se da astcia dos ciganos, que sempre conseguiam o que queriam.
      Sabes que no sou homem de rodeios. O que tenho a dizer digo logo.
      Assim podeis irrit-lo ainda mais sem tirar nenhum proveito.
      Queres que eu seja falso?
      No, pai. Sugiro que sejais esperto. Ele  maneiroso e fingido, se abrirdes logo o jogo, vos colocais em situao desfavorvel que ele aproveitar certamente. 
Usai as mesmas armas, e assim podereis derrot-lo.
      Jamais poderia ser covarde com ele!
      No precisais chegar a tanto. Basta conservardes vossa posio com dignidade e no vos irritardes com ele, diga o que disser. J pensastes com que alegria 
ele vos veria perder a calma e at quem sabe dar-lhe ocasio para vos matar? No ser isso o que ele pretende? J pensastes que depois ele se atiraria sobre esta 
casa, tentando apossar-se de tudo?
     D. Fernando baixou a cabea pensativo. Depois de alguns instantes tornou:
      Tens razo. Vai ser difcil dominar o desprezo e a raiva que ele me causa. Todavia, procurarei no fazer seu jogo sujo. Conservarei a cabea fria e os olhos 
no objetivo.
      Depois  tornou Carlos com tranqilidade , quem sabe isso o acalme.  ambicioso, e se vir que no o repelimos com violncia talvez espere uma reconciliao 
e isso nos livre do problema temporariamente. Com tia Leonor a salvo, poderemos pensar algo melhor.
     D. Fernando trincou os dentes com raiva.
      Meu desejo era mat-lo como a um co. Assim livraramos Leonor para sempre de sua odiosa presena.
     Carlos concordou pensativo.
      Tendes razo. Mas precisamos ser prudentes e esperar o momento oportuno.
     Quando D. Gervsio radiante deu a notcia a Fabrcio, seu rosto distendeu-se em largo sorriso.
      Padre, isso merece comemorao! Bebamos juntos. Enquanto bebiam, tornou com voz amvel:
      Saberei vos recompensar por vossa dedicao. No sei como, mas tendes conseguido coisas admirveis. Fernando  duro e me odeia. Concordar com o encontro  
um feito nico.
      Sei argumentar, D. Fabrcio. No falei muito de vs, mas de D. Leonor. Comovi o corao de D. Fernando, dizendo que vossa esposa sofre muito.
      Como assim?  tornou Fabrcio meio irritado.
      Disse-lhe que ela vos ama muito e que deseja ver essa desavena familiar esquecida. Que gostaria de voltar a visitar a casa em que nasceu e rever a famlia. 
E que vs estais querendo fazer-lhe a vontade, pois que muito a amais. Disse-lhe ainda que vossos negcios esto indo mal e que D. Leonor gostaria de tratar dos 
haveres de sua herana.
      D. Gervsio! No   toa que sois padre. Soubestes tecer o enredo. Que idia!
      Por acaso terei agido mal?
      De modo algum! Me agradaria quebrar o orgulho de D. Fernando e voltar quele castelo, que um dia ainda ser meu.
      Por isso pensei que vosso encontro com ele talvez possa ser o comeo de uma nova vida. Sabeis que, como padre, agrada-me pacificar as famlias.
     D. Fabrcio sorriu maneiroso. A boa-f do padre era-lhe providencial. Se contemporizasse com o cunhado, poderia conhecer-lhe os domnios e os hbitos de tal 
forma que facilitaria tudo quando chegasse o momento de Ortega atacar. E ainda salvaria sua reputao diante de El-rei, frente ao qual D. Fernando era respeitado 
e tido com amizade.
     D. Gervsio sorvia os goles de vinho pensando em Leonor. Precisava v-la, ultimar preparativos. D. Fabrcio foi-lhe de encontro aos pensamentos:
      Preciso que useis vossos argumentos com Leonor. Parece melhor, est mais linda  seus olhos brilhavam cobiosos , mas no quer ver-me. Foge de mim. At agora 
contive-me, mas hoje quero v-la! Antes de partir amanh cedo. Deveis convenc-la a aceitar-me, seno nem sei o que farei. Hoje irei a seu quarto. Padre, preparei-a 
porque no respondo por mim.
     O rosto de Fabrcio se contraa em ricto angustiado, seus olhos brilhantes refletiam determinao e paixo.
     O padre procurou dissimular o rancor. Tinha mpetos de mat-lo ali mesmo. Conteve-se a custo e procurou dar  voz um tom natural e indiferente:
      Por favor. D. Fabrcio. A violncia mais a far temer vossa presena. D. Leonor  mulher delicada. Tem medo de sentimentos fortes. H que ser paciente com 
ela, se de fato desejais seu amor.
      No suporto mais essa situao.  minha mulher. Ter que me obedecer.
      Isso no basta. Se desejais seu amor, h que conquist-lo.
      No importa. Ide v-la e avisai-a que hoje cobrarei meus direitos, e que ela no se recuse!
     Com o corao aos saltos o padre adentrou a saleta de Leonor pedindo  aia que tomasse conta da porta do lado de fora. Correu o ferrolho. Leonor o esperava, 
olhar ansioso, mos estendidas.
      Padre, finalmente!
      D. Leonor!  tornou ele beijando-lhe as mos com ardor. Sentaram-se no pequeno sof, lado a lado.
      Esperava-vos com impacincia!
      Eu cuidava de vossa libertao  tornou ele com enlevo. Olhava-a embevecido, esquecido de tudo. Ela estava linda! Seus olhos negros e aveludados brilhavam 
de emoo. Sua pele alva e delicada coloria-se revelando o que lhe ia na alma.
      Leonor! Ah! Se eu pudesse! Se eu pudesse... Colocaria o mundo a teus ps! Traria as estrelas do cu para beijar-te os cabelos, viveria toda minha vida beijando 
o cho onde pisas!
      Por favor, Gervsio. No digas estas coisas! No posso resistir. Tenho pensado na grandeza de teu amor. Eu que nunca tinha conhecido essa emoo! Eu que no 
acreditava que esse sentimento pudesse existir, vejo que estava enganada! Sinto que tua presena me enche de alegria, me aquece o corao. Eu que nunca senti o corao 
bater por ningum, eu que sempre vivi encerrada em minha solido, agora sinto dentro de mim tanta emoo! Tanto afeto! Deus, s um padre. Que pecado! Serei castigada 
por isso.
     Gervsio parecia ter adentrado o paraso. Sem conter-se, apertou-a nos braos com fora beijando-a repetidas vezes com loucura.
      Leonor  tornou com voz rouca , o amor no  pecado. Foi Deus quem o criou. Fujamos daqui. Juntos encontraremos a soluo. Se for preciso, deixo a batina. 
No poderei mais viver sem ti.
     Ela permanecia atordoada e confusa. Sentimentos contraditrios sacudiam-na com violncia. Amava aquele homem com uma fora que nunca se julgava capaz. Odiava 
o marido. Agora mais do que nunca no suportaria seu convvio. Por outro lado, estava pecando contra Deus: alm de ser casada e estar se tornando adltera, estava 
desviando do caminho de Deus um de seus ministros. Apesar do conflito, ela no o pde repelir. Sua fome de amor, sua sede de carinho, de apoio, de compreenso era 
to grande, e a dedicao dele a nica alternativa, que ela se apegou, procurando calcar a conscincia, tentando justificar-se intimamente.
     Gervsio acariciava-a com delicado carinho. Homem experiente e sentimental, sabia agradar a uma mulher fazendo-a sentir-se amada e feliz.
     Ela esqueceu seus receios e no repeliu o padre. Dcil e apaixonada, entregou-se a ele, deslumbrada com a prpria emoo que ele cultivou com delicadeza.
     Foi um deslumbramento. De repente o padre lembrou-se de que precisava ir e sobre eles pesava a ameaa de Fabrcio. Agora, mais do que nunca, o desejo dele era-lhes 
odioso.
      Precisamos evitar isso!  tornou o padre pensativo.  Acho que tenho uma idia! Vou dizer a D. Fabrcio que ests muito doente. Se ele acreditar, tudo estar 
resolvido. Amanh cedo dever partir para o encontro com D. Fernando, e ao regressar, estaremos longe.
     Gervsio tranqilizara Leonor sobre esse encontro que preparara para pacific-los.
      Ele no acreditar! Vir ver-me e ento tudo ser intil.
      Meu amor  tornou ele com arroubo ,  preciso mais um sacrifcio! Achas que tua aia nos ajudar?
      Certamente.
      Chama-a.
     Leonor abriu a porta e a um sinal a aia entrou:
      Chegou a hora da fuga!  tornou Gervsio em voz baixa. Precisamos de tua ajuda!
      Farei tudo que vs me ordenardes  tornou ela atenta.
      Conheces uma erva mida, do mato, que quando a tomamos nos faz inchar e cocar? No sei o nome.
      Sei qual . Minha me me ensinou a separ-la das outras.
      Ouve bem: D. Fabrcio vai partir amanh cedo e estar ausente por dois dias. Vamos aproveitar para fugir. Vai levar alguns homens e poderemos burlar a vigilncia. 
Mas ameaa D. Leonor esta noite. Quer vir ter com ela!
      Valha-me Deus!  tornou a aia, assustada. Ficava apavorada cada vez que D. Fabrcio ia ver a esposa.
      Vou impedi-lo. Dizer-lhe que ela adoeceu. Tu colhes essa erva, fazes um ch e ela toma. Assim,  noite estar com aparncia de doente. Certamente ele a deixar 
em paz. Conheo-o, tem medo de adoecer.
      Bem pensado, senhor padre!  tornou a aia, feliz.  Voltarei em poucos instantes e certamente pregaremos boa pea a D. Fabrcio.
      Agora me vou  tornou o padre quando se viu a ss com Leonor.  Vou passar a noite aqui e estarei pensando em ti. Amanh cedo partirei com D. Fabrcio para 
que no desconfie. Quando nos separarmos, como se eu fora para minha casa, regressarei e, ento, tudo pronto, partiremos rumo  felicidade!
      Parece impossvel!  tornou ela ansiosa.  Mal posso esperar! D. Gervsio comps a fisionomia e saiu. Tentou recolher-se para os aposentos que lhe estavam 
reservados sem ser visto, mas de propsito Fabrcio esperava na sala.
      E ento?  tornou ele rspido.  Levastes l tanto tempo! Pensei que no fsseis mais sair.
      Quando esperamos com ansiedade, o tempo nos parece muito longo  justificou ele. Estaria D. Fabrcio desconfiado? Com voz natural continuou:  Foi trabalho 
rduo. D. Leonor  difcil e se mostrava irredutvel.
     D. Fabrcio fez um gesto irritado:
      Tantas atenes a uma mulher! Sou um tolo. O melhor  acabar com isto de uma vez. Ter que aceitar-me quer queira quer no.
     D. Gervsio tornou com voz tranqila:
      Tende calma. Tudo se arranjar da melhor forma. Tentei convencer D. Leonor de que precisa ser dcil a vosso carinho. Que uma mulher crist precisa amar o 
marido e ser boa esposa.
      E ela?
      Ela dizia que no era possvel porque vs a maltratais e eu mostrei-lhe que ela era a culpada. Que vosso amor se sentia ofendido, vossa dignidade ultrajada 
porque ela no vos d o amor que vos  devido. Que ela mudasse, e correspondesse a vosso amor, haveria de sentir que eu dizia a verdade e que serieis muito bom para 
com ela.
     Fabrcio sorriu satisfeito. O padre tocara-lhe o ponto fraco.
      Isso mesmo.  isso que eu tenho tentado dizer-lhe. Seu desprezo me exaspera, sua frieza aumenta meu ardor e minha paixo. E ento?
      Custou, D. Fabrcio. Demorou, mas afinal ela pareceu compreender. Hoje  noite, quando fordes a seu quarto, ela no vos vai repelir. Vai tentar novamente, 
vai procurar vos amar. Agora, depende de vs.
     Fabrcio levantou-se da cadeira exultante.
      Finalmente! Conseguistes. Hei de mostrar-lhe como sei amar! O padre baixou o olhar para encobrir o brilho de rancor.
      Se me permitirdes, gostaria de repousar um pouco. Estas viagens so cansativas. Mal dormi a noite passada.
      Naturalmente, D. Gervsio. Tendes o direito. Podeis crer que vos recompensarei regiamente.
     O padre fez um gesto largo.
      S quero fazer o bem  tornou com voz humilde. E retirou-se em seguida, enquanto em seu corao cantava a alegria do amor correspondido e de seus mais ardentes 
sonhos que em breve se tornariam realidade.
     Enquanto isso, a aia j preparara o ch e o levara a Leonor, que de boa vontade o ingeriu. Meia hora mais tarde, sentia a cabea rodar, enquanto seu corpo se 
cobria de vermelhido. Tornou-se febril. Deitou-se tranqilamente, enquanto a ama saiu  procura do padre, colocando-o ao par do acontecido. Imediatamente este foi 
procurar D. Fabrcio, informando-o da doena da esposa.
      D. Fabrcio, a aia de D. Leonor procurou-me para acudir vossa esposa, que adoeceu. Antes de v-la, quero vossa permisso.
     Fabrcio resmungou:
      Doente, ela? No estava bem horas atrs quando l estivestes?
      Estava. Mas a aia foi agora pedir ajuda, que ela se sente mal.
      Vamos ver isso!
     Com semblante fechado, irritado, Fabrcio foi  frente e os outros dois o seguiram. No leito, Leonor realmente parecia mal. Seu rosto inchara e uma vermelhido 
o cobria, seus olhos brilhavam parecendo ter febre. A respirao acelerada e difcil dava-lhe desagradvel aspecto. Nem parecia a mesma mulher.
     Fabrcio no se aproximou muito do leito. D. Gervsio com ar preocupado tomou o pulso da enferma e perguntou:
      O que sentis, D. Leonor?
      Mal, senhor padre. Tenho a tontura e estou enjoada. Arde-me a pele e a lngua est grossa e seca. O que achais que tenho?
     O padre ficou srio e respondeu com voz um pouco preocupada.
      No  nada. Vamos ver o que temos no castelo, e prepararei um remdio. No deveis temer. Logo mais tudo vai passar.
     Fabrcio estava plido. O padre saiu para buscar o remdio, recomendando  aia que no sasse de perto da ama. Fabrcio o acompanhou. L fora, inquiriu temeroso:
       grave, D. Gervsio? Parece-me mal. O padre abanou a cabea:
      Estou preocupado, D. Fabrcio. A peste est dando muito este ano na Galcia. Pode bem comear por aqui.
     Fabrcio empalideceu.
      E esta agora! Ainda bem que parto amanh. D-me vontade de seguir hoje mesmo. Acho que farei isso. Irei agora mesmo. Afinal, quanto antes melhor.
      Se me autorizsseis, gostaria de tratar D. Leonor. Sabeis que detenho conhecimentos de medicina.
      Claro, claro  fez ele distrado , tendes minha autorizao. Fazei o que vos parecer melhor. Se ela estiver pesteada, devereis tomar os devidos cuidados. 
Mandai avisar-me sobre a doena de Leonor. Quero saber. Disso depender meu regresso.
     O padre exultava. Por que no pensara nisso antes? Teria o tempo disponvel para a fuga e toda a liberdade em prepar-la.
     A notcia da doena de Leonor correu logo e muitos, assustados, queriam acompanhar D. Fabrcio. No meio da tarde daquele mesmo dia Fabrcio partiu, acompanhado 
de dez homens bem armados. No se despediu da mulher. Estava mais interessado em livrar-se de um possvel contgio.
     Foi exultando que Gervsio adentrou o quarto de Leonor. Fechou a porta e tomou-lhe a mo com entusiasmo:
      Tudo vai como planejamos! D. Fabrcio antecipou a partida. Autorizou-me a cuidar de tua sade! Estamos livres!
     Leonor sorriu:
      S acredito quando estivermos longe daqui.
      Partiremos o quanto antes. Como te sentes?
      Tonta, mas j estive pior.
      Isto vai passar. Amanh j no ters mais nada. Deixa comigo.  Chamou a aia:  Maria, comea a arrumar as coisas de D. Leonor. Partiremos ao alvorecer.
      E os homens de Fabrcio?  perguntou Leonor preocupada. Sabia que quando se ausentava o marido os encarregava de vigi-la severamente, no lhe permitindo 
sair do castelo sequer.
      Sei como fazer as coisas. Partiremos tranqilamente. No devemos levar muita bagagem. No quero despertar suspeitas.
       Concordo. Depois, tudo aqui me desagrada, lembra-me a presena odiosa de Fabrcio. Levarei minhas jias de famlia, que mantenho escondidas da ambio dele, 
alguns vestidos.
     A aia sorria embalada pela alegria de sua ama. Sair daquele lugar representava o paraso. At ela pensava em fugir dali, mas como abandonar D. Leonor to indefesa 
e s? Agora com a ajuda do padre tudo seria realidade.
     D. Gervsio queria abraar Leonor, mas diante da serva mantinha-se discreto. No queria precipitar as coisas. O resto da tarde passou entre os planos do futuro 
e a alegria da liberdade.
     A noite desceu e ia alta quando o padre saiu dos aposentos de D. Leonor para tomar algum alimento. Com ar preocupado e compungido fez a refeio.
      D. Gervsio, permiti-me?  inquiriu o servo com respeito.
      Fala.
      Como vai nossa ama?
     Gervsio baixou a cabea com ar triste:
      Mal, meu caro, muito mal.  Olhando para os lados, continuou em voz baixa:  Temo pelo pior. Guarda segredo, no digas a ningum, mas acho que ela est pesteada!
     O servo estremeceu:
      Que horror!
      No contes nada a ningum. Est muito mal, irreconhecvel.
      Valha-nos Deus!
      Vai valer, meu caro. No te preocupes. Sei de um lugar onde as freiras cuidam dos pesteados. Estou pensando em levar D. Leonor. Se ao menos D. Fabrcio estivesse 
aqui!...
      Mas ele vos autorizou a cuidar dela. Eu o ouvi!  tornou o servo apressado.
      L isso  verdade! Mas numa hora dessas, resolver isso,  muito grave! Por outro lado, no posso abandonar D. Leonor nesse estado!
      Por favor, senhor padre! Tenho mulher e filhos. Tende piedade de ns. Se a doena se alastra!
     O padre suspirou pensativo.
      Est bem. Vou correr o risco.  preciso salvar todas as famlias do castelo. Levarei D. Leonor ao hospital da Ajuda, onde as bondosas irms cuidam dos doentes. 
 retirado, no meio da mata, mas no faz mal. Se Deus me colocou aqui, foi para vos salvar! Farei o que puder.
     O servo estava quase chorando. Mandou preparar a carruagem do padre.
      Partiremos pela madrugada. No quero que a vejam pelas estradas, seria perigoso. Coloca uma caixa com vveres, a viagem ser longa e penosa.
      Ficai tranqilo  tornou ele.  Cuidarei de tudo. Colocarei o bom vinho de que Vossa Reverendssima tanto gosta.
      s um bom homem, Jos. Que Deus te abenoe.
     O padre estava radiante. Quando estava tudo pronto e Leonor vestida, depois de levarem a bagagem que a serva colocara na porta do quarto para a carruagem, Leonor 
saiu apoiada na aia, gemendo e andando com dificuldade.
     Os homens a olharam de longe, receosos. Viram o suficiente para se assustar. O rosto manchado e vermelho de sua ama nem parecia ser da bela mulher que tanto 
gostavam. Foi com alvio, embora com lgrimas nos olhos, que viram a carruagem se afastar.
      Assim que puder, trarei notcias  tornou o padre ao despedir-se.  Avisai a D. Fabrcio que fiz o possvel para evitar isso. Mas diante da vontade de Deus 
nada podemos.
     Assim que estavam longe, Jos ordenou que queimassem as roupas da cama, de uso de D. Leonor. Era preciso preservar a todos.
     Assim que a carruagem ganhou a estrada, Leonor suspirou aliviada.
      Nem acredito! Parece um sonho!
      Eu disse que te libertaria. Estamos livres! Iremos para um lugar onde D. Fabrcio nunca nos h de encontrar. L tudo ser diferente. Sers a rainha e a dona. 
Vers que linda casa e que maravilhoso lugar!
     A aia olhou-os um pouco surpreendida. Teria percebido bem? D. Gervsio e D. Leonor tinham mais do que amizade? Mas a ela isso no importava. D. Gervsio fora 
o amigo, o salvador, o heri. Estavam felizes. Iam viver!
     
Captulo IX
     
     Ao sair do castelo, Fabrcio ia preocupado. A doena inesperada de Leonor abatera-lhe os nervos. A entrevista com o cunhado o irritava e o colocava em tenso. 
Ia disposto a tentar uma aproximao. No lhe agradava brigar frente a frente. No queria arriscar-se a perder. Jogava sempre na certa. Por isso, tramava. No queria 
irritar o cunhado, que sabia teimoso e duro. Brigar naquela hora no lhe convinha. Se ao menos Leonor no tivesse adoecido! Se pudesse contar com seu apoio, certamente 
Fernando se abrandaria. Logo agora que Leonor parecia resolvida a recomear!
     Esporeou o cavalo com raiva. O animal gemeu e arrancou com fora. Fabrcio o dominou. Era madrugada quando chegaram a uma hospedagem e Fabrcio resolveu parar 
para dormir. No dia seguinte, seguiria viagem. Tudo precisava sair bem.
     Enquanto isso, Carlos, preocupado, vendo o pai preparar-se para partir, tornou pensativo:
      Pai, deixai-me seguir em vosso lugar!
      De modo algum. Para tratar com Fabrcio  preciso que eu v. Ns temos que resolver nossos problemas.
      Cuidado com ele. Sabes que  covarde e traioeiro.
      Por isso te quero por aqui, vigiando os nossos. No vou com inteno de brigar, embora isso me custe muito. Vendo-lhe a cara, tenho ganas de acabar com tudo 
de uma vez. Quero evitar manchar minhas mos com sangue. Leonor  minha irm. S farei isso em ltimo caso.
      Preparei dez homens para irem convosco.
      Bastam cinco. Prefiro que fiquem aqui. Sei me cuidar. Levo cinco dos bons e chega.
     Carlos no conseguiu convenc-lo. Quando afirmava uma coisa, no voltava atrs. A madrugada estava comeando a raiar quando D. Fernando saiu acompanhado de 
seus cinco homens de confiana. Carlos ficou preocupado. Porm nada podia fazer.
     Quando D. Fernando chegou  estalagem do Leo Dourado, D. Fabrcio j estava l. Apesar de no ser ainda a hora combinada, encontraram-se: Fabrcio comendo 
em uma mesa no canto da sala e Fernando ainda coberto pela poeira da estrada, acabando de chegar. Olharam-se por alguns instantes e Fernando procurou o dono para 
pedir pousada e comida. Fabrcio, vencendo a irritao, querendo ignorar o brilho de rancor nos olhos do cunhado, levantou-se com seriedade:
      Bem-vindo, D. Fernando. Aqui estou para vos falar. D. Fernando olhou-o de frente lutando para dominar-se:
      Aqui vim para isto. Mas ainda no  a hora marcada e eu estou cansado da viagem. Falaremos  noite. Pretendo lavar-me e repousar um pouco.
      Certamente  tornou Fabrcio cerimonioso.  Aguardarei o momento. Acho que poderemos jantar juntos. H uma sala reservada onde teremos toda a liberdade.
     D. Fernando pareceu hesitar, mas por fim concordou:
      Seja. Jantaremos juntos.
     Enquanto D. Fernando acompanhava o dono da taberna, Fabrcio sentou-se de novo, e tomando o copo de vinho, bebeu com prazer. As coisas pareciam andar bem. D. 
Fernando no vinha para brigar. Isso pudera perceber. Conhecia-o bastante para saber que no sabia fingir. No o suportava, isso lera em seu olhar, mas por algum 
motivo viera em misso de paz. Caso contrrio no teria aceito o jantar.
     Fabrcio comeou a acariciar seus planos ambiciosos. Toda a fortuna do cunhado ainda lhe passaria s mos! Por um instante assaltou-lhe o terror: e se Leonor 
morresse? Isso dificultaria muito as coisas. Ele no precisa saber que ela ia mal. Talvez nem tivesse tempo de descobrir, se tudo corresse como planejara. Chamou 
a moa que servia o vinho.
      Enche meu copo. Sabes onde est o fidalgo que chegou h pouco?
      Recolheu-se ao quarto, senhor. Ele sorriu, olhando-a com cobia.
      Ento tambm vou para meu quarto, se concordares em fazer-me companhia.
     Ela riu bem-humorada:
      Irei preparar-vos a cama  tornou envaidecida.
     Fabrcio concordou. Sorveu mais alguns goles de vinho e levantou-se. Afinal, encontrara um entretenimento at a hora do jantar. O lugar era aborrecido e o tempo 
custava a passar.
     D. Fernando, depois de lavar-se, estirou-se no leito. Estava cansado mas apesar disso teve dificuldade em conciliar o sono. A situao desagradvel em que se 
encontrava o irritava, e se no fora a vontade de ajudar Leonor, dificilmente teria concordado com aquele encontro. Afinal, viera para contemporizar, dar tempo a 
que Leonor fugisse. No concordava com o abandono do lar. Era extremamente conservador, mas o caso de Leonor, casada contra sua vontade com um homem perverso e de 
baixa moral, justificava sua participao na fuga.
     Apesar de no dormir, ficou deitado at a hora do encontro, queria retardar ao mximo o momento da odiosa entrevista.
     Quando procurou a sala reservada, Fabrcio j estava l, fisionomia descansada, esperando. Vendo o cunhado, levantou-se com gentileza:
      Espero que tenha aproveitado o repouso.
      Estou menos cansado, obrigado.
      Sentemo-nos  tornou Fabrcio servindo uma caneca de vinho e oferecendo-a a D. Fernando.  Tomei a liberdade de encomendar o jantar. Espero que seja de teu 
gosto.
     D. Fernando fez um gesto evasivo. Era-lhe penoso suportar semelhante situao. Homem rude, pouco afeito  hipocrisia dos sales, naquele momento se sentia desagradvel 
e indesejado. Sentou-se e embora desejasse terminar a entrevista o mais rpido possvel, sabia que para seus interesses o quanto mais demorasse melhor. Por isso, 
vencendo a repulsa, tornou com voz calma:
      Fui informado por D. Gervsio de que querias falar-me. Assunto urgente e de meu interesse.
     O outro, sorvendo um gole de vinho, concordou:
      Sim. Tenho estado preocupado por causa de Leonor. No tem estado bem ultimamente.
     D. Fernando teve um impulso de indignao. Controlou-se, contudo.
      O que se passa com minha irm? Est doente?
      No propriamente. Devo usar de franqueza e peo que me perdoes. No pretendo ofender-te.
      Fala sem rodeios  tornou D. Fernando um pouco exasperado.
      Ela est muito triste e saudosa da famlia. Tem chorado. E por mais que eu faa por torn-la feliz, est sempre triste suspirando pelos seus. Sabes que no 
temos filhos, e ela se ressente. Sei que no foste a favor de nosso casamento e por isso no queres manter relaes com nossa casa.
     Fabrcio falava em tom humilde e D. Fernando, apesar de tudo quanto sabia sobre o cunhado, no se pde furtar a uma onda de emoo lembrando-se da irm querida, 
abandonada  prpria sorte, suportando o peso de uma unio cruel e indesejada. Suspirando, Fabrcio continuou:
      Sei que estou me deixando levar pelo sentimento! Mas pensei que se Leonor pudesse viver em paz com a famlia, ver em teus filhos nossos filhos, na amizade 
dos teus um apoio, talvez se tomasse mais feliz. Sei que no me aceitas, e meu orgulho manda-me voltar-te as costas diante de tanta injustia. Porm tudo coloco 
de lado quando sinto a tristeza de Leonor, suas saudades, sua dor. Pedi este encontro para interceder por ela. Para que o passado seja esquecido e possamos nos tornar 
amigos, como deveria ter sido desde o incio.
     D. Fernando estava comovido, no por aceitar as palavras do cunhado, por sab-las falsas e acobertando sua tremenda ambio, mas pela primeira vez analisava 
o sofrimento da irm, lutando sozinha contra aquele covarde, relegada ao abandono pela prpria famlia. Teria agido bem no interferindo? Teria sido justo abandon-la 
quando mais necessitada era ela? Se tivesse mantido seu relacionamento com o cunhado, no teria tido melhores oportunidades para ajud-la?
     Sentiu-se envergonhado por seu procedimento, que julgava justo mas que agora reconhecia egosta e irrefletido. Sentiu enorme alvio ao pensar que, embora tarde, 
estava contribuindo para a libertao da irm, ainda que lhe fosse difcil.
     Fabrcio sentiu a emoo do cunhado e exultou. A conquista de seu objetivo era questo de tempo!
      De minha parte  enfatizou ele , prometo fazer tudo para ser-te agradvel.
     D. Fernando passou a mo pela testa, pensativo:
      A tristeza de Leonor me aflige. Pensei que ela nos houvesse esquecido. Sabes que a quero muito e que se ela no nos procurou foi porque no pde ou no quis. 
Nossa casa jamais se fechou para ela.
     Fabrcio fez um gesto largo.
      Sabes como . Ela no gostaria de ir a uma casa onde seu esposo no fosse recebido.
     D. Fernando sabia que fora ele quem a proibira de ir ao lar paterno em represlia a seu orgulho ofendido. Porm no estava interessado em brigar.
      Gostaria que pensasses no assunto e me desses uma resposta  completou Fabrcio com voz calma.
     D. Fernando permaneceu pensativo alguns instantes, depois tornou:
      J que usastes de franqueza, posso falar sem rodeios. Sabes que no aprovei o casamento de minha irm e por isso nos desentendemos. Achei prudente, naqueles 
tempos, afastar-me de vossa casa para que minha forma de pensar no interferisse na vida dela a teu lado. Leonor era muito amiga minha e sempre me consultava ao 
tomar suas decises. No aprovando o casamento eu no estava em condies de dar um conselho justo se ela me pedisse. Receei perturbar vossa paz familiar. Por isso 
quis cortar nossas relaes. Espero que compreendas. No gostaria de ter contribudo para tornar minha irm infeliz.
     Fabrcio procurou no demonstrar a raiva que sentia. Certamente, apesar da distncia, a influncia de D. Fernando sobre Leonor era grande e ele achou que fora 
essa recusa dele em apoiar o casamento que a fizera odi-lo e repeli-lo. Contudo, ele no perdia por esperar.
     D. Fernando prosseguia calmo, analisando seu proceder com sinceridade mais para si mesmo do que para o cunhado.
      Se eu soubesse que ela ia sofrer tanto, teria evitado isso. Ns pensamos de modo diferente. Sou homem rude do campo e no me interesso pela corte. s diferente 
e levas vida muito diversa da nossa. Uma amizade entre ns pode acabar mal. No pensamos da mesma forma! Se hoje voltarmos atrs, certamente amanh nos desentenderemos 
de novo. No vs que temos modo diferente de pensar?
      Sei disso. Sou homem da corte e considero obrigao a vida social, mas mudei muito nesses anos e me dedico s ao lar. Por Leonor, estou disposto a mudar ainda 
mais. No desejaria destruir novamente nossa amizade e desmerecer tua confiana, que alis nunca me honrou. Gostaria de ter essa oportunidade.
     D. Fernando tornou com voz firme:
      Que seja! Mas vamos combinar como proceder. Amanh retorno a meu castelo e dentro em pouco teremos a primavera. Mandarei um portador a tua casa para um convite 
a que venham passar alguns dias conosco. Leonor poder rever os que ama e a teremos ocasio de falar sobre esses assuntos. Desta forma prepararei os meus para vos 
receber.
     Fabrcio exultou. Jamais esperara conseguir tanto em to pouco tempo.
      No sabes como me comoves! Leonor vai ficar feliz!
     O jantar fora servido e D. Fernando comeu um tanto apressado e depois despediu-se cerimonioso. Se tudo desse certo, no tinha a inteno de mandar o convite 
e jamais esperara ver Fabrcio em sua casa. Desejava que Leonor tivesse conseguido fugir. Estava tranqilo quanto a isso. Sua conscincia no o acusava por ter colaborado 
com sua libertao.
     Dormiu bem naquela noite, aliviado pela misso j cumprida que lhe fora muito penosa, e na madrugada do dia imediato reiniciou a viagem de volta.
     Quanto a Fabrcio, estava alegre demais para dormir. Mandou chamar a garonete para fazer-lhe companhia e alegremente bebeu e comeu at altas horas para comemorar. 
Era dia alto quando acordou e resolveu ficar por ali mais alguns dias esperando notcias de Leonor. Estava cansado. Esperava que seu mal houvesse sido passageiro. 
Ela era agora a pea mais importante para a conquista da fortuna que ambicionava. Quanto a isso, sentia-se calmo e confiante. Tudo sairia conforme seus desejos. 
Esperaria notcias de D. Gervsio para poder voltar.
     Trs dias decorreram sem que Fabrcio recebesse qualquer mensageiro. Deduziu que certamente Leonor estava melhor e por isso no havia motivos para preocupaes. 
Sentiu-se contrariado porquanto pedira a D. Gervsio para mandar notcias. No podia esperar mais. Resolveu regressar.
     Ordenou aos homens que preparassem tudo e reiniciou a viagem. Ia tranqilo e alegre. A fortuna de D. Fernando era questo de tempo. Prepararia tudo e Ortega 
faria o mais importante. De posse dos bens que ambicionava, sua vida voltaria ao antigo esplendor. Seria respeitado e recebido nas melhores casas de Espanha. O ouro 
sempre lhe abriria todas as portas. E, depois, Leonor certamente esqueceria o passado. Vendo sua amizade com D. Fernando, naturalmente deixaria de lado suas idias, 
seu rancor. Quando todo seu plano se consumasse, ela veria nele o heri, o salvador de sua casa, o homem em quem podia confiar. Certamente Fernando j teria ido 
para um lugar onde jamais voltaria para desmenti-lo.
     Fabrcio sorria feliz, concatenando seus planos, sem que nem por um momento pensasse nas conseqncias do mal que ia praticar.
     Entardecia quando divisou as torres do castelo. Ardia por chegar mas, por precauo, mandou um homem na frente informar-se sobre a sade da mulher.
     Sentaram-se na relva para repousar um pouco enquanto isso. Meia hora depois o homem voltou apressado:
      D. Fabrcio! As novas que vos trago no so boas. De um salto o fidalgo ps-se em p.
      Fala, homem, o que houve?
      D. Leonor...
      Fala! Eu ordeno.
      Est pesteada.
     Fabrcio fez um gesto de contrariedade. Isso inutilizava-lhe todos os planos e lhe infundia imenso terror.
      Temos que nos afastar daqui  tornou pensativo.
      Podeis entrar sem receio. D. Leonor no est mais no castelo.
      Morreu?  indagou com voz sumida.
      No, senhor. Soube que, depois de nossa partida, que o estado de D. Leonor piorou e que D. Gervsio com a ama cuidaram dela durante toda a noite. Reconhecendo 
a gravidade do mal, D. Gervsio decidiu transportar nossa ama ao convento da Ajuda, onde as freiras cuidam dos pesteados. Jos viu quando eles saram. D. Leonor 
estava mal e seu rosto inchado, vermelho, nem parecia a mesma pessoa. Foi uma tragdia, senhor. Todos choraram. Os pesteados costumam no mais voltar! Pobre D. Leonor.
     Fabrcio estava plido. Seus planos ruram por terra! Sentiu-se impotente para vencer aquele obstculo.
      Jos manda-vos dizer que no h perigo. Ele fez tudo que D. Gervsio mandou, queimou todas as roupas de D. Leonor e cuidou de tudo. Podeis entrar sem receio.
     Fabrcio continuava plido. A raiva sufocava-o. Estava aliviado de certa forma por no ter estado ali exposto ao contgio. Mas, ao mesmo tempo, perder Leonor 
o arrasava. Foi como um derrotado que adentrou o castelo. Jos o aguardava nos prticos. Fabrcio entrou e o servo o acompanhou.
      Conta-me tudo, Jos. Quero saber fato por fato.
     O servo, com voz compungida, relatou o ocorrido exagerando os detalhes.
      Ah! Pobre D. Gervsio. No dormiu, no se alimentou, estava triste e preocupado. Chegou a me falar que receava o pior. No queria chegar a esse extremo sem 
vosso consentimento. Mas D. Leonor estava muito mal e ele por fim resolveu lev-la s freiras. O que fazer? Se ela morresse aqui, nossa pobre ama, o mal se alastraria 
e todos ns podamos morrer! Sabeis que a peste no tem cura!
      Eu sei, eu sei...  resmungou Fabrcio nervoso.  E ele no mandou nenhum portador para trazer notcias ?
      Ainda no. Disse que o convento era muito longe e que voltaria quando pudesse contar tudo.
      Ainda no voltou  tornou Fabrcio nervoso.
      ...  fez o servo, pensativo.  Se no tiver ficado pesteado... Fabrcio sentiu um arrepio de medo.
      Que ele no venha trazer a doena de volta. Que fique por l at que tudo tenha passado.
     Despediu o servo e deixou-se cair em um banco, desanimado. Esperaria algum tempo. Caso D. Gervsio no voltasse, iria informar-se com seus superiores. Certamente 
dariam notcias do convento e de sua mulher. Mas no momento no havia nada a fazer. Era preciso esperar.
     Enquanto isso, D. Fernando, para alvio de Carlos, regressara so e salvo ao lar. Contara-lhe a entrevista que tivera com o cunhado e terminou:
      Carlos, estou arrependido. Abandonei Leonor a triste sorte sem apoio nem carinho. No agi bem largando-a indefesa nas mos daquele patife.
      Agora est feito, meu pai. Depois, esperemos que tudo tenha dado certo e que a estas horas tia Leonor j esteja a salvo e bem longe, quem sabe, alm de nossas 
fronteiras. D. Gervsio vai deix-la num convento onde ela deve ficar por muito tempo a fim de que Fabrcio no a encontre.
      Pelo menos viver em paz!
      Assim espero. E aqui?
      Tudo como sempre, papai. Nada de novo.
      Precisamos preparar tudo, a primavera est chegando e no podemos descuidar das vinhas e do trigo.
     Quando o pai se retirou para descansar, Carlos permaneceu pensativo. A primavera ia chegar, precisava rever Esmeralda. A presena da cigana era constante em 
sua mente. A saudade era grande. Mas, por outro lado, seu pai precisava de sua ajuda. Tencionava deixar tudo da melhor forma que pudesse e pedir licena ao pai para 
ausentar-se durante algum tempo.
     Afinal, tudo estava correndo bem no castelo e agora com o caso de Leonor resolvido no havia motivo para preocupao. Poderia partir sossegado. Feliz, arquitetava 
planos para retornar ao acampamento. Levaria presentes para Esmeralda, Sergei, Miro, entre outros. Tudo daria certo e ele seria feliz. Naquele instante, no havia 
nenhum motivo para Carlos pensar que isso no pudesse tornar-se realidade.
     
     
Captulo X
     
     Por entre folhas midas do caminho, Esmeralda andava distrada, semblante contrado, revelando tenso. No via a beleza da manh prenunciando a volta do sol 
nem as folhinhas verdes que j comeavam a brotar nos galhos secos das rvores. Era o incio da primavera.
     Esmeralda renascia em cada primavera. Amava o verde das plantas, o calor do sol, o cu azul. Mas, naqueles dias, nada disso lhe importava. Ensimesmada, aflita, 
s via o rosto de Carlos diante de si. Emagrecera e, embora fizesse tudo para demonstrar a alegria costumeira, todos perceberam sua infelicidade. Miro desdobrara 
suas atenes e todos procuravam entret-la com agrados e delicadezas. Tudo intil. A medida que se aproximava a primavera, acentuava-se sua preocupao. Carlos 
voltaria?
     Esmeralda estugou o passo. Tudo estava pronto e dentro de alguns minutos partiriam para Valena, onde sempre iniciavam suas andanas. Iria rever Carlos. Pensativa, 
subiu na carroa.
     Durante o trajeto, Esmeralda seguia calada. A carroa sacudia-se levantando a poeira da estrada, e a cigana, absorta, recordava seu amor, a figura de Carlos, 
seu romance, com enlevo. Foi lutando com a impacincia que ao cair da tarde desceu da carroa para acampar. Custava esperar pelo dia seguinte, quando alcanariam 
Valena. Carlos a estaria esperando?
     Naquela noite, Esmeralda no conseguiu conciliar o sono. A expectativa era grande e ela no conseguia isentar-se da preocupao. E se ele a houvesse esquecido? 
E se ele no fosse v-la?
     Nesses momentos sentia-se morrer. A vida sem Carlos parecia-lhe sem graa e sem objetivos. Era com preocupao que Miro observava atentamente todos os seus 
movimentos. Sabia-a arrebatada e passional. Se Carlos no voltasse, Esmeralda no suportaria. Quando o dia amanheceu, viu Esmeralda sair da carroa e foi ter com 
ela:
      Vou fazer fogo. Deves estar com frio.
     Ela sacudiu os ombros pensativa. Miro tentou anim-la:
      Alegra-te, Esmeralda. A primavera est de volta! Em breve todas as flores estaro abertas. O sol estar brilhando. Esmeralda vai danar e cantar!
     Ela sentou-se sobre uma pedra, perdida nos prprios pensamentos. Miro continuou:
      No te preocupes, Carlos vir!
     Ela ergueu-se de um salto e agarrou nervosa o brao de Miro. Seus olhos ansiosos expeliam chispas de paixo.
      Receio que ele no venha, Miro. Que me tenha esquecido... Miro riu, tentando demonstrar otimismo:
      Que idia! Carlos te ama. Depois, que homem j teve fora para te esquecer? Todos os que te conheceram mais de perto ficaram presos a teus encantos. Por que 
ele, a quem deste o corao, vai te esquecer? Prepara-te pois para receb-lo de volta e tudo ser como antes!
     Os olhos de Esmeralda brilharam de emoo. Se fosse verdade!!... Era bem possvel que Carlos fosse a seu encontro. Afinal, ele vivia em Valena. Talvez a procurasse 
e no a houvesse esquecido. Talvez esperasse sua chegada. De repente a cigana sentiu um frmito de entusiasmo.
      Tens razo. Carlos me ama! Vou preparar meu mais lindo vestido para danar em Valena. Ele vai estar l!
     Entusiasmada, no recusou a caneca de leite quente que Miro lhe ofereceu e comeu o po com voracidade. As cores voltaram a suas faces e Miro, animado, vendo-a 
feliz, cantarolava sua cano predileta. Esmeralda estava contente. Ele lutaria para conservar sua alegria. Se Carlos no aparecesse, ele mesmo o iria procurar para 
pedir-lhe contas de seu proceder e, se fosse preciso, obrig-lo a voltar para Esmeralda.
     Daquele instante em diante a moa parecia ter voltado a ser como antes. Animada, ajudou os preparativos para viagem e cantarolando alegre subiu na carroa para 
partir. Ia rever seu amado. Estava feliz.
     Viajaram durante o dia inteiro e  tardinha chegaram a Valena fazendo alarido e propaganda de sua chegada, convidando o povo para a festa do dia seguinte na 
praa principal.
     O corao de Esmeralda batia descompassado olhando os fidalgos que, curiosos, paravam para v-los passar, esperando a cada instante reconhecer entre eles seu 
amado. Mas o rosto de Carlos no apareceu. Um pouco receosa, a cigana tentou afastar os maus pensamentos. Carlos no sabia que estavam chegando. Como poderia estar 
ali?
     Como todos os anos, acamparam fora da cidade. No dia seguinte um grupo se preparou, como de costume, para sair  rua convidando o povo para as danas da noite. 
A cidade estava animada e os preparativos, em andamento. As pipas de vinho j estavam sendo colocadas nos lugares costumeiros e as barracas para as festas da primavera, 
levantadas. Tudo era alegria e entusiasmo. Toda vibrao represada nos difceis meses de inverno como que procurava a maneira de se expandir.
     Esmeralda no foi com o grupo, apesar de o desejar intensamente. No queria encontrar Carlos nessa hora. Preferia esperar pela noite, ento sim, tudo seria 
oportuno. A no ser que ele a procurasse no acampamento. At quando teria que esperar?
     Entretanto, Carlos adentrava o castelo, depois de ter percorrido a plantao em companhia do pai. Este lhe falara de seu anseios, de suas aspiraes, feliz 
com a mudana do filho, cuja ausncia o fizera sentir-se s e sem apoio. D. Fernando, agora, arrependido de suas atitudes mais duras, sentia-se velho e o interesse 
de Carlos em assumir os negcios da famlia o deixava calmo e realizado. Ele se revelara digno de sua confiana. Por isso tornaram-se inseparveis. Desejava coloc-lo 
ao par dos negcios para que ele aprendesse a cuidar de tudo a seu gosto quando fosse preciso. Esperava que o filho viesse a casar e encher a casa de netos. Estava 
pensando em falar com ele quanto a isso. Queria convidar D. Hernandez e a famlia para a temporada de vero logo mais e resolver o assunto, firmando a aliana entre 
as duas famlias.
     Incio aguardava o amo na entrada do gabinete.
      Senhor, preciso falar-vos. Trago novidades.
      O que , Incio?  perguntou Carlos distrado. O servo baixou a voz:
      Tem que ser a ss. Trago notcias de Esmeralda! Carlos sobressaltou-se.
      Preciso trocar de roupa. Vem comigo, Incio. Uma vez a ss no quarto, Carlos tornou:
      O que aconteceu? O que sabes?
      Os ciganos chegaram, senhor! Jos chegou da vila e disse que os viu anunciando a festa desta noite.
     Carlos exultou. Esmeralda tinha chegado! Radiante, tornou:
      Vamos at l.
      Agora?
      Agora. No vs que estou morrendo de saudades?
      E D. Fernando?
      No precisa saber. Prepara os cavalos. Vamos at l.
     Seu corao batia descompassado. Finalmente ia rever Esmeralda! Procurou o pai para dizer-lhe que um amigo chegara a Valena e ele precisava encontr-lo. S 
voltaria tarde da noite. Pegou um saco de moedas de ouro e saiu. Incio o acompanhou. Iam felizes rever os amigos. Carlos levou os dois cavalos para devolver e ainda 
comprou vrios presentes. Para Esmeralda escolheu um traje magnfico, todo bordado a ouro e digno de uma rainha. Linda saia rodada de tecido leve e colorido, tnica 
recamada em tons de verde escuro e ouro. Queria v-la danar com aquele vestido!
     Foi como uma criana feliz que Carlos chegou ao acampamento. Dirigiu-se a Sergei, a quem saudou e devolveu os animais, deu presentes e declarou que estava com 
pressa para rever Esmeralda. Incio, enquanto isso, era rodeado pelos ciganos, seus amigos a quem abraava com prazer.
     Esmeralda, entretanto, na carroa, soubera da chegada de Carlos e no se atrevera a sair. A emoo a fazia tremer e o sangue lhe fugiu das faces. Receava desmaiar. 
Respirou fundo e, logo passado o primeiro momento, ganhou foras. Carlos voltara! Carlos estava ali. E agora, certamente, nunca mais a deixaria!
     Tratou de fazer-se bela o quanto sabia e sentada nas almofadas, corao como a sair-lhe pela boca, esperou. De repente, uma mo forte afastou a cortina da carroa 
e rapidamente Carlos entrou:
      Esmeralda!  murmurou ele enternecido. Abraou-a com ardor e ela no conseguiu articular palavra. Seus beijos falavam com eloqncia, contando a histria 
de sua saudade, de seu amor, de seu cime, de sua dor, de sua alegria, de sua esperana.
     Aquele foi o momento doce do reencontro, onde toda ansiedade foi esquecida; toda mgoa, apagada; todo receio, diludo. Estavam juntos de novo. Que importava 
o mundo, o tempo, a vida, a morte, tudo o mais?
     Passados os primeiros arroubos, adentraram o terreno das confidencias, falando do imenso amor que os unia. No falaram do futuro. Tacitamente temiam os problemas 
e por isso os evitaram. Estavam juntos e isso bastava.
     A guitarra de Miro executava perto da carroa suave melodia, onde vibrava toda sua alegria envolvendo o amoroso par na magia fascinante de sua msica, para 
embelezar ainda mais aquele momento to esperado.
     Sufocada de emoo, Esmeralda olhando Carlos nos olhos murmurou com voz apaixonada:
      Se eu morresse agora, seria feliz! Nada pode ser mais belo do que este momento.
     Carlos apertou-a nos braos.
      No digas isso. Estamos juntos para viver! A vida nos espera. A cigana deixou-se embalar pelas palavras doces que Carlos lhe murmurava aos ouvidos e sentia-se 
profundamente feliz.
     Enquanto isso, D. Fabrcio, irritado e pensativo, andava de um lado a outro de seu gabinete. Estava sem sorte e parecia que tudo conspirava contra ele. Fazia 
quase um ms que voltara  casa e no tinha notcias de Leonor. Despachara um emissrio a fim de encontrar o convento da Ajuda e este tardava a regressar. Precisava 
saber notcias da mulher. Se tivesse morrido, o que era provvel, como dar a notcia a D. Fernando?
     Este, se soubesse, negar-se-ia at a receb-lo. Leonor era o nico lao que o prendia  fortuna do cunhado.
     Como se no bastasse, D. Ortega chegara ao castelo em busca do que lhe devia. Instalara-o regiamente, bem como a seus homens, mas como pagar? Temia que ele 
o matasse para ficar com tudo quanto possua. Precisava oferecer-lhe mais, despertar sua cobia, seno estaria perdido. No pensava em livrar-se dele, porque certamente 
seus homens vingar-se-iam. O que fazer?
     Reunidos no salo para a ceia, Ortega abordou o assunto de sua visita:
      D. Fabrcio, busquei vossa hospitalidade porque estou enfrentando vrios problemas. Meus homens esto necessitados e eu preciso atender vrios compromissos. 
Quero a parte que me cabe e que combinamos naquele caso que resolvemos.
     Fabrcio sorriu tentando demonstrar calma.
      Muito certo. O que  vosso tenho que pagar.
      Assim se fala. Por isso gosto de trabalhar convosco. Sabeis entender muito bem as coisas.
      Contudo...  aventurou Fabrcio.
      Contudo...
      Eu estou sendo injustiado pela m sorte. Minha mulher est doente...
      Soube que ela estava pesteada e que, como no voltou da Ajuda, deve ter morrido.  lamentvel!
     Fabrcio engoliu em seco. Gostaria que ele no soubesse a verdade. Mas Ortega era muito bem informado e seria perigoso mentir-lhe. O fidalgo suspirou com tristeza:
      De fato! Tenho me consumido de dor. Pobre Leonor, nem sei se est viva ou morta.
     Ortega no se abalou com o tom compungido de Fabrcio.
      Sem ela, no tem herana, nem fortuna  sibilou com voz firme.  Como pensais pagar?
     Fabrcio mostrou-se indignado:
      D. Ortega! Duvidais de minha honra! Nunca deixei sem paga dvida alguma. Certamente vos pagarei.
      Quando?  tornou ele com rudeza.
      Assim que puder. Agora sou amigo de D. Fernando. Estivemos juntos e vou passar algum tempo em seu castelo no vero. Arranjei um jeito.  s questo de tempo.
      Mas eu no posso esperar! Quero agora! A morte de D. Arreda foi um desastre em nossa vida. Nossas cabeas esto a prmio, e se nos pegam, morreremos como 
ces. No podemos agir por enquanto e precisamos viver. Fizemos o servio combinado, queremos o que  nosso.
      Tendes razo. O que vos  devido certamente vos pagarei e o farei regiamente. Podeis estar certo de que vos recompensarei pela espera. Aumentarei vossa parte.
     O outro o olhou com firmeza:
      Acredito em vossa honestidade. No duvido que pretendeis cumprir o prometido. O que me preocupa : como? Sinto dizer, mas conheo vossa situao. Sei que 
vossos haveres j se foram, e com a morte de D. Leonor a fortuna de D. Fernando tambm est perdida. Talvez possamos fazer um acordo.
     Fabrcio sobressaltou-se:
      Que espcie de acordo?
      Vossas terras. Valem muito. Podeis negoci-las. Sei que D. Alvarado h muito tenciona ampliar seus haveres e podeis vender-lhe vosso castelo.
     Fabrcio empalideceu. D. Alvarado era seu vizinho, homem conhecido por sua ambio e por vrias vezes intentara comprar-lhe as terras. Como Ortega pudera descobrir? 
Aparentando calma, respondeu:
      Deveis convir que se vendo minhas terras e meu castelo e vos entrego tudo, como ficarei? Estarei arruinado, sem sequer ter onde morar. Precisamos encontrar 
outra soluo.
      Gostaria de achar. Mas parece que no encontro. Preciso receber o que me deveis.
      No podereis esperar mais um pouco?
      No. Meus homens se recusam a esperar mais. Temos que resolver j.
     Fabrcio, ento, baixando a voz, tornou:
      Ouvi, Ortega. Se me ajudar, poderemos conseguir mais do que pretendeis e eu no ficarei arruinado.
      O que propondes?
       Alguns homens decididos e tomaremos o castelo de D. Fernando. Sei que ele possui s em jias precioso tesouro que herdou de seus avs. J vi essa arca e 
pude presenciar o brilho de suas gemas. L h o suficiente para ns dois sermos muito ricos. Est guardada no subterrneo. Eu sei onde fica, pude observar o lugar 
e o segredo. Sempre sonhei um dia chegar l. Esperava reatar a amizade com ele para poder fazer isso. Agora, com a ausncia de Leonor, ser muito difcil. Porm, 
se tivermos alguns homens, poderemos ir at l e apanhar a arca.
     O outro permaneceu pensativo. A cobia brilhava em seus olhos escuros. Contudo objetou:
      O castelo  bem guardado. Acho difcil entrarmos.
       vossa percia nada  difcil. Poderemos surpreend-los e silenci-los. Uma vez dentro do castelo, tudo ser fcil. Se for preciso lutar, lutaremos.
      D. Fernando  respeitado. Se o matarmos, levantaremos a ira da corte, seremos perseguidos.
     Fabrcio, querendo convenc-lo, objetou:
      Por outro lado, de posse daquele tesouro, podereis sair de Espanha para sempre e ir viver ricamente em outro lugar, onde ningum vos conhea. Comprar um castelo, 
onde vos tomareis fidalgo e senhor.
     Fabrcio tocou o ponto sensvel de Ortega, seu sonho de tornar-se um fidalgo, o que na Espanha era impossvel. Ao cabo de alguns minutos, tornou:
      Tendes certeza de que l existe mesmo tal tesouro?
      Claro. Eu o vi algumas vezes e fiquei maravilhado.
      Cuidado, se estiverdes enganado! Cuidado!
      Podeis confiar em mim.
      Vou propor aos homens, mas desde j vos digo que nessa empreitada devereis ir conosco. No vamos nos aventurar sozinhos. Conheceis o castelo e podereis nos 
indicar o caminho.
     Fabrcio vacilou. No lhe agradava expor-se ao perigo. Entretanto, Ortega era perigoso. Se recuasse, por certo o mataria. Reconhecia por outro lado que sem 
sua presena ser-lhes-ia difcil encontrar o subterrneo e obter xito na empreitada. Apesar de contrariado, respondeu:
      Est certo. Irei convosco e vos conduzirei ao local exato. Vereis que beleza. Jamais vossos olhos viram riqueza igual!
     Ortega sorriu, refletindo a chama da ambio e da cobia nos olhos.
      Falarei com meus homens e traaremos nossos planos.
     Quando Ortega saiu, Fabrcio respirou aliviado. Durante algum tempo no teria nada a temer.
     No castelo de D. Fernando, tudo era tranqilidade. D. Encarnao no salo tecia silenciosa seu interminvel bordado, enquanto o marido, sentado em frente a 
sua mesa de trabalho, permanecia absorto e imerso em fundos pensamentos.
     De repente, levantou-se e aproximando-se da esposa tornou com seriedade:
      Precisamos conversar.
     A mulher ergueu o olhar do bordado e imediatamente o colocou no cavalete. Seu rosto iluminou-se:
      Podes falar. O que se passa?
      Passa que precisamos cuidar do futuro de Carlos. J est em idade de assumir seu lugar de fidalgo e ter sua prpria famlia. Precisamos de um herdeiro que 
perpetue nosso nome e a quem deixaremos tudo quanto temos.
     D. Encarnao sorriu contente:
      Esse  tambm meu pensamento. Uma criana viria trazer mais alegria a nossa casa. Depois, Carlos anda mudando, tem-se revelado mais amadurecido e interessado 
em suas obrigaes. J pode casar.
     D. Fernando abanou a cabea satisfeito.
      Para isso temos que abrir as portas de nosso castelo e convidar D. Antnio com a famlia a passar alguns dias aqui.
     D. Encarnao concordou, objetando:
      Por certo. Porm pela importncia do assunto a ser discutido, esse convite tem que ser feito pessoalmente.
     D. Fernando cofiou a barba pensativo:
      E... Podemos fazer-lhes uma visita. Poderia mandar um emissrio, mas isso no seria to corts. Iremos passar com eles alguns dias neste vero. Amanh mesmo 
mandarei um mensageiro notificar-lhe, aceitando velho convite que nos fez. Iremos visit-los. Parece-me bem. Uma vez l, cuidaremos de nosso assunto.
      Assim ser melhor.
     D. Encarnao exultava. Viajar, sair por alguns dias, ver gente, amigos, era-lhe excitante perspectiva. Por sua cabea j comearam a circular idias novas 
para preparar um guarda roupa  altura. Poderia usar suas jias e teria ocasio de ver a corte.
      Carlos ainda no chegou  comentou ele.  Deveria j ter voltado.
     D. Encarnao deu de ombros:
      Ele  jovem. Hoje comearam as festas. Deve estar se divertindo com os amigos.
      Espero que no se exceda. H gente de todo tipo metida nessas festas.
      Incio foi com ele. Est seguro.
      Quando chegar, trataremos do assunto.
     Entretanto, Carlos, alegre e descuidado, caneca de vinho na mo, esperava ansioso. O povo comprimia-se ao redor do local onde os ciganos festivamente vestidos 
executavam sua msica e as mulheres com suas vestes coloridas e o tilintar de seus adereos infiltravam-se no meio do povo para a "buena dicha".
     De repente, uma mo nervosa de mulher levantou a cortina da carroa colocada ao lado do palco improvisado e um grito de entusiasmo e admirao sacudiu os assistentes. 
Esmeralda pulou para o cho e iniciou a dana, deixando-se conduzir ao ritmo alegre das guitarras tocadas com rara sensibilidade. Estava maravilhosa. Vestia o vestido 
que Carlos lhe dera e o brilho de seus olhos, a beleza de seus cabelos, a perfeio de seu corpo casavam-se muito bem com a magia de sua dana extica e sensual.
     O povo gritava com entusiasmo, e Carlos perdeu a respirao vendo-a to bela, preso  cena que o emocionava, fazendo-o esquecer-se de tudo que no fosse aquela 
mulher.
     Esmeralda danava feliz. Danava para Carlos. Para ela, ali s havia o jovem fidalgo. Seu rosto refletia o xtase e o encanto do amor e ela mergulhava na msica 
que traduzia tudo quanto sentia e a alegria que lhe ia no corao. Carlos a amava! Como o mundo era belo e a vida extraordinria!
     O moo, preso  cena, fascinado, caneca na mo, vibrava apaixonado e nem sequer percebeu quando um fidalgo aproximou-se, postando-se a seu lado, intentando 
falar-lhe, mas que estacou embevecido frente ao maravilhoso espetculo. Quando a cigana parou, o povo exigiu mais e as moedas choviam, sendo apanhadas rapidamente 
por alguns ciganos.
     Esmeralda se fazia esperar e eles exigiam. Carlos a fitava, aplaudindo contente.
      Que mulher! Perdi a respirao!
     Irritado, Carlos voltou-se e logo seu rosto distendeu-se:
      lvaro! Em Valena?
      Carlos! Em meio  turba te vi. E ao me aproximar compreendi por que no me viste. Que mulher! Jamais vi coisa to bela. No  a mesma do ano passado em Madri?
     Carlos um pouco perturbado esclareceu:
      .
      Tu a conheces?
      Conheo e muito de perto. O outro riu admirado.
      Continuas o mesmo, sempre chegando a minha frente. Tens muita sorte. Faz tempo que no nos vemos e se me recordo hoje se cumpre um ano.
      Tenho andado ocupado. Negcios de famlia. O outro riu admirado.
      Tu?! Andas cuidando dos negcios?
      Do que te admiras? Meu pai precisa de mim, e afinal sou seu nico herdeiro. Preciso cuidar do que  meu.
      Deixaste a vida de aventuras?
      Tudo tem seu tempo.
     lvaro deu-lhe palmadinhas nas costas enquanto dizia:
      Fazes bem. Porm para isto no precisas esquecer os amigos. Prezo tua amizade.
     Carlos retrucou:
      Eu tambm. Entretanto, tenho trabalhado muito.
      Trabalhado?! Andas te ocupando do ofcio de teus servos?
      No brinques. Cuidar das terras requer canseiras e tenho andado ocupado. Temos a melhor vinha da regio. H que zelar para que os servos no entornem o caldo.
      Com certeza vais longe. Mas, olha: a cigana volta a danar. Carlos olhou mas irritava-o a expresso maliciosa de lvaro, olhos fixos na cigana, com admirao. 
Segurou o brao do amigo e tornou com voz rouca:
      lvaro. No te atrevas a desej-la. Esmeralda  minha e se algum homem se aproximar dela, eu o mato!
     lvaro, assustado, olhou o amigo. Pelo jeito o caso era mais srio do que imaginava. Carlos apaixonado, enciumado! Era inacreditvel!
      No precisas zangar-te. Eu a admirava apenas. No podes negar que  bela e dana com muita arte. No pensei em nada mais. Ests apaixonado, quem diria!
      Ela  minha. Amamo-nos desde o ano passado.
      Ora, ora. Agora entendo por que no te vi mais. Por que no disseste logo?
      Eu disse a verdade, mas Esmeralda  minha e no abro mo dela.
      Isso me alegra.  uma linda mulher. Alm do gosto, uma  sorte
      Isso . Mas falemos de outras coisas. Ainda moras em Madri? 
      Sim, como sempre. Aqui vim para os festejos, mas volto logo em seguida. No tenho, como tu, terras a cuidar nem amor para entreter. Porm a vida da corte 
me atrai e no quero me afastar por muito tempo.
     Carlos riu malicioso:
      Quem  ela?
      Ela?
      No me enganas. No deixarias os festejos se no fora por uma mulher.
     O outro riu desarmado:
      . Isso  verdade. Estou amando de verdade.
     Carlos sentiu-se aliviado. Seu amigo no representava um possvel rival. Estava fora do jogo. Tornou alegre:
      O amor  a melhor coisa da vida. Eu amo e sou feliz. O mundo me sorri e a alegria toma meu corao! Folgo saber que tambm sentes essa alegria. Eu a conheo?
      Conheces. Eu estava disposto a guardar comigo esse sentimento pelo resto da vida.
      Por qu, ela no te ama?
      No sei. Minha lealdade impedia de fazer-lhe a corte.
       casada?
      No, isso no. Mas sempre pensei... Bem... Agora sei que no h motivos para isso.
      Ests misterioso. Conta-me tudo.
      Primeiro responde: amas sinceramente esta mulher?
      Esmeralda?  o grande amor de minha vida.
      No temes o futuro? s um fidalgo e ela, cigana. Um dia tereis que vos separar.
      Tenho pensado muito nisso. Mas no posso deix-la.  mais forte do que eu. Quero-a para sempre.
       impossvel! D. Fernando jamais aceitaria!
      Eu sei. Mas com certeza encontrarei soluo. No penso deixar Esmeralda. Nenhuma mulher conseguir substitu-la em meu corao.
     Carlos expressava-se ardorosamente e havia um acento de sinceridade em sua voz.
      Nesse caso, preciso confessar-te que estou apaixonado por D. Maria, filha de D. Hernandez.
     Carlos surpreendeu-se:
      Maria?!
      Sim. Amo-a de todo o meu corao.. Sempre pensei que a quisesses e que um dia ainda te casarias com ela, guardei meu amor e estava disposto a renunciar.
      s muito nobre. No sei se eu seria capaz de fazer isso!
      Serias, por certo. s meu amigo. O rosto de Maria, seu sorriso doce, sua voz no saem de meu pensamento. Se no tens intenes de te casares com ela, se no 
a queres, ento irei ter com ela e tentar a sorte. O que dizes?
     Carlos estava um pouco sem jeito. Maria era sua prometida de infncia e suas famlias falavam do futuro de ambos com naturalidade, mas nada havia de acertado 
entre eles. Carlos sempre procurara esquivar-se. Sorriu meio sem graa e tornou:
      No pretendo despos-la e se ela te aceitar ficarei livre de qualquer pretenso de nossas famlias e poderei acertar minha vida com Esmeralda!
      Nesse caso estaria te prestando um favor?
      , uma vez que amo outra mulher. Ficaria embaraoso dizer que no desejo casar-me com ela. D. Antnio se sentiria ofendido e meu pai, zangado. Porm, se a 
conquistas e consegues, estarei desobrigado. Achas que podes conseguir?
     lvaro sorriu contente:
      Eu a amo muito. Lutarei com todas as foras. Hei de vencer!
      Haveremos de vencer! Eu com Esmeralda e tu com Maria. Bebamos ao futuro e ao amor!
     Alegres, os moos beberam o vinho e mergulharam avidamente no saboroso espetculo que a cigana oferecia voltando ao ritmo louco das guitarras.
     Nos dias que se seguiram, Carlos tornou-se assduo no acampamento. Dividia suas atividades com o pai, ia para l ao meio da tarde e s regressava alta madrugada 
do dia seguinte. Em sua cabea havia a deciso de conservar o amor de Esmeralda, renovado e alimentado pelo reencontro, mas ao mesmo tempo o desejo de assumir sua 
posio de fidalgo rico e conceituado. Era-lhe indispensvel o prestgio, e embora pudesse isolar-se da corte, cuja hipocrisia o incomodava, no podia abdicar de 
sua posio, habituado a mandar, a ser distinguido onde aparecesse, a ser servido e valorizado.
     Se podia passar por cima das convenes sociais, dos preconceitos de casta, amando uma mulher que alm de plebia ainda era considerada de m vida, amaldioada 
pela religio, herege, no se sentia com foras para abandonar sua posio, seus bens, sua situao e transformar-se em um andarilho miservel, s expensas de sua 
mulher, em meio quele desconforto e promiscuidade do acampamento.
     Esmeralda o amava e com o tempo haveria de compreender que ela que precisaria abdicar de sua gente, tornando-se sua para sempre. Enquanto o pai vivesse, no 
achava possvel casar-se com ela. Alis, mesmo sem o pai, talvez no se dispusesse ao casamento, porquanto alm da oposio da Igreja, que certamente se negaria 
a realiz-lo, seria hostilizado pelos outros fidalgos e malvisto por isso. No que lhe importasse o juzo que pudessem fazer dele, mas conhecia-lhes a vida dupla, 
mantendo no lar e na corte aparncia de austeridade e assumindo vida desregrada nas tabernas, mantendo amantes, levando uma vida onde se permitiam todas as falcatruas, 
desde que ficassem ocultas no anonimato.
     Assumindo os negcios, o que j estava acontecendo, Carlos pensava comprar uma pequena vila, cheia de flores, para fazer ali seu refgio de amor. Daria a Esmeralda 
uma vida de rainha! Colocaria o mundo a seus ps! Jias, dinheiro, fortuna, amor! Qual a mulher que haveria de resistir?
     Antegozava a ventura de t-la para sempre todas as noites, passando-as juntos, nas alegrias do amor correspondido. O que poderia ser melhor?
     Agitado, Carlos comeou a procurar uma pequena propriedade, em local aprazvel e afastado, onde a natureza tivesse construdo um esplndido cenrio para presenciar 
sua felicidade.
     Quando seu pai lhe falou de sua viagem a Madri, de suas intenes de v-lo casado com Maria, Carlos tentou escapar:
      Pai, reconheo vossa preocupao, mas no estou ainda preparado para o casamento. Gostaria de esperar mais um pouco.
      Eu no penso assim. Est na hora de que tu e Maria comeceis a vida juntos e acho at que D. Hernandez deve estar ressentido porque ainda no o procuramos 
para resolver o assunto. Na prxima semana, eu e D. Encarnao iremos l e cuidaremos disso.
      Pai, eu preferia esperar. D. Fernando impacientou-se:
      Dar-se- o caso que no queres atender a um desejo meu, que penso em tua felicidade e em teu futuro?
      No  isso pai. Agora estou aprendendo a cuidar dos negcios, ainda no estou seguro. Mais tarde, quando eu j estiver mais preparado, ento poderei assumir.
      No importa. Iremos a Madri. Pretendo convidar D. Hernandez e a famlia para passarem algum tempo conosco. Ento voltaremos ao assunto. At l, ters muito 
tempo para te preparares. Afinal ests muito bem. O que te falta?
     Carlos cocou a cabea e procurou sorrir querendo parecer despreocupado:
      , tem tempo. Deixemos o tempo correr. Para quando pretendeis a presena de D. Hernandez?
      Para meados de setembro. Convidarei outras pessoas para entreter os convidados.
      Permiti-me convidar D. lvaro.  sobrinho de D. Hernandez e muito meu amigo.
      Por certo, podes convidar quem quiseres  respondeu D. Fernando, com um gesto largo. Queria agradar o filho e v-lo feliz, apesar de pretend-lo a seu modo.
     Carlos exultou. Com lvaro, haveria de estabelecer um plano para que esse casamento malograsse. Tudo faria para que ele conseguisse o amor de Maria, o que vinha 
ao encontro de seus interesses. Tinha medo de perder Esmeralda. A cigana era ciumenta e no concordaria em dividi-lo com outra mulher, mesmo sabendo que ele no 
a amava. Se Esmeralda soubesse das intenes paternas, por certo exigiria uma definio que ele no estava desejando dar.
     De acordo com os maneios sociais, as coisas deveriam obedecer determinadas regras que por certo lhe dariam o tempo que precisava para realizar o que pretendia. 
lvaro regressara a Madri, mas Carlos tencionava mandar um portador convidando-o para uma temporada em casa, pedindo-lhe ajuda.
     Por isso, estava despreocupado, e enquanto o pai tratava dos preparativos da viagem, Carlos saiu  procura de uma pessoa que ficara de arranjar-lhe a propriedade. 
J por duas vezes fora em busca da vila de seus sonhos, sem que a propriedade oferecida lhe agradasse. Desta vez, porm, ao descer do cavalo depois do atalho em 
meio a frondosas rvores, Carlos parou extasiado. Em gracioso parque, emoldurada por gracioso jardim, coberto de flores, encontrava-se pequena mas luxuosa vivenda 
com suas paredes rsticas pintadas de branco e por onde graciosas trepadeiras floridas, colocadas com arte, subiam emoldurando-lhe a fachada simples e de bom gosto.
     Carlos, alegre, penetrou os arcos de seus prticos enquanto seu cicerone dizia:
      Foi construda pelo Baro de Alcadiz para colocar a mulher amada e por isso tudo foi feito como num conto de fadas. Vede, senhor, que rica !
     De fato, percorrendo seus aposentos por onde o sol entrava fartamente atravs das grandes janelas, Carlos encantou-se com tudo que viu. O cenrio era ideal! 
Ali seria seu ninho com Esmeralda. Nada havia a mudar. Tudo fora planejado. Podia traz-la ali no dia seguinte.
     Carlos sorriu. Entre a carroa cigana e a bela propriedade havia enorme contraste. Esmeralda era antes de tudo mulher. No poderia resistir.
     Foi sem regatear que combinou o preo e com a chave da porta na algibeira Carlos sonhava como uma criana que adquire um brinquedo h longo tempo desejado. 
Jamais ele poderia pensar no que ainda estava para acontecer.
     Naquela noite Carlos preparou tudo. Durante o dia levara uma mulher que contratara para tomar conta dos afazeres da nova casa, orientando-a como comportar-se. 
Tratava-se de pobre viva a quem Carlos sempre atendera em suas necessidades e cujos dois filhos j adultos tinham deixado o lar em busca de fortuna, deixando-a 
s. D. Lusa vira-o crescer e tinha por ele desvelos de me. Quando ele a contratou, ela sentiu-se muito feliz no s por servi-lo como por encontrar um lar e poder 
trabalhar. Foi com alegria que acatou as determinaes do moo, que sabia poder confiar em seu corao amigo e em sua experincia.
     Era noite quando Carlos procurou Esmeralda na praa. Ela o aguardava amuada, temerosa. A moa sentia aproximar-se o dia de sua partida e no sentia no moo 
disposio de deixar o lar, e isso a atormentava. E se Carlos no fosse com ela? Tentara inutilmente esclarecer o assunto, mas o moo pedia-lhe para no se preocupar 
e ela no conseguia que ele falasse com clareza. Naquela noite ela se decidira. Ele tardava. No a procurara na hora habitual. Esmeralda via nisso desinteresse. 
Isso irritava-a. Apesar de morrer por ele, no estava disposta a suportar-lhe a indiferena. Queria-o com o mesmo amor dos primeiros dias. Se esse amor se acabasse, 
no tinha outro recurso seno a separao.
     Naquela noite Carlos estava feliz. Seus sonhos estavam prestes a se tornar realidade. Abraou a cigana com tanto amor, parecia to apaixonado que Esmeralda 
sentiu seus receios dilurem-se. Aquela realmente foi uma noite feliz. Depois da exibio costumeira, Carlos tomou Esmeralda nos braos e disse-lhe ao ouvido:
      Esta noite quero danar! Vamos danar como nunca!
     A cigana sentiu o sangue ferver nas veias ao som da msica e seus ps pareciam ter asas, tal a leveza de seus passos.
     O mundo estava muito distante. Somente existia o momento. A magia da noite estrelada, o rudo da festa e a msica. S os dois existiam, s os dois tinham noo 
de um mundo maravilhoso onde estavam juntos.
     J pela madrugada, Carlos abraou Esmeralda, dizendo-lhe ao ouvido:
      Vem. Quero que esta noite seja diferente. Vem comigo.
     A cigana estava fascinada. Deixou-se conduzir abraada a ele, na garupa do cavalo. Nem perguntou para onde eles estavam indo. Sentia o calor de seu corpo, o 
pulsar de seu corao, a fora de seu amor, e isso era o bastante.
     Chegando na vivenda de Carlos, desceram. Ele, disposto a conquist-la a seu modo; ela, fascinada pelo inesperado. Puxou-a pela mo.
      Vem. Quero que vejas o que preparei para ti.
     Ao entrar, acendeu o lampio e a cigana no pode se furtar  admirao. Nunca tinha visto tanta beleza. Olhou para Carlos admirada, ia indagar, mas o moo puxou-a 
para si abraando-a forte.
      Vem, quero que conheas o resto.
     Conduziu-a para o quarto onde o luxo se casava ao ambiente rstico do local. Esmeralda sentia o perfume dos jasmins que cresciam sob a sacada da janela. Carlos 
murmurou-lhe ao ouvido:
      Sempre te amei na simplicidade do campo ou nas almofadas de tua carroa. Hoje, quero amar-te como uma rainha, porque s a senhora de meu corao. Esmeralda, 
no posso viver sem ti! Fica comigo.
     A cigana sentiu um abalo no corao. Teria entendido bem? Carlos queria que ela deixasse os seus? Mas o moo no lhe deu tempo para refletir. Sentindo-lhe o 
abalo, esclareceu:
      Eu te segui durante muito tempo e agora te peo que fiques aqui comigo alguns dias. Ser pedir muito?
     Esmeralda sorriu. Por que no? Aquela noite era nica e ela no se dispunha a estrag-la. Apertou Carlos nos braos e o moo inebriado compreendeu que ela ia 
ficar.
     Nos dias que se seguiram, eles foram felizes. Esmeralda procurara Sergei e lhe pedira permisso para uma ausncia de alguns dias. Embora o bando viajasse naqueles 
dias, ela iria depois ter com eles, mais  frente. Parecia uma criana feliz e descuidada. Miro olhava-a preocupado enquanto ela alegre lhe dizia:
       s por alguns dias. No posso negar isso a ele depois de ter ficado comigo quase um ano. Depois,  engraado viver numa casa. Se visses quantas flores e 
como  bela!
      s feliz?
      Muito. Nunca pensei que pudesse ser tanto. Miro sorriu, mas seu olhar no era tranqilo.
      Esmeralda, no vai! Pressinto sofrimento. Recusa! Ela riu:
      Tens medo de me perder. No te preocupes.  s por alguns dias. Sou cigana e jamais deixarei nossa gente. Tenho direito ao amor. A vida me oferece e eu no 
posso recusar. Se mais tarde for infeliz, o futuro dir. Agora quero viver. Quero amar! Quero estar com ele. Compreendes?
      Sim. Compreendo. Porm lembra que sou teu irmo. Te defenderei sempre contra tudo e contra todos. Se alguma coisa te preocupar, chama por mim.
     A cigana beijou-lhe a face morena com carinho.
      Eu sei. s tudo para mim. Pai, me, irmo, amigo. Sei que me defenders. Agora, eu me vou, s por alguns dias. Breve estarei de volta... e com Carlos! Cuida 
de minhas coisas. No vou levar nada.
     Realmente ela no precisava. Carlos colocara em seu quarto uma quantidade enorme de vestidos, adereos, tudo quanto uma mulher bonita pudesse desejar. Camisas 
de seda pura, perfumes, sandlias, tudo escolhido com carinho, no ao rigor da fidalguia mas ao gosto espetacular da cigana, com suas saias brilhantes e coloridas.
     A moa, em meio a tantas coisas e acariciada, acumulada de atenes pelo homem amado, sentia-se fascinada. Apreciava a beleza dos jardins. A comida deliciosa 
de Lusa, sua bondade e admirao diante de sua beleza faziam-na sentir-se muito bem. No sentia saudades dos seus e estava disposta a aproveitar a felicidade que 
Carlos lhe dava, fazia tudo por torn-lo feliz.  .
     O moo passava ali o tempo todo. Seus pais tinham sado de viagem e ele aproveitava a ausncia deles. Havia dois meses que desfrutava de seu paraso. Incio, 
como sempre, velava por seu amo, tomando conta dos afazeres do castelo, e Carlos ia verificar cada dois dias se tudo estava em ordem.
     O tempo era pouco para a felicidade. Esmeralda lhe pertencia exclusivamente. Danava para ele, enfeitava-se para ele, e parecia esquecida do acampamento.
     Uma noite em que ambos gozavam a beleza do luar nos jardins, Incio os procurou.
      D. Carlos, D. Carlos...  chamou aflito. Vendo-o chegar assustado, perguntou:
      O que passa?
      Senhor! Vamos depressa. O castelo est sendo assaltado. Homens de D. Ortega.
     Carlos deu um salto e Esmeralda apavorou-se.
      So criminosos! Carlos, no vs!
      Tenho que ir. Preciso defender minha casa.
     De um salto, entrou na casa enquanto Esmeralda o seguia aflita, vestiu-se colocando a arma no gibo.
      Vamos Incio. Pelo caminho contas o que ocorre. No percamos tempo.
     Beijou Esmeralda, que o tentava reter enquanto dizia:
      No temas. Terei cuidado. Espera que breve voltarei. No saias daqui, acontea o que acontecer. Fica com este saco. Tem ouro.
     Esmeralda estava plida.
      Carlos, no te exponhas. Tem cuidado. Ele a beijou apressado.
      No temas. Eu voltarei.
     Montou o cavalo e Incio o seguiu. Enquanto partiam, Incio tornou:
      Hoje chegou um portador de D. Fernando. Ele j partiu de Madri e amanh por certo chegar aqui. Dispus tudo no castelo para o regresso do amo. Quando acabei, 
resolvi dar-vos as novas. Ao sair do castelo, vi vultos que se escondiam. Assustado, fingi nada ter visto e achei melhor dar a perceber que estava mareado. Comecei 
a cantar como se tivesse tomado muito vinho e segui meu caminho. Observei que eram muitos homens. Assim que me vi mais longe, passei pela casa dos nossos e os acordei 
e juntos voltamos perto do castelo. Pudemos perceber que se preparavam para atacar. Reconheci D. Ortega dando ordens. Dei ordem aos nossos para agentar o que pudessem 
e vim vos avisar.
     Carlos esporeou o animal e dentro em pouco estavam no bosque que rodeava o castelo.
      Espera, Incio, vamos devagar. Quero surpreend-los.
     Quando se aproximaram do porto principal, verificaram que o mesmo fora arrombado e dois homens montavam guarda. Os outros por certo estavam dentro. No cho, 
o corpo do vigia inerte. Carlos sentiu uma onda de rancor. Pegou uma pedra e a atirou do lado oposto, e quando os dois olharam para l, voltando-se atrados pelo 
rudo, Carlos e Incio se atiraram sobre eles golpeando-os com a faca.
     No emitiram nenhum som. Caram inertes, comeando a gemer fracamente, e o sangue jorrava. Sem se preocupar, os dois entraram no parque e puderam ver que havia 
vestgios de luta. Alguns homens empunhando armas chegaram e juntaram-se a eles. Estavam em oito.
     Cautelosamente foram se aproximando. Encontraram mais trs corpos dos companheiros aparentemente mortos. Tudo estava em silncio.
      Eu sei onde esto!  murmurou Carlos entre dentes.
     O subterrneo certamente era o local onde estavam as jias e os bens da famlia. Enquanto os homens esquadrinhavam o castelo com cautela e cuidavam dos servos 
acovardados, obrigando-os a tomar da arma para proteger as mulheres, Carlos chegava  sala que dava acesso ao subterrneo.
     A porta secreta estava aberta! Eles a haviam descoberto. Aproximou-se devagar. Ouviu vozes:
      Veja que fortuna. No te disse?
     Plido de revolta Carlos continuou na escuta:
       Com esta fortuna, saldaremos nossas dvidas, meu caro D. Fabrcio!
     A voz de Ortega soou como um martelo na cabea do moo. Ele compreendeu. Pressionado pelas dvidas, o tio os levara ao assalto do castelo!
      Vamos carregar isso  ordenou Ortega aos homens que o acompanhavam.
     Temendo ser apanhado, Carlos saiu para pedir ajuda aos amigos. No os vendo perto, esperou escondido em um reposteiro. Viu quando os homens trouxeram uma arca 
pesada para o salo e voltaram para buscar mais. Foi ento que aconteceu o imprevisto: D. Fabrcio saiu rpido e num segundo fechou a porta secreta prendendo D. 
Ortega e seus homens dentro.
     Carlos, sustendo a respirao, observava. Com um riso nervoso, Fabrcio abriu a arca e como louco remexeu as jias e as moedas de ouro, colocando o mais possvel 
em um saco que tirou de um dos bolsos.
     Carlos no se conteve, saiu de trs do reposteiro indignado:
      Jamais pensei que um fidalgo pudesse tornar-se reles salteador! Um raio no teria fulminado Fabrcio com tanta violncia. Vendo o sobrinho, de um salto tirou 
um punhal e gritou:
      Ladro s tu, que me roubaste a parte da fortuna que de direito me pertence. Vou dar cabo de ti como de um co.
     Atirou-se a Carlos e rolaram pelo cho em luta de vida ou morte. Incio chegou nessa hora e atirou-se sobre eles, tentando ajudar o amo. Mas Fabrcio estava 
como louco. Tinha fora multiplicada.
     Os outros homens acorreram e Incio mergulhou a faca nas costas de Fabrcio, que urrou blasfemando:
      Assassinos! Me acertaram, mas eu me vingarei. Das profundezas do inferno eu juro que me vingarei!
     Sentindo o sangue empapar suas vestes, Carlos teve nuseas e sentiu-se perder os sentidos. Foi um segundo, mas foi o bastante. Com mo trmula, Fabrcio enfiou 
a faca em seu peito e Carlos, sentindo a vista toldar-se, perdeu os sentidos. Incio, tomado de fria, enfiou sua faca vrias vezes no corpo inerte de Fabrcio enquanto 
os homens socorriam Carlos, apertando o ferimento para sustar a hemorragia.
     Imediatamente levaram-no ao leito e correram em busca de um mdico. Incio chorava desalentado enquanto Carlos, plido, parecia morto. Mas seu corao batia 
e os homens aflitos aguardavam que o socorro chegasse.
     Amanhecia quando o mdico chegou e procedeu ao exame de Carlos. O moo, inerte, respirava fracamente.
      Perdeu muito sangue  explicou ele aos homens aflitos que rodeavam o leito.  Se sabem rezar, chegou a hora.
     As mulheres choravam e os homens, de cenho cerrado, sombrios, tinham vontade de ter algum em que se vingar. Contudo, Fabrcio estava morto. E ningum conseguiu 
encontrar Ortega. Incio jurava que o vira no castelo, mas ningum sabia dele.
     Servos fiis colocaram a pesada arca no gabinete de D. Fernando e se revezavam na guarda, receosos de que, espicaado pela cobia, D. Ortega voltasse ao ataque. 
Ningum conhecia o segredo do subterrneo, nem o segredo de sua entrada, engenhosamente dissimulado, e s Carlos e D. Fernando estavam ao par desse segredo.
     Resolveram mandar um portador a D. Fernando, que com certeza regressava ao castelo. Incio se recusava a deixar o amo naquelas condies e outro tomou seu lugar. 
E comeou ento a longa espera.
     Haviam transportado os cadveres para fora e limpado o sangue. Aguardavam as ordens, esperando a chegada do amo.
     Entretanto, mais uma surpresa os esperava. D. Fernando, com sua comitiva, chegou no dia imediato. Contudo, o choque e a preocupao afetaram-lhe a sade, tendo 
sido acometido de um ataque cardaco. Foi quase carregado pelos camponeses que deu entrada no castelo, querendo ir para o lado do filho.
     D. Encarnao chorava sem parar. Vendo o rosto plido e desfeito do moo, ainda em estado grave, sentiam-se arrasados. D. Fernando mal podia falar. Ordenou 
que colocassem um leito ao lado do moo para ele, o que foi feito imediatamente. D. Encarnao dividia seus cuidados entre o marido e o filho, com o corao cheio 
de dor.
     Enquanto isso, os homens montavam guarda com receio de novo ataque de D. Ortega. D. Fernando sentiu dio mortal de D. Fabrcio e ficou satisfeito ao saber que 
Incio o matara. No sabia que Fabrcio conhecia o segredo do subterrneo. O fato  que ele o conhecia. O que no podia entender era como ningum mais vira o subterrneo, 
pois os homens no o mencionaram e no sabiam explicar de onde a arca viera.
     S Carlos poderia com certeza esclarecer o assunto quando melhorasse. O moo estava muito fraco e ainda no se sabia se ia melhorar.
     
     
Captulo XI
     
     Os dias foram se arrastando entre os cuidados mdicos aos dois homens. D. Fernando melhor, mas guardando o leito ainda, dava ordens sem contudo referir-se ao 
subterrneo. Quando pudesse se levantar, iria at l para ver como estavam as coisas. Ao que lhe parecia, Fabrcio no conseguira levar nada. Os homens montavam 
guarda e um deles foi ter com D. Fernando.
      Senhor, prendemos uma mulher cigana que rondava a casa. Acho que espionava. Disse que queria notcias de D. Carlos.
      Cigana? Por acaso Fabrcio andava metido com eles?
      Acho estranho, porque os ciganos j se foram da cidade h muitos dias. Essa mulher ficou por aqui. Deve estar metida nesta histria.
      Pelo que sei, Ortega no se mete com ciganos. Mas, dize l, ela  bonita?
      A mais linda mulher que eu j vi.
      Ento se explica. Deve ser algum caso dele.
      Que fazemos com ela?
      Gostaria de interrog-la. Pode ser que possa dizer onde Ortega est. Ajude-me a levantar e ir at a sala ao lado.
      Cuidado, D. Fernando  pediu D. Encarnao aflita.  Os ciganos so feiticeiros!
      Ora, mulher. Sei o que fao. Ajuda-me, quero ver se descubro algo. A custo levantou-se e apoiado no servo foi sentar-se na antecmara.
      Agora, trazei-a aqui.
     Pouco depois dois homens entraram conduzindo Esmeralda.
     A moa aguardara ansiosamente o regresso de Carlos, inutilmente. No dia seguinte as notcias foram circulando e ela pode saber da tragdia. A vila revoltada 
comentava a traio de D. Fabrcio e a faanha de Ortega, dizendo que Carlos estava  morte. Desesperada, a moa tentara saber notcias, mas a situao no se modificava. 
Carlos estava mal!
     Uma semana depois, sem poder suportar mais, foi ao castelo, tendo sido presa pelos guardas. Frente a frente com D. Fernando, Esmeralda esperou.
      O que queres?  indagou ele com severidade.  Por que espionavas nosso castelo?
      Senhor  tornou a moa com voz angustiada , quero notcias de D. Carlos. Saber de sua sade!
      Por que te interessas por ele?
      Somos amigos, senhor. Estou atormentada! Por favor, deixai-me v-lo! Ainda que seja por um instante.
      Quem me garante que no ests aqui a mando de D. Ortega?
      Nem sequer o conheo! Por favor! Eu vos peo. Deixai-me v-lo! J o arranquei da morte uma vez, posso faz-lo de novo!
     D. Fernando olhou-a admirado. Lembrou-se de que Carlos fora recolhido num acampamento cigano quando vtima de assalto na estrada. Estaria ela dizendo a verdade? 
Entretanto murmurou:
      Como posso saber se o que dizes  verdade? Como confiar em algum depois de ser trado pelo prprio cunhado?
       verdade, senhor. Somos amigos. Preciso salv-lo! Deixai-me v-lo! Com a fora de meu amor, saberei devolver-lhe a vida!
     D. Fernando olhou-a boquiaberto. Podia ser verdade. Seu filho era muito amado pelas mulheres.
      O que podes fazer alm do que estamos fazendo?
     Esmeralda aproximou-se dele refletindo no rosto a tremenda emoo que a acometia:
      Ele me ama! Eu posso cham-lo  vida com a fora de meu amor. D. Fernando assustado tornou:
      Ama-te? Como podes afirm-lo? Sabes que esse amor  impossvel! Seu rosto orgulhoso refletia o horror dessa ligao. Esmeralda entretanto estava disposta 
a obter o que queria e respondeu firme:
      Eu sei. Nada pretendo. Amo os meus e voltarei para eles assim que o vir fora de perigo. Porm quero que me deixem salv-lo! Por favor, antes que seja tarde 
demais!
     D. Fernando estava indeciso. O que fazer? Afinal, nada como uma bela mulher para chamar um homem  vida. Mandou buscar Incio. Este, vendo Esmeralda, estacou 
surpreso.
      Conheces esta mulher?  inquiriu D. Fernando com voz firme.
      Sim  balbuciou ele sem jeito.
      De onde a conheces?
      Do acampamento. Ela salvou a vida de D. Carlos. Tratou dele com muitos cuidados.
     A fisionomia de D. Fernando abrandou-se.
      Ento  verdade.
      Sim. Devemos muitos favores a Esmeralda e a seu chefe. Eles nos trataram muito bem.
     D. Fernando decidiu-se:
      Seja. Consinto que tentes ajud-lo. Mas quero tua promessa de que quando ele melhorar irs embora da vida dele.
     Esmeralda olhou-o com um brilho indefinido nos olhos.
      Prometo que quando ele melhorar irei embora ao encontro dos meus! Permiti-me v-lo, por favor!
      Vem comigo.
     Amparado pelos servos, ele dirigiu-se ao quarto onde D. Encarnao os olhou assustada. Porm, habituada a obedecer ao marido, calou-se, limitando-se a olh-los 
receosa.
     Esmeralda correu  cabeceira do moo e vendo-lhe o rosto macerado estremeceu de terror. Ele parecia morto.
      Carlos, meu amor!  chamou angustiada.  O que te fizeram! Enquanto D. Encarnao apavorada pedia ao marido que a tirasse dali,
     a cigana aproximou seu rosto do dele e comeou a falar a seu ouvido com imenso carinho.
     D. Fernando, ordenando  esposa que se calasse, observava atento. Lgrimas corriam pelas faces da cigana.
      Carlos  dizia , no vs embora. Vem para a vida! Eu te espero! No me deixes!
     Fundo suspiro saiu do peito do moo. Ele tinha reagido! Ela levantou os olhos e pediu splice:
      Senhor! Ele est mal. Sei de uma pessoa que tem mais poderes do que a medicina. Ele pode nos ajudar a salv-lo! Mandai busc-lo. E ns vamos traz-lo  vida.
     Como D. Fernando a olhasse interdito, ela dirigiu-se a Incio:
      Fala a teu amo que te deixe ir em busca de Miro no acampamento. Ele pode salv-lo. Vai e chama-o. Diz que Esmeralda precisa dele. Conta-lhe tudo.
      Tu o conheces?  indagou D. Fernando. Incio respondeu:
      Sim, senhor. Ele ajudou D. Carlos. E  nosso amigo!
      Ento vai e chama-o com urgncia. Carlos est mal.
     D. Encarnao estava aterrorizada. No sabia se de medo dos ciganos ou da morte do filho.
     Comeou para eles a espera ansiosa. Esmeralda permanecia ao lado da cama do moo, olhos pregados em seu rosto como que querendo impedir a morte de passar por 
ali. D. Fernando, olhando sua bela fisionomia,comeava a entender que Carlos podia realmente ter se apaixonado por aquela mulher. Havia tanta fora em seus olhos 
e tanto amor que apesar do orgulho ele podia compreender que eles tivessem tido ligao amorosa. Seu filho ficara muitos meses nesse acampamento e isso certamente 
o fizera ser influenciado pela insinuante presena da cigana. Mas no estava preocupado com isso. Jamais lhe passara pela cabea que Carlos pudesse pensar com seriedade 
em manter essas relaes.
     O importante era salv-lo. Depois, certamente, tudo se normalizaria.
     Esmeralda, contudo, permanecia atenta, plida, sem se alimentar nem dormir, o que assustava D. Encarnao e a fazia imaginar que a cigana tivesse poderes sobrenaturais. 
Benzia-se e rezava sem parar e apesar de sua imensa aflio no podia prescindir do alimento, por sentir-se muito desgastada.
     Somente dois dias depois foi que Incio regressou, trazendo Miro, cujo olhar preocupado se deteve na figura plida e emagrecida da cigana.
      Miro!  murmurou ela correndo para ele,  salva-o! Sei que podes faz-lo! No o deixes morrer.
     O rosto srio de Miro enterneceu-se enquanto abria os braos para Esmeralda.
      Se tu me pedes, farei o que puder.
     Um pouco sem jeito mas curioso, D. Fernando os olhava esperanoso. Comeava a rezar pedindo a Deus que ajudasse o cigano a salvar o filho. Se ele detinha poderes 
sobrenaturais, talvez pudesse ajud-lo.
     Miro, srio, aproximou-se de Carlos ainda perdido na inconscincia. Colocou a mo direita levemente sobre o local do ferimento e cerrou os olhos, permanecendo 
assim durante algum tempo que pareceu eterno aos demais. Depois abriu os olhos e tornou:
      Ele est mal. Por duas vezes foi ferido em decorrncia de suas vidas passadas. Vejo seu esprito flutuando sobre o corpo e no sei se poder voltar  vida. 
Vou tentar fortalec-lo para que possa esperar mais e dar algum tempo a que seu corpo se refaa. Espero que o Deus da vida o ajude.
     Esmeralda tornou:
      Eu ajudo se precisares de mim. Darei a vida para ele se for preciso!
      Acalma-te. No temos em nossas mos o poder de dar vida a ningum. Se te afliges, no vais ajudar. Acalma-te.  Olhando os demais que esperavam ansiosos, 
aduziu:  Se sabem rezar, rezem. Mas no quero pensamentos contrrios. Quem no estiver disposto a ajudar, que saia agora.
     Seu olhar era penetrante e enrgico. D. Encarnao encostou-se ao marido, medrosa, mas corajosamente apanhou o tero e comeou a rezar em silncio. D. Fernando 
ajoelhou-se ao lado da esposa e Incio fez o mesmo.
     O cigano sentou-se  beira da cama e, segurando as mos de Carlos entre as suas, fechou os olhos, permanecendo assim algum tempo. O silncio era completo e 
s o corpo de Miro estremecia de quando em vez. Quando ele largou as mos de Carlos, Esmeralda perguntou:
      E ento?
      Ainda no posso afirmar. Talvez esteja um pouco melhor. Vamos esperar mais.
     De fato, Carlos parecia respirar com mais naturalidade e seu sono, mais tranqilo. O rosto da cigana iluminou-se:
      Eu sabia que podias salv-lo! Sei que ele no vai morrer!
     D. Fernando sentiu uma onda de calor invadir seu corao combalido. Deus ouvira suas preces! Para ele todos os meios eram teis, mesmo usando um herege como 
instrumento. Entretanto, D. Encarnao no estava to certa. Tinha medo daquela gente. Deles nada poderia vir de bom.
     D. Fernando aproximou-se de Miro com respeito.
      Sou muito grato por tudo. Carlos  meu nico filho. Vou cuidar de vossa hospedagem. Naturalmente ficareis conosco alguns dias.
     Miro curvou-se srio.
      Ficarei apenas o necessrio s melhoras de D. Carlos. Assim que o vir fora de perigo, regressarei ao acampamento. Porm gostaria de ficar aqui mesmo, enquanto 
D. Carlos precisar de mim. Estou acostumado  vida simples. No h necessidade de nada mais. Agradeo vossa augusta hospitalidade.
     D. Fernando estava surpreendido. Jamais esperara tanta fidalguia de um reles cigano. Sentiu-se aliviado e considerou com naturalidade:
      Saberei recompensar tanta dedicao devidamente. Miro fixou-o com um brilho orgulhoso no olhar.
      Estou aqui atendendo Esmeralda. Se quereis demonstrar vossa gratido, fazei-o a ela! Eu nada pretendo.
     D. Fernando sentiu-se embaraado. A ambio dos ciganos era conhecida. Por que Miro se mostrava diferente? Temeroso de exasperar o cigano, de quem esperava 
ajuda e colocara toda sua esperana, o fidalgo calou-se, limitando-se a continuar suas oraes em favor do filho querido.
     Mais tarde, espicaado pela curiosidade, chamou Incio na ante-sala e perguntou ansioso:
      Conheces bem esses ciganos?
      Um pouco  considerou o servo sem saber at que ponto podia contar ao amo a verdade.
      Conta-me tudo que aconteceu quando Carlos foi assaltado e socorrido pelos ciganos.
     Incio relatou com mincias a viagem, sem contar contudo que a ida a Madri tinha sido pretexto para Carlos rever Esmeralda. Contou o assalto, o socorro dos 
ciganos que os tinham recolhido na estrada e como Carlos estava mal.
      Ao que sei, os ciganos no costumam recolher os feridos.
      Mas D. Fernando no conhece Sergei.  o chefe deles, homem srio e respeitado, bom e justo.
      Como pode ser bom vivendo do jeito que vive? Deixa isso e conta o resto.
      A cigana Esmeralda tinha danado na festa e D. Carlos tinha danado com ela. Reconhecendo meu amo ferido, ela pediu a seu chefe para recolh-lo em sua carroa 
e tratou dele.
      Agora comeo a entender.
     Incio falou da dedicao da cigana dias e dias tratando do moo e da bondade com que os ciganos os trataram.
      Exigiram pagamento?
      No. Pelo contrrio. Davam-nos comida e at roupas, porque os ladres tinham levado tudo que era nosso, at os cavalos.
     D. Fernando cocou a cabea encabulado.
      No posso entender! Por que homens como eles fariam isso? Ser que esperavam lucrar mais tarde? Afinal Carlos  fidalgo rico.
      Se me permitis falar, senhor, posso dizer que se eles quisessem alguma coisa j teriam pedido porque D. Carlos voltou para casa e eles nunca nos vieram pedir 
nada.
      Isso  verdade.
      E ainda D. Carlos pediu cavalos e provises emprestados para voltar para casa e Sergei nos deu. Viemos com conforto e muitas provises. As mulheres ciganas 
nos deram comida para a viagem.
       estranho! Jamais pensei que isso pudesse passar.
      Esmeralda  muito querida por todos e o que ela quer todos respeitam. Ela gosta do amo e por isso todos gostam dele.
      ... assim parece...  D. Fernando nada mais disse, mas no pde deixar de pensar na singularidade de um mundo onde seu prprio cunhado, homem de estirpe 
e bero fidalgo, se colocara como assaltante vulgar e assassino e ao mesmo tempo homens marginalizados e parias, hereges e estranhos, pudessem demonstrar tanto desinteresse 
e tanta dignidade.
     Foi com respeito que D. Fernando voltou ao quarto do filho e com muita energia que repreendeu a esposa apreensiva com a presena dos ciganos.
      Deves agradecer a Deus e a eles terem salvo Carlos da morte e ainda hoje deixarem seus negcios e ficarem aqui para o ajudar. No devemos ser ingratos. Se 
no queres ajudar, recolhe-te a teus aposentos e deixa-nos a ss.
     D. Encarnao calou-se. Seu marido sempre sabia o que estava fazendo. Embora com medo, no queria sair. Queria acalmar a grande ansiedade pelo destino do filho.
     As horas foram passando e aos poucos foi-lhes parecendo natural a presena daqueles dois ao lado do leito, numa dedicao sem limites. Esmeralda a custo conseguira 
tomar um pouco de leite e D. Encarnao j se com doa da figura plida da cigana, vendo-lhe no rosto o amor e a ansiedade estampados.
     Fazia trs dias que Miro chegara e revezava-se com Esmeralda, repousando no leito de Incio, colocado ao lado da cama de Carlos. D. Fernando tambm repousava 
em seu leito no mesmo aposento.
     A cigana adormecia vencida pelo cansao, mas quase sempre acordava pressionada por pesadelos. Carlos dormia mais sossegado. Uma noite abriu os olhos com dificuldade. 
Esmeralda no se conteve:
      Carlos! Voltaste  vida. O amor  mais forte do que a prpria morte.
     O moo parecia um pouco fora de si, mas murmurou com voz muito fraca:
      Esmeralda! Esmeralda! Ests aqui... Est tudo escuro... confuso... A cigana tomou as mos do moo com muito carinho:
      Sou eu! Estou a teu lado! Volta  vida, que eu te espero! Eu te amo! Carlos apertou a mo da cigana e sorriu:
      s meu tesouro. No me deixes. Fica comigo.
     D. Fernando aproximou-se o bastante para ouvir o final da frase. Ento era verdade. Carlos a queria! No se admirava. A beleza da cigana deixava-o admirado. 
Por vezes no conseguia desviar o olhar de seu rosto, surpreso com a fora de suas expresses apaixonadas, a beleza de sua pele, a luminosidade de seus olhos e o 
brilho de seus cabelos sedosos e limpos, diferente das mulheres fidalgas, que de hbito os mantinham presos e malcheirosos. Reconhecia jamais ter visto mulher to 
bela. Compreendia o fascnio de Carlos, mas ao mesmo tempo confiava em seus brios de fidalgo. A aventura fazia parte da vida e dos costumes daqueles tempos, sem 
contudo afastarem o fidalgo de seus deveres para com o nome e a famlia.
     A cigana lhe afirmara que iria embora quando ele estivesse fora de perigo. Se ela o deixara uma vez, certamente o deixaria de novo. Ele ignorava que os dois 
estivessem mantendo vida em comum.
     Naquela noite, Carlos comeou a melhorar. Maravilhado com Esmeralda a seu lado em seu castelo, a princpio Carlos recusou-se a pensar em qual o milagre que 
teria ocorrido. Sentia-se fraco e sabia que fora ferido pelo tio, mas Incio lhe garantia que o traidor estava morto e que Esmeralda e Miro tinham vindo para salvar-lhe 
a vida.
     Carlos, admirado, sentia-se grato pela compreenso paterna aceitando a presena dos ciganos e o demonstrou assim que D. Fernando comovido se acercou do leito:
      Pai, agradeo-vos teres trazido Esmeralda. Pensei ter morrido. Estava em meio a fumaa, sangue e dor. Sentia muito frio, e quando eu estava caindo dentro 
de um buraco escuro, encontrava Esmeralda, que me estendia a mo e me chamava  vida. Sem ela eu teria morrido.
      Deus ouviu nossas preces. Esmeralda cuidou de ti com muita dedicao.
     Carlos apertou a mo da cigana com fora.
      Devo-te a vida, Esmeralda. A cigana murmurou com doura:
      Se tu morresses, eu no iria sobreviver.
      Mas eu estou vivo! Agora no mais te deixarei!
     D. Fernando sentiu um aperto no corao. Certamente Carlos estava fraco e dependente, fascinado pelo amor daquela bela mulher, cuja dedicao tinha que reconhecer. 
Porm, quando voltasse ao normal, com certeza haveria de libertar-se dessa atrao.
     Nos dias que se seguiram, Carlos apresentou melhoras, e embora muito fraco ainda, Miro reconheceu que ele estava salvo. Assim, despediu-se disposto a regressar. 
Chamou Esmeralda e disse triste:
      No quero perturbar tua alegria, mas preciso ir e aconselho-te que me acompanhes.
     Esmeralda teve um gesto de susto:
      Deixar Carlos agora?
      Sim. Ele est fora de perigo e acho que deves voltar ao acampamento.
      Gostaria de ficar mais ao lado dele. Minha presena faz-lhe bem.
      Eu sei. Mas se tens que deix-lo,  melhor que seja agora. D. Fernando nos aceita s porque ajudamos ao filho. Se quiseres ficar para sempre aqui, sei que 
ele no vai concordar. E, depois, como irias viver, encerrada dentro desta priso? Tu que amas a liberdade, o sol, a luz, a noite, a alegria. J sentiste o peso 
destas paredes? A tristeza que h em cada canto? Os antepassados gemendo em cada sala? Eu morreria se tivesse que ficar aqui e tu tambm no vais suportar. Por isso 
Carlos te ama. Porque lhe destes a vida que ele sonhou. No suportars isto muito tempo. Eu sei!
     Esmeralda suspirou triste. Era verdade. Sentia-se sufocar dentro da pesada atmosfera daquele castelo. Sua nica alegria era Carlos. Miro tornou splice:
      Volta comigo. Quando ele melhorar, ir ter contigo no acampamento. Ento, tudo estar bem. Ele te ama. Ir a teu encontro longe destas tristes paredes. Esta 
casa est escura, eu no vejo nada de bom. Muito dio, muita vingana e Deus sabe o que vem ainda sobre eles.
      Miro, o que vai acontecer? Por acaso sabes? Viste alguma coisa? O cigano desviou o olhar com um sorriso.
      Nada. S sinto tristeza neste lugar. Aqui no sers feliz. Vem comigo, Esmeralda, eu te peo!
     A cigana olhou triste para Miro:
      No sei se terei foras.
       preciso. No ser por muito tempo. Quando Carlos melhorar, ir a teu encontro.
      Quando pensas partir?
      Ainda hoje.
      Fica at amanh e te darei uma resposta.
      Seja. Esperarei. Di-me deixar-te aqui s.
      Pensativa, Esmeralda aproximou-se de Carlos, que tomou de sua mo com imenso carinho.
      Por que me deixaste s? Probo-te que saias daqui nem que seja por um minuto.
     Esmeralda sorriu.
      Bobo! Sabes que agora j ests bom e eu preciso ir embora. Miro vai amanh e eu pretendo partir com ele.
     Carlos assustou-se:
      Queres deixar-me?
      S vim porque precisavas de mim. Agora preciso voltar aos meus. Sabes que esse  meu dever.
     Carlos apertou-lhe a mo com fora:
      No. No quero que vs. s minha e teu dever  ficar junto comigo. No posso ir contigo. Por isso, deves ficar.
     Esmeralda respondeu com voz fraca:
      Daria tudo para poder ficar, mas sabes que  impossvel.
      Ento no me amas.
      Sabes que te amo muito. No posso ficar aqui. No  meu lugar. D. Fernando deixou-me ficar s at ficares curado. Prometi' ir embora quando estivesses melhor.
     Carlos indignou-se.
      No concordo. s minha e nada nos h de separar. Falarei com ele. H de compreender.
     Esmeralda estava trmula. Carlos a amava e lutaria por seu amor. Isso a comovia. Esqueceu seus sofrimentos naquele lugar onde parecia sufocar entre aquelas 
paredes e murmurou humilde:
      Farei o que quiseres.
     Miro os olhava com profunda tristeza, embora tentasse dissimular. Quando D. Fernando aproximou-se, Carlos tornou:
      Pai, Esmeralda quer ir embora, mas eu quero que ela fique. Quero pedir vosso consentimento para que ela seja minha mulher!
     D. Fernando sentiu uma onda de pavor. Casar! Com uma cigana! Que horror! Sem poder conter-se, tornou irritado:
      Certamente tua fraqueza no te faz enxergar bem as coisas.
      Ao contrrio. Estou voltando da morte. Quando se passa o que passei, pode-se avaliar o que tem valor. Para mim, o amor de Esmeralda  mais importante do que 
tudo.
     D. Fernando estava plido. Certamente esse era o golpe daquela cigana! Ela no queria uma recompensa. Ela queria tudo!
     Fulminou-a com o olhar e a custo dominou sua ira. Miro aproximou-se e disse srio:
      Esmeralda acaba de dizer a D. Carlos que vai comigo para o acampamento. Partimos amanh.
     Carlos empalideceu.
      No vais fazer isso comigo. Esmeralda fica. No quero que ela v. Se for embora, juro que jamais vos perdoarei.
     D. Fernando, olhando a fisionomia plida e contrada do filho, assustou-se e resolver contemporizar. Afinal ele podia estar enganado. Se Esmeralda pretendia 
ir embora, por que se irritar? Com o tempo tudo se arranjaria.
      Calma, Carlos. No falemos disso agora. Se queres que ela fique, no me oponho. No te irrites. Pode fazer-te mal.
     Carlos apertou a mo de Esmeralda com fora.
      Fica comigo  murmurou com voz fraca.
      Farei o que quiseres  murmurou a cigana com dificuldade.
     D. Fernando queria muito conversar com o filho sobre a tragdia. Havia muitas dvidas sobre o ocorrido, contudo esperava uma ocasio em que Carlos estivesse 
s. Era um segredo de famlia que no queria ver revelado nem aos criados. O subterrneo permanecia fechado. Sem foras para repor a arca no lugar, guardara-a em 
aposento vigiado por homens de confiana. Quando Carlos sarasse, poderiam devolv-la ao devido lugar. No se arriscava a comentar sobre o assunto diante de ningum. 
Mesmo assim, Fabrcio descobrira. Como tinha acontecido? Aguardava a partida dos ciganos para falar do assunto com Carlos, que, por vrias vezes, quisera mencionar 
os fatos, mas D. Fernando o fizera calar, alegando que tudo estava bem e oportunamente voltariam ao assunto. Apesar de sentir-se ainda enfraquecido, D. Fernando 
reassumira suas atividades na direo de suas terras e procurava colocar tudo nos devidos lugares. Pensava em Leonor, que agora podia retornar a casa, livre para 
sempre do marido. Entretanto, no tivera notcias de D. Gervsio. Onde estaria?
     Precisava assumir o castelo e as terras que ainda restavam ao cunhado para evitar que cassem nas mos de algum aventureiro, j que Fabrcio estava morto e 
no deixara descendncia. Leonor era a dona de tudo. Assim que Carlos melhorasse, iria at l para vistoriar a propriedade. Temia que os homens de D. Ortega tivessem 
ido primeiro e saqueado tudo. Por certo, eles sabiam que Fabrcio estava morto.
     Entretanto, os camponeses andavam assustados. Alguns afirmavam ter visto homens de D. Ortega escondidos no mato rondando a casa e pensando em novos ataques.
     D. Fernando reuniu os camponeses e dobrou a guarda. Naturalmente, pensava D. Fernando, eles sabiam das jias e pretendiam voltar ao ataque. Os servos estavam 
nervosos, por certo, em razo dos ltimos acontecimentos. Recusavam-se a entrar na sala onde Fabrcio tinha morrido e alguns at afirmavam ver seu fantasma ensangentado 
rondando o local.
     D. Fernando no acreditava que os mortos voltassem. Certamente, aqueles servos, campnios ignorantes e cheios de crendices, estavam fantasiando coisas.
     Repreendeu-os com severidade e os ameaou at de priso caso comentassem o assunto. Contudo, eles estavam apavorados. D. Fernando, querendo desmistiticar a 
coisa, rumou para a sala onde se dera a tragdia e ordenou a alguns que o acompanhassem. Uma serva chorava afirmando ter visto o fantasma encostado na parede da 
sala.
       absurdo. No h nada l. Os mortos no voltam. Venham comigo.
     A mulher continuava a chorar e recusava-se a ir. D. Fernando ordenou:
      Vamos. Estou mandando.
     Trmula e plida, ela os acompanhou. Preso aos ltimos acontecimentos desde sua chegada, D. Fernando no ia quela parte da casa, onde esperava ir com Carlos 
para verificarem tudo no subterrneo. Abriu a porta calmo, e entrou. Os servos pararam  porta medrosos. D. Fernando ordenou:
      Corram as cortinas. Vamos abrir as janelas. Vero que as sombras se dissolvem.
     Assustados, dois criados correram a janela, abrindo-as de par em par. Apesar disso, o ar era pesado e desagradvel. A serva de repente comeou a gritar:
      Ele est a! E no est s, Deus meu! Tem homens com ele. Querem vingana!
     Apesar de sua firmeza, D. Fernando sentiu penoso arrepio.
      Esta mulher est louca! Podem ver que nesta sala no h ningum.
      Eles dizem que o cheiro ficar aqui para sempre. Ningum conseguir apag-lo  dizia ela em pranto.  Pelo amor de Deus, vamos rezar!
     D. Fernando lutava com o inesperado, esforando-se por manter a calma. Mas foi forado a reconhecer que a sala exalava um forte odor de putrefao que a princpio 
era fraco mas que apesar das janelas abertas parecia acentuar-se, tornando-se insuportvel.
      Vamos embora daqui  tornou ele.  Esto muito medrosos vendo coisas onde no existe nada. No estou vendo ningum. Mande essa mulher embora e arranjem outra 
que no seja medrosa.
     A mulher saiu chorando e eles se afastaram comentando sobre o mau cheiro que se espalhara pela sala e que todos haviam sentido. L fora, comentavam com os companheiros 
e os boatos comearam a correr. Acreditavam que Fabrcio se unira ao prprio satans para vingar-se. O mau cheiro era do tinhoso, que estava ali no castelo. D. Fernando 
precisava chamar um padre urgente para afugent-lo. D. Fernando estava preocupado. Carlos ainda estava muito fraco e necessitando de cuidados. Por outro lado, havia 
os ciganos que ele insistia em manter ali. Agora essas idias dos camponeses cheios de crendices. As coisas estavam se complicando e ele no se sentia com foras 
para assumir o comando de tudo, enfraquecido e doente.
     Naquele mesmo dia escreveu uma carta a D. Antnio, relatando os fatos e pedindo que antecipasse a visita que tinham combinado. Durante sua estadia em Madri, 
tinham acariciado planos de unio entre Maria e Carlos e pretendiam cuidar do assunto quando a famlia fosse a Valena passar uma temporada no castelo de D. Fernando. 
Contudo, angustiado e nervoso, D. Fernando pedia a antecipao dessa viagem, colocando a necessidade de apoio e amizade que sentia em D. Antnio, homem rgido, de 
princpios e digno como fidalgo.
     Pensava que o amigo e futuro sogro do filho pudesse ajud-lo a resolver aqueles problemas intrincados de Fabrcio, ajudar a saber o paradeiro de Leonor e cuidar 
do futuro dos dois jovens. No mencionou os ciganos. Esse capricho do filho certamente passaria. Esmeralda lhe disse que iria embora e ele confiava que tudo desse 
certo. Arranjou portador e o despachou com a missiva. Agora, tinha apenas que esperar.
     Mandou preparar aposentos para os hspedes. Deu ordens para que despedissem todos os que estivessem com medo e acreditassem em fantasmas e arranjassem outros 
que se diziam corajosos e sem crendices. Mas para no desagradar os camponeses mandou chamar um padre que desde que D. Gervsio desaparecera vinha ao castelo para 
rezar as missas e oficiar os atos de religio. Encomendou missa solene para agradecer a Deus a sade do filho. O padre o convenceu de que devia primeiro rezar pela 
alma do assassinado e exorcizar o castelo e depois ento fariam a missa em ao de graas. D. Fernando continuava odiando Fabrcio mais do que nunca, mas se isso 
comprasse a paz de sua casa e sossegasse seus camponeses, ele concordaria.
     Assim, tudo foi marcado. D. Fernando entrou nos aposentos de Carlos meio contrariado. O moo o olhou perguntando com voz fraca:
      O que passa? Pareces aborrecido. H algo errado?
      No te preocupes. Sabes que nossos homens so ignorantes e cheios de supersties. Acham que o fantasma de Fabrcio ronda a casa e por isso querem um padre. 
No acredito nessas baboseiras, mas se isto os tranqiliza, tenho que aceitar, embora me aborrea. O padre Anselmo deseja exorcizar a alma daquele miservel e quer 
que rezemos por ele. Eu no perdo o que ele fez. Quase te roubou a vida! Rezar por sua alma! Se eu acreditasse nela, no me importaria que estivesse no inferno! 
Mas tive que concordar. Sabes que esses padres dirigem tudo e no devemos contrari-los.
     Esmeralda os olhava um pouco plida e Miro procurava manter-se afastado do assunto. Carlos tornou com voz baixa:
      Pouco me importam as missas. Que as rezem. Mas h algo que preciso contar-te.
      O que ?
      O que aconteceu naquele dia. Como surpreendi o patife e os homens de Ortega. H uma dvida que me preocupa muito. Onde esto D. Ortega e seus homens?
      Fugiram, com certeza. Alguns deles foram vistos rondando a casa e redobrei a guarda. Se algum tentar entrar no castelo, saberemos em alguns instantes. Fica 
tranqilo. Depois falaremos sobre isso. Agora terei que ir rezar pela alma daquele patife que lamento no ter matado com minhas prprias mos. Aquele cachorro!
     O rosto de D. Fernando foi se congestionando e de repente ele levou a mo ao peito exclamando com dificuldade:
      Ai! Falta-me o ar. Estou mal!
     Miro de um salto aproximou-se e amparou D. Fernando colocando-o no leito, afrouxando suas vestes enquanto dizia com voz enrgica:
      Cuidado, D. Fernando. No vos ligueis ao fantasma que cheio de dio clama por vingana! Se sabeis rezar, se tendes f,  chegada a hora de pedir. Vejo grandes 
nuvens negras sobre vossa cabea. O sangue de muitos homens que pedem vingana. No  hora de rancor nem de desafios.  hora de rezar e esquecer os erros passados.
     D. Fernando, plido, respirando com dificuldade, olhava assustado sem atinar com o que lhe estava acontecendo. Carlos queria levantar-se para socorrer o pai, 
mas Esmeralda o detinha afirmando segura:
      Deixa Miro trabalhar. Ele sabe o que est fazendo.
      Meu pai est mal. Preciso ajudar!
      No podes. Ests muito fraco. Miro trata dele.
     O cigano colocara a mo espalmada sobre a testa de D. Fernando, que gotejava de suor. Em vo ele procurava falar, sua voz no saa. Miro continuou:
      Acho que  chegada a hora de acreditardes na sobrevivncia da alma! No desafieis pobres criaturas enlouquecidas e cegas pelo dio. Procurai antes orar por 
elas e pedi a Deus que as leve desta casa. Lembrai-vos disso. O dio s traz a revolta e a dor. Deveis aprender a esquecer as ofensas, como a religio vos ensina. 
No estais a vos persignar todos os dias na igreja? Por que no seguis os ensinamentos de vossa religio, que manda perdoar os inimigos? Fazei isso e talvez vos 
possais salvar!
     D. Fernando estava pasmo. Um cigano pregando sermo? Como podia ser isso? O mal-estar foi passando e aos poucos ele voltou ao normal. Sentou-se na cama e olhou 
Miro com seriedade. Perguntou:
      Podeis dizer-me o que passou aqui? No entendi.
     O cigano olhou-o calmo. Em sua voz havia um pouco de tristeza:
      Quereis saber? Estais preparado para ouvir a verdade? D. Fernando empertigou-se:
      Por certo. Podeis falar.
      Quando comeastes a falar de D. Fabrcio, ele apareceu e vos agarrou pela garganta querendo vos matar.
     D. Fernando deu um pulo.
      No creio. Os mortos no voltam. Isto no  verdade.
      Neste caso, fiquemos por aqui. No vos posso dizer mais nada. D. Fernando estava inconformado:
      No pode ser! Fabrcio est morto. Como poderia agredir-me? Miro conservou-se calado. Carlos assustado perguntou:
      Sei que falas a verdade, Miro. Acredito em tua palavra. Porm como sabes que era Fabrcio? No o conheceste.
     Miro sorriu ligeiramente.
      O homem que entrou aqui era de alta estatura, forte, cabelos escuros e camisa fina cor de palha, no cinto de couro cru havia uma fivela com um braso. Duas 
armas entrelaadas com ramos de oliveira. O que chamou-me a ateno foi um medalho que ele trazia ao peito, no qual havia um retrato de uma bela mulher, de negros 
cabelos e pele de loua delicada. Trazia um colete de couro com duas algibeiras.
     D. Fernando estava pasmo. Quando Miro chegara ao castelo, Fabrcio j tinha sido enterrado h dias. Como podia descrev-lo com tanta perfeio? Carlos estava 
arrepiado:
       ele! Tu o viste! Assim estava vestido no dia do roubo. Eu o vi e Incio tambm. Era ele. Tu no podias saber! Pai, a alma dele esteve aqui! Estou certo 
disso.
     D. Fernando estava assustado.
      Como pode ser? Deus iria permitir tanta injustia? Ele nos arruinou, assaltou e quase destruiu tua vida, e agora ainda volta para nos perseguir? Deus  to 
injusto?
     Miro tornou calmo:
      No contesto a justia de Deus. Nem posso explicar. Mas ele vos agrediu e bradava vingana. Tinha as mos crispadas, cheias de sangue e no pescoo e no peito 
chagas horrveis que sangravam. Fazia d. Estava em grande sofrimento, beirando a loucura. S posso dizer que rezem por ele e pelos outros. Todos esto sofrendo 
muito.
      Outros? Que outros?  perguntou D. Fernando.
      Os que morreram com ele. Carlos sentiu um arrepio de pavor.
      Pai, precisamos esclarecer uma coisa! No posso esperar mais.
      Naquela noite outros homens morreram, havia dois corpos na entrada do castelo  tornou D. Fernando.
      So mais. Vejo oito pessoas que querem vingana! Precisam orar muito e talvez deixar este castelo, o lugar est maldito.
      Pai  disse Carlos , precisamos ir l. Sabeis onde me refiro.
      Sei. Depois falaremos.
      No. Tem que ser agora. Eu vi. Fabrcio os prendeu l! Algum por acaso os libertou? Eles teriam encontrado a sada?
     D. Fernando empalideceu. Teria a tragdia sido maior?
      O mau cheiro  pensou apavorado. Teriam eles ficado l dentro? Precisava verificar, mas como? Quem poderia ir at l naquelas circunstncias? Carlos estava 
lvido:
      Pai, ningum os tirou de l? D. Fernando suspirou a dizer:
      Ningum conhecia esse segredo. S tu viste prend-los l?
      S. Estava preocupado com o que sabes. Enquanto os outros davam busca pela casa, fui at l e vi a porta aberta. Eles, l dentro, conversavam. Vi tambm quando 
dois trouxeram a arca para fora e Fabrcio os mandou voltar em busca do resto. Assim que os viu entrar, cerrou a porta e rindo maldosamente comeou a colocar as 
jias em um saco. Foi quando eu sa de trs da cortina e o interpelei. Ele me agrediu, rolamos, ento Incio apareceu. Quando ele o feriu, julguei-me a salvo, mas 
o malvado ainda teve foras para ferir-me. Ningum os viu sair?
      Ningum  tornou D. Fernando assustado.  Meu Deus! Que castigo morrer ali sem ar nem gua!
      Como sabeis que ficaram l? Que no encontraram a sada?
      Se tivessem sado, algum os teria visto, teriam deixado rastro de sua passagem. Sabes quantos eram?
      No, ouvi vozes, mas no posso precisar o nmero deles.
      O que me deixa certo de que morreram ali foi o cheiro de putrefao. Seus corpos esto em decomposio, por isso o odor desagradvel naquela sala e que os 
campnios julgaram ser o demnio.
      Pai, precisamos saber.
      Por ora, nada podemos fazer. Eu doente, tu ests fraco ainda de cama. Quando estivermos melhor, iremos verificar. Se estiverem l, sepultaremos os despojos. 
Nada mais podemos fazer. Mandarei rezar a missa. No me julgo culpado por essas mortes. Foi Fabrcio quem os trouxe aqui e deliberadamente os prendeu l. Certamente 
tinha a inteno de mat-los, livrar-se deles para ficar sozinho com o produto do roubo. Acho at que a mo de Deus foi providencial, deixando-os presos naquele 
local. Eram salteadores e assassinos. A justia se cumpriu.
     Miro olhava-o admirado:
      Se me permites, gostaria de vos dizer que deveis deixar o castelo. Vai ser muito difcil tir-los daqui e, por isso, melhor fareis se fsseis para outro 
lugar, porque essas almas atormentadas no vos daro trgua.
     Carlos estava plido. Confiava em Miro.
      Pai, eu posso arranjar um lugar para ns at conseguirmos construir novo castelo.  uma casa linda e cheia de sol. Ficaremos l at que uma nova ala possa 
ser levantada em outro local em nossas terras e quanto a este lado cerraremos suas paredes para sempre.
     D. Fernando sacudiu a cabea.
      Loucura! No me sujeito a essas crendices. Se eles morreram, no nos cabe culpa alguma. Com algumas missas acalmaremos tudo e com o tempo, depois de os enterrarmos 
devidamente, tudo ser sanado. Jamais deixarei a casa que tanto amo e que nos pertence h tantos sculos guardando nossos antepassados.
     Miro olhou Esmeralda preocupado. A cigana estava lvida. Carlos inconformado ardia por saber se de fato os saqueadores tinham permanecido fechados ali. Por 
outro lado, sentia que o pai estava certo. Fora Fabrcio quem os prendera intencionalmente. Se ele, Carlos, no estivesse to ferido, por certo os teria libertado, 
embora o fizesse para prend-los ou justi-los. Eram malfeitores. Por certo no os teria deixado morrer ali. Sua conscincia estava em paz. Apesar disso, no conseguia 
acalmar-se. Teve vontade de ir para sua casa com Esmeralda. Porm o pai parecia determinado. Ele no contou que tinha um refgio.
     Entretanto Miro estava decidido. No dia seguinte retornaria ao acampamento e levaria Esmeralda. Precisava salv-la, ainda que contra sua vontade.  noite, quando 
Carlos adormeceu, Miro chamou a cigana para a sala ao lado:
      Esmeralda, pela manh ns retornaremos ao acampamento. A cigana estremeceu:
      No posso deix-lo agora.
      Irs comigo. Se ficares, prevejo grandes desgraas. Precisamos sair daqui. Este castelo est maldito. No desafies certos poderes que te podem destruir.
     A cigana estava apavorada. Jamais Miro lhe falara com tanta seriedade. Conhecia-o muito para perceber que ele no brincava.
      Como posso ir? Carlos vai piorar.
      Se ficares, ambos sero tragados pela fora das coisas. Mas se fores, ele por certo te seguir e ento poders salv-lo e estar a salvo tambm. Entendes?
      E se ele no me seguir?
      Que homem j resistiu a teu amor? Ele te ama. No vive sem ti. Tratar de melhorar para ir a teu encontro. No temas.
     Esmeralda acalmou-se. Miro podia estar certo. Longe daquele castelo horrvel, por certo seriam felizes. Carlos a seguiria.
      D. Fernando no concorda que fiques. Est calmo porque eu lhe disse que vamos partir. Se ficares, por certo ser teu inimigo. O que poderias fazer aqui s 
e indefesa?
     Esmeralda suspirou:
      Tens razo. Irei contigo. Mas Carlos no pode saber. Falarei com Incio e o espero no acampamento. L seremos livres e felizes.
     Esmeralda sorria com esforo e Miro a olhou num misto de alegria e compaixo. Levando-a consigo, tinha esperana de salv-la.
     Chamou Incio, que dormia aos ps do amo e disse em voz baixa:
      Incio. Vou embora com Miro antes que o sol aparea. Quero que fales a Carlos sem que D. Fernando saiba.
     Incio concordou de pronto:
      O amo vai sofrer muito.
      Eu tambm. Quero que lhe digas que eu o amo mais do que minha vida e que  para salv-lo que parto. Aqui neste lugar, onde o sangue de assassinos foi derramado, 
jamais poder haver felicidade. Este lugar  maldito. Eu fico esperando no acampamento. Quando ele sarar, deve me buscar e eu vou com ele para onde ele quiser. Compreendes?
      Sim.
      Dars o recado?
      Podes esperar.
      Diz a ele que estou com o corao despedaado e que parti chorando.
      Eu digo.
      Agora vamos. Diz a D. Fernando que agradecemos a hospitalidade  tornou Miro.  Preferimos partir assim e ele vai entender por qu.
      Vou preparar provises para a viagem e cavalos.
      Te agradeo. Sabes que somos amigos. Quando Carlos voltar ao acampamento, te esperamos com ele.
     Incio sorriu:
      Quem dera! Aquilo sim  vida! Se meu amo deixar, eu vou mesmo. Vou preparar tudo e quando estiver pronto vos chamo.
     Esmeralda voltou ao lado do leito onde Carlos dormia. Fitou-lhe o rosto com adorao. Quisera lev-lo consigo. Como era difcil separar-se dele!
     Beijou-lhe a face de leve e o moo num gesto carinhoso atraiu-a para si num abrao do qual ela jamais desejaria sair. Deixou-se ficar, ajoelhada ao lado do 
leito, cabea em seu peito, sentindo seu brao envolvendo-a com carinho.
     Quando Miro fez-lhe um sinal de que era chegada a hora, a cigana sentiu um aperto no corao. Era difcil a separao. Sentindo as lgrimas rolarem, ela com 
gesto suave saiu dos braos de Carlos, que se agitou um pouco sem acordar. Olhando-o com desespero, a cigana saiu quase correndo da sala, tentando impedir o pranto. 
Miro seguiu-a em silncio e no ptio j os esperavam dois cavalos com as provises para a viagem. Nenhum dos dois conseguia falar. Incio tornou humilde:
      Que Deus vos bendiga. E a Virgem vos acompanhe.
      Gracias, Incio. Saludos a D. Fernando e a D. Carlos. Esmeralda em pranto abraou Incio com fora e montou o animal com um salto. Miro apertou a mo do criado 
e montou por sua vez, e, em silncio, logo se perderam na curva da estrada.
     Incio entrou um pouco triste. Gostaria de ter, com seu amo, partido dali, onde tudo estava to mudado e tantos acontecimentos dolorosos estavam ocorrendo. 
Fechou os portes do castelo e com pesar retornou a seu lugar.
     
     
Captulo XII
     
     
     Era dia claro quando Carlos acordou. Esperou calmo que Esmeralda entrasse no quarto, e como ela se demorasse, tornou:
      Incio, chama Esmeralda.
     Incio aproximou-se pesaroso. Carlos ergueu-se preocupado. Conhecia o criado muito bem.
      Onde est ela? Por que no est aqui?
      Tenho um recado dela.
      Fala. No vs que estou aflito?
      Esmeralda e Miro partiram. A pobre foi chorando.
      No  possvel. Meu pai com certeza exigiu. Ele vai ver comigo.
      No. Isso no. Ela disse que vos ama com alma e vos espera no acampamento. Disse ainda que este castelo est cheio de sangue e que aqui no sereis felizes. 
Pediu ao amo para ir a seu encontro. Ela ir para onde quiserdes. Vos espera sem falta quando estiverdes melhor.
     Carlos deixou-se cair abatido. Ela tivera a coragem de deix-lo! Agora que ele alimentava a esperana de ret-la para sempre no castelo! Por certo ela se assustara. 
Os ciganos eram muito supersticiosos. No devia ter contado os fatos diante deles. Fora isso. Sentiu-se abatido, mas tentou levantar-se. Tinha que melhorar para 
ir at o acampamento e traz-la de volta.
     Sentou-se e tentou ficar em p. Mas tudo rodou a sua volta e ele plido caiu no leito, a ponto de quase perder os sentidos.
     Incio gritou e D. Fernando, que estava na sala ao lado, entrou assustado.
      Que passa?
      D. Carlos quis levantar-se, sentiu-se mal.
      No pode ainda. Por que fez isso? Onde est Esmeralda?
      Eles foram embora.
      s escondidas?
      No. Deixaram saludos para vs. Preferiram sair sem falar a D. Carlos.
      Compreendo  fez D. Fernando, enquanto procurava socorrer o filho. No pde ocultar no olhar o brilho de satisfao. Felizmente as coisas voltavam  normalidade. 
Com o tempo, Carlos esqueceria aquela iluso.
     O moo estava inconformado. Queria que Incio os fosse trazer de volta e a custo conseguiram acalm-lo um pouco.
      V, Incio. Traz Esmeralda. Diz que estou morrendo. Assim ela volta.
      Meu filho, no podes for-la, se ela prefere estar com sua gente. Ela foi porque quis. Depois, os ciganos tm muito medo dos mortos. Viste como se apavoraram 
ao saber que aqueles assassinos tinham morrido aqui? Com essas crendices, no podes exigir que fiquem no castelo. Depois, eles pertencem a outro meio. No gostam 
de sair nem de se misturar.
     Carlos calou-se. Quando melhorasse, iria ver Esmeralda e resolveriam quanto ao futuro. Queria melhorar depressa. Apesar disso, naquele dia no conseguiu comer, 
insensvel aos carinhos da me e ao interesse do pai.
     No dia imediato Carlos acordou dia alto. A noite fora cheia de pesadelos e por isso s conseguira adormecer dia claro. Revivera a cena da morte do tio e lhe 
parecera sentir novamente a ferida sangrando e seu sangue todo esvaindo-se, chamava por Esmeralda mas a cigana no vinha. Sentia-se debilitado e sem apetite.
     Incio tentou dar-lhe uma caneca de leite, que o moo recusou enojado.
      Bebei, D. Carlos. Se no vos alimentardes, no podereis levantar logo dessa cama. Se quereis ir ao encontro de Esmeralda, deveis alimentar-vos.
     Carlos queria melhorar. Vencendo a nusea, concordou em sorver um pouco do leite, que o deixou acalorado dada sua fraqueza. Tentando anim-lo, Incio tornou:
      Hoje tudo aqui est engalanado. Vosso pai recebe hspedes! Chegaram h meia hora.
      Hspedes? Quem?
      D. Hernandez com a famlia. Precisais ver D. Maria. Que galante !
     Carlos admirou-se:
      Por que teriam chegado agora?
      D. Fernando os chamou quando as coisas estavam srias. Vosso pai receava morrer e deixar a famlia sem proteo. Vossa sade preocupava-o.
      Sei...  tornou Carlos em indiferena.
     Pouco depois, D. Fernando achegou-se ao leito do filho. Estava alegre como h muito no acontecia.
      Filho, D. Hernandez chegou com a famlia e desejam fazer-te uma visita. Logo mais  tarde os trarei aqui.
      Est bem  tornou Carlos com indiferena.  Por que vieram antes do combinado?
      Eu participei o que se passava aqui e D. Antnio imediatamente ofereceu seus prstimos.  nosso melhor amigo e v-lo aqui d-me tranqilidade.
     D. Fernando estava srio. Sua voz refletia contida emoo. Continuou:
      Quando fiquei doente, senti-me morrer e vendo-te tambm to fraco receei o pior. Por isso senti necessidade de avis-los. Te recuperas devagar. Eu no sei 
se amanh terei outra crise. Essas coisas de meu corao. Por isso, pensando no futuro, quero colocar D. Antnio ao par de tudo. Se algo me acontecer, ele cuidar 
de ti e de nossas terras at que estejas bem.
      Se isso vos acalma, eu concordo. Estais bem, por certo vivereis ainda por muitos anos. Quanto a mim, logo estarei bom e poderei reassumir os negcios.
      Deus te bendiga, meu filho. Mesmo assim no posso deixar de agradecer a D. Antnio tanta ateno.  mesmo nosso amigo.
      Est certo. Eu os aprecio muito. Quanto tempo ficaro?
      Ainda no sei. Pretendo ir com ele ao castelo de Fabrcio. Precisamos zelar de tudo. Pertence a Leonor, eles no tinham filhos. Preciso tambm procur-la. 
Agora j pode voltar sossegada. Est livre.
      Pobre tia. Onde estar?
      D. Gervsio  bondoso. Interessou-se por ela. Deve t-la guardado em algum convento, conforme combinamos. Preciso encontr-lo. Tenho vontade de combinar logo 
essa viagem. O castelo sem os donos pode ser presa fcil de malfeitores. Antes eu temia deixar o castelo por causa dos homens de D. Ortega. Agora que esto mortos, 
estamos livres. Ningum mais atacar esta casa.
      Ser mesmo que eles morreram?
      Pelo cheiro do salo que vem l de baixo, no tenho a menor dvida. Ningum agentaria tanto tempo preso l dentro, sem ar, gua e comida.
      Por que ser que no acharam a sada?
      Porque ela  secreta e tem uma trava do lado de fora. Uma vez baixada, no abre por dentro.
      Eu no sabia...
      Fabrcio devia saber. Caso contrrio no os teria deixado l. Era covarde e os temia. Sabia que se sassem o matariam sem piedade.
      Isso explica tudo.
       o que eu penso. Mas ainda no resolvi o que fazer.
      Ainda acho que no devemos mais mexer ali. Deus assim o quis. Vamos deix-los l. Isolar aquela ala da casa e construir no outro lado.
      No sei... Vou pensar. Agora estou mais tranqilo. D. Henrique  homem srio e ponderado. Vai ajudar-nos nesta hora to incerta.
     Carlos concordou, embora sem muito interesse. Seu pensamento estava com Esmeralda. Sua presena fazia-lhe muita falta. Como suportar a monotonia da convalescncia 
sem ela? Estava enfarado e sem nimo. Apesar disso, alimentou-se regularmente.  Urgia deixar o leito, sair daquele quarto, respirar o ar livre do campo, reintegrar-se 
 vida cotidiana.
     Cochilava quando pela tarde D. Fernando adentrou o quarto anunciando a presena dos visitantes. Em seguida, estes entraram. D. Hernandez era homem forte e robusto, 
ereto apesar dos quase cinqenta anos, cabelos vastos e encanecidos, pele morena, olhar enrgico. D. Engrcia, vestida de negro, o que no encobria sua robustez, 
tinha os cabelos negros e ondulados, esticados e presos em coque no alto da cabea, a contrastar com a brancura da tez muito delicada, revelando vida sedentria, 
sempre dentro de casa.
     Carlos sentou-se no leito e cumprimentou-os com delicadeza. H muito no os via e eles pareceram-lhe pouco mudados, mais robustos talvez. Vinham acompanhados 
por Maria. A moa era quase o oposto dos pais. Embora sua tez fosse clara como a da me e seus cabelos negros como os dela, seu talhe era delicado e muito bem torneado.
      Mida sem ser magra  pensou Carlos.
     Mas o que era bonito em Maria eram os olhos escuros, redondos e grandes em contraste com os traos delicados de seu rosto jovem; a boca pequena porm carnuda, 
sem ser vulgar, ao contrrio, com traos de finura emprestando-lhe  fisionomia ares de grande dama.
     Carlos olhou-a com curiosidade. Afinal, a menina magra e franzina, de tranas ao alto da cabea, se transformara! O que faz a vida com as pessoas!
     Maria aproximou-se e estendeu-lhe a mo com naturalidade. Parecia ter estado sempre ali.
      Ests melhor?  indagou com voz tranqila.
      Sim  tornou Carlos lutando para sair da sonolncia.
      Tua aparncia no  das melhores. Pareces cansado. Se te molestamos, ns vamos.
     Carlos olhou-a admirado. As mulheres que conhecia no costumavam expor suas idias, nem falar com tanto desembarao, principalmente em presena dos pais.
      Por certo que no!  tornou ele, tentando interessar-se pelos visitantes.
      Carlos est se refazendo aos poucos. Se est cansado,  por estar retido no leito, s e sem poder ver o sol.
      Realmente  difcil  concordou D. Hernandez.  O pior da convalescncia  a cama. Tudo nos aborrece por causa disso.
     Os hspedes sentaram-se ao redor do leito e durante meia hora palestraram sobre vrios assuntos, da corte, da poltica, dos negcios. Carlos pode observar Maria, 
calada porm serena, e pareceu-lhe que a moa se transformara em uma fina e delicada criatura. Lembrou-se de lvaro, que estava apaixonado por ela. Ao que lhe dissera, 
era correspondido. Estariam comprometidos? Sentiu certo alvio. Isso tranqilizava-o. Gostando do primo, com certeza Maria o ajudaria a dissuadir os pais da idia 
de um casamento entre eles. Olhou a moa com simpatia. Com certeza, era uma aliada.
      Ests te sentindo muito s?  perguntou ela com delicadeza.
      Muito  tornou Carlos com certa amargura.
      Queres que eu venha fazer-te companhia depois do jantar? Se aprecias, posso ler um pouco. Tenho livros muito interessantes que por certo te iro distrair.
      Apreciaria muito, Maria. Obrigado.
     Carlos tinha inteno de conhecer melhor a moa e poder, de alguma forma, suavizar sua convalescncia. Ela no oferecia perigo, uma vez que estava apaixonada 
por outro homem. Fazia-lhe falta a presena de algum jovem com quem conversar.
     Quando os visitantes saram, Carlos adormeceu tranqilo. Acordou horas mais tarde e comeu com certo prazer, o que fez Incio sorrir satisfeito. Meia hora depois, 
Maria foi anunciada. Vinha com sua aia, que discretamente sentou-se a um canto do aposento. Trazia nas mos delicadas pequeno volume ricamente encadernado. Aproximou-se 
do leito, onde Carlos, sentado, a recebeu com prazer.
      Ests melhor?
      Estou. Dentro em breve estarei fora deste leito. Senta-te, por favor.
     A moa acomodou-se na poltrona ao lado da cama. Olhou-o com certa curiosidade e perguntou:
      Tens certeza de que no incomodo?
      Claro. Se me conhecesses melhor, saberias que dificilmente consigo esconder o que penso. O que nem sempre  agradvel. Garanto que tua presena me d prazer.
     A moa olhou-o sria.
      No gosto de me impor a ningum. Sou contra a hipocrisia dos sales. Podes crer que vim porque tenho prazer em conversar contigo e em conhecer-te melhor. 
Podemos ser amigos?
     Carlos apreciou o tom objetivo e seguro da moa e respondeu com sinceridade:
      Por certo. Vamos nos dar muito bem.
     Carlos sentiu-se  vontade para conversar com a moa como o faria com uma irm e, meia hora depois, riam-se e entretinham-se tanto que o livro ficou esquecido.
     Maria era moa muito instruda e apreciava a leitura, que fazia em vrios idiomas. Porm, apesar disso, qualidade rara em uma mulher, era muito simples e conversava 
com naturalidade sobre todos os assuntos, inclusive aqueles que no eram abordados pelas mulheres, como os negcios e a poltica. Carlos apreciou muito surpreender 
na moa uma personalidade espirituosa, alegre, sria e ao mesmo tempo objetiva. Irritavam-no muito as mulheres preconceituosas e demasiadamente ingnuas, ignorantes 
e limitadas de seu tempo. Maria parecia muito segura de si, muito serena e muito inteligente, sem por isso perder sua feminilidade.
     As horas escoaram-se com rapidez e quando a moa levantou-se Carlos admirou-se:
      J? Aonde vais?
      Preciso ir. Deves descansar.
      Eu dormi a tarde inteira. Fica mais um pouco. Agora no poderei dormir.  cedo.
      S mais um pouquinho. E para que te desperte o sono vou ler um captulo deste livro.
      Preferia conversar.
      Sabes que com minhas histrias acabei por perturbar-te o sono.  melhor algo mais repousante. A moa abriu o volume e comeou a ler. Era a histria de um 
menino que, como filho nico, tinha sido educado rigidamente para ser chefe de um imprio, soldado e lutador. Porm sua personalidade sensvel e amante da arte, 
abafada pelo ambiente, sufocada, fazia-o criar um mundo imaginrio onde ele vivia sua vida ntima e integral.
     A voz de Maria era agradvel e pausada. Carlos, que no gostava de leitura e a princpio cedera para no contrari-la, comeou a interessar-se pelo problema 
do personagem e pela descrio dos fatos, com os quais por vezes identificava-se.
     A moa parou e disse:
      Chega por hoje. Qual  tua opinio sobre o que li?
     Carlos pensou e comeou a falar o que sentia. E, dentro de pouco, parecia-lhes que o personagem existia e estava ali em carne e osso.
     Isso era novo para Carlos. Detestava estudar e a custo aprendera a ler e escrever. Mas era interessante analisar o personagem, que lhe parecia esmagado pelo 
meio e pela educao. Quando Maria se foi, Carlos ficou pensando na prpria histria. Ele tambm estava dividido. Ele tambm amava Esmeralda, a liberdade, a vida 
livre e tinha que se submeter ao pai,  rotina dos negcios e s imposies da corte, com os padres e tudo o mais. S muito tarde conseguiu adormecer.
     Maria conseguira inspirar-lhe confiana e amizade. Nos dias que se seguiram, a moa passou a ser esperada com ansiedade. Dentro de sua solido e de seu sofrimento 
com a partida de Esmeralda, ela representava a possibilidade de entretenimento agradvel.
     Para Carlos, as mulheres representavam apenas atrao para seus jogos amorosos. Mas Maria era diferente. Ele no conhecera nenhuma mulher como ela. To instruda, 
to equilibrada, parecendo guardar dentro de si toda a sabedoria do mundo.
     Surpreendia-se Carlos com a inteligncia da moa, que opinava sobre todos os assuntos, sem a reserva normal das mulheres que conhecia, sempre caladas, jamais 
emitindo opinio, a no ser sobre os afazeres do lar, as notcias da moda ou as intrigas da corte.
     Maria no se interessava por esses assuntos, preocupando-se com outros problemas mais srios, sem perder a delicadeza feminina e a correo da boa educao.
     Carlos jamais conhecera algum assim. As mulheres grosseiras e incultas, mesmo pertencendo s mais nobres famlias, eram uma constante, e o moo encontrou na 
jovem visitante uma boa companheira com quem podia entreter-se conversando, como jamais o fizera com ningum.
     Carlos sentiu despertar dentro de si novo interesse pelas coisas, pelas pessoas e aprendeu com Maria a comear a observar seus prprios atos, analisando-os 
melhor  luz de novos raciocnios.
     O amor de Maria pela leitura, que seus pais toleravam, o que tambm no era costume naqueles tempos, tinha desenvolvido seu grau de cultura e enriquecido seus 
conhecimentos de tal sorte que Carlos se sentia encantado com suas narrativas sobre histria, sobre poltica e at sobre botnica. Maria adorava a natureza e por 
isso estudara os ciclos das plantas, dos animais e mostrava tudo ao moo de forma atraente, estimulando-o a procurar dentro de si mesmo qual desses assuntos lhe 
despertava o desejo de estudar e aprender.
     Alm de tudo, Maria era muito bonita. Seu sorriso franco, sua risada sonora e musical, sua voz firme e agradavelmente modulada fascinavam o moo, amante da 
beleza e da graa.
     Mas apesar de sentir-se distrado e bem-disposto na companhia da moa, Carlos pensava muito em Esmeralda, guardando ressentimento.
     Por que ela o abandonara? Logo na hora em que pensava vencer a resistncia do pai e conseguir permisso para o casamento? Seria mais importante para a cigana 
viver com o bando do que estar com ele para sempre? O que ela esperava? Que ele abandonasse o pai doente e velho, precisando de seu brao forte, para viver com ela 
na sujeira do acampamento?
     Amava Esmeralda, mas, agora, comeava a raciocinar um pouco mais, analisando sua vida passada. Vira a morte de perto e isso o despertara um pouco sobre a transitoriedade 
da vida.
     Falou sobre isso com Maria no dia em que se levantou e pde apanhar um pouco do sol da manh sentado no ptio. O dia estava lindo e o jardim, cheio de flores.
      Sinto-me alegre, como se tivesse voltado  vida. Depois de ver a morte de perto, chega a ser emocionante.
       verdade. Estiveste mal, mas agora, graas a Deus, podes ver as belezas do mundo outra vez.
      Achas mesmo o mundo bonito?
      Por acaso queres coisa mais linda do que este cu azul e a luz do sol que nos ilumina e agasalha?
      , acho que posso entender  tornou ele pensativo.  Depois do que passei!
      A moa sorriu!
      Deus salvou tua vida para que faas dela algo muito importante.
      Eu?! Nem sequer gosto de padres! Nada quero com a religio. Por que Deus se ocuparia comigo? s vezes acho at que ele no existe.
      Nesse caso, quem teria feito todas essas belezas? E com tal perfeio?
     A moa com gesto largo designou o cu, o sol, as flores, tudo. Carlos no soube responder. Ela prosseguiu:
      Falo de Deus com amor, no falo dos padres nem da religio.
      No te entendo.
      Os padres so homens e a religio eles a fizeram ser como . Se queres conhecer Deus, tens que aprender a olhar suas obras. Ver o que ele criou, e ento poders 
conhec-lo, respeit-lo e am-lo.
     Carlos ficou pensativo.
      Dizes cada uma!
     Maria puxou o galho da trepadeira que crescia luxuriante ao lado da janela, onde pendia uma linda rosa vermelha.
      V, Carlos, que beleza, toca de leve suas ptalas de veludo, sente seu delicioso perfume, v como  bela. Nenhum homem, por mais sbio, jamais pde fazer 
uma delas!
     O moo, admirado, passou os dedos sobre as ptalas delicadas, aspirou o perfume, admirou a beleza e sorriu porque realmente o que ela dizia era verdade. A lgica 
de Maria apanhava-o de surpresa, obrigando-o a enxergar pequenas coisas que nunca tinha observado antes, fazendo-o pensar.
      So coisas da natureza  argumentou ele.
      Tens razo. So coisas da natureza, so coisas de Deus.
      Quem nos garante que Deus est nisso?
      A prpria vida. A fora das coisas, a perfeio da natureza que s uma inteligncia superior poderia ter criado.
      Deus inteligente! jamais ouvi tal afirmativa. Se os padres te escutam, vo chamar-te de herege!
     Maria deu de ombros e sorriu:
      Talvez, mas eles no tm uma idia melhor. Dizem que Deus  o criador de tudo, mas fazem dele um senhor malvado, que assusta at as crianas, ameaador e 
insensvel, querendo obrigar-nos a entrar no cu, caso contrrio aponta-nos o dedo em riste empurrando-nos sem apelao para o inferno.
     Carlos riu divertido.
      No sabia que eras contra a religio. Teus pais sabem disso?
      Se queres saber, tenho minhas idias sobre Deus, a religio e os padres, e meus pais escandalizam-se com elas, mas quando lhes falo sobre o que penso no 
encontram argumentos. Julgam-me excntrica. Por outro lado, no lhes dou motivos de queixa. Procuro ser filha amorosa e alegre. Damo-nos bem.
      Tenho observado isso. Tens um jeito especial de trat-los que os deixa felizes.
      Amo-os muito. E o amor  muito importante em nossas vidas. Carlos suspirou.
      Assim . Sem amor a vida perde o sabor.
     O moo pensava em Esmeralda. Uma onda de tristeza o acometeu.
      Falvamos do amor de Deus, no dos homens. Carlos interessou-se:
      Como assim?
      Da natureza, de como Deus, por nos amar muito, fez um mundo to lindo para nos servir de morada.
      Pensas mesmo assim? Sempre vejo os padres dizerem que isto aqui  um vale de lgrimas. Que fomos expulsos do paraso e que a Terra  castigo de Deus.
      Eles so homens, tm idias imperfeitas. H pouco vimos a beleza da rosa, estamos sob o cu azul to lindo, iluminado, claro, sem fim. Olha para o cho e 
v essa grama verde, como um tapete precioso que tem vida, de um verde repousante, para que nossos ps possam pisar. Olha as rvores, os frutos, os pssaros, as 
borboletas. Podes duvidar do amor de Deus, fazendo tudo isso para ns, cegos de alma, que ainda nem sequer conseguimos enxergar essas belezas, que ateamos fogo aos 
campos, matamos sem piedade os animais, aprisionamos os pssaros, derrubamos as rvores e ainda colocamos na boca de Deus palavras que ele nunca disse?
     Carlos estava boquiaberto. Nos olhos de Maria havia um brilho to intenso que dava vida a seu rosto jovem, tornando-o ainda mais lindo.
      No pareces uma mulher  murmurou ele fascinado. A risada cristalina da moa cascateou no ar:
      Isso me deixa preocupada, porque gosto de ser mulher!
      Dizes cada coisa! Ela riu com gosto.
      S algum como tu poderia trazer alegria a minha vida triste. A moa franziu o cenho com energia.
      Ests saindo da morte. A alegria deveria ser natural. A gratido a Deus por ter poupado tua vida  um sentimento de justia. Depois, s jovem, belo, rico 
e forte. No achas que tens bons motivos para ser um homem feliz?
     Carlos fechou os olhos pensativo. No fundo reconhecia que a moa tinha razo. Mas seu amor por Esmeralda trazia-o angustiado.
      Estou ainda muito fraco. Gostaria de poder levantar-me de vez, cuidar de nossos negcios. A sade de meu pai  delicada, anseio por retomar o ritmo de minha 
vida. Isso me traz inquieto e preocupado  justificou ele. Seu rosto estava plido e contrado.
     Maria levantou-se e chegando perto, num gesto natural, alisou-lhe a testa e os cabelos com meiguice e delicadeza.
      Aprende a ter pacincia com as coisas que no podes mudar. Essa  a sabedoria da vida. Cada vez que colocas teus pensamentos nessa angstia e abraas a impacincia, 
jogas veneno em teu prprio sangue. Se pudesses ver teu rosto, compreenderias o que digo. Ests plido. Ao passo que, quando te alegras, teu rosto se transforma, 
ficas corado e j pareces totalmente recuperado. Assim, alm de no ajudares tua cura, a retardas. A alegria  precioso remdio tanto para as feridas do corpo como 
para as da alma. Por que no ajudas tua prpria cura, j que queres sarar depressa?
       que nem sempre podemos estar contentes com as coisas que nos acontecem.
      Isso  verdade. Mas em teu caso h muito mais motivos para a alegria do que para a tristeza. Afinal j ests quase bom. No  uma felicidade?
     Carlos sentiu uma onda de gratido. Apanhou a mo dela e a segurou com fora.
      s uma enfermeira ideal. Uma coisa  certa: sem tua presena, tudo teria sido muito pior.
      Pois ento vamos sorrir. Sabes qual  um dos segredos da sabedoria da vida?
     Ele sacudiu a cabea divertido e ela continuou:
       que no sabemos o que vai acontecer daqui a segundos e as coisas acontecem de tal forma que, de repente, tudo pode mudar. No  excitante e maravilhoso?
     Carlos ficou srio, pensando. Era verdade. Logo ele estaria curado e de um momento para outro tudo poderia modificar-se. Riu com gosto. Uma sensao de bem-estar 
o invadiu, e pensando no futuro, em Esmeralda, pela primeira vez, desde que a jovem cigana partira, sentiu-se realmente feliz.
     
     
Captulo XIII
     
     
     De volta ao acampamento, Esmeralda sentia-se triste e desanimada. Um vago pressentimento a emudecia, fazendo-a permanecer calada. Miro observava-a penalizado 
mas sem ter o que dizer.
     Apesar da alegria dos amigos festejando sua volta, a moa no se sentia bem. Fundas olheiras marcavam-lhe as faces. Recolheu-se a sua carroa sem dar importncia 
aos companheiros que cantavam em sua homenagem, convidando-a a danar. Tudo intil.
     Miro procurou Sergei para desabafar, contando-lhe o que tinha acontecido, e terminou:
      As coisas no esto bem. Nuvens negras cobrem o destino e esto sobre Esmeralda. Tenho me esforado para ajudar, mas no consigo fazer nada. A fora das coisas 
 mais forte do que eu.
      Pobre Esmeralda!  murmurou Sergei.  Vamos lutar, Miro. Vamos trazer alegria para ela. Vamos ver se consegue esquecer o fidalgo. Esse amor pode ser-lhe fatal.
      Ah! Se eu pudesse! Arranc-lo-ia do corao dela. Mas ele a ama e isso deu fora. Nada posso fazer!
      Amanh, quando ela descansar, irei falar-lhe. Sempre me escutou. Vou tentar ajud-la.
      Isso, Sergei. Vamos lutar. Esmeralda precisa esquecer!
     Mas a moa estava arrasada. Sergei foi v-la, conversaram muito, e ele tentou mostrar-lhe seu ponto de vista, a diferena de costumes, de raa, de vida, entre 
o mundo de Carlos e o deles.
     Mas Esmeralda estava determinada.
      Ele me ama. Vai voltar. Vir buscar-me e juntos seremos felizes. Debalde Sergei tentou faz-la compreender que ela jamais seria feliz vivendo no palcio dele 
entre os fidalgos, arrogantes e cheios de preconceitos, e que ele por sua vez estava acostumado a seu meio e no agentaria a vida do acampamento para sempre. Mas 
foi intil: a cigana apegava-se a sua esperana com obstinao.
     Vendo que no conseguiam faz-la entender, resolveram alimentar-lhe a iluso a fim de contemporizar e obrig-la a sair da tristeza em que estava imersa. Se 
ela tomasse gosto pela vida, ainda que apegada a essa esperana, quem sabe o tempo a fizesse esquecer e retornar  sua antiga alegria.
     Assim, aos poucos, Esmeralda foi retomando seus hbitos e mostrando-se menos triste.
     Uma tarde em que Miro entretinha-se tratando seus cavalos, a cigana aproximou-se:
      Preciso falar-te.  srio.
     O cigano amarrou as rdeas do animal e aproximou-se.
      O que ?
      Preciso de tua ajuda.
      Sabes que sempre podes contar com ela.
       que aconteceu o pior. Estou esperando um filho dele. Miro ficou srio.
      Tem certeza?
      Tenho. Quando fui para a casa dele, descuidei-me. Estava to feliz! Agora, aconteceu. Quero teu conselho. Sabes que no fao nada sem te falar. Conheces as 
coisas do futuro. Pensei em falar com Mirka para que me d uma beberagem que arranque de meu ventre esse filho que eu no quero.
     Miro olhou-a firme. Em seu rosto havia um trao de preocupao.
      Esmeralda! Ainda no ests bem. Nuvens negras cobrem o castelo de Carlos, e ests envolta com ele. No abuses das foras da vida! Se esse filho foi concebido, 
deixa-o vir!
      Mas, Miro, vou ficar feia, disforme, no fui preparada para ser me. Depois, Carlos vai voltar, e se vier na primavera, eu estarei presa a esse filho que 
vai interpor-se entre mim e ele!
     O cigano olhou-a com firmeza.
      Teus receios so infundados. Se lhe deres um filho, Carlos te amar ainda mais. Devias ser grata a Deus que te fez mulher e te permitiu conceber.
     Tomou a mo da cigana e seus olhos estavam fixos em um ponto distante; seu rosto, plido e contrado. Foi com temor e angstia que Esmeralda esperou suas palavras.
      Esmeralda! Tudo na vida tem seu preo. Se amas Carlos, recebe esse filho com amor. Ele te ser apoio e consolo no futuro.
      No quero! Carlos voltar e viveremos juntos, s ns dois. No preciso de mais ningum!
      No conheces o futuro! No alimentes tua fantasia!
     A cigana deu um salto e agarrou com fora o brao de Miro:
      Sabes de alguma coisa? Carlos no vai voltar?
      Carlos est passando por uma prova de fogo. Vejo dois caminhos em sua vida, ele ter que escolher. Um ser de lutas, mas melhor para ele. O outro tambm ser 
de lutas, mas levar  derrocada! Dois caminhos, duas mulheres em sua vida!
     Esmeralda estava plida. Outra mulher na vida de Carlos? Uma onda de dio a acometeu:
      Ento ele j tem outra mulher?
      No. Ainda no. Mas a fora da vida leva cada um para onde deve ir e ele a encontrar. E ter que escolher.
      A felicidade dele est comigo. A outra o levar  derrocada.
      No saberia dizer-te. Contudo, Esmeralda, no atires fora a ajuda que recebes, banindo esse filho de teu caminho. Recebe-o com alegria, d-lhe todo teu amor, 
e o futuro te ser mais feliz.  s o que posso te dizer.
     Miro deu profundo suspiro e dentro de segundos sua fisionomia voltou ao normal. Esmeralda estava apavorada. Agarrou as mos do cigano com fora.
      Miro, nunca me falaste assim como hoje. Conta-me. O que viste? Sei que os espritos te mostram o futuro. Estou com medo! Carlos pode me deixar! E se ele o 
fizer, ser destrudo!
     Miro tentou acalm-la.
      No sejas pessimista. No sabemos o futuro, nem se as predies vo se realizar.
      Eu sei que sempre acertas. Carlos pode gostar de outra mulher. Arrependo-me de ter vindo embora.
      No sejas criana. No podamos ficar mais naquela casa. Est cheia de maus espritos. Por que te preocupas com outra mulher? Por acaso no confias mais em 
teu poder de atrao? Achas que Carlos poder esquecer-te?
     Esmeralda ficou pensativa. Sabia o quanto era atraente. Carlos jamais soubera resistir-lhe.
      Depois  continuou Miro , ele ter que escolher. Achas que ele no te escolher?
     Embora sentindo funda tristeza, Miro pretendia poupar a cigana.
        tornou ela mais refeita , tens razo. Pode aparecer outra, mas ele no me deixar. Eu sei!
      Isso. Agora, o melhor a fazer  cuidar de tua sade. Por algum tempo, ficars em repouso.
     A cigana sacudiu a cabea.
      Por enquanto ainda no sei o que vou fazer.
      Pensa no que te disse e no atraias a desgraa sobre tua cabea.
      Vamos ver...
     Vendo-a afastar-se pensativa, Miro sentiu um aperto no corao.
     Nos dias que se seguiram, Esmeralda continuou retrada e distante. Nada conseguia alegr-la. Esse filho, a seu ver, era um empecilho em seu caminho. Mas, por 
outro lado, supersticiosa ao extremo, temia a desgraa. O que fazer?
     Miro procurava ajud-la, mas a cigana parecia indiferente a tudo que no fosse sua luta ntima. No se alimentava, emagrecia a olhos vistos. Era vista durante 
a noite andando pelo acampamento, como fantasma inquieto e insone.
     At que um dia, vendo-a desfalecer, Miro, preocupado, levou-a para a carroa e tratou de socorr-la. Estava srio e havia medo em seus olhos. Quando a cigana 
abriu os olhos, disse-lhe com energia:
      Vou cuidar de ti. Vais obedecer-me. Ficarei aqui. Ters que comer, dormir e viver! No te deixarei morrer desta forma.
      Deixa-me. No tens nada com minha vida!
      No sejas ingrata. J disse que agora vais me obedecer. Toma este ch que preparei. Vamos.
      No quero. Estou bem.
      No ests e no me desmintas. Vamos, toma, estou mandando. Levantou a cabea dela e colocou a caneca em seus lbios. Sem foras para reagir, Esmeralda bebeu 
tudo.
      Muito bem. Agora ouve. No s uma mulher fraca. Sempre te vi forte. No ser agora que te vais deixar vencer. Se queres agarrar tua felicidade, tens que estar 
forte e de posse de toda tua beleza. Ests feia e descorada. Nem pareces a Esmeralda que todos conhecem. Queres que Carlos te encontre desse jeito?
     A cigana pareceu animar-se.
      Em meu ventre est um intruso. Quisera arranc-lo agora mesmo. A sim eu voltaria a ser a mesma.
      No te permitirei essa loucura. No s obrigada a ficar com ele. Se no o quiseres, encarrego-me dele ao nascer. Levo-o para bem longe e nunca mais o vers, 
mas no cortes o fio da vida. Se o fizeres, no poderei salvar-te.
      Mas Carlos pode voltar e encontrar-me deformada!
      Isso no vai acontecer. Carlos no vir antes da primavera. Sabes que estava ainda muito fraco e ademais no gosta de passar o inverno no acampamento. E na 
primavera teu filho j ter nascido e tudo estar bem.
     A cigana suspirou.
      Est certo. Vou seguir teus conselhos. Deixarei que ele nasa, mas no o quero. Assim que me livrar dele, tu o levas para onde quiseres. No quero nem saber. 
Promete que vais ajudar-me!
     O cigano olhou-a nos olhos.
      Melhor seria que o criasses e lhe desses teu amor. Mas se te recusas, nada posso fazer, concordo em lev-lo para longe. Podes contar comigo.
     A cigana pareceu aquietar-se e, com a mo carinhosamente segura por Miro, adormeceu.
     Entretanto, Carlos ia se recuperando e D. Fernando notava que o filho parecia alegre e descontrado. A presena dos amigos trouxera ao castelo um aconchego 
agradvel, num momento doloroso e incerto. D. Encarnao tomara-se de amores pela jovem Maria, a quem admirava no s pela dedicao a Carlos mas por sua personalidade 
diferente, sua cultura, sua maneira de ser incomum s mulheres de seu tempo.
     Perto dela, sentia-se bem e apreciava-lhe os pontos de vista, habituando-se com facilidade a pedir-lhe opinies e s vezes at conselhos.
     O marido via com bons olhos a atitude da esposa. Afinal, ela no pudera ter mais filhos e Maria podia ser a filha que ela sempre desejara. A cada dia Carlos 
parecia-lhe melhor. Ele e Maria haviam se tornado inseparveis. A moa logo pela manh cuidava do desjejum levando-lhe um gostoso repasto, depois esperava-o na varanda 
para um passeio.
     O outono j estava quase ao meio, mas apesar do frio eles caminhavam alegres, conversando sempre sobre os mais variados assuntos. Depois, sentavam-se no ptio 
ou no salo. Carlos sempre pedia que a moa lesse para ele. Gostava de ouvir o som de sua voz e comentar com ela o assunto da leitura.
     Num desses momentos foi que lvaro entrou no salo. Carlos alegrou-se e abraou o amigo com prazer. Depois o moo beijou a fronte da prima com delicadeza.
      Que bom teres vindo!  tornou Carlos com sinceridade.  Juntos poderemos passar horas maravilhosas!
      Assim espero. Pensei encontrar-te com o p no tmulo e vejo que ests muito bem!
     Nos olhos do moo havia um brilho indefinvel. A cena de intimidade que surpreendera ao chegar causara-lhe desagradvel impresso. Os dois to perto, ela lendo, 
ele olhando-a com prazer...
     Conhecia Carlos. Jamais o vira interessar-se por qualquer leitura. Talvez estivesse gostando de Maria. Sentiu um peso no corao. Amava a moa com loucura. 
Seria capaz de tudo por causa dela. Fez um esforo sobre-humano para tentar acalmar-se e dissimular.
      Agora  tornou Carlos com nfase.  Estive mal, mas graas a tua prima vou indo melhor.
      J ests bem  tornou ela com simplicidade.
      Tu no disseste que ests feliz com minha chegada  disse lvaro olhando-a ansioso.
      lvaro, sabes que s meu primo muito querido.  sempre um prazer estar contigo.
     Carlos olhou um pouco surpreendido. Tinha se esquecido de que lvaro amava a prima e lhe pedira ajuda a fim de poder casar-se com ela.
     Olhou-a com curiosidade. lvaro tinha-lhe dito que era correspondido. Seria mesmo verdade? Maria estaria apaixonada pelo primo?
     Naquele momento achou isso quase impossvel. Agora que a conhecia bem podia perceber que eles eram muito diferentes. Apreciava lvaro, mas ele era um fidalgo 
preocupado com a corte, com sua aparncia, com seu bem-estar, com vida social. No se casava bem a alegria de Maria, sua delicadeza de esprito, sua argcia e sua 
maneira de ser. Mas sabia que o amor no raciocina. Tambm ele no estava amando uma cigana? Esmeralda! Pensou nela e nunca lhe pareceu to distante. O mundo dela 
era to diferente do seu! Seria feliz ao lado dela?
     Agora que conhecera outras coisas, que estava aprendendo a apreciar a conversa inteligente ao p do fogo, no aconchego do lar, pensando na responsabilidade 
de viver bem, como deixar tudo, obrigaes, lar, pai velho e doente, me extremosa, amigos, gente que precisava dele nas terras, para viver sem eira nem beira no 
acampamento cigano e quase s custas de uma mulher?
     Era a primeira vez que pensava nisso dessa forma. lvaro cortou-lhe o fio do raciocnio.
      Carlos, ests to distante! Ser minha chegada que te emudeceu? Carlos riu gostosamente. lvaro estava com cime de Maria, que bobagem!
      Claro que no. Mas tua presena fez-me recordar amigos que no vejo h muito tempo, recluso, nesta casa. Pensava neles com saudade.
     lvaro olhou-o querendo penetrar-lhe fundo nos pensamentos. Carlos dissera amar a cigana, seria verdade? Sabia que ele tinha vivido com ela na casa que comprara 
e que o romance fora bruscamente interrompido pelos acontecimentos. Se ele pudesse saber!
      No vais continuar a leitura? Sinto ter interrompido.
      No. Passvamos o tempo. Gostaria de ouvir-te. O que h de novo pela corte?
     Vendo-se prestigiado, lvaro comeou a falar animadamente contando as novidades e ambos as ouviram com ar de interesse. Mas, naquele momento, Carlos desejou 
que o moo no tivesse chegado para quebrar o encantamento agradvel da voz de Maria. Estaria ela interessada nas intrigas palacianas? Jamais a vira mencionar tal 
assunto. Contudo, Maria escutava atenciosamente e em sua fisionomia no havia trao de pesar.
     Nos dias que se seguiram, Carlos comeou a perceber que a presena do amigo irritava-o. Desde que chegara ao castelo no se afastara um momento sequer de seu 
lado, no o deixando usufruir da companhia de Maria como de hbito.
     Lutava para controlar essa irritao. Afinal o moo procurava tornar agradveis todos os momentos. Tocava guitarra com maestria, cantava, arrancando aplausos 
de todos. Mas Carlos sentia falta daqueles momentos de calma e de tranqilidade conversando com Maria. Ela fora a nica pessoa que lhe abrira o esprito para o outro 
lado da vida, fora das paixes e do materialismo a que estava habituado. Falara a seu esprito, mostrando-lhe as belezas da natureza, a sabedoria de Deus, levantara 
o vu do conhecimento das coisas, das pessoas, e Carlos agora sentia necessidade desses momentos que tanto bem-estar lhe proporcionaram.
     Jamais conhecera algum como Maria. Irritava-o profundamente o amor de lvaro por ela. Ele no era o homem indicado para faz-la feliz.
     Certa tarde em que os dois amigos encontravam-se sozinhos no salo, lvaro procurou falar sobre o assunto.
      Desde que cheguei esperava momento propcio para falar-te. Acho que agora podemos conversar.
      Claro  tornou Carlos procurando ser atencioso.
      Sabes que amo Maria e que pretendemos nos casar. Contudo, no vejo aprovao de D. Hernandez.  contigo que ele a quer casar. Prometeste ajudar-me, j que 
amas a cigana e  a ela que queres. Acho que chegou o momento de demonstrares tua amizade. Pretendo pedir Maria em casamento.                                    
     Carlos sentiu-se irritado.
      Tu me disseste que ela te ama, contudo parece-me que ela apenas te dedica amizade. Ela concorda em ser tua esposa?
      Por que me fazes esta pergunta? Acaso ests interessando-te por ela? A voz de lvaro era rspida e agressiva. Carlos sorriu.
      Acalma-te. Gosto de Maria como de uma irm. Depois do que tem feito por mim, interesso-me por sua felicidade. Se ela te ama, se deseja ser tua esposa, eu 
te ajudarei. Mas se ela no te quiser para marido, no farei nada em teu favor.
     lvaro empalideceu. A custo conseguiu dominar seu rancor. No acreditava que o afeto de Carlos fosse de irmo. Jamais o vira demonstrar tal sentimento diante 
de uma jovem e bela mulher. Conhecia-o muito bem. Mas no lhe convinha demonstrar sua desconfiana.
     Retrucou com voz que se esforou por tornar calma:
      Louvo teu interesse. Garanto que ela me corresponde. Antes de vir para c nos entendemos muito bem. A no ser que agora ela tenha mudado de idia!
      Pois ento no h o que temer. Se ela te amava, continua amando-te, porque Maria no  mulher volvel. Parece-me segura e deve saber o que quer.
      Hoje mesmo falarei com ela. Espero que nos deixes a ss.
     Carlos sentiu-se impaciente. Por que lvaro no resolvia seu problema fora de sua casa? O que tinha ele a ver com seus amores? Arrependia-se de ter-lhe prometido 
ajuda e de t-lo convidado a ir a sua casa.
      Pois fala quando quiseres. Alis, esse assunto no me pertence. S que no me privarei da leitura costumeira.
     lvaro olhou-o procurando ocultar sua raiva.
       estranho teu repentino amor pela leitura! J que a aprecias, por que no ls tu mesmo? Ao que eu sei, s letrado.
      Olha, lvaro, s te dou explicaes porque ests em minha casa e s meu amigo. No gosto de ler, mas tenho apreciado a leitura de Maria. Ela o faz com prazer 
e no vejo razo para nos privarmos dessa alegria. Ters muito tempo para resolveres teus amores com ela.
     lvaro pareceu acalmar-se.
      No quis ofender-te.  que desde que cheguei no pudemos estar a ss e estou ansioso por lhe falar. Mas se queres ter a leitura, que seja. Falaremos depois.
     Quando Maria entrou na sala com o livro nas mos, os dois estavam calados e srios. A moa procurou delicadamente alegrar o ambiente e vendo que estava difcil 
passou logo  leitura.
     lvaro no prestava ateno alguma ao que a moa dizia, porm Carlos bebia-lhe as palavras, por vezes fazendo-a deter-se para discutirem o assunto. Estava escurecendo 
quando terminaram e Carlos imediatamente reclamou o ch. Estava excitado e alegre. lvaro impacientava-se, mas Carlos fingia no perceber.
     Assim o tempo passou e a moa recolheu-se sem que o primo pudesse falar-lhe a ss. Ao recolher-se, o moo parecia uma criana feliz. Incio sorria. H muito 
no via seu amo to alegre.
      Consegui atrapalhar os planos de lvaro!
      Ele morre de amores por D. Maria. No me agrada o modo como olha para meu senhor.
      Ele quer casar-se com ela. Achas que a merece?
      D. Maria  uma santa.
       boa demais para um fidalgo como ele.
      Cuidado, meu senhor. Um homem ciumento pode ser perigoso.
      Bobagem. Gosto de Maria como irm.
      Mas ele pode no pensar assim se perceber que meu amo  contra esse casamento.
      Ora, lvaro no me assusta. Se ela o quiser, ento tudo estar bem, mas caso contrrio no o deixarei importun-la.
     No dia seguinte, lvaro levantou muito cedo e aguardou pacientemente que a prima se levantasse.
     Irritava-o sobremaneira a solicitude da moa levando o desjejum a Carlos, que j lhe parecia suficientemente recuperado para tom-lo no salo com todos.
     Vendo-a passar para preparar a bandeja, chamou-a com delicadeza.
      Maria, h dias aguardo um momento para falar-te a ss. A moa olhou-o atenciosa.
      No agora. Vou preparar o desjejum de Carlos.
      No achas que ele j est bom e pode vir tom-lo aqui no salo? A moa deu de ombros.
      No me custa essa ateno. Somos hspedes desta casa e amigos de infncia. Ademais, ele ainda precisa de cuidados. Tem crises de tristeza, no podemos deix-lo 
muito sozinho.
      E eu, no te preocupa minha tristeza e minha solido? O moo segurava o brao de Maria e a olhava com paixo.
      Ora, lvaro, tens estado conosco todo o tempo. Ests com sade, de que te queixas?
      De ti, que me esqueceste por causa de Carlos. A moa olhou-o com delicadeza.
      No digas isso. Sabes que te estimo muito.
      Mas eu quero teu amor! Maria, eu te quero, no posso mais ver-te ao lado de Carlos. Casa-te comigo e eu juro que viverei para fazer-te feliz.
     lvaro tentava abra-la pousando os lbios no rosto corado de Maria e procurando seus lbios.
     A moa desvencilhou-se dele empurrando-o com fora. Estava indignada.
      lvaro! Desta vez foste longe demais. No tens o direito de agarrar-me desse jeito!
      Perdoa-me, Maria, mas eu estou louco por ti. Dize que me aceitas e me fars o homem mais feliz do mundo.
      Acalma-te, lvaro. Por favor. Sabes que te quero muito. Porm no quero casar-me. No estou preparada para o casamento. Sabes que eu penso diferente das outras 
moas. No posso casar-me contigo.
     Ele no se conformava.
      No creio. Deste-me esperanas. Disseste-me que a mulher que eu amasse seria ditosa. Pensei que desejasses ser minha esposa.
      lvaro, sinto que tenhas alimentado iluses. Mas agora j sabes. No desejo casar-me. Procura esquecer-me. Isso passar. H muitas moas que suspiram por 
ti e te podem tornar feliz.
       por causa dele?  tornou lvaro com voz rouca.
      Claro que no. Entre mim e Carlos s existe uma boa amizade, nada mais.
      Carlos no  homem que dedique apenas amizade a uma jovem e bela mulher. Foi ele quem te seduziu e te induziu a esquecer-me.
      Ests enganado. Mesmo antes de vir para c eu j pensava como agora.
      No acredito. Ests iludida. Carlos  um conquistador volvel. Arrepender-te-s se te ligares a ele.  Olhou-a com ar de desafio e ajuntou:  Sabes a causa 
de sua tristeza?  o amor de Esmeralda, a cigana com a qual vive e que quando o viu ferido foi embora. Esteve aqui, tratando dele, como pude saber, e ele no v 
hora de estar bem para procur-la. Uma reles cigana. Por um homem desses me desprezas?
     Maria estava plida. Olhou o primo com energia.
      No me interessam os amores de Carlos. Devias ter vergonha de falares desse jeito de teu melhor amigo. Ele  livre para amar a quem quiser e no temos nada 
com isso. Espero que esta cena desagradvel no se repita. Tira essa idia louca de tua cabea. No me casarei contigo. Deixa-me em paz, para no destruir todo o 
carinho e afeto que te dedico.
     lvaro apavorou-se pelo tom frio da prima.
      Maria, no sei o que digo. Perdoa-me.
      Est certo. Vamos esquecer este desagradvel assunto. Mas no voltarei a ele de forma alguma. Quero deixar bem claro. Agora d-me licena. Vou  cozinha.
     Afastou-se a passos rpidos, deixando lvaro, que lutava por dominar-se. Sentia mpetos de agarr-la, de obrig-la de alguma forma a fazer-lhe a vontade. Naquele 
instante, um surdo rancor comeou a brotar em seu corao contra Carlos. Ele sempre fora o melhor em tudo. Sua fortuna era maior, as mulheres sempre o preferiam 
nos jogos da mocidade em que juntos compartilhavam. Seus tios,  claro que tambm o queriam para genro. Bem sentia que eles no o apreciavam para marido da filha 
e certamente se Maria o escolhesse teriam que lutar para obter permisso.
     Tudo isso ele havia suportado sem queixas, mas agora era demais. A prpria Maria, que nunca demonstrara interesse por Carlos, agora parecia cada, cheia de 
atenes e mimos para com ele. E ele era seu amigo e tinha-lhe prometido ajuda! Agora certamente zombava de seus sentimentos e pretendia roubar-lhe o amor de Maria.
     Sentindo-se sufocar de dio, lvaro saiu para caminhar um pouco. Ver se o ar frio da manh lhe devolvia a calma desejada. Porm seus pensamentos apaixonados 
afogueavam-lhe a mente. No lhe convinha expor seus sentimentos mas procurar mostrar-se conformado para ganhar tempo e tentar lutar para conseguir seus objetivos.
     Naquela tarde, quem o visse participar da leitura, do ch e dos assuntos discutidos, certamente no poderia imaginar o que lhe ia na alma. Maria, observando-lhe 
a atitude tranqila, sentiu-se aliviada. Por certo o primo compreendera a inutilidade de suas pretenses e resolvera esquecer. Assim, ela, tambm, alegre pela atitude 
do moo, foi atenciosa com ele, tratando-o com carinho especial.
      Foi um ato irrefletido  pensou ela , agora tudo passou  E no pensou mais no assunto.
     Carlos no sabia da cena desagradvel da manh, mas, vendo que o amigo parecia menos interessado em Maria, concluiu que ele resolvera esperar para manifestar 
seus sentimentos.
     Teria percebido que a moa no o queria para marido? lvaro era orgulhoso e por certo no queria expor-se a uma recusa. Sentiu certo alvio. No podia imaginar 
Maria, to inteligente, to bonita, to culta, mulher excepcional, casada com lvaro, homem sem brilho nem fortuna, vulgar e mal-amado das mulheres.
     Os dias foram passando e Carlos sentia-se cada vez melhor. Depois de estar entre a vida e a morte, tinha mudado um pouco seus conceitos habituais. Era bom sentir-se 
vivo, jovem, ter a segurana dos pais, que se tinham desdobrado para prestar-lhe assistncia. Comeou a sentir o amor pela terra que lhe pertencia e por seus vassalos, 
que ao v-lo passar, ainda enfraquecido e convalescente, sempre encontravam um gesto de carinho, um copo de leite especial e quentinho, uma flor, um filhote de animal 
para oferecer-lhe e, em sua humildade, rezavam por sua sade.
     Era bom estar vivo, poder respirar o ar delicioso do outono, ver-se cercado pelo respeito e pelo amor de todos. E, depois, havia Maria, que lhe abrira os olhos 
para uma srie de coisas antes despercebidas, chamando-o com sutileza para sua responsabilidade como filho, como senhor daquela gente, como fidalgo.
     Os conceitos elevados da moa, suas idias, suas leituras de filsofos humanistas, numa poca em que a barbrie era uma constante, tinham enriquecido o intelecto 
do moo sempre afeito  galanteria, ao bem e  justia.
     Pouco a pouco, a lembrana de Esmeralda foi se apagando. E quando pensava nela, era com saudade misturada s lembranas do acampamento, do qual agora sentia 
certa repugnncia.
     Por isso, quando seu pai o procurou em seu quarto certa manh, ouviu-o com respeito. Sentado a uma poltrona, o velho fidalgo considerou:
      Meu filho, hoje fui informado que D. Hernandez deseja regressar ao lar. Na prxima semana, iniciamos o inverno e ele deseja chegar a suas terras antes do 
frio intenso.
     Carlos surpreendeu-se:
      J? Pensei que s partissem na primavera. O inverno no requer muita atividade. Por que querem ir?
      Eu tambm gostaria que ficassem, mas no acho justo abusar de sua bondade. Eles atenderam a um apelo desesperado quando precisamos de ajuda. Deixaram todos 
os seus negcios, sua casa, seus interesses e esto conosco j h quase quatro meses. D. Hernandez considera bom teu estado e eu tambm estou bem. Assim, partiro 
dentro de dois dias.
      Mas com isso eu no contava! Passar todo esse inverno sozinho, sem Maria! Vai ser insuportvel.
     Pelos olhos de D. Fernando passou um brilho de alegria.
      Ainda bem que tocaste nesse assunto. Eu e tua me temos trocado idias sobre Maria. Ela apegou-se muito a essa jovem e vai sofrer com sua ausncia. Sabes 
o quanto ela gostaria de ter uma filha, mas agora Maria ocupa em seu corao este lugar.  moa boa, linda e cheia de virtudes.
      , meu pai. Tambm acho Maria preciosa.
      Sabes que seria muito de nosso gosto que te casasses com ela. D. Hernandez e D. Engrcia deram-me a entender que fariam muito gosto.
     Carlos assustou-se. Casar? Nunca tinha pensado em faz-lo a no ser com Esmeralda. Esmeralda! A cigana agora lhe parecia muito distante. Em outra ocasio Carlos 
teria respondido rispidamente, mas, agora, ser o esposo de Maria no lhe parecia to impossvel.
      No  assim, pai. Entre mim e Maria no h nada mais que o afeto de irmos. Ela  mulher decidida, pode ser que nem me aceite.
      Filho, me parece que a boa filha deve obedecer a seus pais. Maria no se atrever a recusar.
      Maria  mulher que pensa, no  como as outras. E se um dia eu me casasse com ela, seria s com sua aprovao. Repugna-me obrigar algum a me aceitar, principalmente 
Maria.
      Isso  tolice. Mulher no sabe o que quer. Deve obedecer aos pais, que sabem o que melhor lhe convm. Depois, ela me parece que te estima muito. Tem-se mostrado 
muito atenciosa contigo. E quem sabe se j no te tem amor?
     Carlos sorriu. Afinal a perspectiva do amor de Maria no lhe desagradava. Alm de muito bonita, ela era diferente de qualquer outra que conhecera.
      Pois se queres que ela fique conosco, o melhor que tens a fazer  pedi-la em casamento. Com a oficializao do compromisso, no nos ser difcil arranjar 
motivos para que ela no parta.
      Vou pensar, meu pai. Vou pensar.
      Tens apenas dois dias. No percas tempo.
     Quando D. Fernando se foi, Carlos ficou pensando. O casamento com Maria convinha-lhe por vrios aspectos. A companhia da moa era muito agradvel e a seu lado 
sentia-se muito bem, admirava-lhe a inteligncia, o carter, a instruo e ainda  por que no?  o corpo bonito, bem torneado, o rosto expressivo e belo, os cabelos 
negros e sedosos, a pele suave e delicada.
     Maria sua esposa! Que idia! Uma onda de carinho o invadiu recordando-lhe o olhar lcido e brilhante. Ao mesmo tempo foi acometido de um susto: e se ela o recusasse?
     Esse pensamento deu-lhe uma sensao de desconforto. Jamais fora recusado em toda sua vida por nenhuma mulher. Mas nenhuma era como ela.
     Sentiu-se inseguro, angustiado. A figura da cigana estava bem distante nessa hora.
     Naquela tarde, enquanto Maria lia como de costume, Carlos a observou de forma diferente. Ela realmente era maravilhosa. A seu lado poderia assumir sua posio 
nos negcios, constituir famlia, ter um lar. Afinal, ele j no era o mesmo. A aventura no mais o atraa. Sentia que a vida deveria ser algo mais do que correr 
pelo mundo em busca de emoes. Estivera com um p no tmulo. O choque fora forte demais.
     Alm de tudo havia lvaro. Os olhares que o moo lanava  prima o irritavam. Venc-lo nessa disputa lhe acirrava a vaidade. Por certo Maria no o queria, caso 
contrrio eles j se teriam entendido.
     Queria ficar a ss com ela para conversar, mas lvaro no lhe dava trgua. O que fazer?
     A noite desceu. Aps a ceia, a reunio costumeira do salo, e Carlos j impaciente desejava mais do que nunca falar com ela. Disfaradamente, apanhou um papel 
e escreveu:
     "Preciso falar-te a ss. Quando todos se recolherem, procura-me em meu quarto.  urgente."
     No assinou. Quando a moa passou por ele para recolher-se, colocou-lhe o papel no bolso do vestido. Sentiu o olhar curioso de Maria fixo nele e sorriu. lvaro 
no tinha notado nada. Melhor assim.
     Foi com muita ansiedade que esperou at que o silncio reinasse em todo o castelo e todos estivessem recolhidos.
     Sentado na ante-sala, Carlos esperava com impacincia. Maria sobraando uma vela entrou silenciosa. Estava sria.
      Fecha a porta  recomendou Carlos emocionado.
      Ests muito misterioso. O que aconteceu?
      Precisamos conversar e lvaro no me deu chance o dia inteiro.
      Do que se trata?
      Senta-te aqui, a meu lado.
     A moa, colocando a luz sobre o velador, acomodou-se no sof ao lado dele. Carlos olhou-a e ela estava linda. Tomou-lhe a mo com delicadeza:
      Maria, preciso fazer-te uma pergunta. lvaro procurou-me para dizer que te ama e que  correspondido. Quer que eu interceda junto a D. Hernandez para que 
consinta no casamento.
     Maria estremeceu, retirando a mo que Carlos segurava. Olhou-o de frente:
      E ento?
     Um pouco desconcertado, Carlos perdeu o jeito. Esperava veemente negativa, mas a pergunta dela o assustava. Iria ela aceitar o amor de lvaro?
     Ele suspirou.
      Bem. Eu preciso saber o que desejas. Quais teus sentimentos. Amas a lvaro?
      E se eu o amasse?
     Carlos sentiu um frio dentro do peito. No se conteve:
      Se o amasses? Eu teria que respeitar seus sentimentos por ele. Apesar de achar que ele no  o homem que mereces.
      No o aprecias?  havia um brilho divertido nos olhos dela.
      No.  vaidoso, arrogante e me irrita muito. Acho que no serias feliz com ele.
      Mas ele  teu amigo de infncia. Por que no o aprecias ? Eu sempre achei o contrrio.
      Pois no o aprecio mesmo. Desde que chegou no nos deixou um s instante e vive a me incomodar com seu cime. Por mim j o teria mandado embora. Lamento tua 
sorte se realmente desejas casar com ele.
      , parece que ele no deveria ter-te pedido ajuda.
      . No me agrada esse casamento.
      Porqu?  indagou ela com suavidade. Carlos no se conteve:
      Porque eu te quero para mim.  Tomou-lhe a mo e levou-a aos lbios.  Maria, quero que te cases comigo. A idia de tua partida  insuportvel. Eu te amo!
     Vendo que a moa olhava-o com emoo, abraou-a com carinho, beijando-lhe os lbios repetidas vezes. Carlos, tomado de funda emoo, suplicou:
      Dize que me amas e que te casars comigo, sendo a dama desta casa e de meu corao.
     A moa, olhando-o nos olhos com amor infinito, respondeu:
      Sim. Eu te amo. Desejo ser tua esposa.
      Amanh mesmo falarei com teus pais. No posso deixar-te partir. Marcaremos essas npcias para breve. Mal posso esperar.
     Carlos com ardor apertava a moa em seus braos. Foi a custo que ela conseguiu cont-lo.
      No, Carlos. Contenha-se.
      Estamos ss e vais ser minha esposa. Por que no ficas aqui agora comigo?
      Vim a teu quarto, em confiana a tua nobreza de fidalgo. No me desapontes.
     Carlos conteve-se a custo.
      Est bem. No quero que penses que me estou aproveitando da situao. Quero-te como esposa e companheira, saberei esperar. Espero que no seja muito.
      Eu tambm.
     E beijando-o com doura nos lbios, saiu rapidamente antes que ele pudesse det-la.
     Carlos estava exultante, apesar da emoo que a custo lutava para dominar. Desejava aquela mulher que ao mesmo tempo conseguia tocar-lhe as mais fundas fibras 
do corao. E naquela noite apenas a figura de Maria ocupou-lhe o pensamento.
     No dia seguinte, Carlos reuniu-se aos pais no gabinete e comunicou-lhes seu desejo de desposar Maria. Estava feliz, e a alegria dos seus deixou-o ainda mais. 
E aps o almoo, ainda  mesa, D. Fernando levantou-se e solenemente pediu a D. Hernandez a mo de Maria para seu filho Carlos.
     O velho fidalgo levantou-se retratando a alegria no rosto rugoso e aceitou comovido o pedido. Em meio  alegria geral, D. Fernando mandou buscar um vinho especial 
para o brinde de noivado. Mas o vinho rico e delicioso teve, na boca seca e contrada de lvaro, o gosto de fel.
     O moo, lvido e mudo, mal conseguia disfarar seu despeito e sua raiva. O prprio D. Hernandez, preocupado, aproximou-se do sobrinho dizendo-lhe em voz baixa:
      lvaro, no te irrites. Maria no te ama e no era para ti. Foi ela quem escolheu. Aceita tua derrota como homem e vai felicitar os noivos.
     lvaro olhou-o com rancor:
      No posso, tio. Agora no. Peo licena, vou-me embora.
     E apressadamente deixou a sala. D. Hernandez com um gesto largo disse em tom confidencial: 
      Pobre lvaro. Sempre alimentou iluses sobre Maria, apesar de nunca ter sido encorajado nem por mim nem por ela. Mas ele esquecer.
      E  comentou D. Fernando , o tempo  o melhor remdio!
      Ele estava feliz e pensava em Esmeralda. Afinal, seu filho encontrara o melhor caminho. lvaro tambm faria o mesmo. Recolheu-se em seu gabinete com D. Hernandez 
para tratar dos interesses das duas famlias.
     Vendo-os afastarem-se, Carlos pediu-lhes que permitissem a Maria permanecer no castelo mais algum tempo, pois lhe seria muito penoso separar-se dela. Tambm 
D. Fernando temia que Carlos, sozinho, longe da influncia salutar de Maria, voltasse  vida aventurosa e procurasse rever a cigana.
     Por isso pediu com veemncia ao amigo que permitisse a presena da moa mais algum tempo.
     Acertadas as formalidades legais e dote, marcou-se a cerimnia para a primavera no castelo de D. Hernandez. Ele regressaria sozinho deixando a esposa e a filha 
mais algum tempo ao lado do noivo, voltando todos para Madri, para as bodas, no incio da primavera.
     Carlos exultou. Podiam ficar juntos e tudo estava bem.
     Era noite j quando lvaro entrou no salo. Seu rosto estava calmo. Dirigiu-se aos noivos.
      Espero que me perdoeis. Hoje sofri rude golpe. Invejo-te, Carlos, mas sei que perdi. Desejo que sejais muito felizes. De hoje em diante vou esquecer. Espero 
que compreendam e aceitem minha amizade.
     Apesar do tom de sinceridade, Carlos no gostou da atitude dele. Mas Maria abraou-o com afetuoso carinho:
      lvaro, sabes que te quero muito. Hs de encontrar algum que te ame como mereces. Tambm um dia sers feliz!
      Claro  tornou ele procurando sorrir. Tudo est bem agora. Passou. Estendeu a mo para Carlos. Venceste. Cuida bem do tesouro que te escolheu. Parabns.
     Carlos apertou a mo que lvaro lhe estendia, guardando intimamente certa desconfiana. Esperava que o moo anunciasse a partida, porm ele nem sequer falou 
nisso. Entretanto, sua atitude, o tempo todo, foi discreta e gentil.
     Quem no soubesse dos sentimentos que ele nutria pela prima no perceberia nada do que lhe ia na alma. Porm Carlos no se sentia bem na presena dele. Queria 
cortejar a noiva e sentia-se tolhido, imaginando a raiva e o despeito que lvaro deveria sentir.
     Procurou pelo pai, a quem confidenciou suas preocupaes. D. Fernando procurou D. Antnio, que decidiu levar o sobrinho em sua companhia para Madri, no dia 
seguinte.
     Embora relutando, lvaro no se pde recusar a acompanhar o tio, que seguia sozinho e dizia precisar de seus prstimos, mas sentiu em seu corao aumentar o 
rancor contra Carlos. Ele por certo o queria bem longe dali, receoso de que se vingasse da traio que lhe fizera. Por certo pedira a D. Antnio que o tirasse do 
caminho. Mas Carlos no perdia por esperar. Sempre fora seu amigo e apesar disso, sem considerao, roubara-lhe o amor de Maria. Carlos sabia o quanto ele a amava. 
Confidenciara seu amor vrias vezes. E enquanto fingia ser seu amigo e ajud-lo a concretizar seu sonho de amor, conquistara-a. Jamais a moa o olhara como olhava 
a Carlos. E o amor que lia em seus olhos, quando fixava o rival, era como punhal ferindo seu corao apaixonado.
     Ia-se embora com o tio, mas daquele dia em diante s teria uma proposta: a vingana.
     Foi com alvio que Carlos viu no dia seguinte lvaro despedir-se e partir com o tio rumo a Madri. Finalmente ele e Maria poderiam conversar livremente sem seu 
olhar inquisidor.
     E a vida tornou-se para eles calma e feliz, em meio aos preparativos para o casamento e a viagem a Madri no incio da primavera.
     
     
Capitulo XIV
     
     
     A chuva caa fina e constante no acampamento. O inverno acabara, a primavera se avizinhava e os primeiros brotos j comeavam a surgir nas rvores. Estavam 
em Toledo, onde tinham permanecido os dois ltimos meses e, por certo, logo teriam que partir, tendo renovado seus tachos, canecas e quinquilharias para vender.
     Deitada em meio s almofadas em sua carroa, Esmeralda olhava a chuva com olhos tristes. Pensava em Carlos. Arrependia-se de ter deixado aquele filho nascer. 
Estava feia, gorda e desanimada. Sentia-se pesada e intil. Entediava-se dentro do acampamento, sem poder danar, nem sair com as outras mulheres.
     Depois, era primavera. Com certeza Carlos, j refeito, a buscaria no acampamento. Ele a amava. No tinha dvidas quanto a isso. E ela desesperava-se porque 
ele a encontraria daquele jeito, sem poder danar para ele. Odiava aquele filho que se interpunha entre ela e Carlos. Era um intruso que vinha atrapalhar sua vida. 
No via a hora de livrar-se dele, para que Miro o levasse embora.
     Levantou-se com certa dificuldade, saiu da carroa indiferente  chuva que lhe molhava os cabelos e o vestido. Foi ter com Miro. O cigano, sob uma lona estendida 
ao lado da carroa, cuidava dos arreios com ateno. Vendo Esmeralda, objetou:
      Saia da chuva. Pode no lhe fazer bem.
      Preciso falar-te. No suporto mais ficar l, sozinha, vendo a chuva cair.
      Vem, senta-te aqui.
     Acomodou-a com cuidado em um banco tosco sob a lona.
      Calma, Esmeralda. Desse jeito arruinars tua sade.
      Que me importa?  fez a cigana, mal-humorada.
      No digas isso. Tem pacincia. Logo estars em liberdade de novo. Mais duas ou trs semanas no mximo, teu filho vai nascer e tudo ser como antes.
      No vejo a hora. Estou arrependida de ter-te ouvido. Sem isso eu agora poderia esperar Carlos como sempre.
     Miro olhou-a preocupado.
      No digas isso. No se renega um filho sem atrair o mal sobre a prpria cabea. Se tivesses juzo, ficarias com ele e cuidarias dele com amor.
     A cigana irritou-se:
      Por que insistes? Por acaso no queres fazer o que prometeste? No sabes o que fazer com ele e queres que eu te liberte do compromisso?
      No  isso, Esmeralda. Falo para teu bem. Sei que ser bom para ti cri-lo.  teu sangue e do homem que amas. No te comove isso?
     A cigana deu de ombros.
      No. Ele  um intruso entre mim e Carlos. No o quero. Se no me tivesses convencido, eu no estaria agora nesta situao. Tens que dar um jeito. Prometeste.
      Sim. Eu sei. Quanto a isso, no te preocupes. Prometi e cumpro. Mas se ficasses com ele te seria melhor.
      No quero. Se pudesse, arrancava-o agora mesmo de dentro de mim.
      No digas asneiras. A chuva acalmou e vou ajudar-te a arrumar tudo. Amanh partiremos cedo se a chuva parar. Vamos ver tua carroa.
     Ir embora significava a primavera, e a primavera significava a volta de Carlos. Embora nervosa com seu estado, a cigana sentiu o nimo voltar. Levantou-se e 
acompanhou Miro de boa vontade.
     Somente trs dias depois o acampamento ps-se em marcha rumo a Valena. Apesar de sua angstia, Esmeralda sentia uma onda de alegria invadir seu corao.
     Enquanto isso, Carlos se recuperara completamente e, dispostos os preparativos, partiram rumo a Madri para a realizao do casamento.
     Durante aqueles meses de convvio, Carlos sentira aumentar seu afeto por Maria e estava feliz. A moa revelava-se a cada dia, alma nobre e dedicao sem limites, 
mas o que mais atraa Carlos era sua inteligncia fina, sua meiguice natural e sua lucidez.
     Habituara-se a nada fazer sem antes ouvir-lhe o parecer sempre sensato, certo e objetivo. No s Carlos valorizava a sabedoria da moa mas D. Encarnao e at 
D. Fernando lhe pediam opinio sobre tudo quanto desejavam fazer. Mas a moa no se envaidecia por isso. Mantinha sua dignidade com simplicidade natural. Foi com 
alegria que viajaram para Madri, onde o velho castelo de D. Antnio Hernandez j estava preparado para receb-los.
     Tudo era alegria. Apenas num corao o dio, o cime, o rancor. lvaro estava l e no podia evitar o desgosto assistindo aos preparativos para o enlace e  
alegria dos noivos, cujas manifestaes de amor o apunhalavam. Ele precisava impedir esse casamento. Mas no queria que suspeitassem dele. H dias acariciava a idia 
de procurar Esmeralda. Por certo a cigana o ajudaria a realizar seu intento. Tinha procurado por ela mas no sabia onde os ciganos estavam.
     Por outro lado, seu tio dera-lhe vrias incumbncias e no o liberava para que pudesse viajar  procura dos ciganos. Mas agora chegara ao limite de sua resistncia. 
Se ficasse mais, talvez no pudesse esconder o que lhe ia na alma. Por isso falou com o tio, pedindo-lhe que o dispensasse alguns dias a fim de viajar para ver seus 
negcios. O velho concordou, mas lembrou-lhe de que o casamento se realizaria dentro de uma semana. lvaro prometeu voltar a tempo e assim, no dia imediato bem cedo, 
partiu rumo a Valena. Sabia que Carlos sempre via Esmeralda na primavera e em Valena.
     Chegou ao acampamento dois dias depois. Teve alguma dificuldade em encontr-los. Aproximou-se deixando o cavalo  sombra de frondosa rvore.
      O que desejais?  inquiriu um cigano olhando-o com firmeza.
      Falar a Esmeralda.
      Esmeralda no fala com ningum.
      Mas eu preciso falar-lhe. Dizei-lhe que  sobre Carlos.
      Ah! Nesse caso  melhor falar com Miro. Vinde comigo. lvaro seguiu-o curioso. Nunca entrara em um acampamento cigano. Miro recebeu-o srio.
      O que quereis de Esmeralda?
      Falar com ela.  sobre Carlos.
      Ele j sarou?
      J. Est completamente bom. Mas eu preciso falar com Esmeralda. Trata-se de um assunto urgente e do interesse dela.
      Quem sois ?
      Sou lvaro. Amigo de Carlos.
      Ele mandou algum recado ?
      No. Mas tenho que avis-la do que se passa.
      E o que ?
      Ele no vir mais. Vai casar com minha prima dentro de quatro dias.
     Miro empalideceu.
      Nesse caso, o que quereis dela?
      Quero avis-la. Afinal acho que ela tem o direito e pode impedir esse casamento.
      Esmeralda no vai fazer isso.
      Quem decide sou eu!
     Lvida, trmula, a cigana estava em p ao lado de lvaro. Miro tentou impedi-lo de falar.
      Esmeralda! Deixa comigo. Eu resolvo.
      No. Vinde a minha carroa, quero saber de tudo. Contrariado, Miro seguiu-os. A palidez da cigana o atemorizava.
     lvaro estava radiante. Afinal as coisas iam melhor do que podia esperar. A gravidez da cigana no lhe deixava dvidas quanto  paternidade da criana. Carlos 
ia ser pai! Que escndalo! Se Maria soubesse, por certo no mais se casaria com ele.
     lvaro, sentado ao lado da cigana, na carroa, sob o olhar furioso de Miro, relatou o que acontecera depois que eles tinham sado do castelo. Caprichou na descrio, 
exagerando as atitudes de Carlos e no se esqueceu de relatar a traio de que fora vtima e seu amor por Maria.
     Esmeralda aparentava uma calma que estava longe de sentir. Por dentro, sua dor imensa, sua revolta, sua mgoa, o arrependimento de t-lo deixado s e o dio 
por sentir-se trada e subestimada.
     Pela primeira vez a cigana experimentou a dor do cime feroz, o gosto amargo da derrota, a desiluso da traio.
      Vim porque desejo impedir esse casamento. Podeis fazer isso. Se meus tios ou Maria souberem o que o canalha fez contigo, o filho que vai nascer, por certo 
no permitiro essa unio.
     Esmeralda estava lvida. Seus olhos fulgiam de rancor e em seu rosto transparecia a angstia que lhe ia na alma.
      Maldito  tornou ela com voz que a raiva sufocava , mil vezes maldito! No perde por esperar. Ningum vai desprezar Esmeralda! Ningum!
     Miro, preocupado, interveio:
      Calma, Esmeralda. No adianta querer impedir. Ele escolheu e o melhor  deix-lo seguir seu caminho. Sabes que no  um dos nossos. Tua unio com ele no 
ia dar certo. Sabias desde o comeo. Eu te preveni. Por que no aceitas o que o destino disps?
      Para o inferno com o destino! Ele jurou-me amor eterno. Traiu-me assim que outra mulher apareceu em seu caminho. Jamais o perdoarei. Ele vai me pagar!
      Isso mesmo  tornou lvaro com nfase.  Fomos trados! E o traidor no pode ficar impune. Eles esto l, felizes, rindo-se de nossa dor.
     Vamos, Esmeralda, vem comigo e juntos vamos impedir que esse casamento se realize.
      Esmeralda no vai  tornou Miro em tom decidido.  Eu no permitirei. No pode viajar a cavalo nesse estado. Depois, tanta emoo pode fazer-lhe mal.
      Acho que vou  tornou ela com raiva.  No podes impedir-me.
      No h perigo -sugeriu lvaro.  Temos quatro dias ainda, podemos ir bem devagar.
     Miro tomou as mos frias da cigana, segurando-as com fora.
      Esmeralda, deixa a vingana! No envenenes tua vida com o dio. Aceita a situao, ser melhor para ti. Agora  difcil, mas amanh o esquecimento vir e 
um novo amor poder florescer em teu caminho. Escuta, deixa Carlos em paz, sabes que a fora das coisas vai dar-lhe o castigo que merecer. No queiras mudar o destino!
     A cigana retirou as mos com fora.
      No adianta, Miro. No posso aceitar. Jamais aceitarei. A traio tem seu preo e Carlos vai pagar. Eu vou tentar impedir esse casamento.
      Carlos vai te odiar por isso. Achas que ele voltar para ti depois disso? Pois podes saber que, se fizeres o que pretendes, ele te odiar. Jamais te perdoar. 
Ele est perdido para ti. Deixa-o conservar tua lembrana com saudade. No o tornes teu inimigo!
     Esmeralda estava irredutvel.
      Ele no vai ser feliz com ela! Eu juro! No me importa seu dio. O meu ele j tem.  E voltando-se para lvaro:  Podes esperar, eu irei contigo.
     lvaro esboou um sorriso de vitria. Carlos no perdia por esperar. Enquanto lvaro esperava do lado de fora, Esmeralda com mos trmulas comeou a arrumar 
seus pertences.
     Miro, inconformado, entrou na carroa.
      Esmeralda, no podes seguir esse homem que nem sequer conhecemos. E se ele estiver mentindo?
     A cigana fixou-o com olhos que a clera escurecia e respondeu com voz que a custo tentava controlar:
      No creio. Fala a verdade, por certo. Carlos vai arrepender-se da traio. Vers!
      Espera at amanh, logo a noite vai cair, e as estradas so perigosas. E se esse homem for um malfeitor?
      No tentes enganar-me. V-se que  fidalgo. E, depois, sei defender-me. No temo os ladres de estrada. Vou com ele, agora.
     Miro deu fundo suspiro.
      Nesse caso, vou contigo. No posso deixar-te s nessa loucura. Esmeralda deu de ombros.
      Nada me importa. Se queres vir, pouco se me d, mas fica sabendo que no vais impedir-me de fazer o que pretendo.
     Miro jogou seu ltimo recurso:
      E no te importa aparecer diante dele assim, como ests agora? A cigana fez um gesto de desespero.
      Tu s o culpado por eu estar nessa situao. Se eu me tivesse livrado deste fardo, agora no estaria to feia. Mas, apesar de tudo, eu vou.
      E o que pretendes fazer?
      Deixa comigo. Eles vo ter o maior escndalo do mundo.
      Podem mandar-te prender.
      No me importa. Eu estou com tudo e por tudo. Carlos no vai casar-se com aquela mulher.
      E se ele apesar de tudo o fizer? Esmeralda trincou os dentes com rancor.
      Eu o mato! Ele no ser de outra, eu juro! Miro estremeceu. Jamais a vira naquele estado.
      Por que no repousas um pouco? Esta excitao pode fazer-te mal.
      No posso. Tenho na boca o gosto amargo do dio e da traio. Miro saiu apressado e procurou Sergei, colocando-o ao par de tudo.
     O chefe dos ciganos, rosto vincado pela preocupao, procurou a cigana, tentando dissuadi-la de seus propsitos. Tudo intil. Esmeralda estava determinada.
      Eu vou com ela  tornou Miro.
      Acho que no deveriam ir a cavalo, mas, por outro lado, uma s carroa pode ser perigoso.
      Terei que arriscar. Deitada ela correr menos perigo.
     lvaro, inquieto, continuava esperando, observando com ar preocupado a movimentao em torno da carroa de Esmeralda. Contava com o rancor da cigana e esperava 
que ela permanecesse firme em seus propsitos. Estava escurecendo quando Esmeralda saiu da carroa e chamou por lvaro.
      Estou pronta. Podemos partir.
      Iremos na carroa  tornou Miro, que vinha mais atrs.  Vamos, Esmeralda. Est tudo pronto, podemos partir.
     lvaro olhou o cigano, procurando ocultar o descontentamento. Temia que ele lhe atrapalhasse os planos, mas no podia recusar sua presena sem despertar maiores 
desconfianas. Afinal, o importante mesmo era a presena dela na cerimnia.
      Se queres ir, no me oponho  tornou Esmeralda , mas no permitirei que interfiras em minhas decises.
     Miro suspirou e disse:
      Est bem. Vou contigo apenas para cuidar de tua sade, de teu bem-estar. Fars como quiseres. Se temos que ir, vamos.
     A carroa j estava preparada e Esmeralda, rosto fechado, fisionomia endurecida pelo dio, subiu e acomodou-se ao lado de Miro. lvaro, montado, preparou-se 
para segui-los. Puseram-se em movimento e aos poucos o acampamento foi se distanciando, sob o olhar preocupado de Sergei, que os seguia.
     Enquanto isto, no castelo de D. Hernandez os preparativos para o casamento estavam no auge. O velho castelo tinha sido restaurado, seu mobilirio reformado 
e tudo reluzia prenunciando a grandiosidade da festa.
     D. Antnio estava feliz. Seu mais caro desejo iria realizar-se. Essa aliana sonhada, acalentada durante tantos anos, por fim se tornaria realidade. Unir as 
duas famlias, to amigas, to ricas, consolidar os laos de to grande amizade era motivo de grande alegria. E, depois, os noivos, apaixonados e felizes, constituam 
o enlevo das duas famlias, coroando-lhes os anseios.
     D. Fernando sentia-se duplamente feliz. O filho aventureiro, o filho desinteressado dos negcios da famlia e, o que era pior, o filho apaixonado pela cigana 
sem eira nem beira tornara-se um homem sensato, interessado nas terras e nos negcios, e escolhera Maria para esposa. O que mais poderia desejar?
     A felicidade transparecia em seu rosto em todos os instantes e Carlos, observando-lhe o ar satisfeito, sentia-se mais feliz.
     Esmeralda estava muito distante de seu pensamento. Maria, com sua graa, sua beleza, sua inteligncia e principalmente com seu esprito vivo, o conquistara 
de todo.
     Quanto mais a conhecia, mais a admirava e mais a amava. Com ela, pensava, haveria de transformar sua vida, formariam uma famlia feliz e haveriam de estender 
essa felicidade aos velhos pais e a todo o pessoal de suas terras. Sua gente tambm seria feliz.
     A primavera colocara flores nas rvores e nos jardins, beleza no cu e perfume no ar. O dia do casamento amanheceu belo e cheio de sol.
     No castelo, a movimentao era grande e incomum. Tudo preparado para a grande festa e muitos hspedes j estavam desde a vspera no custeio. A noiva, linda 
em seu vestido de fina renda francesa, branco como a neve, estava radiante. Carlos, elegante em seu traje de veludo negro, com seus cabelos castanhos, revoltos e 
sedosos, porte altivo de fidalgo e olhos brilhantes de felicidade, despertava olhos de admirao e sua me olhava-o embevecida.
     Ao subir na carruagem negra e toda enfeitada, puxada por seis cavalos, caprichosamente adornados com pomposos penachos e enfeites de prata, despertou a admirao 
dos convivas, que tambm se preparavam para seguir para a igreja de San Jos, onde a cerimnia se realizaria.
     Eram dez horas e a nave encontrava-se rodeada por verdadeira multido. Como era de praxe, o povo no poderia entrar na igreja. O casamento de fidalgos no permitia. 
Eram colocados cordes de isolamento e s os convivas podiam acomodar-se e assistir ao ato.
     A chegada do noivo despertou aplausos no populacho e ele adentrou a igreja acompanhado pelos pais, seguidos pelos amigos e parentes.
     Pouco depois, quando todos estavam acomodados, a nave cheia de convivas e de flores, houve um minuto de suspense e um murmrio de admirao encheu o ar.
     O rgo comeou a tocar. A noiva, linda e perfumada, elegante e radiosa, adentrava, conduzida pelo brao forte de D. Antnio.
     Silncio e expectativa. O sacerdote aguardava no altar, rodeado pelos coroinhas, e Carlos, olhos marejados pela emoo, contemplava Maria embevecido.
     Juntos em frente ao altar, teve incio a cerimnia.
     Enquanto isso, Miro, conduzindo a carroa devagar, conservava o ar preocupado. Em vo procurara convencer a cigana a desistir de seu intento. Por fim, percebendo-lhe 
a surda determinao, calara-se. De que lhe adiantaria continuar?
     Por outro lado, lvaro tinha pressa. Faltavam dois dias para o casamento e ele ardia por chegar. J estavam viajando h dois dias e ele percebia que Miro retardava 
o mais que podia. Isso irritava-o, mas o olhar decidido e forte do cigano o intimidava. Poderiam j ter chegado, mas ele insistia em descansar e fazer a cigana deitar-se, 
o que o deixava contrariado. O que ele queria era chegar logo.
     Afinal, estavam chegando. Madri estava quase  vista e agora era questo de pouco. Miro parou a carroa e olhando o rosto plido da cigana tornou decidido:
      Agora vais repousar um pouco.
      No preciso  replicou ela teimosa , sabes que desde que samos do acampamento recosto-me, mas no consigo dormir. No descansarei enquanto no concretizar 
minha vingana! Vais ver. Vamos, tenho pressa em chegar.
      No. Ests trmula e nervosa. H tempo de sobra. Faltam dois dias para a cerimnia. Repousa. Refaz tuas energias e, depois, fars o que quiseres. S no quero 
que prejudiques tua sade. Vais comer um pouco e depois repousar. Vamos, ningum vai impedir-te de fazer o que pretendes. Acalma-te.
     Esmeralda suspirou fundo. Sentia arrepios pelo corpo e um frio incomum. A cabea andava  roda e s a sustinha o pensamento de rancor e a mgoa imensa que guardava. 
Resolveu concordar. Afinal estavam chegando. Melhor seria mesmo refazer-se.
      Est bem. Repousarei um pouco e depois continuaremos. Miro retirou a carroa da estrada e desceu. lvaro, contrariado, aproximou-se.
      Estamos chegando. No seria melhor entrarmos logo na cidade?
      Esmeralda no est bem. V-se isso em seu rosto. Precisa de descanso. Depois, melhor ser que fiquemos fora da cidade, se querem surpreender Carlos.
     lvaro ficou pensativo e concordou:
      Est bem. Precauo  bom.
     Ele no queria ser visto com os ciganos. Depois, precisava buscar roupas para Esmeralda. Com seus trajes ela no conseguiria entrar na igreja. Expuls-la-iam 
por certo. Miro e ela teriam que se vestir de fidalgos e entrar antes do incio do casamento.
      Nesse caso, vou adiante. Preciso ultimar alguns detalhes e volto assim que puder. Vou aproveitar o escurecer para tomar algumas providncias. Descansaremos 
hoje e, amanh pela manh, faremos nosso plano definitivo. Vou falar a Esmeralda.
     lvaro desceu do cavalo e adentrou a carroa onde a cigana, olhos fixos, rosto plido, recostada nas almofadas, parecia distante e indiferente.
      Esmeralda  chamou , vou seguir rumo  cidade e preparar tudo. No te preocupes. Temos muito tempo. O importante  arranjar as coisas de maneira que estejas 
dentro da igreja na hora do casamento para impedi-lo.
     Uma chispa de rancor passou pelos olhos de Esmeralda.
      Sim. Eu estarei l de qualquer forma. Ningum poder impedir-me.
      Muito bem. Mas se te vem com teus trajes ciganos, no te permitiro a entrada. Vou providenciar outras roupas, aproveitar a noite e, depois, pela madrugada, 
voltarei. No te preocupes. Miro tem razo. Descansa, prepara-te para estares bem e desmascarares aquele traidor.
      Est certo. No sinto cansao. No vejo a hora de cumprir minha vingana. Mas sei esperar. Vou tentar repousar. Podes ir.
     lvaro saiu, subiu no cavalo e partiu a galope. Miro soltou os animais e procurou galhos secos. Dentro em breve o fogo crepitava. Ele preparava a refeio. 
Seu rosto preocupado no escondia o receio que lhe inundava o corao.
     Tinha horror a vingana. Sabia que ela sempre destri aqueles que a cultuam e temia pelo futuro de Esmeralda. Alm disso, triste pressentimento invadia-lhe 
o esprito desde que ele travara relaes com Carlos. Ele no podia furtar-se a essa sensao de medo. No sabia bem do qu, mas sentia que entre os dois nada de 
bom poderia resultar. Desejava proteger a cigana, evitar-lhe desgostos, impedi-la de executar aquele plano malfazejo. Estava claro que lvaro apenas a estava usando 
para realizar seus mesquinhos desejos.
     Afinal, a unio de Carlos com Esmeralda jamais poderia resultar em felicidade. Carlos jamais se conformaria em viver para sempre no acampamento. Era um fidalgo, 
cheio de arrogncia e de posses. Como abandonar tudo isso pela vida dura e sem horizontes que eles levavam? Por isso no odiava Carlos. Compreendia sua forma de 
ser e de pensar. Contava com o tempo para a cigana esquecer e voltar a ser o que sempre fora. Mas lvaro instigara-a e agora tudo se tinha complicado.
     O rosto plido e desfigurado de Esmeralda, sem pregar olho desde que lvaro a procurara, afligia-lhe o corao.
     Esquentou o pedao de carne assada, pegou po e uma caneca de leite e levou para a carroa, procurando dar  sua fisionomia um ar de alegria.
     Imvel, a cigana estendia-se no colcho, olhos perdidos sem ver, rosto plido e emagrecido. Vendo-lhe a figura, Miro sentiu um aperto no corao. Colocou as 
vasilhas na pequena mesa e aproximou-se tomando-lhe as mos frias.
      Esmeralda. Come um pouco. No te tens alimentado. Ests trmula. O que tens?
     O corpo da cigana estremecia de quando em vez. Miro, assustado, colocou a mo sobre sua testa gelada. A cigana olhou-o de forma impessoal. Miro ajuntou alguns 
panos e os aqueceu ao fogo e depois envolveu o corpo da cigana com eles.
      Carlos me pagar  tornou ela com determinao.
      Est bem  concordou Miro , ele pagar. Agora olha para mim, Esmeralda, no fiques assim. Vamos, olha para mim.
     Mas a cigana continuava distante, como se no o visse. Aflito, Miro tomou as mos de Esmeralda entre as suas e concentrou-se procurando transmitir-lhe foras. 
Seu rosto cobriu-se de suor pelo esforo e seu corao aflito orava a Deus pela cigana que tanto amava.
     Ela pareceu acalmar-se e seus olhos fecharam-se como que pressionados por sono irresistvel.
     Miro colocou a mo sobre sua testa e disse-lhe carinhoso:
      Dorme, Esmeralda. Deus guardar teu sono. Esquece a vingana e o dio, para que eles no te destruam.
     A cabea de Esmeralda pendeu e ela adormeceu. Miro, porm, permaneceu ali, velando. Seu corao fiel e amoroso, dedicado e amigo, lutava para afastar de Esmeralda 
a sombra escura do dio e da vingana.
     O dia amanheceu e os primeiros raios de sol vieram encontr-lo na mesma posio de viglia e de amor. A cigana dormia ainda, mas seu sono era agitado e seu 
corpo s vezes estremecia como que aoitado por vento frio e forte.
     lvaro encontrou-os nessa postura e, preocupado, olhando o rosto empalidecido da cigana, assustou-se:
      O que aconteceu?
      Esmeralda est mal. Ficou fora de si e consegui faz-la adormecer, mas seu sonho  povoado de maus pensamentos e de dor.
      Acorde-a. No temos muito tempo. O casamento  amanh. Precisamos tratar de tudo com detalhes.
     Miro fulminou o moo com o olhar.
      Esmeralda  mais importante do que tua srdida vingana! Se me atormentas, mato-te sem piedade. s o culpado por ela estar desta forma.
     lvaro empalideceu, sem saber o que dizer. No podia conceber a idia de que tudo russe por terra. Resolveu contemporizar. Quando a cigana acordasse, por certo 
ela iria at o fim e o cigano no conseguiria impedir.
      No precisas ficar assim  tornou conciliador , no pretendo prejudicar ningum. Esmeralda merece toda nossa ateno. Aguardemos que ela acorde e ento decidiremos 
o que fazer.
      Sai daqui. Deixa-a em paz.
     lvaro saiu da carroa e acomodou-se perto do fogo. Trouxera provises e procurou preparar comida. Se pretendia executar seu plano, precisava de Miro para isso.
     Mas as horas passavam e Esmeralda continuava na mesma. Por vezes abria os olhos e no parecia ver a realidade. Depois, caa novamente em prostrao, balbuciando 
palavras ininteligveis. 
     Miro, rosto plido e preocupado, vigiava, aquecendo-lhe o corpo de quando em vez, colocando um saco de areia quente em seus ps gelados e envolvendo-a com panos 
que esquentava ao redor do fogo.
      medida que o tempo passava, mais aumentava a raiva e a preocupao de lvaro. Em seu desespero, chegou a suspeitar que Miro tivesse dado algo  cigana a fim 
de impedi-la de realizar o que pretendia. Mas o temor ao cigano, cuja fora manifesta temia, impedia-o de falar.
     Anoitecia e Esmeralda continuava na mesma. Enquanto Miro procurava ministrar-lhe algumas beberagens procurando reanim-la, lvaro, irritado, ora caminhava de 
um lado a outro ao redor da carroa, ora entrava para indagar do estado da cigana.
     Mas o tempo passava e ela no melhorava. A madrugada raiava e a situao permanecia inaltervel.
      Faa alguma coisa!  gritou o fidalgo sem conseguir encobrir seu desespero.
      Cala essa boca. No vs que ela est mal? Estou fazendo o que sei, mas tem sido intil.
     lvaro no se conteve:
      Por certo ests satisfeito. Vieste para atrapalhar nossos planos. Talvez at a tenhas colocado nesse estado para impedi-la de cumprir o que combinamos!
     Miro olhou-o firme. Levantou-se de um salto e agarrou-o pelo peito enquanto dizia colrico:
      Cala essa boca imunda. Essa idia s podia brotar numa cabea porca como a tua. Esmeralda  o que mais prezo no mundo, e se h um culpado, s tu. Atenta para 
o que te vou dizer. Ela est muito mal e se morrer arranco-te a pele. Sou contra vingana, mas juro: se Esmeralda morrer, acabo com tua vida.
     lvaro arrependeu-se de ter falado. Os olhos magnticos de Miro expeliam chispas e, nas mos fortes do cigano, seu corpo parecia frgil galho sacudido pelo 
vento.
      Agora sai daqui. E no adianta fugir. Reza para ela melhorar, porque seno irei buscar-te nos confins do inferno.
     lvaro, apavorado, reconheceu que o cigano falava srio e assim que se viu no cho saiu depressa da carroa. Fora, o dia comeava a amanhecer e pela primeira 
vez o fidalgo comeava a arrepender-se da aventura. Deprimido e agoniado, permaneceu ali, sem saber o que fazer.
     A vida da cigana pouco lhe importava. O que lhe doa era no poder executar sua vingana. Se a cigana no melhorasse, tudo teria sido intil. Carlos estaria 
casado com Maria. Esse pensamento acendia a revolta em seu peito oprimido. Fora trado, Carlos sabia o quanto amava a prima. Mesmo assim, no titubeara em fazer-lhe 
a corte e em casar-se com ela.
     E naquele momento, com rancor, firmou o propsito de no desistir da vingana. Ainda que seus planos fossem frustrados e eles se casassem, encontraria outra 
maneira de tirar a desforra. O espetculo doloroso da felicidade deles que tivera ocasio de presenciar lhe daria foras para prosseguir.
     Afinal, se Esmeralda vivesse e seu filho se salvasse, por certo o escndalo em qualquer poca lhe convinha. Conhecia o carter reto da prima. Contava com o 
dio de Esmeralda. Estava decidido. Teria foras para esperar.
     O dia amanheceu e lvaro tinha tomado sua deciso. No lhe convinha brigar com o cigano. Preferia conquistar-lhe a amizade. Entrou na carroa, procurando dar 
 fisionomia um ar de humildade.
      Como est ela?  perguntou conciliador.
     Miro fixou-o srio. Vendo-lhe o rosto triste, respondeu:
      Na mesma. lvaro aproximou-se.
      Miro, sinto muito. Ontem perdi a cabea. Quando procurei Esmeralda, no pensei em fazer-lhe mal. Eu mesmo sofro a traio que Carlos me fez e compreendo o 
que ela sente. Quero dizer-te que desisto da vingana. A sade de Esmeralda  mais importante. Depois, h a criana. Receio por ela. Achas que est bem?
     O cigano acalmou-se um pouco. Afinal, era melhor assim. Desistindo da vingana, as nuvens negras por certo se afastariam de Esmeralda. Suspirou fundo.
      A criana acho que est, mas Esmeralda, no sei... Se sabes rezar, reza.
     lvaro procurou disfarar seu desprezo. Rezar por uma herege? Ele no era to ingnuo assim. Mas conteve-se.
      No tenho feito outra coisa. Agora vou embora. Dentro de algumas horas ter incio a cerimnia. Preciso estar l. Meu tio no me perdoaria se eu faltasse. 
Depois, quero ver se casam mesmo. Acredita-me, voltarei assim que puder. Trouxe comida e vou deixar tudo aqui. Lamento o que aconteceu e se eu puder ajudar o farei.
      Est bem  tornou Miro um pouco aliviado.  Afasta essa idia de vingana. Foi ela quem atraiu a desgraa. Vingana  faca de dois gumes. Lembra-te disso 
sempre. A justia pertence a Deus.
     lvaro concordou com a cabea.
      Tens razo. Volto mais tarde para saber de Esmeralda. S vou ter sossego quando ela melhorar.
     O cigano no respondeu. Depois que lvaro se afastou, olhando o rosto plido da cigana, pensou comovido:
      Foi a mo de Deus que no permitiu a vingana, porque a desgraa seria maior. Agora, preciso implorar perdo para ela, para que Deus lhe devolva a sade.
     E levantando o pensamento a Deus, fechou os olhos e comeou a orar.


Captulo XV
     
     No castelo de D. Hernandez a festa corria animada. Aps a cerimnia, o lauto banquete; e aps a pausa da siesta, o baile.
     Carlos estava feliz. S tinha olhos para Maria e a cada minuto, observando-lhe a finura, sentia-se privilegiado por ter sido escolhido por ela. Fixando-lhe 
o rosto claro e delicado, a boca bem-feita, os olhos de veludo, mal podia esperar pelo momento de estar a ss com ela. Tudo era felicidade em seu corao. Nem um 
pensamento sequer para Esmeralda. A figura da cigana como que se apagara de sua lembrana. S tinha olhos para a esposa. Reconhecia nela algo especial, uma superioridade 
de sentimentos, dotes de inteligncia, que nunca pensara encontrar em uma mulher e que tinham tocado fundo seu corao. Estava feliz.
     Maria, graciosa, requisitada por todos, dominava a festa com sua graa, e vendo-os enlaados e venturosos, seus pais sentiam-se tranqilos e felizes.
     Afinal, as duas famlias tinham-se unido, realizando um sonho longamente acariciado. E essa unio tinha acontecido espontnea, com amor, e isso os alegrava 
ainda mais.
     Por certo, uma era de alegria e de felicidade viria abenoar as duas famlias. Eles confiavam no futuro.
     Algum, entretanto, destoava da alegria geral: lvaro, que procurava esconder seu despeito, seu dio, seu desapontamento. Apesar de estar habituado, difcil 
lhe era dissimular, tal a avalanche de sentimentos que lhe invadia o corao. Ningum, no entanto, percebeu seu mal-estar. Abraou os noivos e o fez com tal percia 
que eles felizes e descuidados no notaram o que lhe ia no corao. Tanto Carlos quanto Maria acreditavam que lvaro j se tivesse curado daquela paixo de infncia.
     Mas ele sofria. Como podia suportar assistir  felicidade deles? Pensar que, logo mais, Maria estaria nos braos do marido consumando o casamento quase o enlouquecia. 
 noite, quando o baile estava animado, lvaro no resistiu. Fugiu desesperado e embrenhando-se no parque chorou como criana.
     Um pouco mais calmo, tomou o cavalo e procurou a carroa do cigano. Tinha os olhos vermelhos e injetados, o rosto marcado por rictos de amargura, estava curvado 
como se tivesse de repente envelhecido.
     Miro velava. Tinha repousado um pouco, e vendo a figura atormentada de lvaro, compreendeu-lhe o drama. No disse nada.
      Como est ela?  perguntou o fidalgo com interesse.
      Parece-me um pouco mais calma  respondeu Miro um tanto animado.  Ainda no voltou  lucidez, mas respira melhor e confio que ficar boa.
      Ainda bem  tornou lvaro com certo alvio.
     Esmeralda era sua ltima esperana para acabar com aquele casamento.
      As coisas no vo bem para ti. Imagino que Carlos se casou.
      Sim  disse o moo com amargura , casaram-se. Esto felizes! Ele a tem em seus braos. Maldito! Mil vezes maldito!  desabafou ele com raiva.
      Imagino o que sentes. No  fcil ser preterido. Ns ciganos temos um remdio salutar nessa hora. Acho que te pode ajudar.
      O que ?  perguntou lvaro sem muito interesse.
      Vem comigo.
     Miro saiu da carroa e lvaro o seguiu de perto. O cigano apanhou um machado que estava sob o assento da bolia e o entregou ao fidalgo admirado, dizendo:
      Ns fazemos assim para curar contrariedade. Toma este machado, vai at o mato em frente, escolhe uma rvore bem grossa e derruba-a. Garanto que te vai fazer 
bem.
     lvaro olhou a figura forte do cigano e percebeu que ele no estava brincando. Ele detestava esforo fsico. Estava cansado e desanimado. Sacudiu a cabea determinado.
      No adianta. Eu no sou cigano. No gosto de esforo fsico. J estou melhor. Agora, s quero mesmo  dormir.
     Miro guardou o machado, dizendo:
      Quando o doente recusa o remdio, jamais chega a curar-se  deu de ombros.  Vou voltar para a carroa.
      Vou dormir por aqui mesmo. No suportaria ficar em casa nesta noite.
     Escolheu um local, estendeu a manta e deitou-se, mas, apesar de cansado e esforar-se para pegar no sono, s horas depois foi que conseguiu.
     O dia seguinte amanheceu belo e ensolarado. A primavera chegara em todo seu esplendor. Ao lado do leito, na carroa, Miro velava.
     Esmeralda abrira os olhos durante a madrugada, revelando alguma lucidez. Quis levantar-se mas no conseguiu.
      Preciso sair daqui  balbuciou com voz sumida. Miro acalmou-a.
      Temos tempo. Tudo est bem. Repousa e logo estars boa. Deu-lhe a beber uma mistura que preparara e ela adormeceu novamente. Um sono calmo e normal.
     Por isso naquela manh o cigano estava feliz. Tinha preparado um caldo e esperava que Esmeralda acordasse.
     O sol j estava alto quando a cigana abriu os olhos fixando a fisionomia de Miro um tanto preocupada.
      Ainda bem que acordaste. Vou buscar um caldo quente. Precisas de alimento.
     A cigana olhava ainda um tanto alheia ao que se passava. Ele saiu e voltou logo com uma caneca fumegante.
      Bebe, Esmeralda. Te far bem.
     A cigana sentia-se muito enfraquecida. Miro levantou-lhe a cabea e aproximou a caneca de seus lbios. Esmeralda sorveu alguns goles.
      Bebe tudo. Logo estars de p.
     Ela obedeceu maquinalmente. Sentia a cabea rodar e enorme fraqueza. Depois, o cigano colocou uma almofada para mant-la mais confortvel.
      Miro  balbuciou ela em voz baixa , o que aconteceu?
      Tiveste alguma febre e um pouco de fraqueza. Mas j passou. Agora tudo est bem.
     Ela franziu a testa como querendo lembrar-se.
      Onde estamos?
      Perto de Madri.
     De repente ela angustiou-se.
      O casamento. Preciso ficar boa para ir at l. Ajuda-me, preciso levantar-me.
     Miro olhou-a penalizado.
      Acalma-te. Estiveste mal e se queres levantar e recobrar tuas foras, no te agites inutilmente.
     Ela fixou-o angustiada.
      Quanto tempo faz que estou aqui?
      H trs dias e noites, estavas inconsciente. Ardias em febre. Ainda ests muito fraca. No te podes agitar para no recair.
      Miro, e o casamento?
      Foi a mo de Deus. O destino te desviou da vingana. Deves aceitar para que no te acontea coisa pior.
     Esmeralda estava sem foras, mas em seus olhos refletiam-se a dor e a tristeza.
      Queres dizer que Carlos j casou?
      Sim  esclareceu Miro.  Foi o destino. Tuas melhoras s comearam depois que lvaro desistiu da vingana.
     A cigana fechou os olhos demonstrando exausto. Miro insistiu:
      Luta, Esmeralda, para viver! Nem sempre a vida nos d o que desejamos. Precisamos compreender que nada somos diante do destino! Esquece Carlos e por certo 
tua vida aos poucos se ir transformando.
     A cigana estava muito enfraquecida para discutir o assunto, porm, em seu corao ferido, o cime, o dio, o desespero ainda faziam-na estremecer. Estava sem 
foras. Sentia-se doente, fraca, derrotada, mas Carlos no perdia por esperar. No pensava em nada mais do que em vingar-se. Miro continuou:
      Ficaremos mais alguns dias por aqui. No ests em condies de viajar. Assim que estiveres mais fortalecida, regressaremos ao acampamento.
     Os olhos de Esmeralda brilharam, mas ela no disse nada. Miro estava aliviado. A cigana, parecia-lhe, tinha aceitado a situao. Tanto melhor. No via a hora 
de regressar ao acampamento, libertando-se da influncia de lvaro, que acreditava perigosa para Esmeralda.
     Mas o fidalgo no se decidia a ir embora definitivamente, alegando que se sentia responsvel pela viagem dos dois e desejava prestar-lhes assistncia.
     Na verdade, no queria perder a cigana de vista. Assim que pde falar com ela, desejou reiterar seus propsitos de vingana. Porm Miro no saa do lado dela, 
no dando oportunidade de falar-lhe a ss.
     Sabia que o cigano o atiraria fora da carroa se mencionasse o assunto. No queria que ele desconfiasse de suas intenes. Afinal, ele tambm desejava a recuperao 
da cigana e no queria que a criana se perdesse. Era-lhe preciosa para a concretizao de seus objetivos.
     Por isso, fingiu-se de desinteressado e despreocupado, aguardando um momento favorvel para falar a ss com Esmeralda.
     Ela comeou a melhorar. Seus pensamentos de vingana galvanizavam-lhe as energias e intimamente procurava restabelecer-se para poder planejar como se vingaria. 
Por isso, trs dias depois j se encontrava bem melhor. Mas, naquela noite de primavera, sentada fora da carroa, respirando deliciada o cheiro agradvel das flores 
do campo, a cigana foi acometida de violenta dor.
     Praguejando contra Carlos, contra a vida, contra todos, obedeceu a Miro, deitando-se na carroa. Estava amanhecendo quando sua filha nasceu. Miro, acostumado 
com esses casos no acampamento, atendeu Esmeralda com preciso e presteza. A cigana chorava de raiva e de dor. Dizia:
      Enquanto eu aqui grito e sofro, o miservel, nos braos de outra, diverte-se. Que mundo injusto! Maldito seja ele e sua esposa, seu pai e sua me!
     Miro intervinha:
      No digas isso. Tua filha no tem culpa dos erros do pai. Queres v-la?  uma linda menina! Tem teu sangue, Esmeralda. O sangue de nossa gente!
      No quero. Tu me prometeste que a levarias para longe. No a quero! Cada vez que olhasse para ela estaria recordando Carlos. Em pouco eu a estaria odiando 
tanto quanto ao pai!
     Miro intercedeu:
      Pensa, Esmeralda.  tua filha, como abandon-la? Com quem deix-la? O que fazer?
      No quero saber. Tu me prometeste. Eu queria livrar-me logo e no a deixar nascer. Tu me convenceste a esperar. s o culpado por ela ter nascido. Agora, ela 
 tua. Eu no quero v-la nunca mais.
     Miro sentiu uma onda de tristeza.
      No a quero no acampamento a recordar-me aquele patife. Miro, com a criana nos braos, saiu da carroa. lvaro, olhos brilhantes, interveio.
      Ela no quer a filha. O que pretendes fazer?
      No sei  respondeu Miro penalizado.
      Eu a quero  tornou lvaro com voz firme.  Posso lev-la e acredite que a educarei como a uma filha.
     Miro fixou-o desconfiado.
      E no pensars em vingana?
      Claro que no. J te disse que desisti. Penaliza-me a situao. Afinal, eu vos trouxe para esta aventura. Vivo s. Ela me ser companhia.
      Est bem  decidiu Miro.  Podes lev-la.  tua. Mas atenta para o que te digo: trata-a bem, ela no tem culpa de nada. E se por acaso atentares contra ela 
ou guardares propsitos de vingana, a maldio cair sobre tua cabea.
     Apesar de no crer nos ciganos, lvaro no pde deixar de sentir um arrepio de medo. Os olhos de Miro brilhavam estranhamente. Vencendo o receio, lvaro respondeu:
      Ficai sossegado. Cuidarei bem dela. Nada lhe acontecer. Miro entregou-lhe a criana com tristeza.
      Leva-a para uma ama. Precisa de cuidados.
      Certo. Podes confiar. Deixa-me falar a Esmeralda um momento. Vou despedir-me.
     Entregou novamente o beb a Miro e entrou rpido na carroa onde a cigana repousava.
      Esmeralda!
     Ela abriu os olhos e fixou-o com firmeza. Ele continuou:
      Vou embora. Levo tua filha. Cuidarei bem dela. Nunca mais a vers. Porm quero dizer-te que no esquecerei meus propsitos de vingana.
     Falava baixo, com medo de que Miro entrasse de repente. A cigana respondeu:
      Eu tambm. Essa criana no existe para mim. No a quero. Mas se algum dia puderes ou tiveres meios de destruir Carlos, procura-me que eu quero ajudar!
      Agora Miro me vigia. Ele no pode saber. Aguarde notcias minhas. Voltarei ao acampamento. Irei procurar-te s escondidas, podes esperar.
      Est bem. Estarei esperando. Miro no poder impedir-me. lvaro saiu rpido e, tomando nos braos o pequeno fardo, montou e dentro em pouco seu vulto desaparecia 
em uma curva da estrada.
     Miro deu um suspiro de alvio. Afinal, tudo parecia resolvido. A criana seria educada e Esmeralda regressaria ao acampamento. Acreditava que ela logo estaria 
recuperada, reiniciando sua vida de sempre.
     No dia seguinte, devagar, conduzindo a carroa com cuidado, Miro tomou o caminho de volta.
     lvaro chegou a Madri aos primeiros alvores da manh. Ia preocupado. Precisava arranjar algum que cuidasse da criana. No queria que nada lhe acontecesse. 
No sabia ainda como, mas entendia que ela era-lhe preciosa. Afinal, o fruto da ligao de Carlos com a cigana era pea importante para desmascar-lo frente a Maria. 
O traidor no perdia por esperar.
     O que fazer com a criana? Conhecia um casal de servos do castelo de D. Hernandez que, no possuindo filhos, sentiam-se muito infelizes. Por certo cuidariam 
da menina muito bem. Decidido, foi procur-los.
     Eles preparavam-se j para iniciar a jornada de trabalho e ao ver lvaro sobraando a criana embrulhada em uma manta, comoveram-se muito.
      Por Deus! D. lvaro!  exclamou a serva assustada.  Uma criana! O que se passa?
      Preciso de ajuda. Saberei recompens-los regiamente.
      Podeis confiar em nosso zelo  tornou o servo com deferncia.
      Eu sabia. Por isso vim procur-los. Esta pobre criana foi abandonada pela me. O pai, no entanto,  meu amigo e nem sabe de sua existncia. Por isso, resolvi 
proteg-la.  s o que vos posso dizer.
      Vosso gesto, senhor, vos honra como fidalgo  observou Miguel com delicadeza.
      Eu no posso cuidar dela, mas espero que tu, Consuelo, a recebas em tua casa com cuidados de me. E tu, Miguel, a protejas velando por ela.
      Que linda , senhor! Mas  to nova!
      Acaba de nascer  esclareceu lvaro, mais preocupado em acomodar as coisas do que com a criana, que lhe era indiferente.  Acho que sabes como assisti-la. 
Arranja-lhe uma ama, se quiseres, eu pago.
     Tirou da algibeira um pequeno saco e colocou um punhado de moedas sobre a mesa tosca.
      Por certo, senhor  ajuntou Miguel satisfeito.
       s por algum tempo. Depois verei o que fazer.
      Podeis estar descansado, senhor. Cuidarei dela como de uma filha.
      Por isso a trouxe aqui. Mas lembra-te que ela no  tua e que eu virei busc-la quando for oportuno. Que ningum saiba que fui eu quem a trouxe. Podes dizer 
que a encontraste  porta ou algo assim, mas que meu nome no aparea!
      Podeis estar descansado  respondeu Miguel atencioso.
      No quero comentrios entre os campnios. Meu tio pode no gostar, entendes?
      Claro, senhor. Podeis confiar em ns. Sabeis que somos servos fiis e honestos.
      Muito bem. Fazei o que eu vos digo e no vos arrependereis. Sei recompensar muito bem os que me servem com fidelidade. De vez em quando voltarei para saber 
como andam as coisas.
      S uma coisa senhor  disse Consuelo, com a criana nos braos.  Como  o nome dela?
     lvaro parou interdito. No tinha pensado nisso.
      Ela ainda no tem nome...  murmurou indeciso.
      Todos precisam de nome  tornou a serva admirada.
      Estou cansado. Depois veremos.
      Temos que batiz-la  ajuntou a serva.
      Voltarei outro dia e veremos isso. Agora preciso ir. lvaro saiu e Consuelo levou a criana at o leito pobre.
      Pobrezinha, est molhada. Vamos, homem, no fiques a parado. Vai ver um pouco de leite.
      No  melhor buscar uma ama?
      No. Deixa que eu sei o que fao. J cuidei de crianas. Sei como se faz isso. Agora preciso arranjar-lhe roupas. Podes ir para o campo. Eu agora s irei 
quando a possamos levar junto.
     E enquanto o marido, depois de buscar o leite, seguia para o trabalho, Consuelo com alegria e cuidado tomava providncias envolvendo a filha de Esmeralda e 
de Carlos com seu carinho de me.
     Em casa de D. Hernandez tudo era alegria e contentamento. Aps as festas da cerimnia, os noivos tinham seguido para uma propriedade no campo, onde descansariam 
por uma semana, finda a qual deveriam voltar ao castelo dos pais de Maria para juntar-se  comitiva de D. Fernando, que regressava a seu castelo em Valena.
     Quando os recm-casados chegaram, irradiando felicidade e boa disposio, lvaro estava l. A custo dominou o rancor e o desespero. O espetculo daquela felicidade 
o feria fundo. Foi a custo que conseguiu disfarar seus sentimentos e demonstrar uma alegria que estava longe de sentir.
     Maria, corada e bem-disposta, nunca pareceu-lhe to bela, e Carlos, cujo entusiasmo era evidente, despertava-lhe cime terrvel.
     Entretanto, o jovem casal, em meio a sua felicidade, no percebeu a raiva e o despeito do moo. Ao contrrio, julgando-o amigo, procuraram demonstrar-lhe ateno 
e carinho, generosamente esquecendo seu interesse por Maria.
     Permaneceram no castelo mais trs dias, e depois a famlia de D. Fernando e sua comitiva regressou a suas terras.
     Voltando ao lar com a esposa, Carlos ia firmemente decidido a assumir suas responsabilidades de famlia, a cuidar dos negcios de sua casa, auxiliando o pai 
cansado e doente na administrao de tudo.
     Estava feliz. Maria, encantadora e inteligente, culta e sincera, era a esposa ideal. Amava-a sinceramente, e a figura da cigana como que se apagara de sua lembrana. 
E se casualmente algo a recordasse, considerava sua ligao com ela como um desvario da juventude, sem conseqncias.
     Maria sabia manter a ateno do jovem esposo e revelara-se interessada em ajud-lo nos negcios de sua casa, o que no era comum nas mulheres de sua poca.
     Uma vez de volta ao castelo, a princpio tanto D. Fernando como Carlos estranharam essa atitude de Maria e procuraram afast-la desses assuntos, alegando que 
s os homens deviam preocupar-se com tais problemas. Mas Maria no se deu por achada e recusou-se a sair quando eles discutiam sobre negcios. Para no desgost-la, 
julgando ser interesse passageiro, aceitaram sua presena, a princpio calada e atenta, mas aos poucos emitindo sugestes, expondo idias, interpretando fatos com 
tanta sensatez e inteligncia, delicadeza e sutileza, que com o correr do tempo ambos passaram a confiar plenamente em suas opinies. De tal forma ela procedeu, 
dando-lhes a impresso de que eram eles quem decidiam, que passaram a nada fazer sem que Maria estivesse ao par e emitisse seu parecer.
     Isso contribuiu para que mais se solidificasse a unio entre eles, e a jovem era muito estimada pelos sogros, que viam nela a filha que no tiveram. D. Encarnao 
no compreendia a nora, dentro de seu mundo estreito de mulher habituada a obedecer e a no sair dos acanhados padres para os quais fora educada. Mas admirava-a 
por sua coragem e por sua maneira de ser.
     Assim, a vida no castelo seguia feliz e despreocupada. Carlos era outro homem. Srio, responsvel, preocupado com a famlia. Na mente de todos, o passado estava 
esquecido.
     
     
Captulo XVI
     
     
     Onze anos se passaram dos ltimos acontecimentos e agora a vida no castelo de D. Fernando estava movimentada e alegre. Dois filhos enriqueciam a vida de Maria 
e Carlos. Um menino j com dez anos e uma menina com seis. Eram lindos e saudveis. Distribuam suas risadas pelo castelo, quebrando a sobriedade de suas vetustas 
paredes.
     Tudo era calma e prosperidade. Os negcios iam bem e a situao da propriedade no poderia ser melhor. Carlos revelara-se timo administrador e D. Fernando 
orgulhava-se do filho.
     Era uma tarde de primavera de 1826. Acompanhados por uma serva, Jos e Matilde brincavam alegres.
      Vinde, crianas. No podeis entrar a  tornou a serva com energia.
      Eu quero  respondeu o menino com arrogncia.  No podes impedir-me.
      Est fechado. Teu pai proibiu. Vamos, vamos para outro lugar. O menino no se deu por achado.
      Por qu? O que h a dentro? Tem um tesouro?
      No sei. Que bobagem! D. Carlos fechou porque esta ala do castelo  perigosa.
      Perigosa por qu?
      No sei. Ele no disse. Agora vamos. O lanche vai ser servido. No podemos deixar D. Maria esperar.
     Tomando a mo do menino, forou-o a afastar-se. Tinha medo daquela ala abandonada. Tinha ouvido contar muitas histrias sobre ela. A tragdia, a morte de D. 
Fabrcio, e o que era pior, os estranhos rudos que alguns j tinham ouvido durante a noite. Pranto, risadas, lutas, gemidos.
     Tanto D. Carlos quanto D. Maria riam-se dessas histrias. Mas ela tinha medo. Achava que as almas dos mortos podiam voltar e as temia. Sentia arrepios de terror 
sempre que se acercava daquela rea.
     Conduziu as crianas para a casa, deu-lhes a merenda.
      Mame  pediu Jos , posso ficar fora mais um pouco com Tilde? Est to bom.
     Saram de novo. Josefa os acompanhou solcita. Levou-os para o parque, onde rvores floridas alegravam a paisagem. Sentou-se sob uma rvore e tomou seu trabalho 
de agulha. Mas a brisa agradvel, o canto dos pssaros a envolveram e a serva recostou-se no tronco e adormeceu. Jos tomou a mo da irm dizendo-lhe baixinho:
      Vem, Tilde. Vamos entrar l, ver o que h. Vamos descobrir o tesouro!
     A menina perguntou:
      O que  tesouro?
      Jias, ouro, pedras preciosas! Vais ver que beleza!
      Tem colar?
      Tem, claro. Tem braceletes, anis, tudo. Vamos.
     Alegres, dirigiram-se  ala proibida. Jos entrou pelo porto de ferro que dava acesso ao local e logo dois metros alm pararam frente  porta de madeira trabalhada. 
O menino largou a mo da irm e tentou abri-la. No conseguiu.
      Est fechada. Vamos ver se h outra entrada.
     Deu a volta por fora, mas a outra porta tambm estava fechada! Havia uma janela de ferro, com vidros empoeirados, mas estava um pouco alta para ele.
      Eu quero ir embora  pediu a menina, um pouco assustada.
      Ns j vamos. Espera um pouco. Vem c. Vou te levantar e vais espiar o que h l dentro. Sobe aqui.
     Abaixou-se e a menina aboletou-se em seu ombro.
      Segura firme que eu pego tuas pernas. Limpa o vidro e olha l dentro.
      E se houver o tesouro?
      A voltamos outro dia quando eu encontrar a chave da porta. Equilibrando-se, Matilde, com a mozinha, esfregou o vidro e espiou.
      Olha direito! Eu queria ver. Mas no me agentas. s mulher!
      No te agento porque sou pequena  tornou a menina com seriedade.
      O que vs?
      Algumas cadeiras cobertas com pano, teias de aranha. Est muito escuro. Estou com medo! Quero descer!
      S mais um pouco. Olha se no h uma arca, mesmo fechada.
      No vejo.
     Aconteceu num segundo. Diante dos olhos apavorados da menina, apareceu, de repente, a figura de um homem com sangue a escorrer-lhe por vrios ferimentos, olhos 
brilhando como fogo, cabelos eriados e desgrenhados.
     A menina gritou desesperada, todo seu corpo tremia qual galho agitado pelo vento. Estava plida. Assustado, Jos no sabia o que fazer. Desceu a irm que gritava 
sem conseguir sair de onde estava.
      Vamos, Tilde. Vem, no foi nada, vamos.
     Mas a menina parecia fora de si. Continuava a gritar. Ele tentou arrast-la para fora. Nessa hora, Josefa chegou esbaforida.
      Santo Deus! O que aconteceu? Por que me desobedecestes? Virgem Santssima! O que se passou?
     A menina plida, trmula, chorava convulsivamente, ainda aos gritos. A serva tomou-a nos braos aflita.
      Estou aqui. No h perigo. Acalma-te. O que aconteceu? Jos estava muito assustado.
      No sei. Fomos l, eu a pus no ombro para espiar l dentro. De repente, ela comeou a gritar.
      Que loucura! Logo a, santo Deus!
      Eu queria ver o tesouro.
      No h tesouro nenhum l dentro. Achas que D. Carlos ia deixar l uma fortuna? O que fizeste foi assustar tua irm. Acalma-te, querida. Tudo passou. 
     Mas a menina tremia apavorada. Aflita, Josefa levou-a para casa. Maria preocupou-se. Tentou acalm-la. Quando a viu mais serena, perguntou:
      O que aconteceu? Por que ests assim?
      Mame  soluou ela trmula , l dentro h um homem muito feio.
      Um homem?
      Sim. Tem cara de mau, olhos de fogo e estava cheio de sangue.
      Foi impresso tua, querida. L no h ningum. Todas as portas esto fechadas e uma parede separa as outras alas da casa. Ningum poderia entrar l.
     A menina abanou a cabea.
      Mas ele estava. Eu vi. Apareceu de repente. Tive medo. Parecia que ia me pegar! Tenho medo, mame. Ele  homem mau!
      No h ningum l, eu garanto. O Jos no viu ningum. Tu estavas com medo e tiveste uma alucinao. Viste alguma coisa, Jos?
      No, mame. No vi nada.
      Ests vendo? Foi impresso tua.
     Mas a menina no se acalmava. Continuava afirmando que o homem estava l. Carlos preocupou-se.  noite Matilde estava febril e no conseguia dormir. Carlos 
achegou-se ao leito da filha procurando acalm-la.
      Tenho medo dele, papai  tornou a menina, chorosa.  Tira ele de l, manda ele embora.
     Impressionado, Carlos tornou:
      Por certo. Podes ficar descansada. J mandei vrios homens l para expuls-lo. No mais te assustar.
      Ainda bem, papai. Assim  melhor. No foi mentira. Ele est l!
      Lembra-te de como era ele?
      Era grande, feio. Cabelos arrepiados, olhos de fogo.
      E a roupa, como era?
      Era de veludo marrom. Tinha botas. Estava de colete. Tinha uma faca na mo. Tive medo.
     Carlos empalideceu. A menina acabava de descrever seu tio Fabrcio. Pela lembrana de Carlos, surgiu a noite fatdica em que o surpreendera roubando o castelo. 
Ele no acreditava em fantasmas.
     Vrias vezes os camponeses o tinham alertado sobre acontecimentos estranhos naquela ala da casa. Ele, porm, jamais tinha acreditado. Agora, o que pensar?
     Matilde no conhecera o tio e nunca lhe vira o retrato sequer. Eles o tinham destrudo. No queriam nenhuma recordao daquele patife. Agora a menina o tinha 
visto.
     Carlos passou a mo pelos cabelos, assustado.
      Dorme sossegada, filha. Papai, j o expulsou de l. No h ningum, eu garanto.
     Vendo-se compreendida e amparada, finalmente a menina acalmou-se e pegou no sono. Jos dormia, depois de ter ouvido sria reprimenda da me por ter desobedecido 
 serva.
     Carlos no podia negar que estava abalado. Maria tentou confort-lo.
      No foi nada. A menina  muito sensvel. Logo se acalma.
      O que me preocupa  tio Fabrcio.
      Bobagem. A menina teve uma alucinao. Estava com medo.
      Ela descreveu a roupa com que ele estava no dia de sua morte. Como podia saber?
     Maria ficou sria.
      Ento ela viu mesmo?
      Custa a crer, mas s pode ser isso. Como explicar? O tipo fsico ainda podia deixar dvidas, no ficou claro, mas a roupa... Lembro-me muito bem. Era tal 
qual ela disse.
     Maria olhou o marido um tanto preocupada.
      Ento o fantasma dele est mesmo no castelo.
      O que vamos fazer?
      O melhor  chamar um padre para cuidar disso. Quem sabe se algumas missas o acalmam e o levam para o lugar aonde deve ir.
      . Eu no entendo dessas coisas. No gosto de meter-me com os padres. Mas meu pai tem sempre negcios com eles. Amanh vamos contar-lhe tudo e ver o que se 
pode fazer.
      Desta forma tudo ser resolvido.
     No dia imediato, foi avisado o padre Mendez, que rezava as missas mensais na capela do castelo. Ele reuniu a famlia e esclareceu que o caso era grave, mas 
que ele rezaria nove missas, uma por semana, pela alma do falecido e toda a famlia iria assistir. Depois, iria com seus coroinhas e os donos do castelo benzer aquela 
ala fechada e por certo tudo ficaria bem. Assim foi feito.
     Durante as nove semanas a famlia assistiu s missas na inteno de D. Fabrcio e tudo estava calmo. Ningum mais percebeu nada naquela ala da casa. S faltava 
benzer o local.
     D. Encarnao recusou-se a ir. Maria foi, ao lado do sogro e do marido. A pesada porta foi aberta e o padre paramentado e os dois coroinhas entraram seguidos 
pelos outros trs.
     O cheiro forte de mofo tornava o ar muito desagradvel. Carlos estava plido. Desde que surpreendera o tio e os assaltantes naquela trgica noite, nunca mais 
tinha voltado ali. Estava nervoso e impaciente. Queria que tudo terminasse o mais rpido possvel.
     O padre abriu o manual que trazia e comeou a rezar em latim. Carlos sentia nuseas. Recordava-se daqueles homens, presos no subterrneo e esquecidos. Aquilo 
tinha sido desumano. Mas no lhe cabia nenhuma culpa. Tinha sido ferido e ficado inconsciente. Quando voltou  realidade, era tarde. Estavam todos mortos. Deus justiara 
aqueles criminosos, poupando-lhes o trabalho de puni-los.
     No tinha culpa de nada. Tinha sido vtima, no algoz. Nenhum deles podia pedir-lhe contas do que lhes tinha acontecido. Suas almas deviam arrepender-se e pedir 
perdo a Deus por seus crimes.
     Passou os olhos pelo rosto do pai e da esposa. Rezavam em silncio  pensou ele , vendo-os de olhos cerrados e lbios murmurantes. Ele no conseguia. Pensamentos 
angustiosos invadiam-lhe o ntimo. Seria mesmo verdade que as almas dos mortos podiam voltar? Que a alma do tio, depois de tantas maldades cometidas, tantos crimes, 
pudesse ainda estar ali, vagando sem repouso?
     Jamais tinha se detido a pensar naqueles assuntos. Lembrou-se de Miro. Ele entendia dessas coisas. Figura estranha a do cigano. Tinha partido do castelo com 
medo daqueles fantasmas. Teria razo?
     O padre percorreu todos os cantos do salo e parou frente  porta que dava acesso ao subterrneo. Continuou rezando.
      Est frio aqui  tornou ele.
      Estou gelada  concordou Maria.
     Carlos sentiu vontade de sair correndo. Mas no queria dar parte de fraco. Afinal, era um homem. O padre benzeu a porta e perguntou:
      Podemos entrar a?
      No  tornou D. Fernando atemorizado.
      Por qu? No pode ficar nenhum canto sem ser benzido.
       que desde a noite da tragdia nunca mais entramos a.
      Quereis dizer que houve outra tragdia aqui alm da morte de D. Fabrcio?
      Houve.  melhor contarmos toda a verdade. Quando D. Fernando acabou, o padre esclareceu:
      Agora sei o porqu dessa apario. Deixaram os cadveres sem sepultura. Se quereis libertar-vos do problema, tereis que sepult-los imediatamente!
      Mas faz muito tempo  alegou D. Fernando preocupado , agora s h os ossos.
      Ainda assim. Como quereis que essas almas tenham sossego e vos deixem em paz conservando seus despojos aqui presos?
      E se eu me recusar a mexer a?
      Ento as conseqncias podero agravar-se. Esses casos no so de brincadeira. Pode ocorrer uma possesso que nem o melhor exorcista conseguir evitar: aconselho-vos 
a enterr-los bem longe o quanto antes.
     Carlos ficou angustiado. O padre acabou de benzer e foi-se, tendo ainda uma vez repetido a triste recomendao.
     No salo, Carlos, D. Fernando e Maria tentavam encontrar soluo para o impasse. Repugnava-lhes sobremaneira entrar no subterrneo e mexer naqueles restos, 
depois de tantos anos. D. Fernando era contra a idia do padre. Maria porm ponderou:
      Melhor fazer o que ele recomenda. Vai ser desagradvel, mas depois todos vamos ficar aliviados. Afinal, enterr-los  uma obra piedosa e ficaremos livres 
no s de suas almas penadas como de sua incmoda presena no subterrneo. Precisamos ter coragem e cumprir o que  certo. Depois estaremos livres. Deus nos ajudar.
      Est certo  concordou D. Fernando.  Tens razo.
      . Pensando bem, depois que tudo acabar, ser um alvio. Ficaremos livres deles. No mais a sensao triste de seus corpos presos l naquele subterrneo, 
sem ar, nem nada.
      Como faremos?  inquiriu D. Fernando.
      Vamos oferecer uma recompensa aos homens que tiverem a coragem de entrar l, recolher os despojos e sepult-los. Que seja bem distante daqui  disse Carlos.
      Achas que algum aceitar?  considerou D. Fernando.
      Naturalmente. Nem todos acreditam em fantasmas  disse Maria.
      Muito bem. Hoje mesmo vamos providenciar.
     Apesar de ser domingo, D. Fernando tocou o sino e dentro em pouco, um a um, os homens foram chegando frente ao castelo. Quando os viu reunidos em quantidade 
que julgou conveniente, aproximou-se deles e comeou a falar.
     Em palavras simples, contou-lhes a tragdia toda, acontecida onze anos antes, e a necessidade de sepultar os restos para dar paz quelas almas.
     A quem se apresentasse como voluntrio para faz-lo, daria boa soma em moedas de ouro. Quando se calou, um zunzum percorreu os camponeses. Alguns persignavam-se 
e diziam-se com medo de realizar a empreitada.
     Dois deles, porm, deram um passo  frente.
      Eu o farei, D. Fernando. No tenho medo de alma do outro mundo. Elas no existem  tornou um deles.
      Concordo. O medo faz enxergar demais. Vou com ele  disse o outro.
      S os dois?  perguntou D. Fernando.  Se forem em maior nmero, ser mais rpido.
     Ningum respondeu. Estavam muito assustados. D. Fernando conformou-se. Dois era melhor do que nada. No via a hora de acabar com aquela triste misso.
      Muito bem. Os outros podem retirar-se. Os dois, vinde comigo. Carlos olhou-os um pouco desanimado. Aqueles dois eram os piores elementos de suas terras. Beberres 
e sem famlia, viviam s turras com os demais. Vrias vezes j os tinha despedido, mas acabavam sempre retornando arrependidos e ficavam menos belicosos durante 
algum tempo. Depois, comeavam tudo de novo. Eram fortes e decididos. Naquela hora, Carlos deu graas a Deus por t-los ali. S eles tinham aceitado a desagradvel 
incumbncia. No os invejava, porm admirava-lhes a coragem.
     D. Fernando deu-lhes as instrues. Deveriam descer ao subterrneo, recolher os despojos colocando-os em grosso saco, depois transport-los para longe, enterrando-os. 
Ao voltar, receberiam as moedas de ouro.
     Abriram a ala e D. Fernando abriu a porta do subterrneo. Levando uma lanterna, duas ps e alguns sacos, os dois desceram as escadas. Pareciam decididos e dispostos. 
D. Fernando saiu e Carlos esperava-os do lado de fora.
      Cada vez que entro a, parece-me ver tio Fabrcio de faca em punho, e recordo-me daquela triste noite em que quase perdi a vida.
       natural. O susto foi grande. Tambm no gosto de entrar aqui. Resolvendo esse problema, por certo ningum mais entrar neste lugar.
     Foi quando um dos homens apareceu nervoso.
      Algum precisa me ajudar. Aconteceu um acidente!
      O que foi?  fez D. Fernando assustado.
      Manoel. Caiu-lhe pesada pedra em cima e ficou com a perna presa. A dor foi tanta que ele desmaiou. Sou forte, mas no consigo tir-lo de l sozinho. A pedra 
 muito pesada.
     Carlos empalideceu. D. Fernando estranhou.
      O subterrneo  antigo mas muito slido. Como podem cair pedras?
      No sei. S sei que ele est l embaixo e eu no posso tir-lo sozinho. Acho que quebrou a perna. Algum precisa me ajudar.
      Nenhum dos homens vai querer descer l...  tornou Carlos preocupado.
      . Eu no posso fazer fora, o corao.
      Eu no poderia  esquivou-se Carlos.
     O homem olhou-os com certa comiserao. Afinal, os fidalgos eram mesmo covardes.
      Precisamos tir-lo de l. Est mal e precisa de ar.
      Vou ver se consigo algum para ajudar  aventou D. Fernando.
     Tocou o sino, pediu a cooperao dos homens, ningum manifestou-se. No teve outro remdio. Ordenou. Trs homens plidos e apavorados obedeceram e o acompanharam. 
Chegando ao saguo, o homem tornou decidido:
      Vamos logo. L no tem nada. S um punhado de ossos. No precisam ter medo. Manoel teve um acidente. Vamos tir-lo de l.
     Vendo-o to decidido, os outros trs tomaram coragem e o acompanharam. Desceram e,  luz da lanterna, viram o corpo de Manoel no cho. Ainda no tinha recobrado 
os sentidos. Sua perna estava amassada na canela e sangrava. Uma pedra enorme deslocara-se da parede e cara-lhe em cima.
     Procuraram no olhar em redor. Com cuidado carregaram-no para fora. Afrouxaram-lhe as roupas e D. Fernando vendo-o plido e sem sentidos ordenou que providenciassem 
um lenol para improvisar uma maa e poder transport-lo ao leito no castelo. Ele morava distante e precisava de cuidados.
     O companheiro de Manoel justificou-se:
      D. Fernando, vamos esperar Manoel. Sozinho no d. L deve haver pelo menos umas seis ou sete ossadas.  escuro e em dois  melhor.
      Se ele quebrou a perna, vai demorar muito.
      Ento vamos arranjar outro. Se ele no puder, vou  cidade e procuro. Tenho muitos conhecidos que por certo no tm medo de defuntos e desejam ganhar dinheiro.
      Est bem. Deixa as ferramentas l mesmo. Vamos fechar por agora.
     Manoel no estava bem. Custava a voltar e seu estado preocupava. Muitos comentavam que era castigo por mexer com as almas do outro mundo. Eles eram hereges 
e no acreditavam, por isso tinha acontecido o acidente. Alguns at fantasiavam as figuras dos mortos deslocando a pedra sobre a perna de Manoel.
     O campnio passava mal. Tinha voltado a si, mas fora acometido de febre e sua perna piorava a cada dia. D. Fernando tinha procurado todos os recursos para dar-lhe 
assistncia e o mdico no dava muitas esperanas. Vencido pela gangrena, Manoel uma semana depois veio a falecer.
     Os camponeses estavam apavorados. Acreditavam que a morte de Manoel tivesse sido provocada pelas almas dos mortos do subterrneo e alguns evitavam at passar 
perto daquela ala do castelo, com medo de provocar a ira daquelas almas.
     D. Fernando, Maria e Carlos, reunidos em seu gabinete, procuravam encontrar soluo. Mas reconheciam que, agora, mais difcil seria encontrar algum que ajudasse 
Miguel a cumprir sua triste tarefa.
     Chamaram padre Mendez, que, colocado ao par da situao, foi categrico.
      No h outra sada.  preciso arriscar. Temos que sepultar os corpos. Benzer o local.
      No podeis benzer primeiro, para acalmar os espritos, e depois enterr-los?  sugeriu Carlos.
     O padre fez um gesto negativo.
      Nem penseis nisso. No posso benzer esses corpos hereges. Eram ladres e assassinos, so excomungados. A bno  um sacramento sagrado. S depois de tirar 
seus despojos de l  que poderei benzer o local. Quanto a isto, no posso transigir.  lei da Igreja.
     Carlos indignou-se, mas nada disse. Se o padre se irritasse, seria pior. Eles no entendiam daquele assunto. Precisavam dele.
      Compreendo, padre  contemporizou D. Fernando.  Haveremos de encontrar algum que aceite descer l e fazer o que  preciso. Afinal,  um ato piedoso, de 
caridade.
       preciso muito cuidado  tomou o padre com ar preocupado.  Nunca se sabe o que essas almas excomungadas podem fazer. Todo cuidado  pouco. Mas sei enfrentar 
o problema. Avisai-me quando tudo estiver pronto e voltarei para dar a bno. Ento, tudo estar bem.
     Quando ele saiu, Carlos estava irritado.
      No me conformo com o que ele diz. Se quer ajudar aqueles pobres-diabos, cujas almas esto em sofrimento, por que no vai l para fazer suas oraes ?
      Calma  tornou Maria.  No entendemos desses assuntos. Ele deve saber o que faz. O melhor ser procurarmos seguir sua orientao, uma vez que no temos outra 
melhor.
      Ests certa como sempre, minha filha. No temos outro recurso seno obedecer.
     No mesmo dia, D. Fernando procurou por Miguel e, dando-lhe algumas moedas, tornou:
      Vai at a cidade e procura quem queira te ajudar. Dois, se for possvel. Estou disposto a pagar bem. Sabes que tenho palavra. Se tirarem aqueles restos de 
l, darei vinte moedas de ouro a cada um.
     Os olhos de Miguel brilharam ambiciosos.
      Podeis confiar em meus prstimos, D. Fernando. Voltarei com as pessoas e tudo vai ser feito.
      Muito bem. Temos pressa. No te demores. Quanto antes, melhor. Depois que ele se foi, D. Fernando respirou fundo. Havia de resolver esse assunto custasse 
o que custasse.
     Apesar de no mencionarem o problema, o ambiente do castelo estava pesado. Os servos, nervosos, amedrontados, sobressaltando-se a qualquer rudo. D. Encarnao 
no queria ficar sozinha em parte alguma. As crianas, impertinentes e chorosas. E at Maria, de ordinrio to calma, estava deprimida e sem nimo para conversar.
     Carlos sentia-se oprimido e entediado. No encontrava mais prazer em ler, conversar, ouvir msica. At os filhos, inquietos e lagrimosos, o irritavam.
     Certa noite, depois do jantar, abriu-se com Maria. O que lhes estava acontecendo a todos? Tudo parecia modificado e no havia mais alegria em torno deles.
     A jovem senhora ouviu-o em silncio, depois ponderou:
      Tens razo. Tambm venho percebendo que estamos todos tristes, preocupados, nervosos. O problema do subterrneo, a morte de Manoel, tudo tem contribudo para 
nossa pouca disposio.
      No queres dizer que estamos sob a influncia daquelas almas penadas...
      Claro que no. No acredito nisso. De certa forma acho natural que estejamos preocupados e nervosos. O ambiente aqui no anda bom. Os campnios so supersticiosos, 
acham que o acidente de Manoel foi castigo por terem mexido com as almas dos excomungados. So medrosos. Isso os faz ver o que no existe. Tm medo at da prpria 
sombra. E ns, dentro desse clima, ficamos tambm nervosos. Depois, enquanto no tirarmos de l aqueles despojos, no podemos ficar sossegados.
      No sei do que eles tm medo. Vivem aqui nesta ala e nunca aconteceu nada. Temos vivido sempre muito bem. E h anos que eles esto l embaixo.
      . Tens razo. Mas percebo como eles tm medo. Comentam muito e acho at que, se esta situao no for resolvida logo, alguns iro embora, apesar de gostarem 
de ns e do castelo.
      Isso  absurdo  volveu Carlos irritado.  So ignorantes.
      So. Sabes que so teimosos. Se padre Mendez viesse logo, ficariam em paz.
      No  possvel ficarmos assim. At minha me anda apavorada.
       verdade.
      Vou tentar convenc-la de que est errada.  preciso mudar este medo, esta apreenso por causa de alguma coisa que nem existe. Afinal, o que temos de real 
nisso tudo?
      A viso de Matilde.
      . Foi a nica coisa. Porque o resto  s suposio, medo, superstio. Manoel foi simples acidente. A deslocao de uma pedra em um subterrneo que esteve 
tanto tempo fechado pode ter sido provocada por uma presso de ar.  fato comum. Mas todos interpretaram erradamente. A morte de Manoel tambm foi comum. Sua perna 
foi esmigalhada e no houve jeito.  natural, pode acontecer a qualquer um. Esse povo tem muita imaginao.
      Concordo.
      Vou falar com eles, convenc-los de que esto errados. A Igreja e os padres tambm andam colocando muitas bobagens na cabea deles. O que sei  que precisamos 
mudar esta casa. Deixar essas bobagens de lado, trazer de volta a alegria. Como as crianas podem sentir-se felizes em meio aos temores e aos sussurros de todos? 
Esses mistrios precisam acabar. Seno, vamos todos ficar com as idias perturbadas.
     Maria concordou. No dia imediato, Carlos reuniu todos os servos e, com pacincia, porm firme, tentou convenc-los do que pensava. No final, proibiu-os de ficar 
comentando o assunto do subterrneo e de Manoel. Queria muita serenidade e alegria pelo castelo.
     Depois, procurou a me, repreendendo-a pelo receio infundado, procurando convenc-la de que nada do que pensava era verdade.
      noite, o ambiente estava mais calmo, tinha melhorado. As crianas pareciam mais tranqilas, os servos mais serenos e at D. Fernando parecia mais alegre. 
Carlos respirou aliviado. Por certo as coisas voltariam ao seu lugar.
     No dia imediato, Miguel voltou, acompanhado por um homem troncudo e de humilde condio. Procurou D. Fernando disposto a fazer a limpeza do subterrneo.
      Muito bem  respondeu D. Fernando.  Vamos imediatamente ao local.
     Carlos acompanhou-os, porm ficou do lado de fora. D. Fernando, decidido, tirou a trava da porta do subterrneo e girou o trinco, mas ela no abriu.
      Talvez precise de azeite.  muito velha e ficou fechada muitos anos  tornou o homem que os acompanhava.
     D. Fernando abanou a cabea.
      No pode ser. No outro dia ela se abriu com facilidade.
      Vamos ver  disse Miguel tentando por sua vez.
     Mas a porta no abria, embora o trinco girasse normalmente. Foram em vo todas as tentativas. A porta tinha emperrado.
      Pode ser compresso do ar  aventou o companheiro de Miguel.
      Pode  concordou Miguel.
      Nunca teve este problema  respondeu D. Fernando nervoso.
      Tem algumas ferramentas? Precisamos forar a porta.
      Vamos apanhar.
     Carlos, quando os viu sair, tomou cincia da nova situao e esmoreceu. Uma coisa to simples tornara-se complicada. Agora essa porta quebrada, o que era natural, 
tratando-se de prdio velho e sem uso, iria dar novamente o que falar. Era mesmo muita falta de sorte.
     Os homens voltaram munidos de algumas ferramentas, comearam a tentar abri-la. Enquanto isto, apesar da proibio de Carlos para que o assunto no fosse comentado, 
a notcia correu de boca em boca.
     Os mortos no queriam sepultura. Por isso tinham jogado a pedra no pobre Manoel, que tinha pago com a vida essa teima, e fecharam a porta, impedindo a entrada 
daqueles homens.
     Comearam a achar que o melhor seria deix-los ali mesmo, onde estavam durante tantos anos, e tudo voltaria ao normal.
     Porm os donos do castelo no pensavam assim. Queriam mesmo ver-se livres deles e acreditavam piamente que enterrando seus despojos longe dali estariam enterrando 
com eles o passado terrvel.
     Enquanto isso, os dois insistiam tentando abrir a porta que parecia pregada no batente e no cedia. Suavam em bicas e no conseguiam. Depois de duas horas de 
tentativas infrutferas, desanimados, cansados, sentaram-se no cho.
     D. Fernando, nervoso, sugeriu:
      Agora  melhor no insistir. Vo para a cozinha comer, descansem um pouco e depois, mais tarde, voltaremos.
     Os dois obedeceram e D. Fernando no conseguia compreender.
      A outra vez a porta abriu-se facilmente. E agora...
      No convm estimular as crendices de nossa gente. No podemos esquecer que se trata de uma velha porta pouco usada, cujo ferrolho emperrou. Acontece muitas 
vezes  explicou Carlos com voz que procurava tornar natural. Estava irritado. Era o cmulo acontecer isso.
     Quando entraram no castelo novamente, sentiram j o ambiente tenso. Percebia-se que os servos estavam assustados. A refeio decorreu em silncio, cada um engolfado 
em seus pensamentos.
     Depois da sesta costumeira, chamaram os dois homens e voltaram ao local do subterrneo. Carlos resolveu entrar, apesar das recordaes desagradveis e do cheiro 
de mofo que lhe revolvia o estmago.
     Os homens, mais refeitos, apanharam as ferramentas. Estavam dispostos a abrir a porta de qualquer jeito. Carlos com naturalidade experimentou o ferrolho e para 
surpresa de todos a porta abriu-se com facilidade, como se nunca tivesse emperrado. Carlos empalideceu. 
     D. Fernando, assustado, exclamou:
      Ela abriu! Experimentei tantas vezes! Como pode ser?
       questo de jeito  tornou Carlos, tentando dissipar a preocupao.
     Os dois homens sentiram-se aliviados. Queriam desembaraar-se da misso, recolher o dinheiro e ir embora o mais rpido possvel.
      Pega a lanterna  disse Miguel.  Vamos deixar a porta aberta at que o ar circule l dentro. Pode deslocar outra pedra.
     Carlos sentiu ligeira tontura e certo mal-estar.   o cheiro  pensou enjoado. Resolveu sair. Era ridculo, poderiam pensar que ele estava com medo. Mas, se 
ficasse, teria cado certamente, o que seria pior.
     Uma vez fora, respirou fundo, tentando reagir. Sentou-se sob uma rvore procurando readquirir as energias. Agora, dentro em pouco, tudo estaria terminado e 
o tormento acabaria de uma vez por todas. Passou a mo pela testa onde o suor bordejava.
     Foi quando um grito de horror ecoou no ar e Carlos levantou-se assustado, sem saber se entrava ou no no castelo. Viu um dos homens sair correndo enquanto o 
outro surgia na porta, chamando-o insistentemente. Vendo seu pai sair um tanto plido e preocupado, Carlos perguntou:
      O que foi?
      No sei. De repente ele gritou l em baixo e em seguida saiu em desabalada carreira.
     Miguel sara atrs do companheiro e os dois foram-lhe ao encalo. Encontraram Miguel desalentado e cansado. D. Fernando perguntou nervoso:
      O que aconteceu?
      Ele se foi. Disse que no quer esse dinheiro, que no volta l nem por todo o dinheiro do mundo.
      Por qu?  inquiriu Carlos aflito.
      Descemos a escada e logo vimos as ossadas. Pusemos as ferramentas no cho e fomos abrir o saco para comear o servio. Quando Jos pegou a p e ia comear 
a limpeza, olhou para o lado e deu aquele grito que quase me matou de susto. Tremia e apontava para o canto. Parecia pregado no cho.
      "O que foi?"  perguntei assustado.
      "Ele est vivo e disse que vai me matar. No fico aqui nem mais um segundo."
      Jogou a p no cho e saiu correndo. Vim atrs, mas ele disse que no mexe mais l. Foi-se embora.
      E essa agora!  tornou D. Fernando preocupado.
      Sozinho no vou  tornou Miguel nervoso.
     Carlos estava arrasado. Como resolver o problema? Pensou em ir com ele, mas temia no conseguir. Se desmaiasse l dentro, seria pior. O pai, velho e doente, 
no podia. O que fazer?
      V se arranjas outra pessoa  tornou D. Fernando nervoso.  Pago regiamente a quem tirar de l aquelas ossadas.
      V se no trazes ningum medroso como esse de hoje  ajuntou Carlos.
      O Jos nunca foi medroso. Conheo-o faz tempo. Se eu acreditasse em fantasma, diria que ele viu mesmo.
      No vais espalhar essas besteiras  interveio Carlos irritado.
      Besteiras ou no, ele vai espalhar essa histria e ser difcil encontrar quem queira fazer o servio.
      Procura o quanto antes. Estavas junto. Viste alguma coisa?
      Eu? Claro que no.
      Ento. V se consegues outros homens. Ser melhor arranjar dois. Assim resolveremos mais depressa. D. Fernando tirou um pequeno saco da algibeira e separando 
algumas moedas deu-as a Miguel. So para tuas despesas. Traze os homens para o servio e garanto que no te arrependers.
     Miguel foi-se e D. Fernando fechou a porta do subterrneo tendo o cuidado de no passar o trinco. Fecharam as portas e saram.
     No castelo o ambiente estava tenso. A criadagem assustada e D. Encarnao no saa do quarto, onde rezava sem parar pelas almas dos ladres. Por mais que Carlos 
quisesse evitar, as notcias corriam de boca em boca e os campnios apavorados trocavam idias, alguns at pensando em sair dali para sempre.
     D. Fernando mandou chamar o padre. Afinal, esses assuntos deveriam ser resolvidos por ele. Mas o sacerdote foi categrico:
      No posso rezar missa por esses hereges. Eram assassinos e ladres. Sem tir-los de l e dar-lhes sepultura, no posso fazer nada. O que podeis fazer  rezar 
muito pedindo a ajuda de Deus para defender-vos desses malignos.
      Mas, padre, no sois representante de Deus na Terra? No tendes autoridade para perdoar pecados, abenoar, excomungar, etc.?
      Tenho. Mas, neste caso, no posso medir foras com o maligno. Exorcismo eu no fao. S os padres do Santo Ofcio. Se no puderdes resolver esse problema, 
deveis recorrer a eles.  o nico jeito.
     D. Fernando silenciou contrariado. No queria envolver-se com os padres inquisidores. Eles tomavam conta de tudo, imiscuindo-se com os problemas da famlia 
e no raro, alegando a presena do demnio, acabavam tomando conta da propriedade por tempo indeterminado. Casos houvera em que os fidalgos tinham perdido tudo, 
ficando na misria. D. Fernando no queria correr esse risco. Haveria de resolver esse problema sozinho.
     Carlos no se conformava. Recusava-se a crer que os mortos pudessem voltar. No entanto, como explicar o que estava acontecendo?
     Nos dias que se seguiram, Miguel no conseguiu encontrar quem quisesse ajud-lo na rdua tarefa. Desabafou com Carlos:
      As notcias correm. Ningum quer correr o risco. Jos espalhou que foi ameaado de morte pela alma do outro mundo.
      Bando de ignorantes! Eles acreditaram?
      Acreditaram. A histria corre de boca em boca. Acho melhor esperar algum tempo, e quando a coisa for esquecida, faremos o servio. Estou pronto a ir, desde 
que algum v comigo.
      A recompensa  grande. Meu pai est disposto a dar regia quantia. Apesar de tudo, continua procurando.
     Os olhos de Miguel luziram de cobia.
      Est certo. Verei o que posso fazer.
     Depois que ele se foi, Carlos permaneceu pensativo. Tudo quanto estava acontecendo era estranho e inexplicvel. A alma dos mortos podia mesmo voltar? Com que 
fim? E a justia de Deus, onde ficava? Eles no tinham feito nenhum mal queles homens. Pelo contrrio, estes  que tinham ido roubar o castelo. Seria agora justo 
arcar com aquela incmoda herana?
     Fora seu tio quem os prendera no subterrneo. Se ele no tivesse ficado ferido e inconsciente, por certo os teria tirado de l. O destino tinha traado aquele 
drama. Por que agora ele e sua famlia tinham que sofrer essa perseguio desigual e indesejada? A quem recorrer nessa emergncia?
     De repente, lembrou-se de Miro. A figura do cigano acudiu-lhe na mente e Carlos sentiu-se inclinado a procur-lo. Miro entendia desse assunto e guardava fora 
especial no trato com o sobrenatural.
     Sim. Talvez o cigano pudesse encontrar uma soluo. Mas onde encontr-lo? Lembrou-se de Esmeralda. Nunca mais tivera notcias dela. De vez em quando recordava-lhe 
a formosa figura com saudade. Apesar disso, guardava a certeza de que tinha encontrado a melhor soluo. Eles eram diferentes e nunca teria sido possvel uma vida 
em comum. Contudo, a presena de Esmeralda em sua vida era lembrana de carinhosa beleza, que o tempo e a fantasia enriqueceram.
     Por certo Esmeralda o tinha esperado inutilmente e depois esquecido. Era linda demais para ser-lhe fiel. Era muito assediada pelos homens para manter-se sozinha, 
recordando um amor infeliz. Talvez at nem se recordasse mais dele.
     Procurou o pai e exps sua idia. D. Fernando no gostou. Tudo estava bem, apesar daquele problema, e ele no queria ver Carlos s voltas com aqueles ciganos 
de novo. Mas o fidalgo insistiu. Miro conhecia o sobrenatural, tinha poderes. A quem recorrer seno a ele? Pagariam regiamente e os ciganos fariam o servio.
     Carlos falava com tanta insistncia que por fim o pai concordou. Maria, a princpio, achou perigoso envolver-se com eles, mas Carlos a convenceu. Miro era seu 
amigo. Salvara-lhe a vida. Haveria de encontrar soluo. Iria procur-lo pessoalmente. Mas onde?
     Fazia mais de dez anos que tinha perdido o contato com eles. Onde andariam? Consultou o mapa. Conhecia-lhes o habitual itinerrio. Tentaria encontr-los em 
Mlaga, talvez.
     Chamou Incio e ordenou preparar tudo. Iriam no dia seguinte. Carlos sentiu vibrar no peito a ansiedade da aventura, apesar de pretender demorar-se o menos 
possvel. Porm, quando na manh seguinte despediu-se dos seus, montou o cavalo e afastou-se abanando a mo para Maria e D. Fernando, que o cumularam de recomendaes, 
Carlos sentiu um aperto no corao.
     
     
Captulo XVII
     
     
     A viagem decorreu sem incidentes e foi com muita emoo que Carlos divisou o agrupamento cigano. Depois de tanto tempo, como o receberiam?
     O cheiro da carne no braseiro f-lo recordar-se de momentos j esquecidos. Porm o acampamento parecia-lhe agora acanhado e pobre. Incio, no entanto, garantia-lhe 
que tudo estava como antes.
     Aproximaram-se. Conhecendo-lhes os hbitos, saltaram dos animais, amarrando-os em uma rvore prxima. Carlos, resoluto, entrou no acampamento. Incio o seguiu. 
Dirigiu-se a um jovem que junto ao fogo saboreava um pedao de carne.
      Quero falar com Miro. Sou amigo dele. Onde est?
     O moo olhou desconfiado, depois apontou para uma carroa mais  frente. Carlos sentiu um aperto no corao. Conhecia aquela carroa. Era de Esmeralda. Estava 
mais adornada, porm era a mesma. Agradeceu e dirigiu-se para l. Corao aos saltos, circulou ao seu redor. Avistou Miro ocupado em consertar os arreios. Aproximou-se.
      Miro!  chamou. O cigano olhou-o assustado.  Estou de volta, preciso falar-te!
     O cigano levantou-se.
      Carlos!
     O fidalgo estendeu-lhe a mo com emoo e Miro a estreitou srio. Depois, fitando-o, indagou:
      O que queres? Por que vieste novamente perturbar Esmeralda? Carlos justificou-se:
      No vim ver Esmeralda. Precisamos conversar. Vim para falar-te.
      Est bem. Vem comigo.
     Miro dirigiu-se ao bosque ao lado, onde sentou-se em uma pedra e tornou:
      Senta-te e fala.
     Carlos obedeceu enquanto Incio saa  procura de seus amigos.
      Faz muito tempo que no nos vemos  comeou ele, um pouco magoado pela secura com que foi recebido pelo cigano , ainda no tive ocasio de agradecer-te tudo 
quanto fizeste por mim quando fui ferido dez anos atrs. Quando percebi que tinhas partido e que Esmeralda te acompanhara, fiquei como louco. Queria levantar-me, 
segui-la, busc-la. Tu sabes que meu amor por ela era sincero. Porm estava impossibilitado de levantar-me.
      Ela te esperou com desespero.
      Por que me deixou daquele jeito?  tornou ele mais para justificar-se do que pelo fato em si.
     Miro olhou-o srio.
      Voltas depois de tantos anos e no vens por causa de Esmeralda. O que queres?
       a ti que procuro. Se falo do passado,  porque desejo explicar-te as razes de meu afastamento, para que no penses que fui perjuro e leviano.
      Em que podem incomodar-te meus pensamentos?
      Miro. Sei que ests zangado comigo por eu no ter procurado Esmeralda. Eu pensava procur-la, eu a amava, porm meu pai estava doente, eu fraco, e comecei 
a pensar que nunca seramos felizes se nos casssemos. Eu no conseguia acostumar-me ao acampamento para sempre, nem achava que devia abandonar meu pai envelhecido, 
de quem sou nico filho, e minha me. Como sabes, Esmeralda jamais seria feliz em meu castelo. Como resolver esse dilema? Com o decorrer do tempo, resolvi ceder 
aos desejos de meu pai e desposei Maria, a noiva que ele me escolhera, e agora temos dois filhos.
     Miro olhou o fidalgo com expresso indefinvel.
      E agora, o que queres?
      Vim pedir-te ajuda. Lembras-te dos ladres que ficaram fechados no subterrneo?
     Carlos relatou todos os acontecimentos que o tinham conduzido ali e terminou:
      Pensei em ti. Conheces os segredos do sobrenatural. Confio em ti muito mais do que nos padres. Quero pedir-te que vs comigo resolver esse caso. Meu pai pagar-te- 
regiamente.
     Miro balanou a cabea.
      Enganas-te. Nada posso fazer. Carlos insistiu.
      Se quiseres, eu sei que poders ajudar-nos. Afinal, estou sendo franco contigo e ofereo-te a maneira de ganhares boa quantia.
      No fao negcios com as almas dos mortos.
      No ests fazendo negcio com elas, mas conosco. E tirando-os de l, com certeza estars ajudando-os tambm. Pretendemos dar sepultura a seus corpos e conseguir 
at missa por suas almas.
     Miro olhou-o admirado.
      Acreditas que isso possa adiantar-me alguma coisa?
      Se no adianta, por que est acontecendo tudo isso? Por que eles no querem sair do subterrneo?
      Porque querem vingana. Porque no se conformam em terem ficado fechados ali e porque pretendem ajustar contas com todos, tirando proveito da situao.
     Carlos estava plido.
      Achas que querem vingar-se, mas ns no temos culpa. Se eu no estivesse inconsciente e meu pai no leito, por certo os teramos libertado, ainda que para 
justi-los. Eram assassinos e ladres e entraram para roubar-nos, no te esqueas.
     Miro deu de ombros.
      A eles pouco interessa a justia. Sentem-se revoltados e querem atacar seja quem for.
     Carlos passou a mo pelos cabelos.
      O que podemos fazer?
      No sei. Convenc-los a sair espontaneamente seria o melhor.
      Mas como? De que maneira?
      Falando com eles. Carlos desesperou-se.
      Como, se no os vemos? Nem sequer sabemos se eles esto ali constantemente. Parece loucura.
      Seria a melhor maneira. Convenc-los da inutilidade da vingana.
      Eu no saberia. Tu podes tentar. Vem comigo e fala com eles. Por certo sabers como. Descers ao subterrneo com Miguel e falars com eles.
     Miro sacudiu a cabea.
      No posso. No quero envolver-me neste caso. Afastei-me de tua casa por causa disso. No tenho condies de enfrent-los.
      E queres deixar-nos  sua merc?
      Podes rezar. No crs em Deus? Carlos olhou-o admirado.
      Por certo. Mas estas coisas no so de Deus. O cigano riu divertido.
      Crs que tenho parte com o diabo? Pois te enganas. Os ciganos tambm so de Deus.
     Carlos estava arrasado. No sabia o que fazer para convencer Miro a acompanh-lo e a ajud-lo a resolver seus problemas. No se deu por vencido.
      Pensa bem, Miro, peo-te. No sabemos o que fazer. Ningum l conhece os segredos do sobrenatural.
     Miro sacudiu a cabea.
      No adianta. No irei. No posso intrometer-me em negcios que no so meus. Eles se voltaro contra mim.
     Carlos passou a mo pela cabea desesperado.
      Agora que j sabes que no posso fazer nada, podes deixar o acampamento.
     Carlos olhou-o desagradavelmente surpreso.
      Expulsas-me?
      No. Mas se vieste para pedir-me que te acompanhe e se j tens minha resposta, nada mais tens a fazer aqui.
      Tens medo de minha presena?  desafiou Carlos. Um fulgor estranho passou pelos olhos do cigano.
      Por que teria?
      Se queres que eu me retire j, cansado e faminto da viagem, se nem sequer me ofereces a hospitalidade por uma noite, para que me refaa e possa voltar  luz 
do dia, por certo temes alguma coisa. No te acredito capaz de tanta rudeza com um velho amigo.
      No s meu amigo nem precisas de hospitalidade. Qualquer taberna te dar o pouso para a noite com mais conforto do que temos aqui. No vejo nenhuma razo 
para que te demores.
     Carlos impacientou-se. Miro o tratava com certo desprezo e sua negativa em ajud-lo feria-o fundo. Recusava-se a voltar sem nenhuma soluo. Por isso respondeu:
      Pois te enganas. Ainda no vi Esmeralda. Depois de tantos anos, por certo ter esquecido tudo e poderei explicar-lhe as razes de meu afastamento.
     Miro levantou-se olhando Carlos fixamente.
       isso que quero evitar. Esmeralda sofreu muito. Agora que tudo est calmo, no tens o direito de perturb-la novamente.
      S irei se vieres comigo. Caso contrrio, ficarei.
      Ests me desafiando e aconselho-te a mudares de atitude.
      Ests me ameaando?
      Para defender Esmeralda, sou capaz de tudo!
     Os olhos do cigano expeliam chispas. Carlos explicou:
      Nada tens a temer. No pretendo perturb-la. Vem comigo e partirei j.
     O cigano olhou-o srio.
      E se eu no quiser?
      Ficarei por aqui at que te decidas a vir comigo.
      Deixa-me pensar at amanh.
      Muito bem. Tens at amanh.
      Vai  hospedaria do Lobo Vermelho e fica l esta noite. Amanh cedo irei ter contigo e dar-te-ei a resposta. Agora vai-te. Se queres que te ajude, evita que 
Esmeralda saiba de tua presena aqui.
     Embora a curiosidade j o estivesse espicaando, Carlos resolveu concordar. Afinal, o cigano estava cedendo e era isso o que lhe interessava realmente.
     Concordou e com um assobio chamou Incio e juntos deixaram o acampamento. Na cidade, foi-lhes fcil encontrar a hospedaria e alojar-se confortavelmente. Incio 
contava-lhe as notcias do acampamento.
      Viste Esmeralda?  inquiriu Carlos.
      No. Ela no estava. Mas pelo que eu soube, nunca se casou. Ainda h pouco tempo dois homens se mataram por causa dela, que nem sequer os quis ver enterrar. 
Continua a mesma.
     Carlos sentiu um abalo no corao. Afinal, ele tinha sido o nico amor daquela mulher que tantos disputavam. Ela o amava. Sentiu curiosidade. Teria mesmo sido 
esquecido? Ardia de desejo de rever a cigana. Como o receberia, depois de tantos anos?
     Tinha prometido a Miro no procur-la, pelo menos at o dia imediato, e cumpriria a promessa. No queria pr a perder o fruto de sua viagem.
     Era noite j. Resolveu cear e esperar pelo dia seguinte. Foi  taberna e sentou-se  espera da comida. Uma jovem alegre, corada, o serviu com gentileza. Carlos 
procurou cortej-la para distrair-se.
      O que vais fazer depois da ceia?
      Vou  festa, senhor  respondeu ela enquanto colocava  sua frente um assado apetitoso.
      Festa?
      Sim. A do vinho, como de costume.  preciso tirar o vinho velho para colocar o novo. Este ano a colheita foi abundante e haver danas a noite inteira. No 
ireis ver?
      Pode ser.
     Carlos conhecia aquelas festas anuais que levavam todo o povo s ruas, onde todo o vinho velho era distribudo de graa ao povo e ao fim de trs dias, caso 
sobrasse, era derramado solenemente no riacho, que o levaria ao mar, em cerimnia ingnua e paga, onde todos, embriagados e alegres, pediam boa colheita para o prximo 
ano.
     Depois da ceia, Carlos ficou tentado a ir. Esmeralda danava nessas festas e a curiosidade era grande. Afinal, no era obrigado a ficar fechado na taberna. 
No tinha procurado a cigana, mas que mal havia em sair um pouco e ver a festa?
     Por outro lado, temia que Miro se irritasse e no aceitasse a incumbncia. Era tarde j quando Carlos decidiu-se a sair. Podia olhar de longe e matar sua curiosidade. 
No dia seguinte, provavelmente, iria embora e talvez nunca mais tivesse chance de rever Esmeralda. Com certeza estaria velha. Doze anos representam muito para a 
beleza de uma mulher. Seus receios de aproximao eram infundados. Amava Maria, adorava os filhos, no lhe passava pela cabea reatar a antiga paixo.
     Porm sua curiosidade era natural, pensava, que mal havia em satisfaz-la?
     Saiu. Em meio ao burburinho das ruas, seus olhos procuravam ansiosos. Seu corao bateu forte ao divisar um grupo de ciganos tocando e danando. Ocultou-se 
atrs de algumas pessoas e procurou. Esmeralda no estava entre eles. Sentiu-se decepcionado. Tanta emoo para nada. Por que Esmeralda no estava?
     Serviu-se de uma caneca de vinho e procurou afogar a desiluso. Afinal, o que esperava? Em sua memria a figura esguia da cigana, rodopiando cheia de vida, 
de alegria e de beleza, aparecia envolvente. O destino por certo no queria que a encontrasse. Miro teria impedido sua presena naquela noite?
     Sentiu raiva do cigano. Abusava porque sabia que ele precisava de seus servios. Haveria de lev-lo a sua casa, por isso procurou esquecer o desgosto. Afinal, 
precisava resolver definitivamente o incmodo problema. Tinha certeza de que Miro sabia como fazer isso.
     Mas Carlos estava frustrado. Esmeralda no estava ali. Estaria com algum fidalgo? Sentiu-se irritado. Pouco lhe importava onde e com quem ela estivesse.
     Foi ento que o sangue fugiu-lhe do rosto e o corao bateu descompassado. Esmeralda, abraada a um elegante cavalheiro, moo, bem posto, aproximou-se dos msicos 
e logo as guitarras comearam a tocar vibrantes e ela saltou para o meio do povo, danando magistralmente. Parecia irreal, ao brilho dos adereos luxuosos e do fulgor 
de seus olhos verdes. Estava linda!
     Olhando-a, Carlos, plido, estava como que fascinado. Todo o passado reapareceu com violncia. Esmeralda estava linda como sempre e os anos nada tinham significado 
para ela. Arrancava aplausos, gritos e ols da multido alegre e podia-se notar nos homens a admirao e a cobia.
     Carlos pensou fracamente em sair dali, para escapar quele fascnio, porm no conseguia. Esmeralda rodopiava, envolvente, parecendo ter asas nos ps, lbios 
entreabertos em leve sorriso, dominadora e nica.
     Carlos esqueceu-se de tudo. A paixo violenta brotou novamente e ele sentia a emoo descompassar-lhe o corao.
     Esmeralda! Como tinha conseguido esquec-la? Como pudera ausentar-se de seus braos de seda e de seu amor voluptuoso?
     Estava trmulo e perturbado. Sem perceber, foi se aproximando da cigana, que parecia no t-lo visto, to segura de si estava. Quando ela parou, os aplausos 
eclodiam, e ela ia fugindo como sempre, mas Carlos interceptou-lhe os passos, exclamando:
      Esmeralda!
     A cigana fixou-lhe o rosto expressivo aparentando calma. Virou a face e procurou afastar-se. Carlos no se conteve, agarrou-a pelo brao com fora:
      Esmeralda! Estou aqui e preciso falar-te.
     Ela, fria, serena, puxou o brao olhando-o como a um estranho. Carlos no esperava esse acolhimento. Ao contrrio. Fora preparado para dar explicaes, evasivas, 
para faz-la entender que ele agora era outro homem, que o passado estava esquecido. Porm as coisas no estavam acontecendo como ele tinha imaginado. A cigana tinha-lhe 
esquecido. E talvez estivesse com outro. Carlos estava irritado. Onde estava o amor que ela dizia ter? Chegara constrangido, imaginando a cigana saudosa e sofrida, 
criando-lhe embaraos. Vendo-a indiferente, ao invs de sentir-se aliviado, sentiu-se angustiado, preterido, trado. No queria admitir que fora esquecido.
     O vinho tinha-lhe esquentado a cabea. Procurou Esmeralda, sem encontr-la. No atendeu s rogativas de Incio querendo lev-lo  hospedaria. Queria ver Esmeralda 
a todo custo.
      No adianta, meu senhor  ponderou Incio , a carroa est guardada. Sabeis como eles so. Esmeralda s recebe quem quer.
     Ela vai receber-me  resmungou Carlos teimoso.
       perigoso. Deixemos para amanh, quando o sol estiver claro. Mas foi intil, Carlos estava determinado. Foi para o acampamento.
     Logo ao chegar foi rodeado por um grupo de homens armados e hostis. Carlos no se intimidou:
      Quero ver Esmeralda.
      No podeis entrar.  ordem de Sergei.
      S saio daqui depois de falar com Esmeralda.
       melhor ir-vos embora. Se insistirdes, seremos forados a impedir. Os nimos estavam alterados quando Miro apareceu.
      No te disse para no procurares por Esmeralda?
     Vendo-o, Carlos moderou-se. Apesar de tudo, esperava levar o cigano a sua casa. Precisava dele. Tentou explicar:
      S quero conversar com ela. Devo-lhe uma explicao. Afinal, depois de tantos anos, vi-a pela primeira vez.
       tarde para isso  tornou Miro srio.  Deixa Esmeralda em paz. Estavam a poucos metros da carroa da cigana. Foi nessa hora que a
     porta se abriu e um fidalgo saiu. Boquiaberto, Carlos tornou:
      lvaro! Que fazes aqui?
     O fidalgo desceu e Carlos viu Esmeralda atrs dele. Sua indignao no tinha limites. Sem atentar para a situao falsa em que se colocava, tornou:
      O que fazes ao lado de Esmeralda? Tu, de quem jamais esperei essa traio?
     O fidalgo aproximou-se calmo. Seus olhos brilhavam triunfantes, saboreando a raiva do rival.
      Te exaltas inutilmente. Escolheste livremente outra mulher, sem te preocupares se ela era minha amada. Tu que traste minha amizade, que traste a confiana 
de Esmeralda, como te atreves a vir aqui com esse tom?
     Carlos corou de dio e de vergonha. Sentiu-se ru e pela primeira vez comeou a pensar que estava errado. lvaro continuou:
      Se amasses Esmeralda, t-la-ias respeitado. Porm Maria te convinha mais do que uma cigana. O que esperas agora? Esmeralda e eu, trados e abandonados, nos 
consolamos e, hoje, estamos juntos. E nosso amor  grande.  a mim que ela ama agora. E o melhor  ires embora antes que usemos a fora. Ela est aqui, como podes 
ver. No te quer mais. Deixa-a em paz. Vai-te de uma vez por todas.
     Carlos, olhos em fogo, o gosto amargo da derrota, o orgulho ferido, o rancor, olhou Esmeralda, que, altiva, indiferente, presenciava a cena sem demonstrar nenhuma 
emoo.
     Nada restava a fazer. Carlos, silencioso, resolveu sair. Incio, com alvio, acompanhou-o. Na sada do acampamento, Carlos voltou-se e pde ver Esmeralda, abraada 
a lvaro, entrando na carroa.
     Uma chama de dio violento queimou-lhe o corao. Esmeralda o tinha trado! Enraivecido, pensava em lvaro, o rival vencedor que estava l, com ela, usufruindo 
seus beijos e seu amor!
     Naquela hora, Carlos esqueceu Maria, seus filhos, seus pais, tudo. No estava habituado com a preterio, com a derrota. E logo para lvaro. No se dava por 
vencido. No iria embora, tinha que falar a Esmeralda.
     Foi com a cabea escaldando que se recolheu e, apesar do vinho, quase no pde dormir.
     Entretanto, na carroa de Esmeralda, lvaro exultava.
      Viste a cara dele? Parecia que ia ter um ataque! O traidor! O sem-vergonha! Que desfaatez! Depois do que ele fez, ter coragem de cobrar-me contas!
     Esmeralda deu de ombros. No tinha mais a calma de momentos antes. Seus olhos brilhavam enraivecidos. lvaro prosseguiu:
      Boa idia de me avisares. Felizmente eu estava perto daqui. Seno, no teria chegado a tempo de saborear sua cara de raiva.
     Esmeralda ouvia calada. Seu rosto tinha um ar determinado.
      Foi boa a idia de nosso amor. Viste como ele ficou? Claro, seu orgulho no suporta a idia de ter-te perdido e logo para mim, que ele sempre desprezou.
      Ainda bem que pelo menos esse teu plano deu certo, j que todas as outras tentativas falharam.
      O danado tem sorte. Depois, Maria nunca deu ouvidos s histrias que propositadamente fiz chegar a seus ouvidos.  muito crente.
      Quer ver at onde vai sua confiana!  fez Esmeralda entre dentes.  Juro que eles vo me pagar! Nunca esqueci. Se teus planos falharam, eu no hei de falhar.
      O que pensas fazer?
      Vers. Garanto que ele se arrepender de ter voltado.
      Espero que no fales sobre Isadora.
      No fales sobre isso. No quero lembrar esse fato.  como se no tivesse acontecido.
      Est certo. No falarei no assunto. No me convm que ele descubra. Um dia, ainda, ela me dar ocasio  vingana.
      Faze como quiseres. Mas no fales nela. No existe para mim. lvaro olhou-a admirado. Esmeralda no tinha instinto maternal. De que seria feita aquela mulher? 
Tinha levado a criana enjeitada para a prpria casa e a adotara oficialmente, como se ela fosse filha dos velhos servos de seu tio, a quem protegia e levara a viver 
em suas terras.
     No era rico, mas dispunha de bens que lhe permitiam levar vida despreocupada sem grandes luxos, mas digna. Considerava aquela criana um trunfo contra Carlos. 
Um dia, por certo, poderia us-la para destruir o rival. No o perdoava. Maria fora seu nico amor. No se conformava em t-la perdido para Carlos, que no a merecia.
     Era leviano e no acreditava que a amasse. Convenincia. Esse devia ter sido o motivo daquele casamento, to a gosto das famlias.
     Olhou Esmeralda e estremeceu. Seu rosto estava feroz.
      No gostaria de estar na pele dele  considerou satisfeito. Arrancada das profundezas de seus pensamentos, ela respondeu:
      Esperei muito tempo. Agora chegou minha vez.
     Carlos, no dia seguinte, amanheceu nervoso e com dor de cabea. A cena da vspera o irritara. Incio, preocupado, ponderou:
      Meu senhor, melhor irmos embora. Miro no vai mesmo.
      Cala-te  respondeu Carlos irritado.  Ele h de ir de qualquer jeito.
     Esperaram a manh toda mas o cigano no apareceu, conforme tinham combinado. Carlos estava irritado, queria ir ao acampamento. Incio tentou dissuadi-lo. Inutilmente.
     Quando chegaram ao acampamento, um grupo armado impediu-os de entrar.
      Quero ver Miro  tornou ele espichando os olhos para a carroa de Esmeralda. O vulto da cigana locomovia-se l dentro.
     Carlos impacientou-se.
      Miro no quer ver-te. Vai-te embora  respondeu srio um cigano.  No te metas em encrencas.
      Preciso falar a Esmeralda  insistiu ele veemente.
      Ela no quer ver-te. Trata de ir embora.
     Mas Carlos estava decidido a ficar. Tanto insistiu que Miro apareceu, rosto preocupado. Carlos reclamou:
      Como podes fazer isso comigo? No quero prejudicar ningum. Miro olhou-o srio.
      J causaste muitos prejuzos. No te deste conta? Por que insistes?
      Quero levar-te comigo. Se concordares, iremos embora. Foi para isso que vim. Podes ajudar-me.
     O olhar de Miro estava triste quando disse:
      Carlos, vai-te embora. No insistas. Se tens amor  vida e a tua famlia, volta j e deixa-nos em paz.
      Ameaas-me?
      Eu? No. Mas melhor seria para ti que regressasses.
      Vens comigo?
     Miro estava triste. No queria ir com ele, temia as almas daqueles celerados, mas ao mesmo tempo temia a presena de Carlos junto a Esmeralda. Sabia que ela 
no o tinha esquecido.
      Se eu for contigo, partiremos imediatamente, concordas? Carlos concordou. Porm era tarde j e no queria viajar  noite.
     Iriam ao amanhecer. Miro olhou-o desconfiado.
      Se procurares Esmeralda, no irei contigo  exigiu.  Ontem no cumpriste o trato.
      No a procurei. Sa para ver a festa e nos encontramos por acaso. No vejo mal nisso. Gostaria de ter com ela uma conversa, explicar-me, tu sabes.
      Ela no quer. Deixa-a em paz.
     Carlos achou melhor concordar. Afinal, o que queria mesmo era levar Miro. Ainda lhe sobrava uma noite. A festa continuava. Por certo iria. Queria a todo custo 
falar a Esmeralda.
     Foi com impacincia que na taberna esperou pelo jantar e saiu para ver Esmeralda. Resolveu no aparecer cedo. Temia que a cigana, no querendo encontrar-se 
com ele, no aparecesse.
     Conhecia-lhe os hbitos. Ela sempre aparecia muito tarde, quando a festa estava quente e muito vinho havia corrido. Era sempre o ponto alto.
     Foi com o corao aos saltos que esperou. Em meio  alegria e aos gritos dos mais entusiastas, guitarras e palmas, ela apareceu. Esmeralda estava linda! E pensar 
que aquela beleza o tinha amado! Por sua memria passavam os momentos ardentes que tinham desfrutado h tantos anos.
     Como pudera esquec-la? Em meio quela dana, teve mpetos de abra-la. Em seu pensamento, o presente no existia, s a atrao do passado, o amor fascinante, 
a paixo arrebatadora. Impossvel que ela amasse lvaro. Recusava-se a crer. Ele era um imbecil!
     No auge do arrebatamento, olhos fixos na figura da cigana, Carlos aproximou-se fascinado. Ela fixava-o envolvente, lbios entreabertos, movendo-se ao ritmo 
da msica. Ele no resistiu, saltou a seu lado e danou com ela, que, tal qual da primeira vez que se tinham encontrado, envolvia-o com sua seduo.
     Carlos exultou, Esmeralda no o repelia. Danaram algum tempo, presos ao fascnio do momento, e quando ela saiu correndo, acompanhou-a, alcanando-a e, num 
gesto arrebatado, abraou-a, beijando-lhe os lbios entreabertos.
      Esmeralda!  sussurrou-lhe ao ouvido.  Que saudade!
     Os olhos dela brilharam, porm retribuiu o beijo com paixo. Carlos animou-se.
      Dize que me queres ainda. Que no amas aquele patife. Esmeralda no respondeu. Libertou-se dele e correu. Carlos a alcanou.
      Preciso falar-te!
      Para qu?  respondeu ela.  Amanh irs embora e tudo ser como antes.
      Esmeralda, no me atormentes. No podes amar aquele tratante.
      Adeus  tornou ela. Carlos abraou-a com fora.
      No me deixes. Quero estar contigo. Amanh preciso ir embora. Fica comigo esta noite.
      No quero  fez a cigana com indiferena. Carlos sentiu um abalo no corao.
      Como? Esqueceste nosso amor? No posso crer. Ainda me amas. Ela riu provocante.
      Ser? Muitos homens passaram em minha vida depois de ti. Mais belos e mais fortes do que tu.
     Mas  a mim que amas, no mintas. Eu te quero, Esmeralda. No suporto a idia de partir amanh.
      No partas.
      Miro quer ver-me longe daqui.
      Ento, adeus.
      No vs. Fica comigo. 
     Ela ia andando e Carlos a acompanhava implorando. Chegaram ao acampamento e ela repetiu.
      Adeus.
      Esmeralda!
     Carlos tomou-a nos braos e beijou-a ardentemente. Sentia o corpo da cigana estremecer em seus braos. Exultou. Ela no o tinha esquecido. Ainda abraados, 
entraram na carroa e Carlos mergulhou de novo nas almofadas e nos braos macios e envolventes daquela mulher.
     
     
Captulo XVIII
     
     Carlos acordou no dia seguinte sentindo no rosto um calor de sol. O corpo doa-lhe e, atordoado, procurou perceber onde se encontrava. Tinha adormecido nos 
braos de Esmeralda, mas encontrava-se deitado na terra dura e ao relento. O que teria acontecido?
     Levantou a cabea e sentiu-se tonto. Doa-lhe todo o corpo. Onde estaria Incio? Olhou ao redor e nada. No se recordava daqueles stios. Respirou fundo e procurou 
levantar-se. Foi com dificuldade que conseguiu.
     O que teria acontecido? No tinha bebido quase. Onde estava? Passou a mo pela cabea atordoada. Precisava voltar  hospedaria. Procurar Incio, talvez ele 
pudesse esclarec-lo. Lembrava-se de Esmeralda, sentia-se emocionado. Ela o aceitara de volta. Por certo despediria o idiota do lvaro. Esmeralda amava a ele, Carlos, 
e a mais ningum.
     Teria sido assaltado? Como, se no se lembrava de nada?
     Comeou a caminhar. No conhecia aquele lugar. Encontrou um campons que lhe disse estar distante da cidade. Sem dinheiro, sem cavalo, Carlos disps-se a caminhar 
de volta  hospedaria.
     Estava anoitecendo quando, faminto e extenuado, conseguiu chegar. Incio, aflito, esperava-o e nada sabia. Desde a festa da noite anterior no o tinha visto.
     Irritado, Carlos lavou-se, alimentou-se e tratou de descansar. No dia imediato, iria ao acampamento, esclarecer tudo. Incio, preocupado, tentou convenc-lo 
a partir. No confiava nos ciganos. Ele no estava sendo bem-visto. Carlos deu de ombros:
      Bobagem. Esmeralda ainda me ama. Eles fazem tudo que ela quer.
     Estirou-se no leito para dormir. Estava exausto.
     Acordou no dia seguinte, mais refeito. Iria procurar Miro no acampamento. Com certeza fora ele quem o tinha levado para longe, na tentativa de separ-lo da 
cigana. Com certeza dera-lhe algo a beber, porquanto de nada se recordava. Era possvel at que Esmeralda o estivesse procurando, pensando que ele a tivesse abandonado.
     Miro no tinha o direito de intrometer-se daquela forma. Afinal, Esmeralda era livre. Se ela quisesse envolver-se com ele, Miro nada poderia fazer.
     Foi em vo que Incio suplicou a seu amo que fossem embora. Carlos estava determinado. Esperou pelas primeiras horas da tarde e dirigiu-se ao acampamento. Foi 
barrado por homens armados.
      Quero ver Esmeralda  exigiu teimoso.
      Ela no deseja ver-te.
      Mentira. Ela est a minha espera. O cigano trincou os dentes ameaador.
      Se repetes essa ofensa, mato-te como a um co. Vai-te embora! Ela no te quer ver nunca mais.
     Com a arma ameaadora encostada no peito, Carlos achou prudente no insistir. Afastou-se disposto a ludibriar a vigilncia. Com certeza a ordem era de Miro. 
Por certo Esmeralda no sabia de nada. Mas ele no iria embora sem falar  cigana.
     Miro, contudo, acordara preocupado. Tinha dormido mal e doloroso pressentimento invadia-lhe o corao. Estava disposto a afastar Carlos, custasse o que custasse. 
Iria com ele imediatamente enfrentar os maus espritos do castelo. Preferia isso a ver Esmeralda sofrer de novo. No acreditava no amor de Carlos pela cigana. Sabia 
no entanto que Esmeralda conservava ainda a antiga paixo, embora o dio a fizesse vibrar sempre que Carlos vinha  baila.
     Foi procur-la. O sol ia alto e a cigana j se tinha levantado. Parecia inquieta. Miro foi direto ao assunto:
      Soube que Carlos esteve ontem contigo aqui, em tua carroa. Esmeralda no respondeu. Miro continuou:
      No acredito que tenhas dado ouvidos quele patife novamente. Por que o aceitaste?
     A cigana olhou-o irritada.
      No te preocupes. Uma vez foi o bastante para mim. No vou perder de novo.
      Ento por qu? Ela deu de ombros:
      Porque chegou minha hora. Carlos vai pagar-me por tudo que fez. Miro olhou-a temeroso.
      Esmeralda, deixa-o ir em paz. Asseguro-te que ele responder pelo que fez. A vida lhe cobrar. No compactues com seus erros! Afasta-te dele! Vais atrair 
a desgraa!
     Esmeralda olhou-o determinada.
      Nada me far perder essa ocasio. Se no fosse a vingana um direito meu, por certo ele no apareceria de novo em meu caminho.
      Esmeralda! O destino no quer a vingana! Liberta-te dele agora!  isso que a vida pede. Repudia-o. Devolve-lhe com a mesma moeda o desprezo, o esquecimento, 
a troca. Ele escolheu um seu igual. Casou com mulher de sua classe. Por que no fazes o mesmo?
      Sou diferente. No quero mais homem em minha vida. Pelo menos que eu no possa despedir quando sinta vontade. Mas ele vai pagar-me pelas humilhaes, pelos 
sofrimentos, pela ingratido!
     Os olhos da cigana brilhavam apaixonados.
      Ainda o amas, essa  a verdade. Por isso o queres de volta. Ests enfraquecida pelo amor e ele de novo te far sofrer para depois voltar a sua famlia, que 
 o que ele quer de verdade. No te esqueas de que ele escolheu a outra e que com ela tem dois filhos.
     Ela sacudiu os ombros.
      Isso no importa. Se importasse, eu tambm teria esse direito antes dela. Mas meu acerto  com ele. Eu e ele. S. No o amo, odeio-o! No o quero para mim, 
mas quero destru-lo.
      Pensas mat-lo? No tinjas tuas mos de sangue. Atrairias a m sorte e a legio dos espritos maus. No sabes que eles nos espreitam para ajudar-nos a cair?
      No tenho medo deles. Meu direito de vingana  sagrado. Devias ajudar-me. Por que ests contra mim?
     Miro olhou-a srio e disse com tristeza:
      Esmeralda, sabes que te amo muito. Desejo teu bem. Pressinto que essa vingana pode te perder. Esse pressentimento me acompanha desde que conheceste Carlos. 
Disse-te isso vrias vezes. Sabes que meus pressentimentos so reais. Por que no me atendes agora?
      Porque no posso. H uma fora dentro de mim que no se acalma. No posso ser punida por exercer a justia!
      O que fizeste com ele? Soube que Carlos foi retirado daqui antes do amanhecer.
     Miro estava preocupado.
      No fiz nada, ainda. Dei-lhe algo para dormir e mandei lev-lo para bem longe.
      Porqu?
      Porque quis. Estar a meus ps, de joelhos, como eu quiser. E desta vez no ser para dar-lhe meu amor! Hs de ver!
     Em vo o cigano tentou demov-la. Esmeralda no cedeu. Miro sentia aumentar seus receios. Quando Carlos chegou, ele ocultou-se e viu quando ele se afastou irritado. 
No sabia como Esmeralda pretendia vingar-se. Mas faria tudo para impedir.
     Carlos estava enganado. No tinha sido Miro quem proibira sua entrada no acampamento. Quando ele se foi, Miro saiu do esconderijo e os homens o informaram que 
cumpriam ordens de Esmeralda.
     Ele no entendeu bem o porqu, mas decidiu agir. Ningum podia saber. Ficou por ali como de costume, at que julgou oportuno e saiu sorrateiro, em busca de 
Carlos. Sabia que ele no se conformaria em afastar-se do acampamento, principalmente depois de a cigana t-lo encorajado.
     Ele estava l, no bosque,  espreita, na esperana de rever Esmeralda. Recebeu Miro com raiva. O cigano no se importou.
      Vim combinar nossa partida  foi logo dizendo.  Vou contigo. Carlos inquietou-se.
      Muito bem. Iremos amanh. Antes, porm, quero ver Esmeralda. Miro olhou-o srio.
      Para qu? Ela no quer ver-te. Ser melhor para ti partires agora.
      Dizes isso porque queres afastar-me dela. Por isso me atacaste, tirando-me de seus braos e atirando-me ao relento. Por isso me impediste de ver Esmeralda, 
de contar-lhe que no sa livremente de seus braos. Mas tu me arrancaste de l  fora, para nos separar. Onde est ela? O que fizeste com ela?
     Miro irritou-se. Aproximou-se de Carlos e agarrou-o pelo colarinho, ameaador.
      s um idiota, que nem mereces o que estou fazendo por ti. Pouco se me d que te arrebentes e que te destruas. Mas no quero que Esmeralda se afunde. Por isso 
estou aqui. No percebes que ela no te perdoou e no o far nunca? No sentes que ela deseja vingar-se de ti? No percebes que, se te entregares de novo a ela, 
desta vez ela te ir destruir? s to imbecil que no vs isso?
     Os olhos de Miro chispavam magnticos e Carlos estremeceu. Estaria ele sendo sincero? Por outro lado, Esmeralda, trmula de amor em seus braos, desmentia essa 
verso. Se ela quisesse vingar-se, teria mandado mat-lo, t-lo-ia desprezado, acusado. Mas ela no tinha resistido  paixo e se entregara de novo ao amor.
     Miro largou-o respirando fundo. Carlos disse conciliador:
      Sei que te preocupas por ela. Acredito que ela me tenha odiado, eu tambm acreditava hav-la esquecido. No entanto, bastou nos vermos de novo para que a emoo 
nos dominasse. Honestamente, Miro, no vim aqui para rever Esmeralda. Sabes que sou sincero. Porm, assim que a vi, tudo veio  tona. Aconteceu comigo, aconteceu 
com ela. Ela me ama, mais do que nunca.
      O amor de Esmeralda, agora, serve de alimento a seu dio. Ela s quer vingar-se.
      Por que te inquietas comigo? Que te importa que ela se vingue? Por que queres "salvar-me"?
     A voz de Carlos vibrava desconfiada.
      Claro est que no  por ti  respondeu ele com desprezo.  s muito cego para entender isso. Pressinto que essa vingana vai destruir Esmeralda!  ela quem 
eu quero salvar!
      Pois diga isso a ela, no a mim!
      Vim para cumprir minha parte. Vou contigo: Podemos partir ao amanhecer.
      Iremos, mas antes preciso ver Esmeralda. Ter uma conversa sria com ela. Sem isso no vou.
      O que pretendes dizer-lhe? Por acaso que deixars tua mulher, teus filhos, para viveres com ela?
     Carlos sobressaltou-se.
      Eu no disse isso.
      Achas que ela se contentar com menos?
     Carlos assustou-se. No tinha pensado em deixar a famlia, os negcios, tudo. Miro aproveitou o abalo.
      Se no desejas engan-la de novo e se no pretendes abandonar os teus, no seria mais prudente deixar as coisas como esto e voltares para casa? Irei contigo, 
te ajudarei a resolver o caso que te preocupa. No ser o melhor para todos?
     Carlos no respondeu. Estava abalado. No tinha medo de Esmeralda, contudo at que ponto queria envolver-se de novo com ela? Abandonar a famlia, jamais lhe 
passara pela cabea.
      Vai para a estalagem, pensa no que eu disse. Antes do amanhecer estarei l para partirmos.
      Talvez seja melhor assim  considerou ele, embora sentisse dor ao pensar em separar-se da cigana.
     Miro regressou menos preocupado. Carlos, cabea escaldante, de volta  hospedaria, reconhecia que Miro tinha razo. Estava dividido. Amava os pais, a esposa, 
os filhos, seus bens, a vida que levava. No pretendia deix-los. Por outro lado, Esmeralda o atraa de forma irresistvel. Todo seu ser chamava por ela, por seus 
braos de fogo. Ele no queria escolher.
     Desejava colher o fruto de tudo, mas no fundo sabia que fatalmente chegaria a hora em que teria que optar.
     Estava quase certo de que Esmeralda no iria vencer essa luta. Teria que recusar seu amor de novo, deix-la, e ela por certo o iria odiar..O melhor seria mesmo 
partir. Voltar ao lar. Miro tinha razo. Devia fugir. Ele sofreria, ela sofreria, mas depois tudo seria esquecido e voltaria a ser como antes.
     Naquela noite, Carlos remexeu-se no leito sem poder dormir. Teve pesadelos nos momentos em que conseguiu conciliar o sono. Levantou-se antes de clarear o dia, 
sacudiu Incio e informou:
      Prepara tudo. Vamos embora. Miro vai conosco.
     Carlos sentia o corao pesado, mas procurou ocupar-se com os preparativos da viagem. Miro foi pontual. Olhou Carlos, aliviado, vendo-o preparado para partir. 
Seu corao tambm estava pesado. No contara a Esmeralda sobre a partida. Colocara Sergei ao par de tudo. Este tinha concordado com sua atitude.
      Folgo que tenhas tido tanta sensatez  comentou srio.  Vai em paz e que Deus te guie.
      Obrigado.
     Iniciaram a viagem calados. Estavam tristes e preocupados. Cada um imerso em seus problemas ntimos. Assim, calados, cavalgaram durante muito tempo. S quando 
pararam para comer, trocaram algumas palavras triviais. Descansaram algum tempo na relva,  beira da estrada, e depois puseram-se novamente a caminho. Era quase 
noite quando chegaram a Valena.
     Apesar de tudo, Carlos estava contente. Miro estava com eles! Foi com emoo que reviu os filhos e a esposa, que contente os foi receber.
     Miro olhou-os silencioso, procurando esconder sua preocupao. Recebido com amabilidade, o cigano manteve-se discreto, esclarecendo a D. Fernando sua posio.
      Agradeo-vos muito ter atendido a nosso apelo. Garanto que no vos arrependereis.
     Os olhos do cigano brilharam enigmticos.
      Amanh cedo veremos se poderei fazer alguma coisa. No sei se conseguirei.
      Sois nossa esperana  disse D. Fernando com ar triste. O cigano curvou-se com cortesia.
      Veremos. Vou tentar.
     No dia imediato, Carlos levantou-se cedo. Estava impaciente. Queria resolver logo aquele delicado assunto. Miro foi colocado ao par de tudo quanto tinha acontecido, 
detalhadamente. Ele ficou srio e com ar preocupado.
      Vais descer l embaixo com Miguel e resolver tudo  disse Carlos.
     Miro olhou para ele e respondeu:
      No ainda. Preciso de tempo. Quero primeiro examinar a situao. J te disse que no tenho poderes e que  possvel que eu no consiga ajud-los. No posso 
ir l assim. Preciso preparar-me. Se eles me agredirem, talvez eu no possa defender-me.
     O cigano estava plido.
      Tens medo?  perguntou Carlos preocupado. Teria viajado inutilmente ?
      So espritos malignos  ajuntou o cigano.  Tm sede de vingana.  preciso que eles me ouam para que possa explicar-lhes a verdade.
      Por que querem vingar-se? Sabes que no tive culpa. Nem eu nem meu pai. Eles  que nos assaltaram para roubar.
      No  de ti que desejam vingar-se, mas de D. Fabrcio, a quem acusam de traidor. Senti isso desde que cheguei aqui.
     Carlos admirou-se.
      Nesse caso, por que se recusam a sair? Tio Fabrcio j morreu h muito tempo.
      O que no quer dizer nada, porque se o corpo morre, o esprito sobrevive.
      Mas a alma que Matilde viu no subterrneo foi a de tio Fabrcio. No esto eles juntos?
     Miro suspirou fundo.
      Esto juntos, mas continuam a disputa, e  por isso que no querem sair. Esto interessados no tesouro e na vingana.
      No posso crer  disse Carlos.  Como podem estar juntos sem resolverem seus problemas? Que temos ns com isto?
     Miro irritou-se.
      Se no crs no que digo, melhor seria deixar-me partir. D. Fernando objetou:
      Por favor. No sabemos lidar com esses casos. O que Carlos quis dizer  que no compreendemos o que se passa. Se resolverdes este assunto, recebereis regia 
recompensa.
     Os olhos do cigano chispavam.
      Deste dinheiro nada quero. Vou ver o que posso fazer e depois vou-me embora. S uma coisa exijo em troca: que Carlos nunca mais aparea no acampamento.
     Os dois homens olharam-se sem entender. Conheciam a cupidez dos ciganos.
      Por que no quereis receber a recompensa?  indagou D. Fernando.
      Porque neste caso no posso.  s o que posso dizer: tiraria minha fora. Mas exijo a palavra de Carlos.
     Carlos olhou-o com ar preocupado. O pai exigiu:
      Vamos Carlos, promete.
      No entendo o que queres dizer com isso  comeou ele.
      Entendes sim e D. Fernando tambm. Promete e farei tudo que sei para resolver o caso.
      Est bem. Dou minha palavra de que no irei mais ao acampamento.
     Miro distendeu a fisionomia.
       melhor assim. Para o bem de todos. Agora, deixem-me, preciso trabalhar.
     Miro fechou-se no aposento que lhe tinha sido destinado e l permaneceu durante toda a manh. Carlos no sabia o que dizer. Sabia que Miro conhecia esses assuntos, 
mas conseguiria resolver aquele drama?
     Levaram-lhe alimentos e o cigano continuou encerrado no quarto o resto do dia. A noite comeava j a descer quando o cigano finalmente procurou-os no salo. 
Estava plido e fundas olheiras tornavam mais srio seu rosto moreno.
      Ento?  inquiriu Carlos.
      Foi o que pensei. Esto todos l. O chefe chama-se Ortega. Carlos abriu os olhos assustado.
      Como sabes?
      Eu os vi. Ouvi o que conversavam.
      Tentastes convenc-los a sair?  indagou D. Fernando.
      No me viram. Apenas os observei. Esto ali, ainda querendo pegar o tesouro e D. Fabrcio. Esto como loucos. S pensam nisso. Para eles o tempo no passou. 
Querem sair para apanhar o que desejam, mas ao mesmo tempo acreditam que D. Fabrcio ainda esteja no castelo. Nenhum deles sabe que morreu.
      Santo Deus, ser possvel?  fez D. Fernando assustado.
      D. Fabrcio, por sua vez, tambm no saiu daquela ala da casa. Est fascinado pelo desejo de ter o tesouro e vigia a porta do subterrneo. No quer que ningum 
liberte os prisioneiros. Teme-os. Sabe que agiu mal. Procura pelas jias e ao mesmo tempo sente-se ferido, fraco. Vigia a porta.
      Por isso no pudemos abri-la  disse Carlos arrepiado. A lembrana da figura do tio e daquela noite sinistra o estarreciam.
      O que vamos fazer?  indagou D. Fernando.  Ficaremos  merc desse bando de facnoras?
      Eu preciso de meios para lutar, o que infelizmente no tenho.
      Prometeste ajudar-nos  lembrou Carlos , e se queres que cumpra a palavra que te dei, trata de cumprir tua parte.
      Verei o que posso fazer. Preciso de tempo e de ajuda. No acampamento, tenho o que preciso. Irei at l e trarei duas mulheres comigo. Elas conseguem atrair 
esses espritos e assim poderemos falar com eles, convenc-los a sair.
      Isso  muito demorado  objetou Carlos.  Quem garante que voltars?
     Miro olhou-o com raiva, seus olhos chispavam.
      No te esqueas de que estou aqui porque quero. Sou homem de palavra. Se te digo que vou buscar ajuda,  porque preciso dela. No posso fazer isto sozinho. 
Se pudesse, j o teria feito. Ir-me-ia embora de vez. Sei o que estou fazendo. Preciso das duas mulheres para trabalhar.
      Irei contigo  props Carlos.
      De maneira alguma. Deste-me palavra.
      De quanto tempo precisais? inquiriu D. Fernando.
      Trs dias e estarei de volta. A resolveremos.
      Est bem. Dar-vos-ei provises e podeis levar um homem convosco, se o quiserdes.
      Obrigado, D. Fernando. Prefiro ir sozinho. Sei defender-me nas estradas. Quero meu cavalo e provises.
     D. Fernando deu-lhe um pequeno saco contendo algumas moedas de ouro.
       para as despesas  disse.
      Dentro de trs dias estaremos de volta. Partirei amanh ao nascer do sol.
     Apesar de contrariado, Carlos no teve outro remdio seno concordar. Estavam nas mos do cigano. No tinha mais dvida de que ele os tinha visto. De outra 
forma, como poderia saber o nome de Ortega?
     No dia imediato, D. Fernando, vendo-o partir, ponderou:
      Ficaremos aguardando. Tenho certeza de que voltar. No deseja tua ida ao acampamento, com certeza por causa daquela cigana!
     Carlos irritou-se, mas nada disse. No queria aborrecer o pai. No entanto, desde aquela noite do reencontro, seu corao recordava Esmeralda! Que mulher! Como 
pudera t-la esquecido? Sentia mpetos de largar tudo e ir ter com ela. Porm, ao mesmo tempo, desejava estar no lar com os seus.
     O cigano cumpriu a. palavra. Trs dias depois, ao entardecer, chegava ao castelo acompanhado de duas mulheres. Carlos reconheceu Mina e Sura. No se surpreendeu. 
Conhecia-lhes a fama no acampamento. Eram consultadas por todos, at por Sergei quando tinha que tomar decises. Sentiu-se mais calmo. Finalmente seu caso seria 
resolvido.
      O que vais fazer?  indagou Carlos. Miro informou:
      Vamos descansar. Preparar-nos. Amanh veremos.
     No dia imediato convocou D. Fernando e Carlos para uma reunio.
      Vamos ao local  props.
     Carlos conduziu-os  ala do subterrneo. Estava plido. Ligeiro tremor o acometeu ao entrar acompanhado dos trs ciganos e do pai.
      So as lembranas  pensou aborrecido. Apesar do mal-estar, estava decidido a ir at o fim.
     O cigano passou o olhar pelo salo empoeirado. Pegou um pano e limpou algumas cadeiras e disse:
      Vamos sentar.
     Vendo Carlos fazer meno de sair, disse-lhe:
      Fica, D. Fernando tambm. Precisamos de todos.
     Uma vez acomodados, as duas mulheres suspiravam inquietas. Miro pediu:
      Sabeis rezar. Chegou a hora. Pensai naquelas almas sofredoras e rezai. Agora no importa o que eles foram ou fizeram. O que importa  ajud-los a entender 
o que  preciso. S podemos conseguir isso perdoando tudo e rezando por eles.
      Eram ladres e assassinos  retrucou Carlos admirado.
      So espritos, almas como ns. Deus sabe dar o castigo ou o prmio para cada um. Se queres que saiam daqui, que compreendam e que os deixem em paz,  preciso 
ajud-los. E no ser recriminando nem pedindo contas que vamos conseguir isso.
       injusto  disse Carlos, que no tinha nenhuma vontade de rezar pela alma do tio que quase o tinha matado.
      Por qu?  tornou Miro com certa ironia.  Por acaso te julgas melhor do que eles?
     Carlos ofendeu-se.
      Chamas-me ladro e assassino?
      No disse isso. Mas reconhece que no so apenas os que roubam o ouro ou os que matam o corpo que podemos chamar de ladres e assassinos. H os que no fazem 
nada disso, mas roubam o sossego dos outros, matam-lhes a alegria de viver, sem se importarem, destroem as iluses, ferem sentimentos, traem a confiana e seguem 
indiferentes aos sofrimentos que causaram. Valem estes mais do que aqueles? Tm moral para condenar e julgar?
     Carlos estava plido. D. Fernando interveio preocupado:
      Cala-te, Carlos. Miro sabe o que faz. As almas desses infelizes precisam de orao. Vamos esquecer nossos ressentimentos. No  hora de falarmos neles. Deves 
fazer o que Miro deseja.
      Muito bem. O xito de nosso esforo depende do volume de foras boas que conseguirmos dispor. No deveis esquecer que eles podero nos atacar para querer 
defender-se.
     Carlos, apesar de contrariado, ferido em seu orgulho, resolveu obedecer. Comeou a rezar, embora a figura do tio estivesse presente em sua lembrana e o dio 
ainda brotasse dentro de si.
     Foi de repente que Mina suspirou fundo e seu corpo foi sacudido fortemente enquanto gritava com voz rouca:
      Bandidos! Scia de bandidos! Acreditaram passar-me para trs? Achavam que eu ia dividir o tesouro? Ele  meu, muito meu. Agora que esto todos fechados l 
em baixo, preciso levar tudo, fugir para longe antes que descubram.  Depois, com voz angustiada:  Eu pus a arca aqui. Onde estar? Aquele infeliz a escondeu? Maldito! 
Quem me delatou? Quem o avisou?  ele. Ele me espia. Estou perdido. Fui descoberto. Mas eu o matarei. O tesouro  meu. Ele nunca o ter? Ai, ai, ai...  gemeu a 
cigana.  Acertaram-me, malditos! Mas eu acabo com ele, juro que acabo.
     Carlos suava frio, sentia nuseas e fez fora para no cair. Estava zonzo. A cena da luta de vida ou morte com o tio repetia-se em sua mente.
      No vamos fraquejar, continuemos a rezar. Pra com isso, Carlos. No ests voltando quele dia. Tudo j passou. Sai da lembrana e reza!
     Carlos fez um esforo sobre-humano para convencer-se de que tudo agora estava diferente. Sentiu-se um pouco melhor.
     Mina continuava a lamentar-se no mesmo tom. Miro interveio:
      D. Fabrcio.
      Quem me chama? Quem me descobriu?
      Um amigo.
      No tenho amigos. Queres delatar-me?
      Quero ajudar-te  disse o cigano com voz firme.
      Com que fim? No vou dividir meu tesouro. Deixa-me em paz.
      No quero o tesouro  disse Miro com seriedade.  E eu sei onde ele est!
      Sabes?  disse a cigana interessada.
      Sei  respondeu Miro.  Est nas mos dos verdadeiros donos.
       impossvel! Eu no sa daqui e nunca o vi.
      Est com os donos legtimos, j te disse.
       mentira. O dono sou eu. Eles me roubaram. Leonor foi roubada. Deviam dividir comigo, de direito.
     D. Fernando estava plido, fez meno de responder, porm Miro fez enrgico gesto para que no o fizesse.
      D. Fabrcio, sabes que no  verdade. Por que insistes nesse tesouro? No percebes o mal que ele j te causou? Sabes que por causa dele deixastes de viver 
na Terra?
      O que dizes? Ests louco? Apesar dos ferimentos, continuo vivo, posso defender-me.
      Teu esprito vive e jamais morrer. Teu corpo j morreu h muitos anos. No vs que para falar te serves do corpo de uma mulher?
     Silncio. Miro prosseguiu:
      Arrepende-te dos males que fizeste no mundo, porque os homens que fechaste no subterrneo querem pegar-te. Como te livrars deles?
      Eles esto presos e estou sossegado. No deixo ningum tir-los de l.  l que devem morrer.
      Eles j morreram. Deles restam apenas os ossos. Esto l porque, como tu, no perceberam seu novo estado. Como no acreditam que algum possa continuar vivo 
depois de o corpo morrer, no percebem que podem sair livremente do subterrneo, onde esto apenas por ignorar a verdade.
       mentira  disse Fabrcio aterrado.  Eles esto presos e no podero sair se ningum lhes abrir a porta. Queres enganar-me?
      Previno-te. No momento que eles descobrirem que deixaram a carne, ho de querer pegar-te, pela pea que lhes pregaste. Ento, o que ser de ti?
      Por que queres assustar-me? No vs que estou fraco e ferido e que eles so muitos e nada poderei fazer? Se sarem, ho de matar-me certamente. Por acaso 
s juiz?
      No. No sou. J te disse que sou teu amigo e quero zelar por ti.
      Queres o tesouro, com certeza.
      J te disse que o tesouro est com o verdadeiro dono.
      Ento o que queres? Por que queres ajudar-me?
      Porque precisas conhecer a verdade. J est na hora. Ests a, preso, esperando por alguma coisa que nunca vai acontecer, quando deverias cuidar de tua vida, 
fazendo alguma coisa que te ajude a melhorar.
      No saio daqui sem o tesouro.
      O tesouro ficou na Terra e,tu j morreste. No podes mais carreg-lo nem usufruir dele.
       mentira!
      Afirmo-te que no. Teu corpo morreu. Atende s ordens de algum que pode te dar ajuda e vai-te daqui.
      Chegou a ajuda  disse Sura.  Ramon veio para retir-lo. Miro tornou:
      Acompanha esse amigo que te oferece ajuda.
      No quero. Preciso ficar de guarda. No quero que eles escapem. Por certo me encontraro onde eu for.
      Ramon te proteger. Vai com ele.
      No quero.
      Ento v. Vou chamar Ortega  ele vir aqui. Olha, ele me ouve, vem vindo para c. V como ele atravessa as paredes do subterrneo.
       um fantasma  gritou Fabrcio aterrado.
      Todos so. Tu s tambm. Podes sair com Ramon e ele te proteger.
     A cigana estremeceu. Tinha o corpo banhado de suor. Respirou fundo e logo em seguida gritou com voz grossa e rouca.
      Traidor vil e ordinrio. Eu te vi. Onde te escondeste? Finalmente pus meus olhos em ti. Por acaso tens parte com o demnio? Quero fazer-te em pedacinhos, 
trapaceiro maldito!
      Calma Ortega.
      Quem me chama? Quem me conhece?
      Um amigo  tornou Miro srio.
      No tenho amigos. Meus homens esto presos naquele buraco, preciso tir-los de l. Vamos morrer como ces. Seja quem for, ajuda-nos a sair dali.  um lugar 
horrvel!
      Eu sei  disse Miro.  Eu te tirei de l.
      Tu? Por acaso sabes o que aconteceu?
      Sei de tudo.
      Vais nos entregar  justia e nos enforcaro.
      No farei tal coisa.
      A troco de que queres nos ajudar?
      Quero apenas libertar-vos. Quero que leves teus homens para outro lugar.
      Ajuda-me a abrir aquela maldita porta.
      No  preciso. Ainda no percebeste que no precisas mais dela?
      Como?
      No precisas mais dela porque teu corpo de carne j morreu e teus companheiros tambm.
      No acredito. Estamos vivos! Queres enganar-me.
      Afirmo-te que  verdade. Todos morreram naquele subterrneo h muitos anos.
      Por quem me tomas? Por acaso te pareo louco?
      Apenas ignoras. A vida continua depois da morte fsica, e se perdoares, poders sair dali neste instante.
      Perdoar aquele bandido? Nunca. Estamos mortos? Ser verdade? Por acaso estaremos no inferno? Existe mesmo? Estaremos condenados para sempre a este sofrimento?
      No. Deus  bom. Depende de ti ficar a ou procurar sair e lutar para vencer a situao.
      De que forma? Farei qualquer coisa para libertar meus homens.
      Desiste do tesouro. Ele  maldito. J te trouxe a m sorte. Por que insistes? Por ele todos morreram. Queres ainda continuar?
      No. Mas Fabrcio me vai pagar o que deve. No se livra de mim assim fcil. Irei busc-lo no fim do mundo se for preciso. Hei de peg-lo.
      A justia de Deus vai dar a cada um o que merece.
      No quero nada com Deus. Sou um bandido. Um excomungado. Deus no tem parte comigo.
      Se te arrependeres do mal que fizeste, ele te ajudar. Eu te garanto. Mas deves ser sincero.
      No sei, estou zonzo. Quero sair deste maldito lugar com meus homens. Ajuda-me e iremos embora.
      Ramon, nosso amigo, vai ajudar-te. Chama teus homens e podes partir com ele. Obedece-o. Ele te guiar.
      No vo nos prender, nem enforcar?
      S se mata o corpo uma vez. No sabes que o esprito  eterno? Por que temes?
      Tem muitos que me querem pegar.
      Aqueles que mataste. Obedece a Ramon, que te ajudar. Vai com eles. Que Deus tenha d de tua alma.
     Fundo suspiro escapou dos lbios de Mina. Seu corpo arquejou e a cabea pendeu para a frente. Sua roupa estava empapada de suor.
      Continuem rezando  pediu Miro.
     Apesar de assustados, D. Fernando e Carlos rezavam sem parar. Depois Sura esclareceu.
      J foram. Ramon os levou. Agora tudo est em paz.
     Miro suspirou fundo, permanecendo em meditao por alguns momentos. Estava plido e um tanto abatido. Aos poucos foi voltando ao normal. Depois disse:
      Pronto. Est consumado. Agora no haver mais empecilhos para que as ossadas sejam retiradas.  s chamar os homens, tudo vai dar certo.
      Finalmente  fez D. Fernando, visivelmente impressionado.  Jamais pensei que isso pudesse acontecer. Custa-me a crer.
      Pois  verdade, D. Fernando. Ningum morre. S o corpo perece. Tudo continua no outro lado da vida, onde um dia todos ns chegaremos e acertaremos contas 
com a justia de Deus. No h nada que fique oculto nem sem resposta.
      Para onde eles iro?  indagou Carlos preocupado.  No querero voltar?
      Ortega e seus homens, no. Estavam loucos para sair. Mas D. Fabrcio, no sei. Estava obstinado com o tesouro.
      Como faremos para nos livrarmos dele?
      A orao. Procurai no alimentar ressentimentos, nem dio, apesar do que ele vos fez. S assim posso garantir-vos que ele no voltar.
      Faremos o possvel  disse D. Fernando impressionado.  Ele falou de Leonor. Pobre irm! To boa, nas mos desse facnora! Ter morrido, com certeza.
      Ela vive  tornou Mina com voz firme.
      Como sabes? O que sabes?  indagou D. Fernando aflito.
      Vejo-a  continuou Mina.  Ela est bem, vive com outro homem, de quem tem dois filhos!
      No pode ser! Ela era casada e virtuosa. Tinha f e religio. No ia fazer isso, com o marido vivo.
      Mina no mente. Ela  me e est viva. Um dia a vereis de novo. Ela no volta por temor ao marido. Ignora que morreu.
      No pode ser  disse D. Fernando.  Deve haver engano.
       uma linda mulher, tez alva, lindos cabelos negros, porte de princesa.
       ela  disse Carlos.  Pai, acredita, Mina sempre sabe o que diz.
      Podes dizer-me onde se encontra? Tenho remorsos por no a ter tirado das mos daquele desalmado.
      No sei onde est. S posso dizer-vos o que j disse. No vejo mais nada.
     Apesar de Miro dizer que o caso estava resolvido, D. Fernando pediu-lhe que ficasse at que eles tirassem os ossos de l. O cigano concordou e mandaram chamar 
Miguel, que compareceu com mais dois homens. Sem maiores dificuldades, desceram ao subterrneo, colocaram as ossadas nos sacos e saram carregando seu doloroso fardo. 
Todos na casa estavam admirados.
      Ciganos tm parte com o diabo  disse D. Encarnao, convicta, para Maria.
      Enterrai isso bem longe  ordenou D. Fernando.  Na volta, recebereis o que vos  devido.
     Quando D. Fernando respeitosamente quis pagar, Miro recusou-se a receber. S aceitou provises e o necessrio para a viagem. D. Fernando estava agradecido e 
admirado:
      Possuis alma nobre  disse, estendendo a mo para o cigano.  Jamais vos poderei pagar pelo favor. De hoje em diante, tendes em minha casa um amigo que vos 
receber agradecido em qualquer circunstncia.
      Gracias, D. Fernando. S quero vossa palavra de que D. Carlos no mais ir procurar Esmeralda.
     O fidalgo olhou-o assustado.
      Por acaso ele pretende ter com ela?
      No sei. O que sei  que passou a noite com ela na carroa. Temo que volte. Se ele for, pode acontecer uma tragdia.
      No que depender de mim, tendes minha palavra. Mandou chamar Carlos, a quem intimou:
      D-lhe tua palavra de que nunca mais procurars pela cigana Esmeralda.  s o que ele exige como pagamento dos grandes servios que nos prestou.
     Carlos estava plido.
      J lhe dei minha palavra. No sou homem de duas caras.
      Quero que me ds tua palavra na frente de D. Maria
      s insolente.
      Carlos  atalhou D. Fernando irritado.  Vamos, d sua palavra.
      Seja. Dou minha palavra de que jamais irei  procura de Esmeralda. Se isso te faz feliz, sabes que s o que quero  viver em paz com a minha famlia.
     Miro sorriu levemente. Em seus olhos havia um brilho perspicaz.
      Espero que seja assim, para teu prprio bem. Despediram-se e partiram, e Carlos, vendo-os seguir pela estrada, silenciosos, sentiu um aperto no corao.
     
Captulo XIX
     
     Cinco anos decorreram em paz e Carlos, rodeado pelo carinho da famlia, aos poucos foi esquecendo os desagradveis acontecimentos.
     Contudo, apesar de estar tudo correndo bem, Carlos por vezes sentia-se inquieto, triste e insatisfeito. Nessas ocasies procurava afastar o pessimismo com esforo. 
O que lhe faltava? Tinha tudo para ser feliz. Maria continuava linda e maravilhosa, inteligente, bondosa, fiel, boa companheira. Os filhos cresciam saudveis e inteligentes. 
Jos contava dezesseis anos e fazia-o recordar-se com freqncia de sua juventude. Era galante e, apesar de muito jovem, j muito apreciado pelas mulheres. Possua 
voz melodiosa, cantava e compunha com facilidade. Era exmio conversador, culto para sua idade e apreciado nos sales. No era ftil e desde cedo mostrara aptido 
para as letras, ao contrrio de Carlos.
     Maria ocupara-se com sua formao intelectual e contratara bons mestres. O jovem fidalgo possua inteligncia incomum. No era pedante e numa idade em que os 
fidalgos eram exibicionistas, fanfarres e fteis, Jos mantinha simplicidade, ponderao e discernimento.
     Carlos orgulhava-se dele, vendo o quanto o apreciavam. Na corte e nos sales, a que ocasionalmente compareciam, ele era sempre bem recebido pelos nobres e grandes 
senhores que nunca se ocupavam com a juventude. As vezes comentavam:
      Vosso filho  um encanto. Faz-nos rejuvenescer com sua alegria, mas inspira-nos respeito com sua dignidade. Esperamos ter a honra de ver-vos mais vezes.
     Matilde era bem diferente. Nervosa, sensvel, exigia da me cuidados e atenes especiais. s vezes sofria pesadelos, acordando durante a noite aos gritos, 
apavorada. Era inteligente, embora no fosse to aplicada quanto o irmo, era exmia no bordado, tinha extremo bom gosto para tapearia e tocava bem piano. Ao contrrio 
do irmo, era vaidosa e caprichosa. Seu humor era instvel. Ora tinha exploses de alegria, quando seu riso cristalino ecoava pelas vetustas paredes do castelo e 
ela pilheriava com tudo e com todos, ora caa em depresso, permanecendo assim por algum tempo.
     D. Encarnao, quando a via desse jeito, comentava:
      Maria, manda benzer a Matilde, a ver se lhe tiras esse quebranto. No pode ser outra coisa.
      No te apures  respondia a nora , isso logo passa.
     E passava mesmo. Era sonmbula e sua ama, dedicada e fiel, cuidadosamente a acompanhava velando por sua segurana at v-la no leito de novo.
     D. Fernando, apesar de os ataques do corao exigirem certos cuidados, passava bem e o doutor estava satisfeito com seu estado. As finanas estavam boas. Tudo 
estava calmo. Por que Carlos sentia insatisfao? Momentos havia em que recordava Esmeralda. Desejava-a. Sentia o gosto de seus beijos e a maciez de seu abrao.
     O reencontro, aquela noite na carroa, tudo voltava  sua mente e nesses momentos Carlos inquietava-se sem saber como afastar esse desejo, essa nsia, essa 
necessidade de rever a cigana.
     Apesar disso, ele sabia que tinha sido melhor assim. Amava a famlia, o lar, tudo, jamais os trocaria pelo amor da cigana. Porm ela era o proibido, o inatingvel, 
a fantasia, o extico, a liberdade, a mulher que todos queriam e que ele podia ter s para si. A mulher que lvaro queria. Por certo, ele estaria com ela, tinha-a 
nos braos, aquele imbecil, que era incapaz de dar a Esmeralda o que ela precisava como mulher.
     A esse pensamento, empalidecia e, sentindo-se impotente para impedi-los de relacionarem-se, engolia sua raiva contra o primo de sua mulher, contentando-se em 
odi-lo.
     Maria, por vezes, vendo-o nervoso, inquieto, ar preocupado, delicadamente procurava atrair-lhe a ateno para coisas amenas e agradveis e algumas vezes conseguia 
modificar-lhe o humor, atenuando-lhe o pessimismo, desviando-lhe os pensamentos.
     Carlos respeitava-a e amava-a muito. Por isso, quando chegou um portador de Madri, solicitando a presena dela, com urgncia, ao lado de D. Hernandez, que estava 
doente e chamava pela filha e pelos netos, Carlos entristeceu-se.
     Naquele momento, no podia acompanh-la a Madri. Estavam em plena colheita, que exigia sua presena constante. Graas a essa participao  que suas terras 
estavam produtivas e os negcios iam to bem. D. Fernando no dispunha de sade para percorrer as terras todos os dias. Carlos no podia evitar a ida de Maria e 
dos filhos em atendimento ao pedido de D. Hernandez. Tentou confortar Maria, assustada com o chamado, e resolveu:
      Vai com as crianas e leva alguns servos. Fica l o quanto achares necessrio. Manda-me notcias da sade de teu pai. Se no voltares em quinze dias, irei 
ter contigo. Poderei deixar os negcios sem prejuzo. No momento, sabes que nos prejudicaria a colheita. Depois, creio que no ser nada grave. Teu pai sempre gozou 
de boa sade. Em todo caso, confio em ti. Se achares necessrio, se o caso for grave, o que no desejo, manda-me dizer, que largarei tudo e irei ter contigo.
     Maria levantou-se na ponta dos ps e beijou-o levemente na face.
      No te preocupes. Iremos muito bem. Se precisar de ti, mando-te chamar. Podes ficar tranqilo.
     Foi com lgrimas nos olhos que Carlos despediu-se de Maria no amanhecer do dia seguinte. Beijou os filhos e fez muitas recomendaes aos dois cavaleiros que 
acompanhavam as duas carruagens, uma com Maria e os filhos e a outra com a camareira de Maria, a ama de Matilde e a bagagem. Acenou o leno at eles desaparecerem. 
Sentiu um vazio ao entrar no castelo. A vida seria insuportvel sem eles, pensou comovido.
     Apesar de preocupado, s trs dias depois foi que Carlos recebeu um portador de Madri com uma carta de Maria, dizendo-lhe que a viagem decorrera bem e que, 
apesar de doente, D. Hernandez no aparentava estar to grave quanto ela temera.
     Carlos sentiu-se aliviado. Afinal, tudo ia bem e ele, logo que pudesse, iria ao encontro deles. Dedicou-se ao trabalho com afinco para poder partir o quanto 
antes.
     Os dias que se seguiram foram de trabalho intenso para Carlos. Porm as coisas no correram to rpidas quanto ele pretendia. As chuvas que se anteciparam e 
alguns homens que adoeceram fizeram-no demorar mais do que esperava. S depois de decorrido mais de um ms, conseguiu liberar-se e partir para Madri. Incio o acompanhou. 
Para ele era questo de honra ir com seu senhor.
     Foi com alegria e muitas saudades que Carlos chegou ao castelo de D. Hernandez. Estava anoitecendo e foi recebido festivamente por Maria e pelos filhos, que 
falavam sem parar, entusiasmados com a cidade grande.
     Beijou-os com carinho e depois sua ateno foi despertada por uma linda jovem, que os olhava com grandes olhos verdes que fizeram o corao de Carlos bater 
descompassado.
     Fixou-a assustado enquanto Matilde tomando-o pela mo dizia contente:
      Papai, esta  Isadora.  minha amiga. No  linda?
     Realmente era. Porm Carlos sentiu-se indisposto. A menina era o retrato vivo de Esmeralda. Apesar de muito jovem ainda, tinha o mesmo porte esbelto, elegante, 
os mesmos olhos brilhantes e expressivos, os lindos cabelos que apesar de tranados caprichosamente eram opulentos e brilhantes.
     Carlos sentiu um frio de gelo invadir-lhe o corao. Tentou reagir. Afinal essa moa nada tinha a ver com a cigana. Era absurdo. Ele estaria to obcecado por 
Esmeralda a ponto de v-la por toda parte? Fixou a jovem que o olhava com olhar brilhante e lcido e disse:
      Como ests?
     Depois, dirigindo-se a Matilde, perguntou:
      Quem disseste que ela ?
       Isadora, papai, minha amiga.  prima da mame.
      Muito bem  tornou Carlos aliviado.
     Isadora sorriu e Carlos, apesar do esforo que fazia para escapar  surpresa, estremeceu. O mesmo sorriso. Estaria o destino, sempre to caprichoso, brincando 
com ele?
     Entraram. Maria, ocupada em dirigir as servas para alojar dignamente o marido, preparava-lhe um banho e arrumava-lhe a bagagem.
     Carlos, porm, estava muito preocupado. A semelhana daquela menina com a cigana era impressionante. Tentou sossegar suas preocupaes, pensando ter exagerado. 
Enquanto refazia-se com um banho, libertando-se da poeira do caminho, Carlos, longe da moa, atribuiu sua preocupao  febre de saudade que o consumia. Estava pensando 
tanto na cigana que at via seu rosto nas outras pessoas.
     Procurou afastar essas impresses e depois do banho conversou animadamente com a esposa, dando-lhe notcias sobre os negcios da famlia. Informou-se sobre 
a sade de D. Hernandez, que realmente deixava a desejar.
     Os ataques do corao no cediam e o velho fidalgo ora parecia melhor, ora piorava, requisitando atenes constantes, Carlos entristeceu-se.
      Contava regressarmos juntos.
      J?  tornou Maria apreensiva.
      No. Disponho de tempo. Um ms ainda podemos ficar. Papai est bem e por certo cuidar de tudo. Nesta poca h pouco por fazer.
     Maria abraou-o. Havia lgrimas em seus olhos:
      Sabes que se for preciso te acompanharei, porm meu pai est mal e irei muito apreensiva. Depois, deixar mame nesta hora no me parece justo.
      Claro. No te preocupes. Sabes quanto estimo D. Hernandez. Acredito que um ms deve bastar para ele se recuperar. Depois, veremos.  que sinto muito tua falta. 
No gostaria de regressar sozinho.
     Carlos foi ver o sogro, com quem conversou longamente. Pareceu-lhe bem. Carlos estava calmo e tinha-se esquecido da menina.
     Ele e Maria estavam no salo conversando quando os jovens vieram para despedir-se. Era hora de dormir. Carlos remexeu-se na cadeira. No podia negar que a semelhana 
com Esmeralda era espantosa. O mesmo sorriso, o mesmo porte, a cor de cabelos, tudo. Era incrvel. Assim que eles se foram, no se conteve.
      Quem  esta menina? No a conheo.
      Nem podes.  Maria sorriu.   linda, no  mesmo? Matilde a adora. Tem-nos ajudado muito. Tem muito boa educao. Fazem os estudos, depois entretm-se com 
jogos e msica.  encantadora.
      Pelo visto j te conquistou.  bonita mesmo. Quem ? Maria sorriu com certa malcia.
       filha adotiva de lvaro. Sabes que ele nunca se casou. Deixaram-lhe esta criana  porta e ele a recolheu, dando-a a Miguel e Consuelo para criar. Tomou-se 
de amores pela menina e agora trata-a como filha. Educou-a como uma nobre, d-lhe tudo. H alguns anos trouxe-a a esta casa e minha me, sempre muito s, tambm 
se apaixonou por ela. De vez em quando, manda-a buscar para ficar aqui.
     Carlos estava plido. Uma suspeita violenta invadia-lhe o corao. Maria, sem perceber, disse maliciosa:
      Mame acha que a histria no est bem contada. Por certo Isadora  filha bastarda de lvaro. Algum pecado da juventude.
      Se assim , ele no tem o direito de deixar essa bastarda no meio de nossos filhos.
     Maria olhou-o surpresa. Carlos no era preconceituoso. Pelo contrrio. Sempre mostrara-se liberal.
      Isadora  encantadora e no lhe cabe culpa pelo desacerto dos pais. Carlos procurou controlar-se. Um cime desesperado brotava em seu corao. Isadora era 
filha de Esmeralda! Com certeza. De Esmeralda e daquele imbecil! Tinha-o amado por certo. Sabia que a cigana detestava a idia de ter filhos. lvaro conseguira o 
que ela jamais lhe dera. Uma filha! Apesar de ter certeza das relaes ntimas entre Esmeralda e lvaro, Carlos consolava-se com a idia de que a cigana no o amava. 
Ele, Carlos, fora o grande amor de sua vida. Agora, tudo ficava diferente. Havia uma filha, resultado do amor deles, da ligao deles.
      No sabia que isso te abalaria tanto  tornou Maria admirada.  Isadora  uma jovem adorvel. Depois de conhec-la, vais am-la como todos ns.
      Nunca  disse Carlos irritado.
     Vendo a surpresa da esposa, procurou dissimular:
      lvaro no devia t-la trazido aqui. No quero v-la. Gostaria de poder voltar para casa.
     Maria admirou-se ainda mais.
      Impossvel! Acabas de dizer-me que temos ainda um ms. A presena dessa menina no te pode ser to desagradvel. Nunca te vi cometer injustias desse porte.
      Sabes que no gosto de lvaro. Ele pretendia desposar-te.
      Ele nem sequer est aqui. No entendo essa sua atitude. Carlos achou melhor no insistir. Afinal, o tempo passaria depressa
     e logo eles voltariam para casa e tudo seria esquecido.
     Entretanto, por mais que fizesse, a figura da menina e o rosto de Esmeralda no lhe saam da cabea. Afinal, a menina no tinha culpa de nada. Ele fazia tudo 
para no se aproximar dela.
     Nos dias que se seguiram, Carlos procurou ocupar-se com outras atividades e ficar longe dos filhos sempre que Isadora estivesse presente. A menina, compreendendo 
que ele a evitava, tornara-se tmida em sua presena, retraindo-se. Maria no se conformava. A alegria de Isadora era reconfortante. Sua beleza, agradvel. Por que 
Carlos tinha-lhe tanta averso? A pobre menina ficava acanhada e tmida quando ele estava perto.
     Certa tarde, Maria e Carlos tinham sado para cuidar dos negcios do sogro. Matilde encostou-se ao piano.
      Toca  pediu Jos, que adorava msica.
     Matilde comeou a tocar flamenco. Eles tocavam esse tipo de msica quando estavam ss. Isadora comeou a danar entre risos e alegria. Lbios entreabertos, 
esqueceu-se de tudo, danando, e os outros dois olhavam-na fascinados.
     Matilde, sem parar de tocar, estava empolgada pela beleza da cena. A jovem rodopiava como se fosse uma pluma, batendo os ps num ritmo contagiante, postura 
ereta, cabea para trs. Quando acabou, arrancou aplausos entusiastas dos dois amigos.
     Carlos e Maria surpreenderam a cena, ao meio. A um canto, Carlos plido, sofrido, respirao suspensa, ficou parado como se estivesse tendo uma alucinao.
     Corada pela emoo, Maria beijou Isadora com carinho.
      s uma artista.
     A menina, vendo Carlos, enrubesceu e saiu correndo da sala. Jos aproximou-se do pai.                                                                       
      No  linda? Nem parece deste mundo
     Carlos olhou o filho e a expresso que viu em seu rosto f-lo pensar que Jos j despertava para o sexo oposto. Em seus olhos havia mais do
     que simples admirao.
     Carlos sentiu uma dor aguda no peito. Sentiu raiva de lvaro, de Esmeralda, dele mesmo e um misto de receio e cime do prprio filho. Irritado, no respondeu, 
dizendo para Matilde:
      Desde quando se permite tocar este tipo de msica? No sabes que  para os plebeus?
     A menina olhou-o admirada.
      No sabia que no gostavas de flamenco
      Odeio  tornou ele irritado. Probo-te de tocares isso de novo.
     A menina no se deu por achada.
      S se for agora. Sei que, quando eras jovem, no perdias as festas da plebe.
     Carlos ficou apoplctico. Maria interveio conciliadora
      Matilde, no deves faltar ao respeito com teu pai. Hoje ficars em teu quarto na hora do jantar.
     A menina levantou a cabea e amuada saiu da sala, no dando a Carlos tempo de dizer nada.
     Jos interveio conciliador.
      Pai, no houve nada de mal. Matilde  uma criana.
      O erro  permitir aqui essa jovem que ningum sabe de onde veio.
      s injusto para com Isadora, ests nervoso  tornou Maria com calma.
     Jos olhou-o bem nos olhos enquanto dizia-
      Isadora no fez por mal. Dana divinamente. Jamais vi beleza igual.
      Ousas pedir-me contas de meus atos?
     Continuou Carlos nervoso.
      No, meu pai. No tenho esse direito. No entanto, no fizemos nada de mal. Isadora  bondosa e no merece essa antipatia que lhe tens.
     Apanhado de surpresa, Carlos no soube o que responder. Disse depois de alguns segundos:
     - Pareces interessado mais do que deveria nesta jovem. Se no te modificares, mando-te para casa o quanto antes
     Maria tentou apaziguar.
      Vamos, Carlos, ests nervoso, acalma-te, pode fazer-te mal. Vamos ver papai.
     Carlos acompanhou a esposa, porm estava arrasado. Ao entrar na sala, vendo Isadora danando, julgara ver Esmeralda e, fascinado, sentira renascer no corao 
o louco amor daqueles tempos. Mas ela era apenas a filha da cigana com lvaro, o odiado rival. Vendo a admirao nos olhos do filho, percebia que ele estava j fascinado 
por aquela beleza exuberante. Sentia um misto de dio, rancor, mgoa e amor que o deixavam muito infeliz. Tinha cime de Isadora, tinha cime do filho, embora soubesse 
que ela no era Esmeralda.
     Queria ir-se embora, voltar para casa. s vezes sentia grande tentao de rever a cigana. Em lutar para reconquistar seu amor. Perseguia-o a lembrana da noite 
que tinham passado juntos, queimando-o como fogo.
     Jogou a cabea para trs como a expulsar os pensamentos tumultuados que lhe invadiam o corao. Olhou para Maria e tornou com voz angustiada:
      Gostaria de ir para casa. No me sinto bem fora dela. Maria abraou-o com carinho.
      Este clima triste que anda aqui com a doena de meu pai no nos  agradvel. No entanto, minha me est velha e angustiada, meu pai passa mal... Como abandon-los 
agora, se dispomos de tempo para poder ficar aqui? Como ir-me embora, deixando-os com seus sofrimentos quando mais precisam de ns? Achas justo isso? Se precisar 
ir, irei de corao partido e por certo o remorso me acompanhar toda a vida.
     Carlos olhou o rosto expressivo da esposa. Estava triste e preocupada.
     Sentiu-se egosta e fraco. Maria sempre fora esposa dedicada e querida. Tinha razo no que pedia. Ele era o culpado e tinha que lutar, vencer essa sua obstinao 
pela cigana. Tentou sorrir.
      Tens razo. D. Hernandez sempre foi nosso amigo, alm de ser seu pai. Socorreu meu pai muitas vezes e deu-nos apoio. Ficaremos.
     Maria levantou-se na ponta dos ps e beijou a face do marido.
      Obrigada por me compreenderes. s um timo esposo. Carlos suspirou. Se ela soubesse! Contudo, ele haveria de lutar. Venceria. Conseguiria esquecer Esmeralda.
     A partir daquele dia procurou conter sua emoo e controlar-se mais, diante dos filhos. O ambiente tornou-se mais ameno e tudo parecia em paz, quando o imprevisto 
aconteceu dois dias mais tarde: lvaro chegou. Vinha visitar o tio e ver Isadora.
     Os tios receberam-no com carinho, e apesar da frieza de Carlos e da sobriedade de Maria, lvaro parecia muito  vontade. Bem-humorado, passava horas com os 
jovens, passeando abraado com Isadora, demonstrando seu afeto pela menina.
     A presena de lvaro era intolervel para Carlos, principalmente vendo-o com Isadora. Um cime mortal o invadia e ele desejava mais do que nunca exigir-lhe 
contas e  cigana por aquela traio.
     Foi por acaso que ouviu lvaro comentando a chegada dos ciganos quela cidade. Carlos estremeceu! Esmeralda estava l e por certo os dois se encontrariam. lvaro 
estava ali por causa de Esmeralda!
     Essa idia tornou-se insuportvel para Carlos, que teve mpetos de matar lvaro. Ao mesmo tempo, procurava conter-se, ponderando que ele no tinha direitos 
sobre a cigana. Ela era livre, uma vez que ele se tinha casado com Maria. Mas a paixo, o cime, o dio agitavam-se e Carlos quase no conseguia controlar-se.
     Dois dias aps a chegada de lvaro, Carlos, vendo-o a ss no jardim, aproximou-se.
      Preciso falar-te.
      Estou aqui, fala.
       sobre Isadora. No acho justo trazeres aqui tua filha bastarda com aquela cigana.
     lvaro olhou-o admirado. Um brilho de malcia fulgiu-lhe rpido nos olhos.
      Isadora no  minha filha  disse com voz calma.  Recolhi-a pequena.  adotiva.
     Carlos sacudiu a cabea irritado:
      A quem pensas enganar? Ela  to parecida com Esmeralda que nunca poders encobrir isso.
      Achas? inquiriu ele com satisfao. Finalmente estava comeando a vingar-se do odiado rival.
      Claro. Essa menina  filha de Esmeralda. Tenho certeza. No devias traz-la a esta casa.
      Dizes isso agora. Mas bem que gostarias de ter Esmeralda! Casaste com Maria por convenincia, confessa!
     Carlos estava furioso.
      No metas Maria nesta histria. Ela  boa demais para figurar nesta sujeira.
      Por que reclamas? Minha tia ama Isadora. Fao-lhe a vontade. Por que vieste para c agora, enquanto estamos aqui?
      Isso no me preocupa. Nada te fiz, ao contrrio: quem me traiu foste tu. Sabias o quanto eu amava Maria, tinhas-me prometido ajuda e depois te casaste com 
ela, me traste. O ofendido aqui sou eu. Entretanto, isso passou.
      Agora eu sei por que procuraste Esmeralda! Foi para te vingares de mim. Me odeias!
      No deves dizer isso  retrucou lvaro calmo, saboreando cada palavra.  No sabes como aconteceu. Eu estava desesperado, ela trada como eu, ento nos consolamos 
e foi s isso.
      Mentes  disse Carlos com raiva que o cime cegava.  Esmeralda no  mulher que console ningum. Ela  fascinante, vive cheia de homens que a querem, no 
precisaria de ti para nada.
      Digamos que ela me ama, meu caro  disse lvaro com satisfao.  Ela  livre e eu tambm. Amamo-nos muito. Ela  uma mulher muito atraente, em todos os sentidos.
     Carlos perdeu o controle e avanou para lvaro disposto a agredi-lo. Porm, nesse momento, apareceu Isadora, interpondo-se entre eles e, chorando, pediu:
      D. Carlos, no brigue com meu tio. Se no gostais de mim, brigai comigo, mas deixai-o em paz.
     Carlos empalideceu. Parecia-lhe ver Esmeralda entre eles. Levantou o brao e, olhando aquele rostinho angustiado, deixou-o cair ao longo do corpo.
      S os covardes escondem-se atrs das saias de uma mulher  murmurou ele com raiva.
     lvaro, porm, exultante, procurando encobrir sua alegria, retrucou calmo:
      Sinto que estejas to nervoso a ponto de no respeitares a doena de D. Hernandez. Um dia ajustaremos contas, no hoje, ainda  cedo.
     Havia tanto dio na voz de lvaro que Carlos estremeceu. lvaro abraou Isadora tentando acalm-la e entrou na casa.
     Carlos andou um pouco pelos jardins procurando acalmar-se. A presena de lvaro irritava-o. Ele negara ser o pai de Isadora. Mentiroso! Como podia ser to vil?
     Esmeralda estava na cidade. No acreditava que ela amasse lvaro, aquele patife insignificante. Havia de faz-la confessar seus verdadeiros sentimentos. Seu 
orgulho estava ferido  pensava. lvaro ainda iria receber o troco. Esmeralda s lhe tinha dado confiana porque queria vingar-se, nada mais. Havia de provar-lhe 
isso. O fato de terem uma filha no era importante.
     Porm, durante o resto do dia, vendo lvaro abraado a Isadora, tentava dissimular o rancor. Em seu desvario, chegava a pensar que era Esmeralda quem estava 
ali. Imaginava cenas de amor entre eles e isso era-lhe insuportvel.
     A noite chegou e ele no conseguia dormir. Agitado, saiu para andar um pouco. Esmeralda estava ali, to perto, no acampamento. Precisava v-la. Apanhou um cavalo 
e saiu s escondidas, julgando no ser visto. lvaro, porm, que o espreitava, sorriu com satisfao.
      Agora vais comear a pagar!  pensou ele com alegria. No percebeu que um vulto escuro aproximou-se, envolvendo-o, colando-se a seu corpo. Sentiu apenas seu 
rancor aumentar.
     
     
Captulo XX
     
     
     Carlos chegou ao acampamento com o corao aos saltos. Esperava que no o deixassem ver Esmeralda, porm tudo estava calmo e s escuras. Ansioso, procurou a 
to conhecida carroa da cigana. Tudo escuro. Aproximou-se. Bateu de leve na porta, chamando-a baixinho:
      Esmeralda! Esmeralda!  repetiu.
     A porta abriu-se e a cigana estava diante dele. Vendo-a, linda e sozinha, abraou-a emocionado, beijando-lhe os lbios com ardor. Estava ardente e desesperado. 
Toda a represso daqueles tempos de ausncia vinha  tona. A cigana retribuiu o beijo e Carlos, feliz, entrou e fechou a porta atrs de si.
     Afundou nas almofadas de Esmeralda e em seus braos quentes esqueceu do mundo. Exigiu que ela lhe dissesse que o amava mais do que tudo no mundo, jurou amor 
eterno e no fim de tudo adormeceu em seus braos vencido e feliz.
     Era dia claro quando acordou. Vendo-se na carroa de Esmeralda, lembrou-se do que aconteceu. Sentiu arrepios de prazer pelo corpo. Que mulher! Ao mesmo tempo, 
temia que o estivessem procurando.
     Levantou-se de um salto e abriu a porta da carroa. Esmeralda, vendo-o, trouxe-lhe caf e po, que ele tomou com prazer. Sentou-se ao lado dele na carroa e 
olhou-o mansamente.
      O que aconteceu no podia ter acontecido  disse com calma.
      Por que no? No  a mim que amas? Quero que digas isso quele idiota do lvaro.
      No direi coisa alguma  tornou ela.  Pensando bem, arrependo-me do que houve ontem.
     Carlos irritou-se.
      Por acaso gostas daquele patife?
      D. lvaro no  um patife.  um cavalheiro.
      Tu o defendes?  disse irritado.  Probo-te de v-lo. Esmeralda riu com ironia.
      Tu no mandas em Esmeralda. Sou livre. Fao o que quero. Se quiser ver lvaro, o vejo.
      No fars isso  disse Carlos irritado.
      Por que no? Por acaso no vais ter mais com tua mulher?
     Carlos enrubesceu.
      Deixa Maria fora disso.
      No deixo. Se voltas para ela, volto para lvaro.
      Ameaas-me?
      No. Digo-te o que farei. Afinal ele  um fidalgo. Um homem bonito e agrada-me.
      No acredito  tornou Carlos com raiva.
      Pouco me importa. Se te vais, fico com ele.
      Deves gostar dele. Deste-lhe uma filha. Confessa que Isadora  tua filha com ele!
     A cigana olhou-o procurando esconder o brilho de satisfao de seus olhos.
      Deixa Isadora fora disso  replicou irnica.
      Confessa que  tua filha, confessa.
      Se isso te satisfaz, confesso. Isadora  minha filha, mas nem sequer a conheo, nunca mais a vi depois que nasceu!
      Traidora!  tornou Carlos com raiva.  Como tiveste essa filha com lvaro? Depois que nos separamos, te consolaste bem depressa.
      Estavas casado. Trocaste-me por outra. O que eu poderia fazer seno esquecer?
      E Isadora?
      Por que te preocupas com ela? Aconteceu. Eu no queria que nascesse, porm lvaro prontificou-se a cri-la.
      O patife!
      Foi um cavalheiro. No fugiu como um covarde. Levou a criana e a criou. Vive como uma nobre. Foi educada e tudo. Achas que ele  mau? O que farias tu se 
fosses o pai? Lev-la-ias para tua casa?
     Carlos desconversou.
      Eu no sou.
      Claro que no a quererias. Tens filhos com tua mulher.
      Tenho  disse Carlos contrafeito.  Como iria explicar a presena da criana? lvaro  solteiro.
      J vs que tenho motivos para preferi-lo a ti.
     Carlos apanhou Esmeralda pelos pulsos e apertou com raiva.
      No  a ele que amas.  a mim. Esta noite senti que ainda me amas.
      Larga-me. Quando te vi de repente, senti saudades, mas entre ns nada mudou. Ests casado e tens famlia. No sei o que fazes aqui. Melhor ires, porque a 
esta altura te estaro procurando.
     Carlos puxou-a para junto de si.
      No quero deixar-te.
      Se ficares, ser para sempre.
      No posso.
      Ento, vai-te e no me procures mais. Eu no sirvo para dividir meu amor com outra mulher. Sou absoluta. Vai-te e no voltes mais.
      Esmeralda  disse baixinho.  Fica comigo. No posso ficar aqui, mas virei ver-te todas as noites.
      No te receberei  disse ela tentando soltar-se de seus braos. Carlos segurou-a com fora.
      Esta noite voltarei e conversaremos. Promete que me esperars.
      Vamos ver. Se lvaro no vier... Carlos empalideceu.
      No fales nesse patife. Se o encontrar aqui, mato-o como um co. Esmeralda deu de ombros.
      Se ficas com tua mulher, fico com ele.
      Ests vingando-te de mim.
      Tenho minhas necessidades e meus direitos. Fao o que quero, sabes disso.
      Esmeralda, eu te amo. Sempre te amei. Hoje  noite voltarei e falaremos sobre tudo isso. Espera-me. Eu peo.
      Vamos ver...
     Carlos beijou-a com ardor at sentir que a cigana se entregava a seu amor.
     Deixou o acampamento meia hora mais tarde. No estava habituado a passar a noite fora. Por certo Maria estaria a sua procura.
     Era ainda muito cedo e para sua felicidade conseguiu entrar no castelo sem que ningum o visse. Maria ainda dormia. D. Hernandez no estava bem e Maria ficara 
com os pais at tarde. Carlos dirigiu-se a seus aposentos, onde Incio aguardava-o assustado.
      Meu senhor, podeis ter-me chamado. Andar  noite por estas estradas, sozinho!
      Ningum me procurou?
      S a senhora Maria, mas eu disse que meu senhor dormia profundamente.
     Carlos sorriu feliz.
      Vou desfazer a cama e descansar mais um pouco. Que noite! Incio olhou-o desconfiado. Mas Carlos estava feliz, tinha a certeza
     de que Esmeralda nunca o tinha deixado de amar.
     A partir daquela noite, comeou para Carlos uma vida dupla. Durante o dia, ficava no castelo em seu papel de famlia. A noite, porm, corria s escondidas para 
os braos da cigana, que sempre queria escapar-lhe e afirmava estar desculpando-se com lvaro por no v-lo naquelas noites.
     A idia de estar enganando o primo de sua mulher deixava-o feliz. Afinal, lvaro tinha o que merecia. Carlos estava cada vez mais apaixonado pela cigana. No 
conseguia pensar noutra coisa. Durante o dia, quando lvaro saa, ficava desesperado ao pensar que ele estivesse com Esmeralda. Um cime doentio dominava-o e Carlos 
a cada dia mais odiava lvaro.
     Maria percebeu a mudana no comportamento do marido. Mulher inteligente, tentou interess-lo por outras coisas, procurando atra-lo mais para os filhos e o 
lar. Era intil, porm. Isadora estava sempre com os meninos e Carlos no lhe suportava a presena.
     Maria achava essa antipatia de Carlos uma implicncia injustificada, uma vez que Isadora era um encanto. Jos e Matilde a adoravam e tinham-se tornado inseparveis.
     Por outro lado, o estado de sade de D. Antnio estava-se agravando e ele precisava de mais atenes e cuidados. Sua me estava inconsolvel. Maria desdobrava-se 
e percebia o afastamento de Carlos, mas no podia deixar de atender ao pai enfermo.
     D. Hernandez faleceu em uma tarde de sbado e todo o castelo cobriu-se de negro. Carlos, fazendo as honras da casa, providenciou a cmara ardente, os ritos 
religiosos e procurou confortar a sogra e a esposa chorosas.
     Seu pensamento, porm, estava com Esmeralda. No pde ir v-la durante trs dias e, agoniado, seguia lvaro com os olhos e suas ausncias eram tortura para 
ele.
     D. Fernando chegara com a esposa para o sepultamento e deu-lhe notcias de que tudo corria bem em Valena. Carlos finalmente encontrou meios de sair  noite 
e ir em busca de Esmeralda. Incio ficava para impedir que algum entrasse em seu quarto, dizendo que o amo dormia.
     Encontrou Esmeralda zangada. Por mais que lhe explicasse, ela parecia no entender. Achava que Carlos a estava colocando em segundo plano.
      Amanh, voltas para teu castelo e eu estarei s. Vou reatar com lvaro. Ele me ama e me d todo seu tempo. No se casou como tu. No me traiu.
     Carlos procurava acalm-la. Esmeralda tinha-se transformado para ele num vcio que ele no podia deixar. Sua paixo, seu cime o cegavam e ele faria qualquer 
coisa para obter o amor da cigana.
      Fica comigo e eu acredito  pediu ela.
     Carlos tentou reagir, porm na noite seguinte soube que o acampamento ia embora. Ao chegar, percebeu logo e ficou desesperado. Queria Esmeralda. No podia perd-la. 
Foi a custo que pretextou uma viagem e no dia seguinte seguiu com Incio para o acampamento. O velho pajem tentou aconselh-lo, porm ele nem sequer ouviu. Estava 
determinado.
     Naquela mesma noite, quando os ciganos partiram, Carlos seguiu junto. Miro tentou convenc-lo a voltar para casa, afirmando que lvaro e Esmeralda eram s bons 
amigos, mas Carlos no acreditou.
     Durante o dia viajavam e  noite Carlos mergulhava nos braos quentes de Esmeralda e esquecia de tudo. Por vezes uma ponta de remorso o acometia lembrando-se 
da famlia, porm consolava-se dizendo que era apenas uma viagem e que um dia ainda voltaria para casa.
     D. Fernando, preocupado, regressou com a esposa a seu castelo e Maria ficou mais com a me,  espera do regresso de Carlos, que tardava. Ela no queria voltar 
sem ele.
     lvaro no se afastava, cercava-a de gentilezas e ela, agradecida, no percebia que ele ia aos poucos aproximando-se mais.
     Maria apreciava lvaro. Era seu primo e juntos tinham boas recordaes da infncia e da juventude. Estava longe de supor que ele ainda a amasse. Apreciava-lhe 
a dedicao, exatamente na hora em que o marido se tinha ausentado a pretexto de negociar terras.
     lvaro, sutilmente, fazia-a sentir o quanto esse pretexto era pueril. Maria, embora desconfiasse da traio do esposo, permanecia digna, no demonstrando seus 
receios. Surpreendera uma conversa dos sogros na qual D. Fernando comentava ter sabido que a cigana Esmeralda estava em Madri.
     Maria no ignorava o antigo amor do marido. Temia que eles tivessem voltado a ver-se. Era mulher paciente. Se aquilo fosse verdade, a aventura passaria e o 
marido arrependido voltaria ao lar. Ela faria como se nada tivesse acontecido. Sabia esperar e confiava em Deus.
     lvaro, porm, sentiu que era a to esperada hora para agir. Afinal, Esmeralda estava fazendo a parte dela com sucesso e ele deveria fazer a dele.
     Certa tarde, estava com Maria na sala e de repente demonstrou preocupao e tristeza. Ela, delicada, percebeu e indagou:
      lvaro, algo te preocupa. O que ?
      Maria, sabes o quanto te amo. Calei at agora porque no sabia o perigo, hoje porm presenciei uma cena que me fez mudar de idia.
      O que foi?  indagou ela preocupada.
      Trata-se de Jos e Isadora. Eles tem uma intimidade que me fez pensar em algo mais srio.
      Tenho notado que Jos mostra-se muito afetuoso com Isadora. Mais do que o comum. Confesso que gosto dela e um romance entre eles me faria muito feliz.
     lvaro olhou-a atormentado.
      Isso no ser possvel jamais. Tenho que ir embora daqui com Isadora o quanto antes. Temo que seja tarde. Hoje os vi beijando-se no jardim.
     Maria olhou-o admirada.
       natural. So jovens. Jos  um cavalheiro. Se houve algo, por certo se casar com ela.
     lvaro levantou-se irritado:
      Isso  impossvel!
      Por acaso no aprecias Jos?
     Maria estava sentida. Seu filho era um timo rapaz.
      No  isso, Maria. Deus sabe que eu seria muito feliz se eles pudessem casar-se.
      Ento? No te compreendo. lvaro fingiu hesitao. No fim, tornou:
       um segredo que deveria morrer comigo, mas preciso contar-te a verdade.
      O que ? tornou Maria empalidecendo.
     Estava de luto, muito abatida, e lvaro abraou-a dizendo.
      Melhor eu partir. Jos nunca mais dever ver Isadora.
      Por qu? Agora exijo que digas. Que segredo terrvel  esse?
      Preciso contar-te. Peo-te que me perdoes. Jamais pensei que isso pudesse acontecer. Seno, no teria deixado Isadora ficar aqui.
      Fala, eu peo.
      Senta-te e ouve. Sabes do romance de Carlos com Esmeralda. Quando ele se casou contigo, ela estava grvida. Isadora  filha deles.
     Maria abriu a boca e no encontrou palavras para expressar sua surpresa. lvaro prosseguiu:
      Ele abandonou-a. Apaixonou-se por ti e deixou-a. Ela, porm, queria matar-se. Eu, condodo, prestei-lhe socorro e adotei-lhe a filha. A pobre menina no tinha 
nenhuma culpa da loucura paterna.
     Maria, abatida, no tinha palavras para expressar sua tristeza. lvaro continuou:
      Esmeralda amava Carlos e foi difcil cont-la, queria ir no dia do casamento impedir a cerimnia. Mas eu a contive, inclusive enganei-a e depois de tudo consumado 
ela se conformou. Criei Isadora como filha, como sabes, e Carlos jamais soube que  seu pai. No queria perturbar tua felicidade e teu lar. Agora pressinto o perigo. 
Eles so irmos, jamais podero se amar!
      Santo Deus!  articulou por fim Maria.  Carlos implica com Isadora, jamais a suportou.
      Carlos desconfia que ela  filha de Esmeralda, elas so muito parecidas. Desconfiou desde o primeiro dia. Porm eu disse-lhe que ela era minha filha com a 
cigana. Temia que ele voltasse a ter com ela. Uma filha poderia aproxim-los. Sabes que s desejo tua felicidade. Eu te amo. Tenho-te amado minha vida inteira. Se 
Carlos no aparecesse, ter-te-ias casado comigo. J que no foi possvel, tenho velado por tua felicidade e dedicado minha vida a zelar por teus interesses.
      Quanta nobreza de alma! Como s bom! Mesmo me amando, sendo preterido, criaste a filha de teu rival com tanto amor! Realmente, eu te quero muito bem. Infelizmente 
no te amo, seno como a um irmo. Sou muito grata por teres confiado em mim. Sei que a cigana estava em Madri. Carlos est com ela?
     lvaro baixou os olhos para esconder sua alegria. Disse com voz insegura.
      Esteve, mas j partiu.
      Carlos esteve com ela?
      No sei...
      Sei que no vais contar-me. Tua nobreza de alma no permitiria. Porm algo me diz que esta viagem  suspeita. Carlos foi-se com Esmeralda. Ele nunca deixou 
de am-la. Quando o conheci, falava-me dela, no comeo. Deve ser belssima!
      Esmeralda  nica! Perdoa-me. No deveria dizer-te isso. Ela  uma devoradora de homens. Fascina-os com sua dana, sua beleza, seu temperamento ardente.
     Maria baixou a cabea com tristeza.
      Vou-me embora, lvaro. Amanh mesmo. Meu lugar  em Valena, em minha casa, com meus filhos. Agradeo-te dizeres-me a verdade.
     lvaro no esperava essa reao.
      No deves ir. Tia Engrcia precisa de teus cuidados. No pode ficar s. Eu me vou com Isadora.
      No podemos permitir essa convivncia nem mais um dia. Como dizer-lhes a verdade?
      Foi o que pensei. Iremos embora.
      No. Fica com mame. Ou quem sabe se ela nos acompanha uma temporada em Valena? Vou voltar para casa.
     Apesar de decepcionado, lvaro no podia demonstrar. Disse apenas:
      Lembra-te de mim, que te amo e sempre te amarei. Se quiseres ficar, vou-me com Isadora e deixo-a em casa. Depois, voltarei e ficarei contigo para ajudar-te 
at o regresso de Carlos.
      O regresso de Carlos! Ele  quem deveria estar aqui agora  fez Maria com amargura.  Sabe Deus quando voltar!
      Fica, Maria, peo-te. Tua me precisa de ti.
      No. Parto o mais breve possvel. Se Carlos voltar, estarei em nossa casa, onde  meu lugar.
     Maria falou com a me, chamou os filhos e no dia seguinte prepararam tudo para o regresso. D. Engrcia resolveu ficar. Pediu a Isadora que lhe fizesse companhia. 
Jos no queria ir, porm a me foi intransigente. Como voltariam sem um homem que as escoltasse? Depois, Carlos estava ausente e eles precisavam dele. O sogro no 
estava bem e eles tinham que voltar. Essa era a desculpa que Maria pretextou para o regresso. Jos precisava ajudar o av. O jovem, apesar de contrariado, acabou 
concordando. Maria fingiu no perceber os olhos vermelhos de chorar de Isadora e o desgosto de Matilde por sair do castelo.
     Maria lamentava a leviandade de Carlos, que lhe tinha criado to grave problema. Tinha que ser drstica. Cortar o mal pela raiz.
     Assim, dois dias depois, abatidos e amargurados, reiniciavam a viagem de volta ao lar.
     Carlos, entretanto, continuava no acampamento. Por vezes a lembrana dos filhos, dos pais e da esposa o preocupava, porm Esmeralda convidava-o a no pensar 
e oferecia-lhe canecas de vinho e Carlos bebia para esquecer os remorsos e mergulhava nos braos da cigana.
     Miro tentava impedi-lo de continuar ali. Procurava alert-lo para o perigo que corria deixando a famlia e descendo aos poucos os degraus da degradao moral.
     Carlos, porm, estava cego. No aceitava os conselhos do cigano, acreditando-o preconceituoso e querendo separ-lo de Esmeralda.
     A cigana estava feliz. Estava conseguindo vingar-se. Separara Carlos da famlia e pretendia arras-lo completamente. De nada lhe valeram os conselhos de Miro, 
nem as ponderaes de Sergei. Estava determinada.
     Carlos a cada dia mais e mais estava fascinado por ela, que ora o amava delirantemente, ora o traa com outros homens, levando-o ao desespero e ao sempre renovado 
desejo de conquist-la.
     Ela escorraara-o vrias vezes, mas quanto mais o fazia, mais ele se apegava, cego, dominado, consumido de paixo.
     Durante dois anos seguiu a cigana e foi o suficiente para transformar-se em um homem arruinado moral e fisicamente. Estava arrasado. As crises de remorso estavam 
cada vez mais fortes e ele afundava cada vez mais na bebida.
     Certa noite, acordou entontecido. Estava deitado no cho duro sobre a relva, perto do acampamento. Tinha bebido muito e no se lembrava bem do que tinha acontecido. 
Foi at a cisterna e jogou gua fria na cabea, sacudindo-a como para espantar os maus pensamentos. Olhou-se quase um maltrapilho. O que estava fazendo de sua vida? 
H quanto tempo estava naquele inferno?
     Incio aproximou-se humilde.
      Meu senhor est melhor?
      Incio. No devias seguir-me. Sou um homem acabado.
      No, meu senhor. Vamos embora daqui. Vamos voltar para casa! Vosso pai pode estar precisando de ns.
      Meu pai! Como voltar depois do que fiz?
      No importa, meu senhor. Eles vo perdoar. Ficar aqui no est sendo bom. Vamos voltar!
      No tenho coragem. Arranja-me vinho. Preciso melhorar a cabea.
     Incio estava triste.
      Senhor, vamos repousar um pouco, vou pr compressas em vossa testa. Vai passar.
      Arranja-me vinho!
      Logo mais, senhor. Deixai-me tratar-vos. Vamos deitar aqui.
     Incio levou Carlos at um lugar sossegado, deitando-o na relva. Carlos sentiu nuseas, a cabea rodando, impossibilitando de levantar-se. Incio voltou com 
uma vasilha de gua e alguns panos.
     Pacientemente fez compressas na testa de Carlos, molhando o pano, apertando-o bem e estendendo-o na fronte. Carlos foi-se acalmando. Adormeceu. Dormiu vrias 
horas. Quando acordou, estava melhor.
     A lua estava alta e ele percebeu que era tarde da noite. Incio, ao lado, dormia, calmo. Pensou em Esmeralda. A cigana por certo estaria dormindo. Foi procur-la. 
Ao aproximar-se viu que ela, acompanhada de um homem, entrou na carroa. Ficou tenso. Era com certeza um de seus amantes. Procurou uma arma e no encontrou.
     Cauteloso, foi sem fazer rudo e aproximou-se, colando o ouvido na lona, no lugar onde ela se deitava. Ouviu vozes alteradas. Esmeralda dizia com raiva:
      No te vais meter em meu caminho. Hei de levar minha vingana at o fim. Ele vai comer o po que o diabo amassou. Quero destru-lo. Ele vai pagar-me por tudo.
     Surpreendido, Carlos reconheceu a voz de Miro conciliadora.
      Esmeralda, para teu orgulho j basta o que fizeste dele. Est um pobre-diabo. Nem sabe bem o que faz. Chega. Vais atrair a desgraa sobre tua cabea. Tens 
misturado poes a sua bebida. Sura disse-me que procuraste a velha bruxa e que ela te deu suas drogas. Isso pode-te custar caro. Ningum desafia as potncias celestes 
impunemente. Ests abusando dos poderes, Esmeralda. Deus pode punir-te!
      No creio. Tuas rezas no foram suficientes para dar-me o que eu queria. Fui a elas e consegui. Carlos  meu! Fao dele o que quero.
      Nem sequer sabe que  o pai de tua filha! Devias contar-lhe.
      Para qu? Para descobrir que eu e lvaro nunca fomos amantes? No. Enquanto eu o destruo aqui, lvaro rouba-lhe o amor da mulher. Estou vingada! Ns o conseguimos. 
Eu e lvaro, finalmente, nos vingamos!
     Esmeralda ria e Carlos sentia nuseas. As pernas estavam trmulas. Se tivesse foras, teria entrado e matado aquela mulher. Quis andar, no conseguiu, sua cabea 
rodou e ele caiu no cho.
     Miro tentou convencer Esmeralda a parar com a vingana, mas foi intil.
     Aborrecido, saiu da carroa e deparou com o corpo de Carlos cado no cho. Preocupado, carregou-o at sua carroa, estendendo-o sobre as almofadas que lhe serviam 
de cama.
     Carlos tinha febre. Remexia-se inquieto. Miro, srio, tomou-lhe da mo e fechou os olhos em orao. Aos poucos, Carlos aquietou-se e dormiu cerca de meia hora. 
Acordou assustado, e vendo o rosto de Miro a seu lado, imediatamente recordou-se de tudo. Quis levantar-se, no conseguiu.
      Bebe isto  fez Miro com voz autoritria.
     Carlos bebeu obediente. Acabava de compreender que, ali no acampamento, Miro era o nico em quem ele podia confiar. Dentro de alguns minutos sentiu-se melhor.
     A lembrana do que tinha ouvido queimava-lhe a cabea. Precisava saber. Ansioso disse:
      Miro, ouvi tua conversa com Esmeralda. Sei de tudo! Se tivesse uma arma, matava-a.
      Calma  disse Miro conciliador.  Se ergues o brao contra Esmeralda, no sais daqui vivo.
     Carlos irritou-se.
      Estou num covil de serpentes.
      Acalma-te e ouve. Vieste para c por tuas prprias pernas. Esmeralda no foi buscar-te em casa. s to culpado quanto ela. Tinhas deveres e deixaste filhos, 
esposa, tudo, para te degradares desta forma. No podes culp-la. s to culpado quanto ela.
      No preciso que me acuses. Sei o quanto estou errado. Mas agora  tarde!
      Ests vivo. E se tens dignidade, volta para tua casa, que precisa de ti. Enquanto ficas aqui, os teus ficam sem tua cooperao.
     Carlos enrubesceu. lvaro queria Maria! Como ele tinha sido cego! Como pudera ser to ingnuo?
      Conta-me tudo, Miro. Sem omitir nada, peo-te. Preciso saber a verdade.
      Se prometeres que vais embora e que voltars para tua famlia, deixando Esmeralda em paz.
      Prometo. Nunca mais voltarei. Eu juro!
      Muito bem. Vou contar-te tudo.
     Miro colocou-o ao par de tudo que tinha acontecido desde que saram do castelo, ele e a cigana. Carlos estava lvido. Isadora era mesmo sua filha. Por que no 
tinha pensado nisso antes? Por qu?
      Agora, j ests melhor, e antes que o dia amanhea, vai-te daqui. Dou-te dois cavalos, provises. No estamos muito distantes de Valena. Ao chegares, solta 
os cavalos e eles voltaro aqui.
      Agradeo-te, Miro. s meu amigo. Mais uma vez me ajudaste.
      No quero teus agradecimentos. No fao isto por ti, mas por Esmeralda e por tua famlia, que no merece sofrer. Vou orar e no sentirs mais essa loucura 
que te tem atrado ao acampamento.
      Acreditas que ela tenha me enfeitiado?
      No penses nisso, em nada te vai ajudar. Mas respeita as coisas que desconheces. E no te faria nada mal rezar pedindo a proteo de Deus em teu favor. Vais 
precisar dela.
     Carlos olhou aquele homem forte cujo carter estava aprendendo a respeitar. Levantou-se. Estava um pouco tonto, mas melhor.
      O ar da manh te far bem. Senta-te aqui que vou arranjar tudo.
     O cigano saiu, chamou Incio. O dia comeava j a amanhecer quando tudo ficou pronto. Carlos trocara de roupas e tinha se alimentado um pouco. Estava trmulo 
e fraco, porm melhor. O cigano tinha cuidado de tudo. Carlos estendeu-lhe a mo decidido.
      Deus vai recompensar-te pelo bem que me fizeste. Devo-te mais do que a vida. Sou teu amigo. Se algum dia precisares, te servirei com prazer.
     Miro apertou-lhe a mo.
      S te peo que deixes Esmeralda para sempre. Esquece-te que ela existe.  s o que quero. Adeus. Vai em paz.
     Carlos respirou fundo. O ar da manh fez-lhe bem. Incio auxiliou-o a subir no cavalo e dentro em pouco afastavam-se do acampamento.
     
Captulo XXI
     
     Maria encontrou os sogros preocupados e tristes. A morte de D. Antnio, a ausncia de Carlos, tudo contribua para que o clima do castelo fosse de tristeza 
e de preocupao.
     Jos, apesar de obediente, estava triste e calado e at Matilde mostrava-se mais arredia, sem sua costumeira animao.
     No dia seguinte  chegada, observando a tristeza de Jos, a me chamou-o e procurou conversar com ele. Foi direto ao assunto.
      Jos, vejo-te triste e pensativo. No ests contente por teres regressado?
     O rapaz balanou a cabea concordando.
      Porqu?
      Doeu-me deixar vov sozinha depois de tudo.
      Ela no est sozinha. Tem lvaro, que lhe faz companhia, tem Isadora. Convidei-a, insisti para que viesse conosco. Recusou. Estvamos fora de casa durante 
muito tempo. Meu pai j morreu e infelizmente nada mais podemos fazer por ele seno orar, mas D. Fernando est doente e vivo, precisa de ns at que seu pai volte.
      Quem deveria estar aqui  ele!  disse o moo com tristeza.  Como pde viajar numa hora destas? Uma viagem to longa! Acreditas que ele volte? No nos ter 
abandonado para sempre?
     Maria estremeceu, porm disse com voz firme:
      Aqui  seu lar e sua famlia. Ns o amamos, ele voltar.
      Tenho pensado muito sobre isso! Pode ter-lhe acontecido alguma coisa. Um assalto, quem sabe.
      Deus  grande. H de proteg-lo. Enquanto ele no volta, precisamos fazer tudo para substitu-lo. Seu av est muito cansado e sua av no tem condies. 
Ns dois  que precisamos cuidar de tudo.
      Mame, por que no insistes com vov para que venha viver aqui? Poderia trazer Isadora e todos seramos muito felizes.
      Isso no  possvel! Tenho percebido que sentes falta de Isadora. Quero crer que no passe de um interesse passageiro.
     Jos comoveu-se.
      No, mame. Eu amo Isadora! Um dia ainda me casarei com ela.
      No digas isso! Pelo amor de Deus! Promete-me que no mais a vers!
      Por qu? Por acaso no a aprecias?
      Muito. Mas tua unio com ela  impossvel! Afasta-te dela, peo-te.
     Maria estava to assustada que Jos preocupou-se.
      Calma. Pensei que apreciasses Isadora. Por que essa idia te contraria tanto?
     Maria titubeou.
      Bem, teu pai no a aprecia e no sabes de quem ela  filha... Jos olhou-a emocionado.
      Me! Nunca te acreditei preconceituosa. Papai tem sido muito injusto para com Isadora, sabes disso! Tu sempre tentaste desfazer esse mal-estar. Ela nada fez 
que merea essa atitude. Porm, se fosse ele, talvez eu pudesse acreditar, mas tu, sempre to ponderada! O fato de Isadora no conhecer seus pais no importa.  
a ela que eu amo, e  uma moa digna.
      Isadora  uma boa moa e eu a aprecio. Porm, pelo amor de Deus, peo-te, esquece-a! O casamento entre os dois  impossvel!
     Jos olhou-a e havia lgrimas em seus olhos.
      Pedes-me o impossvel.
     De cabea baixa, levantou-se e saiu. Maria ficou arrasada. No queria dizer ao filho a verdade. Carlos era seu pai, contar-lhe seus erros passados seria destruir 
sua imagem de homem generoso e bom que ela gostaria que Jos tivesse do pai. Confiava em Deus e orava muito, na esperana de que Jos esquecesse. Um namoro naquela 
idade podia ser passageiro. Confiava que logo Jos passasse a interessar-se por outra moa e esquecesse Isadora.
     Nos dias que se seguiram procurou tornar o ambiente do lar menos triste e seu corao estava desolado. Sentia que aquele ambiente sombrio era prejudicial para 
os jovens.
     Os dias foram passando e Carlos no voltava. O ambiente do castelo, apesar do esforo de Maria, continuava triste.
     D. Fernando, a cada dia, tornava-se mais abatido, falando em Carlos com preocupao e ansiedade. Um dia, Jos no mais suportou e dirigiu-se  me:
      Mame, quero partir  procura de meu pai. Temo que lhe tenha acontecido algo de mal. Essa viagem j durou muito mais do que deveria. Vou partir  sua procura. 
Levo meu valete comigo e juntos haveremos de descobrir seu paradeiro se ainda estiver vivo.
      No digas isso, meu filho.
      As vezes tenho pensado que ele morreu! S a morte poderia explicar essa ausncia to longa, sem nenhuma notcia!
     Maria no encontrou palavras para impedir o filho. E se fosse verdade? E se Carlos tivesse morrido? Teria mesmo estado no meio dos ciganos? Aquela situao 
tambm a sufocava, por isso acabou concordando.
      Podes ir. Com uma condio: a de no me deixares tambm sem notcias. No suportaria.
      Est bem, mame. Irei. Levarei Mrio comigo.
      Podes levar mais gente, se quiseres.
      Basta Mrio. Tem sido bom e leal. Partiremos amanh cedo. Garanto que voltarei com notcias.
      Que elas sejam boas!  ajuntou Maria esperanosa.
     Maria no teve coragem de contar ao filho suas suspeitas. Temia que ele fosse no meio dos ciganos e algo lhe acontecesse de mal. Deixou-o partir com a informao 
de que Carlos sara de Madri rumo a Vigo para tratar de negcios.
     Nos dias que se seguiram, Maria sentiu-se angustiada. D. Fernando no passava bem e guardava o leito em penosa situao fsica. Foi pois com alegria e gratido 
que ela recebeu a visita de lvaro. Assim que chegou, resolveu ficar no castelo. Recusava-se a sair deixando D. Fernando gravemente enfermo e as mulheres sozinhas.
     Maria acolhia essa atitude, agradecida e confortada. Ele era seu primo e sempre se tinha mostrado amigo. lvaro desdobrava-se cuidando de tudo, e Maria, reconhecida, 
sentia-se mais protegida naquela situao triste.
     O estado de D. Fernando piorava a cada dia e lvaro foi incansvel, dedicando-se ao extremo.
     Numa noite de inverno ele faleceu, agoniado, chamando pelo filho ausente. Maria ficou inconsolvel. O sogro sempre tinha sido seu apoio e estimava-o como a 
um pai. lvaro desdobrou-se. Cuidou de tudo, amparou D. Encarnao em desespero. Providenciou o cerimonial e o sepultamento. Maria estava arrasada. Fazia j dois 
meses que. o filho partira e nada de notcias. Arrependia-se de ter consentido naquela viagem.
     lvaro procurava tranqiliz-la. Tudo ficaria bem e Jos por certo logo voltaria. Maria sentia-se s e triste. As saudades do filho e de Carlos uniam-se a um 
ressentimento contra o marido. Por que Carlos a abandonara? Sempre tinha sido boa esposa, sincera e fiel.
     lvaro cobria-a de gentilezas e carinho e Maria agradecida no percebia suas verdadeiras intenes. Disse-lhe um dia:
      lvaro, como s bondoso! Ests aqui h tanto tempo, deixaste tudo para nos ajudar. E pensar que Carlos  quem deveria estar aqui...
     lvaro olhou-a com um brilho emotivo no olhar.
      Depois de tanto tempo, ainda o esperas!
       meu marido. No sei onde est, o que lhe aconteceu.
       bom esqueceres Carlos. Ele no merece teu amor!
      Por que dizes isso? Por acaso sabes onde ele est? lvaro fingiu dissimular. Maria insistiu:
      Se sabes alguma coisa e s meu amigo, conta-me. Preciso saber. Esta incerteza mata-me!
      Bem, se queres mesmo,  melhor que te conte. Investiguei e descobri. Carlos vive com Esmeralda no meio dos ciganos. Por isso vim para c. Sei que ele no 
pensa em voltar.
     Maria sentiu-se desfalecer. Agoniada, perguntou:    
      Tens certeza?
      Infelizmente. Estive l e os vi. Carlos deixou-se enfeitiar pela cigana. Vive bebendo e s tem olhos para ela. Nem sequer me viu. Pretendia falar-lhe, obrig-lo 
a voltar, porm vi que era impossvel. Sinto dizer-te, mas tudo que temamos aconteceu. Ele no mais voltar. No devias ter deixado Jos partir. Pode descobrir 
a verdade.
     Maria, plida, sentia-se morrer. Ento era mesmo verdade! Carlos os trocara pelo amor da cigana! No ia voltar. Sua vida estava estragada.
      No fiques assim, Maria. Perdoa-me. Eu te amo muito. Di-me ver-te esperando por aquele patife com amor, ele no merece. Eu estou aqui. Eu te amo! Estou disposto 
a fazer qualquer sacrifcio por ti e por teus filhos.
     lvaro abraou-a alisando-lhe os cabelos com comoo. Maria tinha os olhos cheios de lgrimas. Olhou-o com uma expresso to dorida que ele no teve coragem 
de beij-la, embora seu corao batesse forte e seu desejo o fizesse estremecer.
      lvaro. Quero-te como a um irmo.  s o que posso oferecer-te. Sou-te grata porque me amas e ests aqui, enquanto Carlos d asas a sua loucura. Mas eu sempre 
serei assim. Jamais amarei outro homem!
      Maria, eu sempre te amei! Nunca deixei de te amar. Nada peo, s que me deixes ajudar-te nos momentos difceis por que passas. Perdoa-me se no pude conter-me. 
No posso ver-te sofrer! Quisera dar-te meu amor, cobrir-te de beijos, compensar de alguma forma o mal que Carlos te fez. Porm no me aceitas, no queres meu amor!
     lvaro sofria. Todo seu sentimento represado durante tantos anos vinha  tona e ele estremecia de emoo.
     Maria soltou-se de seus braos com delicadeza:
      lvaro, nada  possvel entre ns. Esquece-me.  melhor para ti. Eu estou morta. Amo Carlos. No pretendo sair de minha posio de esposa e me, embora ele 
esteja fracassando. O erro dele jamais justificaria o meu.  melhor que partas imediatamente. Jamais te amarei como desejas. Sinto muito. s bom e mereces ser amado. 
Eu, porm, no posso.
     - Maria. Deixa-me ficar a teu lado! Desculpa-me esse momento de fraqueza. Ele no mais se repetir. No me peas para partir e deixar-te sozinha numa situao 
dessas. Permite-me pelo menos aguardar a volta de Jos. Prometo que no mais falarei neste assunto.
      Est bem. Podes ficar. Realmente preciso de ajuda. Porm, digo-te que jamais esperes de mim nada alm de amizade.
     lvaro tomou-lhe a mo e beijou-a respeitoso.
      Prometo. Desculpa este momento de fraqueza. No se repetir. Maria nada disse, retirando a mo com delicadeza. Apesar de tudo, na situao de abandono e de 
incerteza em que se encontrava, o amor desinteressado de lvaro era-lhe grato ao corao. Saber-se amada, naquele momento, dava-lhe nimo, apesar de tudo.
     E lvaro foi ficando. Habilidoso, cuidando dos negcios, das terras de D. Encarnao, que o estimava muito, e at de Matilde, a quem procurava agradar cobrindo-a 
de gentilezas e de agrados.
     Assim, ele era solicitado para tudo. D. Encarnao chamava-o para conversar e ele ouvia-a paciente. Matilde o acolhia com alegria na sala de msica, onde ele 
cantava lindas canes em voga. Maria recorria a seus prstimos para resolver os problemas dos negcios da famlia.
     lvaro esperava. Apesar das palavras de Maria, ele confiava que o tempo haveria de apagar todas as recordaes e finalmente ela cederia a seus anseios.
     Uma tarde em que os dois conversavam no salo, lvaro concitava Maria mais uma vez a esquecer o marido ausente. Ela, apesar de triste, no permitia que lvaro 
criticasse a atitude de Carlos. Ele no se conformava.
     O ambiente acolhedor do entardecer, tudo induzia a confidncias. Matilde estudava na sala de msica e D. Encarnao recolhera-se a seus aposentos. Estavam ss.
     lvaro sentou-se ao lado da prima no sof.
      Ests triste, Maria. No posso ver-te assim.
      Meu filho tarda e no manda notcias.
      Pensas em Carlos. Por que no procuras esquecer? Por qu? No vs que ele no merece?
      Mudemos de assunto. Esse desagrada-me.
      Est bem. Ests linda e se sorrisses ficarias ainda melhor. Ela olhou-o comovida.
      Queres alegrar-me. No te ds a esse trabalho. Hoje sinto-me particularmente triste. A lembrana de meu pai, de D. Fernando, as saudades...
      Realmente eles fazem falta. D. Antnio tambm era para mim um pai. Sabes que desde a morte de meus pais o considerei assim. A nica mgoa que tenho  a de 
que no me quis por genro. Maria! Esquece Carlos, eu peo! Ele no merece! Pensa. Enquanto choras aqui e lutas para cuidar de tudo sozinha, ele nem sequer pensou 
em ningum, enfeitiado por aquela mulher!
     Maria fez um gesto como a impedi-lo de falar, mas ele tomou-lhe a mo e beijou-a com amor. Lgrimas brilharam nos olhos dela.
      Eu te amo e estou disposto a ser teu escravo o resto da vida. Ainda que no me queiras, largarei tudo e ficarei a teus ps para sempre! s meu sonho maior!
     Maria que tanto tinha lutado para refrear as emoes, sentiu que no mais conseguiria det-las. Seus soluos brotaram angustiados e lvaro percebeu o quanto 
ela estava sofrida e cansada.
     Era seu momento. Abraou-a com delicadeza enquanto dizia:
      Chora Maria. Desabafa. Meu corao te compreende e pulsa por ti.
     Ela descansou a cabea em seu peito e chorou durante alguns minutos. Quando se acalmou, ele alisou-lhe os cabelos com carinho. Ela sentia-se bem ali. Apoiada 
e querida. Deixou-se ficar.
     A tarde caiu e a noite comeava. Na penumbra da sala lvaro ainda a conservava nos braos. Foi quando o inesperado aconteceu. Um vulto entrou e num gesto rpido 
acendeu um castial.
     Maria deu um grito de susto:
      Carlos!
      Sim. Sou eu! O que significa isto?     
     Arrancado de seu devaneio e enraivecido, lvaro gritou irritado:
      De onde saste para nos pedir contas?
      Seu patife! E tu, Maria, nos braos dele! Fora, co traidor! Fora!
     Maria, plida, aos poucos foi conseguindo dominar o espanto e respondeu com energia:
      Cala-te, Carlos. Com que direito me ofendes? lvaro tem sido nosso nico amigo enquanto tu nos abandonaste.
      Para viver com Esmeralda no meio dos ciganos  ajuntou lvaro com raiva. Parecia-lhe impossvel que Carlos tivesse voltado.  Por acaso ela te escorraou?
     Carlos, apesar de encontrar-se magro e enfraquecido, pulou sobre lvaro agarrando-o pelo pescoo.
      Bandido! Traidor! Queres me separar de Maria, sempre a quiseste. Tu e aquela cigana maldita vos unistes contra mim. Mas acabou, entendes? Vai-te daqui j 
ou eu acabo contigo!
     Carlos estava furioso. lvaro no se conteve. Toda raiva retida durante tantos anos explodiu e eles rolaram pelo cho golpeando-se. Incio tentava inutilmente 
separ-los. Matilde apareceu assustada e Maria gritava nervosa.
     Apesar da raiva, Carlos estava mais fraco e lvaro golpeou-o com fora deixando-o estendido no solo. Matilde, assustada, debruou-se sobre ele chorando e Maria 
segurou lvaro plido e trmulo.
      Calma, peo-te. Deixa-o. Est louco.
      Maria, no posso tolerar essa ofensa a teu pudor. Logo ele! Depois do que fez!
      lvaro, peo-te que compreendas. Ele nos viu abraados e no compreendeu! Peo-te que nos deixes, por favor. Ele voltou e eu sou sua mulher.
      Expulsas-me? Depois de tudo?
      No  isso  declarou ela aflita.  Quero-te muito bem. Agradeo-te por tudo quanto nos tens feito. Mas Carlos est nervoso. Eu gostaria de conversar com 
ele sem que estivesses aqui. Conheo-o. Se ele te vir de novo, vai querer brigar outra vez. Deixa-me a ss e eu explicarei tudo a ele. Depois dessa conversa, por 
certo tambm te agradecer. Todos te devemos muito. Esta situao entre os dois no pode persistir. O que te peo  s que sejas cavalheiro e te afastes por agora.
     lvaro trincou os dentes com dio. Carlos tinha aparecido no momento mesmo que ele j contava vitria. Novamente ele lhe roubara o amor de Maria! Haveria de 
vingar-se e desta vez para sempre!
     Apesar da vontade que sentia de acabar com Carlos ali mesmo, no queria que Maria, Matilde e at D. Encarnao ficassem contra ele. Ao contrrio. Preferia ser 
a vtima. Baixou a cabea procurando ocultar o rancor e respondeu:
      Est bem. Uma ordem tua eu obedeo. Parto. Se precisares de mim, chama-me e virei correndo.
     D. Encarnao abraou-o triste:
      Perdoa Carlos. Ele est louco! Deus te pague por tudo quanto nos fizeste.
     lvaro beijou-lhe a mo e foi arrumar seus pertences. Incio pegou Carlos nos braos e levou-o at seus aposentos. Ele estava atordoado e murmurava frases desconexas.
     Maria sossegou Matilde dizendo-lhe que o pai estava apenas tonto e tudo passaria. Afrouxou-lhe as vestes e colocou compressas em sua testa. Carlos gemia desalentado.
     Imensa mgoa o invadia. Beijou Matilde e sossegou-a dizendo estar melhor. Quis ficar a ss com Maria. Ainda meio atordoado, ele lamentou-se:
      Acabei de perder minha ltima esperana! Jamais pensei que pudesses ceder quele patife.
     Maria repeliu-o com energia..
      Com que direito me exiges contas, tu que nos abandonaste ao chamado daquela cigana, e nem sequer pudeste dizer adeus ao prprio pai?
     Carlos estremeceu:
      Meu pai?
      Morreu h dois meses. Chamando por ti em desespero. lvaro foi quem lhe fechou os olhos e cuidou de tudo. Tens uma dvida de gratido para com ele!
      Nunca! Aquele patife. A vida inteira procurou roubar-me teu amor. Tudo fez para isso. Parece que conseguiu  tornou ele amargurado.
      Ofendes-me pensando isso. Jamais te tra. Eu chorava e lvaro consolava-me como primo. Nunca houve nada mais entre ns.
      Quisera crer!
      Pois eu no vou querer provar-te nada. Minha dignidade  suficiente. Infelizmente, no podes dizer o mesmo.
      Eu errei, eu sei. Maria, eu estava louco! Vim suplicar teu perdo. Queria comear nova vida, desta vez para sempre, contigo e com os nossos. Aquele patife 
merece uma lio.
      lvaro nada fez de mal. Tem sido dedicado amigo. Ests sendo injusto com ele.
      Ainda o defendes? Por acaso o amas?
      Sou mulher de amar uma vez s. Ofendes-me com essa suspeita. No permitirei que dividas tua culpa comigo. Eu fiquei em meu lugar. O erro foi teu.
      A cena que vi no me sai do pensamento.
      O que viste? Eu reclinada no peito de lvaro? Esqueces que sofri muito por teu abandono no momento mesmo em que perdia meu pai? Depois, perdi D. Fernando 
e Jos saiu a tua procura. S lvaro ficou, s ele confortou-me sem pedir nada em troca.
      Ele te ama. Queria conquistar-te.
      Eu sei. Porm sempre me respeitou. Sou-lhe grata por tudo que fez. Carlos estava abalado. Tinha chegado arrasado e enfraquecido e encontrara sua casa em desoladora 
situao. lvaro era o culpado!
     A ausncia do pai, a tristeza de no poder v-lo mais, com seu ar bondoso e srio, cortava-lhe o corao de remorsos.
     Fechou os olhos angustiado. O que tinha feito de sua vida? Por que se deixara envolver por aquela mulher ftil e perigosa?
      Estou to cansado  murmurou ele abatido.  Afinal, sinto-me culpado. Meu pobre pai! Jamais pensei encontrar essa triste notcia.
     Lgrimas saam de seus olhos doloridos e Maria comovida deixou que ele desabafasse. Sabia que esse era um remorso que ele carregaria para o resto da vida. Apesar 
de tudo, ela estava mais animada. Carlos estava de volta. Arrasado, desconfiado, arrependido, magro, sofrido. Voltara para ela e desta vez parecia ter aprendido 
a dura lio.
     lvaro estava furioso. O odiado rival mais uma vez se colocara em seu caminho. Se pudesse, matava-o como a um co.
     De que inferno ele tinha sado? Ele com Maria trmula em seus braos. O que teria acontecido? Esmeralda teria fracassado? Garantira que Carlos estava acabado. 
Ele tinha-o visto decado e miservel. Como tinha conseguido livrar-se?
     Agora estava disposto a resolver a situao de uma vez por todas. Teria que afastar Carlos definitivamente. Se ele morresse, com o tempo Maria haveria de ceder. 
Porm ela jamais deveria suspeitar dele. Desta vez se livraria de Carlos para sempre.
     Arrumou seus pertences e no amanhecer do dia seguinte deixou o castelo. Despediu-se de D. Encarnao, que o abenoou agradecida. Deixou palavras de saudade 
e despedida para Maria e Matilde. D. Encarnao ficou comovida pensando na bondade daquele injustiado moo.
     Ele, porm, no se dirigiu a seu castelo. Foi direto ver Esmeralda. Sabia onde os ciganos estavam e no lhe foi difcil chegar.
     A cigana recebeu-o mal-humorada. A partida inesperada de Carlos irritara-a e fizera-a brigar com Miro, que a tinha criticado duramente. A cigana no aceitava 
perdoar Carlos, nem se considerava satisfeita com o que lhe havia feito.
     No fundo, seu orgulho rebelava-se vendo-o voltar para a outra mulher, apesar de todo seu fascnio. Inteirada da volta de Carlos para a famlia, fitou lvaro 
com raiva.
      Se dependesse de mim, aquele covarde estaria acabado para sempre.
      Se quisesses podias acabar com ele! Uma bebida especial, quem sabe. Esmeralda estremeceu.
      Quero ele vivo. Vivo, mas acabado.
      Pois eu o quero morto. S assim ele sair de meu caminho.
      A morte  pouco para ele. Se o apanho de novo, jamais sair daqui.
      Enquanto ests aqui, ele levou a melhor. Abandonou-te e est de novo com a mulher. No fim, ela te venceu.
     Esmeralda trincou os dentes com raiva.
      Est para nascer a mulher que me vai vencer! Ainda vers que um dia eu me vingo.
      No acredito! Ele agora no te vai procurar mais.
      Veremos!
      Que seja breve, porque estou cansado de esperar.
      Desta vez o vencerei para sempre.
     lvaro saiu do acampamento ruminando seu dio. Miro tentou mudar-lhe o rumo dos pensamentos, dissuadi-lo. Porm ele no aceitou. No gostava do cigano. Se no 
fosse por ele, Carlos no se teria safado. Viajou para Madri, para o castelo de D. Hernandez. Pretendia conquistar a simpatia da tia, contando-lhe as coisas a seu 
modo. Foi com surpresa que encontrou Jos.
     D. Engrcia contou-lhe que o rapaz procurava pelo pai, mas que passava a maior parte do tempo no castelo. Chorou quando o mensageiro deu-lhe a notcia da morte 
do av, porm dizia estar na pista do pai e no queria ainda voltar. Sabia que lvaro estava l com as mulheres.
     Foi perplexo que lvaro ouviu da tia, comovida, a notcia do namoro de Jos com Isadora. Levantou-se irritado enquanto dizia:
      Esse namoro  impossvel!
      Por qu? Eu acariciava a esperana de v-los casados! Isadora  encantadora e a amamos muito.
      No se trata disso. Tia, nunca falei sobre Isadora, mas agora  preciso que saibas de tudo. Jos precisa partir o quanto antes!
      Me assustas. Por qu?
      Isadora no  minha filha como pensas, ela  filha de Carlos com Esmeralda!
      No! Deus meu!
     D. Engrcia deixou-se cair na poltrona levando a mo ao peito, assustada.
      Compreendes por que  impossvel?
      Eu no sabia. Cheguei a v-los com simpatia. Deus meu! Que sacrilgio!
     lvaro contou a seu modo a histria do nascimento da menina. A tia ouvia-o comovida.
      lvaro, como s nobre! Eu no sabia! Fomos injustos contigo.
      Eu queria ter-me casado com Maria. Sempre a amei. J que este amor  impossvel, velo por sua felicidade.  o que posso fazer.
     D. Engrcia abraou-o comovida.
      lvaro, que alma nobre! Precisamos fazer alguma coisa, antes que seja tarde.
      Vou chamar Jos e mand-lo de volta para casa. Agora que Carlos est l, ele ter que ir. Depois, levo Isadora para sempre, ele no mais a ver. Tudo estar 
resolvido. Com o tempo, tudo se acomodar.
     Foi com alegria que Jos recebeu a notcia do regresso do pai. lvaro foi taxativo.
      Ele te chama de volta. Precisa de ti. Est doente e fraco. Pede que partas o quanto antes.
     Pelo rosto moreno de Jos passou uma onda de tristeza.
      No queria partir agora.
       preciso. Depois que falares a teu pai, poders voltar a Madri. Agora, urge partir o quanto antes.
      Antes de partir, gostaria de falar-te sobre Isadora. lvaro fez um gesto largo.
      Agora no. Vai para casa, tua me est aflita por ti. Depois volta e conversaremos sobre isto.
     Ele relutou.
      Gostaria que fosse agora.
      Agora estou cansado. Depois, tua ausncia no ser longa. Vai, atende ao dever e na volta falaremos.
      Est bem. Seja como queres. Amanh mesmo partirei e por certo voltarei breve.
       Isso, Jos. Assim  melhor.
     Foi entre as lgrimas de Isadora e a comoo de D. Engrcia que Jos partiu no dia seguinte, prometendo voltar o quanto antes.
     lvaro, porm, sabia que Carlos o impediria de voltar. Ele no queria arriscar-se e esperar. Descansaria um dia ou dois, depois voltaria para seu castelo levando 
Isadora, pretendendo no mais deix-la voltar.
     Jos chegou ao castelo dos pais emocionado. A morte do av a quem muito queria o feria fundo. Porm o amor de Isadora representava para ele a alegria maior. 
Queria contar aos pais sua novidade e esperava que eles o apoiassem no casamento.
     Abraou o pai comovido, vendo-lhe o aspecto triste e envelhecido. Precisavam dele e tudo faria para assisti-los naquela hora. Encontrou a me preocupada, mas 
com mais esperana. Carlos estava de volta! Depois de tantos meses de luta e dor as coisas por certo iriam melhorar. Precisava integrar-se nos negcios da famlia, 
ajudando o pai a reassumir o comando de tudo.
     Carlos apreciava o filho, admirando-lhe o carter reto e a seriedade. Por isso, quando se viu a ss com ele no dia de sua chegada, procurou ser sincero.
      Jos, muitas coisas me aconteceram depois que sa de Madri. Quero confessar-te que errei e estou arrependido.
      No precisas dar-me contas de teus atos. No pergunto nada.
      Eu sei, meu filho. Mas eu quero explicar-te. Errei. Cedi  tentao. Abandonei o lar no momento em que mais precisavam de mim. Quero que saibas o quanto estou 
arrependido. Eu juro que daqui em diante tudo farei para redimir-me. Dedicarei o resto de meus dias  felicidade de tua me, a quem muito quero, e  famlia.
     Jos, comovido, abraou o pai.
      Eu sei, meu pai. Fico contente que tudo possa ser assim. Nosso lar em harmonia e paz. Bendigo a hora de tua volta!
      Eu tambm! Agradeo a Deus ter-me permitido perceber o erro e voltar atrs.
     Vendo a sinceridade do pai, Jos no se conteve:
      Em meio a essa felicidade, quero falar-te dos anseios de meu corao. Amo Isadora e quero tua permisso para casar-me com ela.
     Carlos empalideceu. As palavras do filho tinham o efeito de uma bofetada. Sem conter-se, Carlos gritou:
      Ests louco! Esse casamento  impossvel!
      Por qu?  indagou Jos surpreso.  Isadora  uma moa digna e nobre. Tem todas as virtudes para uma boa esposa.
      Digo-te que no  possvel. Desiste dessa idia o quanto antes.  uma loucura!
      D-me uma razo justa para isso  tornou Jos com dignidade.
      Ningum sabe sua origem  disse Carlos sem coragem para contar-lhe a verdade.
      Isso no  motivo. Estou decidido. Por mais respeito que tua opinio me merea. No posso aceitar. Isadora  minha vida. Sinto, mas no pretendo aceitar tua 
recusa. Sabes que no tenho preconceito de casta. Isadora foi educada em nosso meio. E at muito instruda para uma mulher. Gostaria que a conhecesses melhor e assim 
poderias esquecer a antipatia e a m vontade que sempre manifestaste para com ela, que sempre te tratou com educao.
      No preciso que me dites normas. Apesar de tudo, d-me tempo para pensar.
     Carlos no sabia o que dizer. No tinha coragem para contar a verdade. Preferia pensar com mais calma sobre o assunto. Brigar com Jos s iria piorar as coisas.
      Muito bem  disse o moo com seriedade.  No quero esperar muito. Prometi a Isadora breve regresso.
     Carlos sentiu forte abalo no corao.
      Filho, peo-te que fiques um pouco para ajudar-me nos negcios. Nossa casa vai mal. Por minha culpa, eu sei. Contudo, estou fraco, doente, preciso de tua 
ajuda, at eu melhorar um pouco mais.
     Jos olhou o rosto magro de Carlos, seu ar abatido, seus cabelos meio grisalhos. Comoveu-se. Ele no pretendia brigar com a famlia. Ao contrrio. Era seu desejo 
conviver em paz. Queria que eles aceitassem Isadora. Sabia que ela, por sua beleza, sua dignidade, conquistaria o corao deles. Seu pai estava abatido; a me, cansada.
      Est bem, papai. Minha vontade  ir para o lado dela o quanto antes, porm concordo em esperar.
      Obrigado, meu filho. Que Deus te bendiga.
     Porm, no corao de Carlos, funda mgoa aumentava seu remorso. Seria a Providncia Divina quem o estava castigando dessa forma? Jamais poderia permitir esse 
casamento. Entretanto, como relatar a verdade a eles? Como? Eles por certo o odiariam para sempre.
     Carlos estava arrependido. Entretanto, como refazer o que destrura? Como atuar, sem destruir o amor do filho e da filha, que por certo lhe cobrariam seus direitos?
     Quando Jos saiu, Carlos deixou-se cair numa poltrona e enterrou a cabea entre as mos e, sem poder dominar a emoo, comeou a soluar.
     No viu a um canto da sala a figura sinistra de seu tio Fabrcio, que sorria satisfeito e pensava:
      Tu me tiraste a vida. Agora j comeas a pagar.
     
     
Captulo XXII
     
     lvaro procurou por Isadora, dizendo-lhe com voz firme:
      Arruma teus pertences que voltamos para casa. Isadora surpreendeu-se:
      Pensei que fssemos esperar pela volta de Jos.
      Preciso falar-te sobre isto. Quero que saibas. Teu casamento com Jos  impossvel. Precisas esquecer esse namoro.
     Isadora empalideceu. Com voz trmula tornou:
      D. lvaro, tivestes para comigo muita bondade, recolhendo-me e educando-me. Serei eternamente grata. Porm amo Jos.  um homem digno. Pensei que no vos 
opusestes a nosso casamento.
      No sou eu quem se ope, mas D. Carlos. Garantiu-me que jamais consentir. Falou em expulsar o filho e deserd-lo se ele insistir em desposar-te. Se o amas, 
no deves querer prejudic-lo. Sabes que D. Carlos no te aprecia. Assim sendo, tambm no posso dar meu consentimento. Eduquei-te como uma nobre. Estou ofendido 
com a recusa.
     Isadora tremia e seus olhos chispavam de revolta. lvaro por um instante pensou ter Esmeralda a sua frente.
      No  justo, padrinho. Nada fiz para que D. Carlos no me aceite. lvaro mostrou-se solidrio.
      Sei disso. D. Carlos sempre foi muito orgulhoso de sua casa. Jamais aceitar uma filha de pais desconhecidos para sua famlia.
     Isadora baixou a cabea com infinita tristeza. lvaro continuou:
      Arruma tuas coisas e vamos embora.
     Angustiada, a menina comeou a chorar sentidamente. lvaro irritou-se. Estava dando demasiada ateno quela bastarda, cujo pai odiava.
      Por que choras? Por acaso queres desobedecer-me? Rebelas-te contra mim, a quem tudo deves?
     Ela olhou-o admirada. Ele sempre a tratara com frieza, porm com dignidade. Era enrgico, mas apesar disso ela era-lhe grata por tudo quanto tinha feito por 
ela.
     Confiava que ele a estimasse, embora jamais tivesse grandes gestos de carinho para com ela.
      No, senhor.
      Ento avia-te que hoje mesmo sairemos daqui.
      Sim, senhor.
     A menina saiu do salo e foi para o quarto, onde soluou sentidamente. D. Engrcia, olhos marejados, foi encontr-la em desespero.
      Eu no quero ir. Ajudai-me, D. Engrcia.
     Ela tomou as mos geladas da menina com o corao partido.
      Quisera poder ajudar-te. Porm nada posso fazer. Ningum pode. Teu casamento com Jos  impossvel.
      At vs que tanto nos compreendeis estais contra nosso amor?
      Sinto, minha filha, mas s o que posso dizer  que obedeas a D. lvaro, que sabe bem o que faz e deve ser como um pai para ti.
     A menina soluou ainda mais. D. Engrcia abraou-a penalizada.
      Calma. Isso passa. O amor contrariado di, mas o tempo cura a ferida, vers. Um dia aparecer outro em tua vida que te far feliz!
      Mas no compreendeis? Eu preciso casar com Jos.
      Tu precisas? Por acaso...
     Ela baixou a cabea envergonhada.
      amos nos casar. Nosso amor foi mais forte. Entreguei-me a ele!
      Infeliz! Que sacrilgio! Deus te castigar por isso!
      Por qu? O amor por acaso  proibido por Deus?
      O amor entre ti e ele sempre ser proibido.
      Porqu?
      Por que cometeste essa loucura? E agora, o que ser de ti? lvaro te expulsar!
      Foi sem sentir, D. Engrcia. Aconteceu. Nos amamos para sempre. Ajudai-me a fugir e irei procurar Jos. Ele no me abandonar.
     D. Engrcia suspirou fundo.
      Precisas saber a verdade. No posso ocultar-te nada. Tu s filha de D. Carlos e da cigana Esmeralda. s irm de Jos. Por isso tua unio com ele  impossvel.
     Isadora olhou-a assustada. Olhos muito abertos, teria cado se D. Engrcia no a tivesse segurado. Em seu rosto havia tanta dor que a velha senhora sentiu piedade. 
Mas no podia permitir aquele sacrilgio.
     Deu gua para Isadora, que muda deixara-se cair em uma cadeira. Sem dizer palavra, permaneceu assim alguns minutos. Depois, levantou-se e, decidida, arrumou 
todos os seus pertences.
     No protestou, no chorou, no se revoltou. Sentia o corao como gelo dentro do peito e sua cabea estava atordoada, sem poder raciocinar.
     Quando a viu mais calma, D. Engrcia saiu e chamou o sobrinho em particular, contou-lhe toda a verdade.
      Desculpa-me se me adiantei contando a verdade. Foi a nica maneira que encontrei de det-la. A infeliz pensava fugir e procurar Jos. Isso seria pior. O sacrilgio 
j aconteceu. Deus a castigar por isso. Sinto-me tambm culpada por ter permitido esse namoro. Eu no sabia, seno no teria acontecido.
     lvaro sossegou a tia.
      Fizeste bem. Ela, sabendo a verdade, no mais consentir em v-lo. Porm essa intimidade deles pode ter conseqncias.
      Deus meu, que sacrilgio!
      No te preocupes. Se houver um fruto esprio desse pecado, saberei impedi-lo de vir ao mundo. Deus por certo compreender.
      Sim, meu caro lvaro.  uma situao delicada.
     lvaro mostrou-se triste. Diante da tia convinha-lhe o papel de homem bondoso. Mas estava radiante. A vida tinha por si mesmo preparado a vingana que ele desejava. 
Agora por certo poderia vibrar em Carlos o golpe final. No deixou a tia perceber e disse:
      Vou partir o quanto antes. Diante do que aconteceu, no posso mais ter Isadora comigo. Vou intern-la em um convento distante, onde far penitncias para 
que Deus perdoe seu pecado.  o melhor a fazer.
      Sim, lvaro. Louvo tua bondade. Arrependo-me de no ter permitido teu casamento com Maria. Hoje ela no estaria nesta triste situao. s dedicado e sincero. 
Teu amor por ela  verdadeiro. Jamais procuraste outra mulher, apesar de preterido. Fizemos grande injustia contigo. Estou arrependida.
     lvaro sorriu satisfeito. Se tirasse Carlos do caminho, seu casamento com Maria seria questo s de tempo. Para isso, precisava livrar-se de Isadora, o que 
era fcil, e de Carlos, o que haveria de conseguir.
     D. Engrcia, comovida, abraou Isadora na despedida. A menina em lgrimas abraava-a dizendo:
      Adeus, senhora. Aqui passei os momentos mais felizes de minha vida. Jamais esquecerei.
     D. Engrcia, apesar de emocionada, tornou:
      Isadora, sabes que cometeste diante de Deus um pecado mortal. Por isso deves pagar. Pensa na salvao de tua alma e obedece os sbios desgnios de D. lvaro.
      O que deverei fazer?  indagou ela trmula.
      Ele vai internar-te em um convento, quer que tomes o hbito. Assim, servindo a Deus, apagars a mancha de teu pecado.
     Isadora estremeceu. Ela que amava a liberdade, a alegria, a msica, a dana, ser enclausurada num convento? Sua dor era tanta e tal sua desiluso que no tinha 
foras de lutar.
     D. Engrcia continuou:
      Faa isso, minha filha, e tudo se resolver. Obedece a teu padrinho, que s pensa em teu bem.
      Farei o que puder. No sou ingrata.
     D. Engrcia abraou-a, e quando momentos depois foi despedir-se de lvaro, tornou confiante:
      Podes ir em paz. Este doloroso caso est encerrado. Isadora sabe que errou e aceitar tuas determinaes.
     lvaro beijou a tia agradecido. Foi em silncio que ele e Isadora viajaram de volta para casa. lvaro tecia seus planos e tramava a destruio de Carlos. Era-lhe 
fcil agora que a vida encarregara-se de conduzir a tragdia.
     Ele no pensava em internar Isadora em um convento. Mentira para a tia, a quem a religio impressionava. O que ele queria era livrar-se de Isadora, mas us-la 
como motivo de sua vingana. Para isto pretendia que ela fugisse. Conhecia-lhe o temperamento, contava com isso. Por isso, propositadamente, na volta, passou pelo 
acampamento cigano e vendo que Isadora espichava a cabea curiosa disse:
     Tia Engrcia contou-te a verdade, por que teu casamento com Jos  impossvel?
      Sim  disse a menina com voz triste.
      Quisera poupar-te. s filha de Esmeralda, a cigana, e de D. Carlos.  nesse acampamento que ela vive.
     Mil perguntas ardiam no crebro da menina, mas uma tristeza imensa invadia seu corao. Que lhe importava a vida? Queria morrer, nada mais.
      Vejo que nada perguntas sobre tua me. Ela  uma linda mulher. A menina nada disse. Parecia-lhe estar vivendo um pesadelo. Estava abatida e triste.
     No dia seguinte, j na casa de lvaro, este a chamou:
      Hs de convir que depois do que fizeste no podes mais casar ou ficar aqui. Eu contava arranjar-te um marido rico, de boa famlia. Agora isso  impossvel. 
S h um caminho: o convento. Hoje mesmo irei s Carmelitas cuidar de teu ingresso na ordem. Preciso informar-me do dote. Sabes que nada possuis, mas eu estou disposto 
a pagar teu dote no convento. Sei que com isto me desobrigo de teu futuro.
     Quando lvaro saiu, Isadora ficou desesperada. Temia o convento, detestava a vida monstica. De repente, todo seu temperamento ardente rebelou-se. No queria 
ir para o convento. No iria. Seu padrinho estaria fora toda a tarde e ela pretendia fugir. Desaparecer sem que ningum a descobrisse.
     Mas para onde ir? Lembrou-se dos ciganos. Temia-os por certo. Na cidade, contavam-se muitas histrias sobre eles. L morava sua me. Que espcie de mulher seria? 
Teria coragem de expuls-la de seu lado?
     Trmula, Isadora decidiu-se. Arrumou alguns pertences em uma trouxa, apanhou suas parcas economias e escreveu um bilhete para lvaro, onde agradecia tudo quanto 
fizera por ela, pedia perdo por no poder agentar a vida monstica e dizia que nunca mais ela o incomodaria.
     Foi com lgrimas nos olhos que Isadora saiu daquela casa onde tinha vivido toda sua vida. Nem sequer percebeu que ningum lhe interceptou a passagem, no havia 
nenhuma vigilncia como de hbito.
     Uma vez fora, Isadora conseguiu o aluguel de um cavalo que montou e dirigiu-se ao acampamento.
     Chegou ao acampamento ao cair da tarde e seu corao batia forte. Como seria recebida? Nunca tinha visto um acampamento cigano de perto.
     Um grupo de ciganos ria e conversava ao redor de um trip onde havia uma fogueira com gua fervente. Alguns bebiam seu ch costumeiro e Isadora aproximou-se 
temerosa.
     Vendo-a, todos a fixaram assustados. Havia um misto de surpresa e de admirao em cada olhar. Uma mulher falou primeiro:
      Quem s e o que queres?
      Sou Isadora. Procuro por Esmeralda!
     Eles se entreolharam silenciosos, depois a mulher tornou:
      O que queres de Esmeralda?
      Preciso falar-lhe.  urgente. Estou desesperada! Mina, decidida tomou-lhe da mo e disse.
      Vem comigo. Levo-te at ela. De onde saste? Como vieste?
      Aluguei um cavalo que j se foi de volta ao dono. Estou fugindo. Preciso de ajuda.
      Por que Esmeralda?
      Porque acho que ela vai ajudar-me. Mina sacudiu a cabea.
      No sei, no. Aconselho-te a procurar Sergei, nosso chefe.  ele quem decide nossos destinos. Meu nome  Mina.
      Obrigada, Mina. Deus te abenoe.
     A cigana sorriu. Isadora conquistara-lhe o corao. Sua semelhana com Esmeralda e ainda mais com Tnia, me de Esmeralda, deixara-a estarrecida. Por alguns 
momentos, julgou ter Tnia diante de si. O que diria Sergei? Como Esmeralda receberia a filha? Embora nunca ningum comentasse, todos sabiam da existncia de Isadora. 
Sabiam tambm que Esmeralda jamais se interessara pela filha. Mina tornou:
      Esmeralda no te espera. No sei como te receber.
      Ela no me conhece  disse a menina, temerosa , mas ela  minha ltima esperana. Meu padrinho quer encerrar-me nas Carmelitas para sempre. Sei que morrerei. 
No suportarei.
      Com certeza  fez a cigana horrorizada.
      Quero viver livre. Posso trabalhar, fao qualquer coisa, mas no poderei viver no convento.
      Nem vais precisar. Procura Sergei. Vai-te ajudar. Tens em mim uma amiga. Sei que nosso sangue corre em tuas veias. Conta comigo.
     Isadora, corao aos saltos, num mpeto beijou a face da cigana, que se sentiu vibrar de emoo.
       aqui  disse diante da carroa de Esmeralda.  Ela est a,  s chamar.
     Isadora, corao aos saltos, bateu palmas e dentro de segundos Esmeralda apareceu, fixando admirada o rosto da menina.
      Esmeralda  disse ela com voz emocionada , preciso de tua ajuda.
     A cigana olhou-a firme procurando entender o que estava acontecendo. Nunca mais tinha visto a filha desde que lvaro a levara recm-nascida. No a conhecia, 
porm, vendo aquela jovem to parecida com ela, estremeceu.
      O que queres?  indagou sem saber o que dizer.
      Falar-te em particular.
     Esmeralda saltou da carroa e olhou para a menina. Era linda. Vestia-se como uma nobre, mas seu rosto era igual ao de Tnia, sua me.
      s Isadora  disse ela sria.
      Sou  respondeu a menina.
      O que queres?
      Falar-te. Preciso de tua ajuda.
     Vrios ciganos, atrados pela presena de Isadora, tinham-se aproximado e Esmeralda convidou:
      Vem comigo.
     Isadora acompanhou-a para um lugar discreto. A frieza da cigana assustava-a, porm estava disposta a ir at o fim. Sentadas na relva macia, Esmeralda ordenou:
      Fala. O que desejas? Por que me procuras depois de tantos anos?
      Sei de tudo. Sou muito infeliz.
     Isadora contou a Esmeralda seu drama. A cigana estava cega de indignao. O filho de Carlos tinha cometido aquele sacrilgio. O incesto nos meios ciganos era 
punido com a morte. Isadora arrematou:
      Pensei em ti. No me quiseste. No sei a razo. Mas agora quero ficar aqui. Serei cigana, trabalharei, farei o que puder, mas se me encerrarem no convento, 
morrerei. Sei que eles torturam as monjas, tenho medo. Sinto que aqui  meu povo, meu lugar.
     Esmeralda olhou-a e um brilho orgulhoso apareceu em seus olhos. Isadora era bem sua filha. Conjecturou:
      At quando os fidalgos vo tripudiar sobre os ciganos? At quando vo-nos destruir? Onde est Deus, que no pune os responsveis? Carlos deve pagar por isso 
e seu filho tambm.
     Isadora estremeceu:
      Jos no tem culpa. No sabia. Ele quer casar comigo. No sabe que somos irmos. Por favor, deixa-o em paz.
      Tu o amas!
      Sim. Muito. O que posso fazer? S quero ficar aqui, trabalhar, viver.
      No sei  fez Esmeralda pensativa , no quero nada que me atrapalhe a vida. Sou livre e no vou tomar conta de ti. Podes ir para onde quiseres. Nem sequer 
permito que vivas em minha carroa. Porm, se quiseres ficar aqui e Sergei consentir, no impedirei. Mas ters que te arranjar por ti mesma. Esmeralda no tem nenhum 
compromisso.
     Isadora sentiu um aperto no corao. Sua me rejeitava-a. Entretanto, gostara do acampamento. O acolhimento de Mina fizera-lhe bem. Gostaria de ficar.
      Posso procurar Sergei?
      Se quiseres... No posso negar que nosso sangue corre por tuas veias. Se ele consentir, poders ficar.
      Obrigada  fez Isadora apanhando a mo de Esmeralda e beijando-a com gratido.
     Apanhada de surpresa, a cigana no disse nada. Porm seus olhos brilharam um pouco mais ao ver Isadora, decidida, ir  procura de Sergei.
     Mina levou-a at o chefe cigano, que ao v-la empalideceu terrivelmente. Por um instante, pareceu-lhe ver Tnia de volta. Controlou a emoo e ouviu Isadora 
pensativo.
      Senhor, peo-vos para ficar aqui. Quero ser cigana de corpo e alma. Deixei a casa de meu padrinho e quero viver em liberdade. Trabalharei, farei o que quiserdes, 
mas, pelo amor de Deus, deixai-me ficar.
     Isadora ajoelhou-se em frente ao cigano, que, apanhado de surpresa, no sabia o que dizer.
      Isadora  disse por fim , foste educada diferente. Te assemelhas a uma aristocrata. Achas que aprenders e vivers bem aqui?
      Acho. Estou entre meu povo e terei calor e amor. Fui recebida aqui como minha famlia. Parecia que todos me conheciam. Esmeralda no me quer, mas no me repudiou. 
Aqui  meu lugar. Aprenderei a ser cigana e quero viver aqui.
      Seja. Sers uma das nossas. Ficars na carroa com Mina por agora, j que ela te recebeu. Quero que saibas que fao isto em nome de tua av Tnia, a quem 
todos amamos muito. Te pareces muito com ela.
     Isadora, com lgrimas nos olhos, tomou uma das mos de Sergei e a beijou com gratido. O cigano sorriu e havia uma lgrima em seus olhos quando a viu afastar-se 
em companhia de Mina.
     
     
Captulo XXIII
     
     Sentado em uma poltrona, Carlos, olhos fechados, estava pensativo. A um canto, Maria comprazia-se no bordado, enquanto Jos se ocupava em limpar suas armas 
de caa.
     Sua fisionomia era triste e distante. Carlos pensava! Recordava o passado. No se arrependia de ter desposado Maria, porm arrependia-se de ter seguido a cigana, 
de t-la amado.
     Vendo a tristeza e a ansiedade de Jos, sentia-se punido por essa fraqueza. A custo mantinha-o ainda no castelo arrumando pretextos para impedi-lo de sair  
procura de Isadora. Como contar-lhe a verdade? Doa-lhe ser o causador daquela fatalidade, embora involuntrio. O que diria Jos se soubesse de tudo? Por certo o 
odiaria.
     Por outro lado, como impedir que o filho corresse atrs de Isadora?
     A tarde declinava quando, interrompendo o silncio, o servo anunciou a presena de lvaro.
     Carlos empalideceu. A audcia daquele fidalgo no tinha limites.
      No vamos receb-lo  disse Carlos com raiva. Maria considerou:
      No podemos fazer essa ofensa. Afinal, mesmo que no o aprecies, lhe devemos muitos favores. Alm disso,  meu primo.
      Ele disse que  urgente  esclareceu o servo.
      Que entre  resmungou Carlos contrariado.
     lvaro entrou na sala srio, curvando ligeiramente a cabea para os homens com frieza e beijando a mo da prima.
      Ainda bem que os encontro reunidos  disse com voz que denotava certa raiva.
      Assustas-me  disse Maria.  O que aconteceu?
      Uma desgraa!  tornou lvaro com voz dura.  Os dois responsveis esto aqui, juntos.
     Jos, plido, no se conteve:
      Aconteceu alguma coisa a Isadora? lvaro olhou-o com emoo.
      Devias saber o que fizeste e a que venho  retrucou lvaro.
      D. lvaro, amo Isadora e pretendo casar-me com ela. Tenho a honra de pedir sua mo.
     lvaro deu um passo  frente, olhos fuzilando.
      Tarde demais para qualquer soluo. Isadora desapareceu. No sei onde se encontra.
     Jos, plido, de p, tremia assustado.
      Vou procur-la imediatamente. O que houve entre ns foi por amor. Quero-a como esposa, repito. Assim que a encontrar, caso-me com ela.
      No irs  disse Carlos com voz que o temor e a surpresa abafavam.
      Sinto, meu pai, mas no poders deter-me. O dever me chama e o amor  mais forte do que tudo.
     Maria, tomada de pnico, plida, no sabia o que dizer. lvaro parecia arrasado. Com a cabea entre as mos dizia:
      Criei essa menina com desvelos de pai. Era a luz de minha vida de solido. Se tudo suportei calado, a traio e a solido, agora no suporto mais, exijo uma 
reparao. Tenho esse direito.
      Estou disposto a reparar nosso erro. Encontrarei Isadora e seremos felizes.
      Impossvel  gritou Carlos angustiado.  No poders nunca despos-la.
      Porqu?
      Porque ela  tua irm. Eu juro que no sabia que Esmeralda tinha tido essa filha. S h bem pouco tempo eu soube. Por isso no queria que fosses ao encontro 
dela.
     Jos, olhos assustados, olhava-os perplexo, sem saber o que dizer. Maria abraou-o dizendo com voz dorida:
      Calma, meu filho. Coragem.
     Jos, sempre calmo e seguro de si, no conseguiu controlar-se e gritou enraivecido:
      Minha irm?! Como pde acontecer? Por que ningum nos contou a verdade?
      Eu no sabia  disse Carlos sentindo uma dor funda penetrar-lhe o corao.
      Ela sempre foi o retrato da me  tornou lvaro com frieza.  Qualquer um que conhecesse Esmeralda perceberia a semelhana.
     Carlos olhou-o num misto de rancor e dor.
      Julguei que a filha fosse tua. Tambm tiveste ligao com ela. Se a criaste como filha, ela s podia ser tua. Sempre pensei assim.
      Dizes isso agora para te desculpares. Sabes que quando abandonaste Esmeralda grvida eu a amparei, e como ela no queria a filha, propus-me a cra-la. Foi 
um dever de humanidade. Jamais tive ligao amorosa com aquela cigana.
     Jos sentara-se na poltrona, rosto entre as mos. Lgrimas corriam-lhe pelas faces. Maria em p, a seu lado, colocara o brao sobre seu ombro procurando confort-lo.
     Carlos olhou lvaro com raiva. No acreditava que ele tivesse feito aquilo por desespero. Ao contrrio, colocando-se como vtima, pretendia que ele, Carlos, 
aparecesse como vilo.
      J que conseguiste o que querias, agora vai-te  disse Carlos com raiva.
     lvaro empalideceu.
      Expulsas-me? Pois eu vim pedir-te contas a ti e a teu filho. Exijo uma reparao. Tenho esse direito. A honra de Isadora precisa ser vingada! Tudo quanto 
me fizeste, deixei para trs, mas isso foi demais. A vida de Isadora foi destruda. Quem poder devolver-lhe a paz e a honra? Pobre menina, que a estas horas pode 
at estar morta!
     Jos levantou-se de um pulo.
      Se no posso casar com ela, posso proteg-la e defend-la. Vou procur-la.
     Os trs olharam-no admirados. Jos estava plido, porm em seu rosto havia determinao.
      Dai-me uma semana para encontr-la e traz-la de volta. Depois estarei a vossas ordens para a reparao. Podeis escolher as armas, como quiserdes.
     Os olhos de lvaro brilharam.
      J procurei inutilmente. Porm aguardarei uma semana. Depois disso voltaremos a falar. A honra de Isadora exige uma resposta.  E dirigindo-se a Maria, disse 
com voz sentida:  Sinto muito, Maria. Mas a dor de um pai  muito grande.
     Maria olhou-o sem saber o que dizer. Estava entre os dois responsveis pelo sofrimento de Isadora. Quando lvaro saiu, Carlos considerou:
      Tu ficas com tua me. Eu irei  procura de Isadora, afinal sou o pai dela.
      Tarde demais para reconheceres isso, meu pai. Eu irei. Fica com mame. Podes ter certeza de que saberei encontr-la.
      O que vai fazer?
      Devolv-la ao padrinho, se ele aceitar. Ou ento, quem sabe, se ele no quiser, lev-la  vov Engrcia. Ela a ama e por certo no se recusar a receb-la. 
Deus h de me ajudar. No posso deix-la jogada no mundo.
      Onde ter ido?  indagou Carlos com sincera preocupao.
      Pobre menina  disse Maria.
      Partirei ao amanhecer. Hei de encontr-la.
     Carlos sentia um peso imenso invadir-lhe o corao. O que tinha feito de sua vida? Por mais que quisesse apagar o passado, ele surgia a cobrar-lhe contas, punindo-o 
por sua leviandade.
     Cabisbaixo, deixou-se cair numa cadeira e cobriu o rosto com as mos. No tinha coragem de olhar para os filhos depois disso. Tudo quanto lhe restava na vida 
era o amor da famlia. Agora, achava que eles o iriam odiar. Sentia-se culpado.
     Jos, plido, abraou a me, cujo rosto no escondia a preocupao.
      Vou arrumar minhas coisas. Parto ao amanhecer. Hei de encontrar Isadora.
     Maria apertou-o nos braos.
      Sinto muito, meu filho. O destino urdiu sua trama. Sei o quanto sofres, mas agora o que importa  amparar a pobre menina, vtima inocente de tudo isso.
      Hei de conseguir  disse o moo com voz firme.
     lvaro saiu do castelo vibrando de alegria. Seu odiado rival pagara caro por sua traio. Desta vez era preciso afast-lo de seu caminho para sempre, sem despertar 
suspeitas.
     Tinha um plano. Precisava ver Esmeralda. Tomou o cavalo e dirigiu-se ao acampamento. Sabia que estavam perto de Valena preparando-se para as festas da cidade. 
Estava escurecendo quando chegou ao acampamento.
     Foi direto  carroa de Esmeralda, que se surpreendeu com sua presena.
      Se vens buscar Isadora, ela no est comigo  foi dizendo a cigana, impaciente.
      Enxotaste-a?
      No tenho nada com ela. No a quero comigo. Mas Sergei deixou-a ficar. Mina acolheu-a. Tu a levaste e prometeste cuidar dela. No aceito que a devolvas. No 
quero problemas em minha vida.
     lvaro deu de ombros.
      Cumpri o prometido e a eduquei como uma nobre. Ela quis deixar-me, no posso obrig-la. Prefere ficar aqui, no vou impedir. Afinal, ela tambm  cigana. 
O que me traz aqui  outro assunto.
     lvaro relatou a Esmeralda a cena de momentos antes. Ela sorriu satisfeita.
      O patife est recebendo o que merece.
      Agora  continuou lvaro  chegou o momento de acabarmos com ele. Preciso de tua ajuda. Ters esse prazer.
     Os olhos da cigana brilharam.
      O que pensas fazer? lvaro baixou a voz:
      Atra-lo para as festas em Valena. Isadora deve danar. Ele por certo vai-te procurar. Precisa acreditar que a menina est contigo. Depois, tu sabes como 
trat-lo, e o resto  por minha conta. Numa festa dessas,  muito fcil "desaparecer" com uma pessoa sem que ningum perceba. Desta vez Carlos sair de nosso caminho 
para sempre!
      No h necessidade de mat-lo  disse Esmeralda.  Ele j est destrudo. Sofrer o desprezo dos filhos e da mulher. Estou vingada!
     lvaro segurou o brao de Esmeralda com fora.
      No os vistes juntos! Abraados, felizes. Maria no o culpa. Ela o defende. Nem Jos o culpou! Logo eles esquecero e estaro felizes! Ns  que ficamos sozinhos 
e tristes! Eu ainda quero Maria! Preciso tirar Carlos de meu caminho! Ela me estava aceitando quando ele voltou. Enquanto ele viver no poderei ser feliz! Tu ainda 
o defendes! Ainda o amas com certeza.
     Esmeralda trincou os dentes com raiva.
      Eu o odeio! Se o quero poupar,  porque acho que ele deve sofrer mais.
      Depois, alm de tudo, tenho as jias de famlia, que so muito valiosas. Se me ajudares, te farei presente delas e poders viver bem o resto de teus dias. 
Sers rica!
     Os olhos da cigana brilharam de cobia.
      Seja!  disse decidida.  Vou provar-te que h muito no amo aquele patife.
     lvaro sorriu satisfeito. Tinha todo um plano em mente e desta vez no ia falhar.
     Saiu do acampamento satisfeito, antegozando sua vitria. No viu que um vulto escuro e sinistro, olhos afogueados, peito perfurado por uma ferida, o seguia 
satisfeito.
     J fazia uma semana que Isadora estava no acampamento e procurava adaptar-se corajosamente  nova vida. Envergara a roupa das mulheres do bando, deixando de 
lado seu vestido cheio de rendas e babados pelas saias coloridas e amplas, a blusa simples, a sandlia de couro de cabra. Soltara os lindos cabelos e enfeitara-se 
de colares e pulseiras, que sua juventude inspirava.
     Sua beleza, sua postura, seu sorriso franco e agradvel, sua semelhana com Tnia, sua av, que era recordada com amor pelos mais velhos, granjearam-lhe a admirao 
e o respeito do bando.
     Era com dobrada emoo que Sergei a olhava circulando pelo acampamento, procurando ajudar nas tarefas mais rudes.
     Ela estava disposta a esquecer sua vida passada. Seu amor impossvel, seu erro, do qual no se sentia culpada. Fora a fatalidade. Era jovem, queria ser feliz. 
Ter vida nova. Escolhera seu povo, sua gente. Jamais fora aceita no meio da nobreza. Mesmo aqueles que a recebiam, declinavam sempre sua condio de rf, criada 
por caridade, sem nome de famlia ou bens de riqueza.
     Ali, no. Podia ser amada como ela era. Tinha valor como pessoa. Falavam de sua av com carinho e saudade. Sua me no a queria, mas, com o tempo, quem sabe, 
talvez elas pudessem conhecer-se melhor e estabelecer amizade. Essa era a melhor soluo. Depois, ela sentia-se bem entre os ciganos, livre e sem repreenses. Podia 
danar! Essa era sua paixo. Sempre fora proibida. D. lvaro no suportava que ela danasse. Ali, no. Aplaudiam-na com jbilo. Faziam-na repetir vrias vezes e 
entusiasmados queriam que ela danasse com eles nas festas.
     Entre os mais entusiastas, Rino, filho de Sergei. Alto, moreno, forte, era to bom na guitarra, que tocava com maestria, quanto na dana! Era disputado pelas 
mulheres, fascinadas por seus olhos verdes e magnticos, por seu sorriso de dentes maravilhosamente brancos e bonitos. Ele no as levava a srio, interessando-se 
mais pelo bem-estar do bando, o qual deveria comandar depois que o pai morresse, se fosse aceito por eles.
     O mesmo respeito que devotavam a Sergei, eles o transferiam para Rino, prncipe da raa, de pulso firme mas corao justo e aberto.
     Foi com entusiasmo que resolveu treinar Isadora para as festas e comearam os ensaios.
     Isadora, apesar da dor que lhe ia na alma, das saudades de Jos, sentia-se bem com esse carinho que jamais tivera e essa admirao.
     Vrias vezes percebeu Esmeralda olhando-a danar, fisionomia dura, sem dizer palavra. O que se passaria na alma dessa mulher orgulhosa?
     Apesar de tudo, Isadora admirava-a, vendo-a to bela e to amada pelos seus. Ainda no compreendia bem a alma cigana, mas podia perceber que havia muito amor 
entre as pessoas, pais e filhos, e que a situao de Esmeralda no era ali um costume.
     A cada novo dia Isadora sentia-se mais adaptada e tinha esperana de poder esquecer e ser feliz. Chegaram a Valena e Isadora pensou em Jos. Saberia a verdade? 
Esperava tambm que ele esquecesse e fosse feliz. Ele era bom e nobre. Deus o ajudaria.
     O dia da festa amanheceu claro e bonito. Era primavera. Esmeralda levantou-se cedo e saiu. Caminhou rpida at a cidade e dirigiu-se ao mercado, onde havia 
desde comida, bebidas, enfeites, roupas, esporas, at animais dos mais variados.
     Sem perturbar-se com os gracejos dos mais impetuosos, olhava por todos os lados  procura de algum. Ela sabia que Incio ia todos os sbados quele mercado, 
prover as necessidades do castelo. Dois servos sempre o acompanhavam. Finalmente sorriu. Viu-o a um canto negociando algumas aves.
     Aproximou-se como ao acaso. Incio, vendo-a, assustou-se. Temia aquela mulher. Resolveu ir-se embora, mas ela olhou-o firme.
      No esperava encontrar-te to cedo.
      ... mas j estou indo embora  disse ele admirado, porque Esmeralda nunca lhe dera muita ateno, a no ser para reclamar de seu amo.
      Vejo que comprou aqui nesta tenda. O preo  bom? Estou s compras.
        disse Incio ansioso por retirar-se.  Nunca vos vi fazendo compras  disse ele ainda admirado.
      . Agora venho. O que no far uma me pela filha? Agora que estamos juntas, quero recuperar o tempo perdido.
     Incio no escondeu a curiosidade.
      D. Isadora est convosco? Esmeralda suspirou:
      A quem podia ela recorrer seno a mim? Depois do que lhe aconteceu, a pobrezinha procurou-me e agora est entre os nossos. Hum! Esta perdiz  magra e ossuda. 
No vou comprar. Vou procurar outra. No diga a ningum que me viu. Adeus.
     A cigana desapareceu e Incio, alvoroado, ultimou as compras e voltou ao castelo o mais rpido que pde.
     A tristeza era grande depois que Jos tinha partido  procura de Isadora. Apesar de tudo, Maria no culpava Carlos e isso fazia-o sentir-se mais culpado. Andava 
triste e pensativo.
     Maria, embora guardasse tristeza e decepo, procurava confort-lo, dizendo-lhe que ningum teria podido prever a difcil situao em que se encontravam.
     Incio chegou ao castelo eufrico. Procurou Carlos, foi encontr-lo pensativo e s.
      D. Carlos, trago novidades. Carlos ergueu a cabea interessado:
      Encontrei a cigana Esmeralda no mercado s compras. Ela me disse que a menina Isadora est com ela.
     Carlos deu um salto.
      No acampamento?
      Sim. A menina a procurou desesperada e ela a acolheu.
      Por que no pensei nisso antes? Claro! Isadora sabe de tudo, foi  procura da me! Vou procur-la.
      No deveis fazer isso, D. Carlos.  perigoso. A cigana pediu que no vos dissesse nada. No acho prudente ir l!
      Nunca tive medo.
      Por que no vais  noite na festa? Podereis v-la e falar-lhe sem que ningum atrapalhe.
      ,  melhor. Irei  noite.
     O corao de Carlos batia descompassado no peito ao chegar na praa em meio aos festejos e  alegria das pessoas. Queria falar com a filha, pedir-lhe perdo, 
dar-lhe um dote que a preservasse das agruras da vida. Ela no tinha sido educada como cigana. Por certo haveria de odiar essa vida. Estava ali por necessidade. 
Se tivesse para onde ir, retirar-se-ia imediatamente. No acreditava no tardio amor de Esmeralda pela filha. No a podia ter em sua casa, mas esperava acomod-la 
com D. Engrcia, conforme sugerira Jos.
     L, seria conduzida a um bom casamento que um dote sempre consegue estimular e tudo estaria resolvido.
     Olhando a beleza da noite, o bulcio das ruas e da msica, Carlos no pde deixar de recordar-se da noite em que pela primeira vez encontrara Esmeralda. Que 
emoo! Quantos sofrimentos esse amor lhe trouxera! No podia evitar a avalanche de lembranas a envolver-lhe o corao e a saudade imensa daqueles idos de 1812.
     Em meio  multido, estava mais no passado do que no presente, quando os ciganos comearam sua alegre representao.
     Carlos, entre as lembranas do passado e as necessidades do presente, viu as ciganas danando e havia uma, de beleza invulgar, leve como uma pluma, que danava 
com elegncia e apuro, esquentando no sapateado, arrancando ols e aplausos entusiasmados, e Carlos susteve a respirao: era Isadora!
     Sentiu cime. Vontade de arranc-la dali, onde achava que ela se estava expondo. Iria falar-lhe.
     Ela voltou  cena inmeras vezes, saindo por trs da cortina da barraca  guisa de palco, e Carlos decidiu-se a procur-la.
     Em um local discreto, entre os populares, lvaro observava satisfeito. Finalmente destruiria o odiado rival. Finalmente. Tinha tudo preparado para isso. Olhava 
Isadora danando e reconhecia-lhe a beleza e a elegncia. No tinha remorsos, dera-lhe sustento e educao. Ela agora que cuidasse de si mesma.
      Buena dicha, senhor?
     lvaro olhou a cigana e estremeceu:
      Lembro-me de ti. Fizeste uma previso que jamais se cumpriu. Aqui mesmo. O que tens para hoje?
     A cigana tomou-lhe a mo e olhando-o sria tornou:
      Digo-vos a mesma coisa. Cuidado com vossa escolha. H dois caminhos: um de paz e tranqilidade, outro de sangue e de morte. Tudo por causa de uma mulher.
     lvaro tentou sorrir, mas estava apreensivo.
      Deveis desistir enquanto  tempo. Antes que seja tarde.
     A cigana olhou-o nos olhos e lvaro pde ver uma lgrima enquanto ela dizia:
      Peo-vos pelo amor de vosso Deus que vos retireis agora para vosso castelo e no volteis nunca mais.  a nica forma de evitar a grande desgraa.
      Ora, suas desgraas! No creio nelas. Deixa-me em paz. A cigana saiu triste e lvaro irritado pensou:
      No vou desistir agora por causa dessa besteira!
     Viu quando Isadora terminou e Carlos saiu a sua procura. Era o momento. Fez o sinal combinado e quando Carlos foi por trs da tenda em busca de Isadora, dois 
homens fortes seguraram-no pelo brao colocando a ponta de um punhal em suas costas.
      Quieto, seno mato-te como a um coelho.
      O que quereis? No trago ouro nem prata
      Anda calado. Ao menor gesto, mato-te.
     Carlos caminhou para a frente at um bosque, onde o empurraram para dentro de tosca casa de madeira. Fizeram-no sentar-se em uma cadeira e amarraram-lhe as 
mos e os ps com uma corda.
     Carlos percebeu que estava  merc daqueles homens. Uma suspeita leve comeou a apontar e aos poucos foi tomando corpo. Pensou em lvaro. Teria ele intenes 
de vingar-se?
     A resposta veio logo depois, quando lvaro entrou na cabana. Seu rosto contrado retratava o que lhe ia na alma. Finalmente o odiado rival estava em suas mos!
     Podia t-lo mandado matar simplesmente, mas queria antes saborear sua vingana at o fim. Aproximou-se de Carlos com arrogncia.
      Chegou a hora do juzo  disse com raiva.  Pagars por tudo quanto me fizeste.
     Carlos olhou-o srio.
      Tua raiva te afogar  disse tentando aparentar calma. Sentia-se em perigo e desejava ganhar tempo.
     - Hoje sairs definitivamente de meu caminho. Maria ser livre. Tu ma roubaste, mas ela ainda ser minha! Carlos enrubesceu de raiva.
      Maria  minha esposa. No tens o direito de desej-la. lvaro riu nervosamente.
      Tenho mais direito ao amor de Maria do que tu. Se no a tivesses envolvido, ela se teria casado comigo. Sabias que eu a amava! Mesmo assim a conquistaste.
      Ela nunca te amou!  disse Carlos, tentando entret-lo e pensando como poderia escapar daquela situao.
     Nesse instante a porta abriu-se e Esmeralda entrou. Carlos olhou-a admirado. lvaro voltou-se para ela.
      No precisavas ter vindo. Eu resolvo a situao em definitivo.
      Tambm quero v-lo pagar pelo que fez. Carlos estremeceu.
      Se formos s contas com justia, s to culpada quanto eu. Envergonho-me de meus atos passados. Mas  tarde agora para arrependimentos. No sabia que tinhas 
uma filha. Por que no me contaste?
     Esmeralda, parada frente a ele, olhava-o com olhos faiscantes.
      Nunca. Se me amasses, terias ficado comigo para sempre. Uma filha que eu no queria no teria modificado teu corao.
      Esmeralda  disse Carlos com voz comovida , gostaria de falar-te a ss.
      Para qu?  indagou  cigana.
      H muitas coisas a dizer. Nossa filha precisa de amparo. Estou disposto a cuidar de seu futuro. Ampar-la.
      Ela agora  dos nossos e no precisa de ti  respondeu a cigana com altivez.
      O tempo urge. Despede-te dele  disse lvaro com deciso. Esmeralda fixou os olhos de Carlos e disse firme:
      Adeus Carlos. Desta vez  para sempre. Estou vingada! lvaro acompanhou a cigana enquanto Carlos chamava-a de volta com insistncia.
     Do lado de fora a cigana indagou:
      O que vais fazer?
      Dar cabo dele o mais rpido possvel.
      Melhor seria que o levasses para longe daqui. Essa morte pode causar problemas aos nossos. No quero encrencas com os esbirros do rei.
      Sei fazer as coisas. Deixa comigo.
      Ests em perigo. Vim para avisar-te.
      Por qu?
      Incio. Ele procura pelo amo e viu-o entrar atrs da tenda dos ciganos. Disse-me que estava preocupado, porque tu estavas aqui. Se contar isso a Maria, ela 
nunca te aceitar. Se ela desconfiar de ti, ters perdido a parada.
     lvaro ficou alguns instantes pensativo.
      Tens razo. Vou ficar na festa a noite toda. E, enquanto isto, mando meus homens realizarem sua tarefa bem longe daqui.
     lvaro chamou os homens, dando-lhes algumas ordens em voz baixa e depois voltou com Esmeralda para a festa.
     Incio, contudo, estava muito preocupado. Seu amo tinha desaparecido. Procurou por Isadora, confiando-lhe seus receios.
     - No sabeis, mas a histria vem de longe. D. Carlos veio aqui para falar-vos. Ao entrar atrs da tenda, desapareceu. D. lvaro estava a e eu temo que ele 
tenha armado alguma trama para meu amo.
      Para qu? Ele pouco se importa comigo. Esteve no acampamento e nem sequer quis me ver. No me quer de volta.
      O que ele quer  vingar-se de D. Carlos por ter-se casado com D. Maria, a quem ele queria e quer. Tenho medo dele. Sei o quanto odeia meu amo.
      Tens certeza de que ele no voltou para o castelo?
      Tenho. Ele veio para falar-vos. No iria antes disso. Ficou preocupado quando lhe contei que estavas morando com Esmeralda.
     Isadora olhou-o admirada.
      Como soubeste?
      Encontrei Esmeralda s compras no mercado. Ela contou-me tudo. Eu contei a D. Carlos.
     Isadora sobressaltou-se. Por que Esmeralda teria mentido? Assustada, a moa comeou a desconfiar que havia mesmo uma trama no ar.
      Tens certeza de que ele desapareceu mesmo, quando entrou atrs de nossa tenda?
      Tenho. Eu o vi entrar e vim atrs, mas quando cheguei, ele tinha desaparecido.
      O que podemos fazer?
      Miro. Ele pode ajudar-nos.
      Tens razo. Vamos.
     Miro encontrava-se do outro lado da tenda e vendo-os aproximar-se perguntou srio:
      O que foi?
     Incio contou-lhe o que tinha acontecido e Miro ouviu preocupado.
      Carlos no devia ter vindo. Olha, l est D. lvaro.
     De fato, lvaro entretinha-se em um grupo com uma caneca de vinho na mo. Esmeralda danava na rua e o pblico aplaudia em delrio.
      Verei o que posso fazer  disse Miro procurando esconder a preocupao.
     Quando Esmeralda terminou sua dana e voltou para a tenda, Isadora esperava-a.
      Preciso falar-te  disse a moa com firmeza.
      O que queres?
      Quero pedir tua ajuda. Meu pai desapareceu. Deves saber o que lhe aconteceu.
      No sei nada. So histrias. Isadora segurou a cigana pelo brao.
      Sei que D. lvaro odeia meu pai e quer vingar-se. No manches tuas mos com essa ndoa.
     Um lampejo de emoo passou pelos olhos da cigana.
      Por que o defendes? Ele jamais te amou ou te acolheu. Preferiu outra mulher e nos deixou.
      Cada um tem o direito de escolher seu caminho. Ele nem sequer sabia que era meu pai. Vim pedir-te que o perdoes. No compreendes por que ele te deixou?
     Esmeralda olhou-a admirada. - O que sabes destas coisas?
      Sei o suficiente. Sei que o amaste. Sei que ele te amou. Mas ele no conseguiu viver como cigano. Era um fidalgo e no pde compreender nossa vida. Se fosses 
da nobreza ou ele, cigano, jamais vos tereis separado.
     Esmeralda deu de ombros.
      Por que me dizes estas coisas? Agora  tarde. Ele vai pagar por seus erros!
     Isadora sentiu a emoo crescer dentro de si.
      Como podes falar assim? Como podes chegar a tal ponto? A vingana  um ato de orgulho e de revolta. Peo-te pelo amor de Deus que nos ajudes a encontr-lo.
      Preferia que ele ficasse preso pelo resto da vida.
     Isadora estremeceu sob forte emoo. Seus olhos estavam cheios de lgrimas quando disse:
      Jamais te pedi nada. O amor que no me deste, o amparo que eu precisava, nem sequer te pedi po. Reconheo que tens o direito de escolher se me queres amar 
ou no, se queres ser minha me ou no. No te culpo por minha orfandade, pela tristeza e por minha solido. Jamais serei um peso para ti. Ainda assim, tenho orgulho 
de ti, eu te amo porque s minha me e deste-me a vida. No sers feliz carregando o remorso na conscincia. Perdoa meu pai, ajuda-me a encontr-lo e eu juro que 
jamais te incomodarei pedindo qualquer coisa para mim. Se sabes onde ele est, dize-me. Quero ajud-lo.
     Esmeralda olhava-a, olhos brilhantes, e aproximando-se da filha, passou a mo cheia de anis sobre os cabelos de Isadora.
      s linda. Eu tambm me orgulho de ti. Se podes me amar apesar de tudo que eu te fiz, talvez eu possa tambm esquecer.
     Isadora tomou a mo da cigana e beijou-a com carinho.
      Ajuda-me e Deus te abenoar.
      Deixa comigo. Podes ficar tranqila que nada de mal acontecer a ele.
      Quero ajudar.
      No quero que te envolvas. Vou salvar Carlos.
     Isadora saiu dali e Miro esperava-a. A menina contou tudo. O cigano acalmou-a.
      Hoje conseguiste mais com Esmeralda do que eu durante tantos anos. Fizeste bem. Agora deixa o caso comigo. Esmeralda disse, Esmeralda faz. Podes confiar. 
Vai, esquece o que passou. Assim que tiver novidades, virei contar-te.
     A festa continuava animada e o povo bebia e brincava pelas ruas apinhadas. Passava da meia-noite quando Esmeralda saiu disfaradamente, caminhou at a cabana 
onde Carlos estava preso. Os homens tinham-no feito levantar-se e desataram suas pernas.
      Agora, vamos dar um passeio  disse um deles.  Prepara-te para andar em silncio. Se abrires a boca, mato-te.
     Carlos sentiu o corao bater forte. Estava perdido. A porta abriu-se e apareceu Esmeralda. Os homens olharam-na admirados. A cigana parecia alegre e rindo 
aproximou-se deles.
      Estou festejando  disse.  Trouxe um gole. O vinho esquenta e alegra. Hoje estou muito feliz. Vim beber a essa despedida.
     Os homens olharam-na divertidos. A beleza da cigana os estimulava. Ela tirou uma garrafa da saia e procurou algumas canecas que havia sobre a mesa tosca. Encheu-as 
e deu-as aos dois homens tomando uma para si.
      Bebamos  morte do traidor!
     Os dois homens ingeriram o vinho satisfeitos e nem sequer perceberam que a cigana simulava beber.
     Apesar da aparente animosidade da cigana, Carlos sentiu uma louca esperana invadir-lhe o corao. Dentro em poucos minutos os dois homens dormiam estirados 
no solo. Esmeralda, atirando longe a caneca de vinho, disse a Carlos:
      Vou libertar-te. Mas nunca mais quero ver-te.
      Esmeralda! Tu ainda me queres! No foste capaz de matar-me.
       mentira  disse a cigana com raiva.  Foi Isadora quem pediu por ti. No te amo mais.
      Eu sempre guardarei por ti o maior carinho. Jamais te esqueci. Nossos caminhos so diferentes. No posso ficar contigo. Tenho deveres de famlia. Gostaria 
que no me odiasses, que me compreendesses.
     Esmeralda apanhou uma faca e comeou a cortar as cordas que prendiam os braos de Carlos. De repente, a porta abriu-se e um grito de dio ecoou no ar.
      Maldita cigana! O que fizeste? Se pensas que poder deix-lo escapar, ests enganada! Desta vez ele est perdido. No voltar para casa.
     lvaro puxou um punhal e ordenou a Esmeralda:
      Sai da frente, afasta-te que eu mesmo vou fazer o servio. Desta vez ele no escapar!
      No saio. Deixa-o em paz. No quero manchar minhas mos de sangue.
      Afasta-te, seno pagars por isso.
      Deixa-o, Esmeralda, sai  disse Carlos apavorado, tentando libertar-se das cordas que ainda o prendiam.
     Esmeralda cobriu o corpo de Carlos com seu prprio enquanto dizia:
      Sai daqui, lvaro. Maria saber de tudo e te odiar.
      Nada mais importa agora. Vou mat-lo custe o que custar. Esmeralda empunhou a faca ordenando:
      Sai daqui.
      No poders impedir-me.
     Determinado, avanou para Esmeralda pretendendo tir-la da frente, mas a cigana, decidida, tentou alcan-lo com a faca. lvaro avanou e Esmeralda engalfinhou-se 
com ele rolando pelo cho enquanto Carlos, trmulo, lutava para soltar-se.
     lvaro espumava, furioso e, num assomo de raiva enfiou o punhal nas costas da cigana, que estremeceu enquanto o sangue jorrava. Foi nessa hora que um vulto 
enorme caiu sobre lvaro e ele sentiu a lmina fria perpassar-lhe o corpo. Percebeu que estava no fim. Viu, por ltimo, o rosto contrado de Miro bem perto do seu.
     Carlos, plido, esforava-se para no perder os sentidos diante da cena dolorosa. Miro correu para Esmeralda, que gemia estendida no cho. Incio correu para 
libertar o amo.
     Carlos atirou-se sobre a cigana.
      Esmeralda! Eu te amo! Jamais esquecerei o que fizeste por mim! Ela abriu os olhos, fixou-os no rosto de Carlos e seus lbios abriram-se num meio sorriso.
      Eu tambm te amo  disse com voz sumida.  Sempre te amei. Jamais pensei em outro homem.
     As lgrimas de Carlos caram sobre as mos da cigana que ele detinha entre as suas.
      No chores  pediu ela.
      Vais ficar boa. Vers. Vou cuidar de ti.
      Cuida de Isadora. Faze-a feliz.  uma boa filha. Dize-lhe que eu a amo muito.
     Uma tosse seca impediu a cigana de falar e Miro interveio:
      Vou cuidar de ti.
     Esmeralda desfalecera. Miro prensou o ferimento, fez uma maa com o lenol da cama. Foi carregando a cigana ferida que eles voltaram ao acampamento.
     A notcia correu clere e dentro em pouco os ciganos retiraram-se apressadamente da festa. Assustados, regressaram ansiosos por notcias.
     Contudo, aquela noite de festas foi de tristeza e dor no acampamento. Em sua carroa, deitada sobre almofadas, Esmeralda, plida e sem foras, agonizava.
     Isadora, com o rosto cheio de lgrimas, ajoelhada a seu lado, segurava-lhe as mos geladas, procurando em vo aquec-las.
     Carlos, plido e sofrido, ajoelhado tambm  cabeceira, alisava-lhe a fronte e os cabelos com amor.
     Miro, a um canto, rezava em silncio, rosto contrado em rictos de dor.
     A certa altura, Esmeralda abriu os olhos e vendo-os a seu lado ensaiou um sorriso.
      Me, tu ficars boa. Cuidarei de ti. Jamais te deixarei, se me quiseres.
      Filha  disse a cigana com voz fraca , lutei muito contra esse amor. Eu tinha medo. No queria te amar. Foi mais forte do que eu! Quero-te muito. No vou 
mais lutar. S que agora  tarde.
      No vais morrer - disse Carlos com voz dorida.  Tu s a prpria vida. Ainda levars a alegria e a beleza para todos. Esmeralda! Perdoa-me! Nunca desejei 
que sofresses! Eu ainda te amo. Nunca nenhuma mulher ocupou teu lugar em meu corao. Sempre te amarei.
     Uma lgrima brilhou no olhar de Esmeralda.
      Acredito. Jamais consegui esquecer-te. Ainda quando te odiava, eu sentia cime e desejava teu amor!
      Devo-te a vida. Farei o que quiseres. Sinto-me culpado pela tragdia...
      No tens culpa. Meu orgulho foi o culpado... aceitei a proposta de lvaro... filha, apesar de tudo, agradeo-te no ter cometido esse crime.. . Deus te abenoe... 
estou to cansada...
      Dorme, Esmeralda  disse Miro com voz dorida.  Velaremos por teu sono.
     A cigana esboou um sorriso e seus olhos fecharam-se para sempre. Estava morta.
     Carlos debruou-se sobre a cigana soluando. Isadora abraou-o comovida e ambos ficaram ali, sentindo aquela dor, mas ao mesmo tempo compreendendo, no fundo 
do corao, que fortes laos de amizade e de afeto uniam-nos para sempre.
     Entretanto, um vulto escuro e dementado, com o peito sangrando e ar enraivecido acercou-se da carroa de Esmeralda. Era Fabrcio. Estava furioso! A vingana 
to bem urdida tinha falhado. Carlos sempre levava a melhor. Por qu?
     Ele lhe tinha tirado a vida e precisava pagar! Precisava destru-lo. Iria atac-lo de vez. Preparou-se para entrar na cabana. Contudo, sentiu que braos fortes 
o detinham. Olhou assustado. Os ciganos no o podiam ver, a no ser uma delas, que sempre o exortava a ir embora.
      No podeis impedir-me  disse ele com raiva.
      Vamos conversar primeiro  respondeu-lhe um dos homens. Fabrcio olhou-o preocupado.
      Quem ? E o que quer?
      Somos da vigilncia. Teu tempo acabou. No podes mais perseguir D. Carlos.
      O que dizeis? No sabeis que ele  um assassino? No percebeis que tenho direito a justia?
      Se queres justia, podes estar seguro de que ela j est sendo feita.
      No  verdade! Ele tirou-me a vida e ainda agora acaba de escapar  morte! Eu o esperava para nosso ajuste de contas!
     Os dois espritos que o continham olhavam-no com firmeza. O que conversava com Fabrcio continuou:
      Gostaria de dizer-te que D. Ortega e seus homens h muito tempo te procuram e tambm desejam um ajuste. Ests preparado?
     Fabrcio aterrorizou-se.
      No quero v-los! Por favor, ajudem-me!
      Podemos ajudar-te desde que deixes de lado a vingana e te coloques sob nossa proteo. Mas  preciso, antes, pedir a ajuda de Deus e reconhecer o quanto 
tens errado.  preciso deixar em paz Leonor e Gervsio.
     Fabrcio irritou-se.
      Aquela traidora! Gostaria de mat-la com as prprias mos, bem como aquele bandido disfarado de padre! Ah! Se eu pudesse!
      Deixa-os em paz. Eles agora so uma famlia. Gervsio ama aos dois filhos e a Leonor. Desertou da Igreja. Assumiu o lar. Embora estejam lutando com muitos 
problemas, esto aprendendo as lies da vida. No foste justo nem bom para ela, que foi afastada de ti porque no merecia o que lhe fazias. Por ora, procura esquecer 
o dio e recomear a vida de outra forma para que no te acontea coisa pior!
      No posso! O destino foi contra mim. Destruiu tudo quanto eu quis. Como esquecer?
      E tu, quantos enganos cometeste contra os outros? Acreditavas que eles nunca se voltassem contra ti? Estavas enganado, porque as leis de Deus daro sempre 
a cada um o que merece, de acordo com suas obras.
     Fabrcio, subitamente, sentiu-se fraco e abatido.
      Estou cansado! Esta ferida no sara! O sangue escorre sem parar. Sinto-me morrer de novo.
      Vamos orar  props o outro vigilante espiritual, e Fabrcio, j na semi-conscincia, concordou dizendo:
      Que Deus me perdoe por meus pecados e me ajude! Cambaleou e ia cair, mas imediatamente surgiram duas enfermeiras que, estendendo uma maa, colocaram-no delicadamente 
deitado sobre ela e, a um sinal dos dois vigilantes, levantaram-na. Dentro em pouco desapareciam do local.
     Os dois vigilantes voltaram a postar-se na porta da carroa.
     Entretanto, no acampamento havia pranto e lamentaes. Esmeralda tinha morrido!
     Com amor e carinho, prepararam o cerimonial, e apesar da madrugada, eles procuraram flores para envolver-lhe o corpo, enquanto os homens armavam a cmara ardente 
no meio do acampamento.
     Quando o dia amanheceu, Esmeralda, vestida com seu mais belo vestido, coberta de jias e seus lindos cabelos soltos, estava no caixo simples porm coberto 
por dentro e por fora de flores do campo.
     Era primavera e ela estava linda, parecendo apenas dormir. Carlos no arredara p e Incio tinha ido ao castelo levar notcias.
     Isadora, debruada sobre o corpo de Esmeralda, fixava seu rosto com ternura, procurando guardar-lhe a beleza e ainda tinha viva a lembrana do brilho daqueles 
olhos ao confessar que a amava. Ela sentia vibrar seu corao amoroso, na tristeza de uma separao, justamente na hora em que esse afeto se tinha manifestado.
     Apesar disso, sentia-se confortada. Conquistara o amor de Esmeralda! Guardaria para sempre essa terna recordao!
     Sergei, triste e pensativo, deu incio ao cerimonial fnebre enquanto as mulheres choravam com os olhos, cantavam tristes lamentos que prosseguiram at o amanhecer 
e o sol apareceu para banhar a paisagem de luz.
     Os cnticos prosseguiram durante todo o dia, e ao entardecer, um a um, beijaram o rosto da cigana e procederam ao sepultamento.
     Sergei conversou com Esmeralda, pedindo-lhe que sua alma seguisse em paz porque sua morte fora vingada.
     Escolheram um local belssimo e cheio de flores, onde cavaram a sepultura. Depois de tudo terminado, marcaram o local com um sinal para mais tarde colocar uma 
lembrana que ficaria para sempre.
     Foi com tristeza que Carlos abraou Isadora.
      Filha, vem comigo. Eu sou teu pai e te protegerei. Perdoa Jos. Ele no sabia de nada.
     A jovem olhou para o pai com olhos brilhantes.
      Agradeo-te. Nada tenho a perdoar. Nem a ti nem a Jos. Foi a fatalidade. Esqueces que eu sou tambm cigana. Gosto desta vida. Aqui encontrei proteo e amizade. 
Gosto de danar. Serei feliz. Segue tua vida em paz. Diz a Jos que o amo muito, mas agora como a um irmo. Que ele no se atormente com o que aconteceu. Desejo-lhe 
toda a felicidade deste mundo. Ele h de encontrar uma boa mulher que o far feliz. Eu tambm encontrarei algum. Quero esquecer, peo-te que me compreendas.
       verdade?  tornou Carlos com doura.   o que queres mesmo?
      Sim.
      Lembra-te sempre, filha, que eu te quero muito e se algum dia precisares de mim, chama-me e virei imediatamente.
      Agradeo-te.  Isadora olhou-o com doura e aproximando-se beijou-o levemente na face.  Quando sentires saudades dela, vem ter comigo e me contars sobre 
ela e juntos nos confortaremos.
     Carlos abraou-a com carinho e, beijando-lhe a face, disse baixinho:
      Deus te bendiga, minha filha, e te faa muito feliz. Virei ver-te de quando em vez.
     Carlos afastou-se e procurou por Miro, que, abatido e triste, estava sentado frente  carroa de Esmeralda.
      Miro  disse Carlos com voz triste , perdoa-me. No queria prejudicar Esmeralda. Foi a fatalidade. No me odeies pelo que aconteceu. Se eu soubesse, no 
teria vindo para c.
     Miro olhou-o srio, respondendo com voz triste:
      Foi a fatalidade. Reconheo que no tens culpa. Foste atrado em vil armadilha. Aquele cachorro  que deveria ter sido escorraado daqui.
      No me guardes rancor. Eu amo Esmeralda. Jamais a esquecerei. E como tu tambm a amas, peo-te que ds um pouco deste amor a Isadora, que no quer seguir 
comigo. Ela considera-se cigana e prefere estar aqui. Quero pedir-te que a protejas. s leal e amigo, e sou-te extremamente grato pelo muito que j me ajudaste.
     Miro levantou-se e olhando Carlos nos olhos respondeu:
      Sou um homem sem famlia. Esmeralda era como minha filha. Isadora ser como minha neta. Podes ir em paz.
      Obrigado, Miro. E se algum dia precisares de mim, chama-me e virei para servir-te. Tens em mim um amigo.
     O cigano apertou a mo de Carlos dizendo:
      Adeus. A vida continua e ns precisamos viver. Segue em paz.
     Carlos procurou Sergei, com quem se entendeu sobre Isadora e agradeceu por acolh-la. Quando a noite caiu, Carlos e Incio saram do acampamento, retomando 
o caminho de volta ao castelo.
     Carlos sentia que uma pgina de sua vida tinha sido virada e de agora em diante pensava em esquecer a tragdia e recomear.
     
     Captulo XXIV
     
     A madrugada ainda estava comeando quando Tnia, preocupada e em prece, acompanhada por dois amigos e uma enfermeira, chegou a cabana onde Carlos ainda estava 
preso.
     H dias fora informada de que Esmeralda encontrava-se em luta ntima, onde o orgulho a atiava  vingana e o amor ferido a cegava a ponto de conduzi-la ao 
crime.
     Tentara evitar a tragdia. Ajudara Isadora a pedir  me que evitasse o crime. Exultou quando sentiu que o amor pela filha tinha dobrado o orgulho feroz da 
cigana, possibilitando-lhe no cair no abismo do erro.
     Mas lvaro no pde ser convencido. Atrado por seu dio contra Carlos, o esprito de Fabrcio, perturbado e enlouquecido, a ele se juntou. Percebendo que a 
cigana trabalhava para libertar Carlos, correu para lvaro e, abraando-o, induziu-o a certificar-se de que seus homens cumpriam o prometido e levou-o  cabana onde 
a tragdia se desencadeou.
     Tnia, vendo Esmeralda estendida no cho, procurou abra-la com amor. Ela era sua filha e amava-a muito. Orou a Deus pedindo alvio para seu sofrimento com 
humilde confiana. Acompanhou Esmeralda, amparando-a quando ela foi levada para sua carroa. Percebendo o dio de Fabrcio, que ainda queria investir contra Carlos, 
colocou seus dois amigos de viglia para que o impedissem de continuar em seus negros propsitos.
     Permaneceu ao lado do corpo da cigana, abraando o esprito dela, que, adormecido, aos poucos desligava-se dos laos materiais.
     Quando o corpo baixou  sepultura, o esprito de Esmeralda continuava ainda ali, adormecido, e s quando a noite desceu foi que Tnia pde, juntamente com os 
amigos, colocar Esmeralda esprito, ainda adormecida, em uma maa e transport-la delicadamente.
     Somente alguns dias mais tarde ela despertou. Ainda sonolenta e admirada, olhou para o pequeno quarto onde se encontrava, sem compreender o que se passava.
      Ests melhor?  indagou Tnia, que se encontrava ao lado do leito.
      Estou bem  balbuciou ela.  O que aconteceu?
      J passou. Tudo est em paz. Esmeralda sentou-se no leito assustada:
      Deus meu! Que pesadelo! Sonhei que estava ferida... que morria...
      Tudo passou  disse Tnia com voz calma.
      Espera... Carlos estava preso... lvaro ia mat-lo. Eu lutava, no queria, mas ao mesmo tempo estava com raiva. Isadora veio, pediu. Vou impedir. Eu preciso 
impedir esse crime. Vou at l. Preciso ir.
      Esmeralda, isso j aconteceu, j passou.
     Ela, porm, nem sequer parecia ouvir. Continuou rememorando seu drama.
      lvaro, no vais mat-lo. No saio daqui. Vai-te!  gritava ela, olhos contrados e rosto convulsionado.  Mato-te. Eu o defenderei!  gritou, ao mesmo tempo 
que, com um grito de dor, estirou-se no leito levando a mo ao peito.
      Esmeralda  disse Tnia com suavidade , no te detenhas nessa triste lembrana. Pensa no amor de Carlos, de Isadora. Eles te querem muito. Eles te amam.
     O rosto de Esmeralda aos poucos foi serenando.
      Eu sei  disse com voz fraca , eu tambm os quero. Por que no posso estar com eles, agora que nos compreendemos? Quero ver Isadora, viver com ela, saber 
de seus gostos, trabalhar para ela. Quero ser sua me de verdade!
      Acalma-te, Esmeralda. Confia em Deus, que nos ampara e v.
      Quem s tu que me falas com carinho e por que continuo viva apesar de tudo?
      Olha-me bem e ters a resposta.
      Tnia?! Tnia?! s tu! Ests viva! Sei que morreste quando eu era menina.
      Sou eu, filha. A morte  iluso. Somos eternos. O corpo morre, mas ns samos dele e continuamos vivendo. Este  o outro mundo, mas  a verdadeira vida.
      A morada dos deuses!
      No ainda, a morada dos homens. Aqui continuamos a aprender a amar e a evoluir.
      Eu estou morta!  disse Esmeralda assustada.
      No. Teu corpo morreu, mas tu ests viva!
     Esmeralda emocionada chorou durante algum tempo. Depois disse:
      Por que tem que ser assim? Por que agora que conheci Isadora, que a quero, no posso estar com ela? Que castigo  este to duro para meus erros? Foi por eu 
t-la renegado?
     Tnia acariciou delicadamente os cabelos da filha.
      No, filha. Deus no castiga ningum. Permite que cada um colha de acordo com a semeadura. Se as coisas aconteceram assim, podes ter certeza de que foi por 
motivo justo e bom. Um dia, quando estiveres fortalecida e Deus permitir, haveremos de saber as causas de tantos sofrimentos. Por agora, confia e cuida de te restabeleceres 
definitivamente. A vida  bela e cheia de alegria. Juntas haveremos de aprender a viv-la melhor.
      E Isadora? O que ser dela?
      Est bem amparada. Carlos queria lev-la para o castelo, mas ela preferiu ficar no acampamento. Todos a amam. Miro cuidar dela como cuidou de ti. Sergei 
a estima e tudo estar bem.
      E Carlos... voltou para a famlia  disse Esmeralda com voz triste.
      No julgues o que no podes compreender. O amor precisa ser veculo de libertao, no de apego. Quem ama verdadeiramente aprende a respeitar a liberdade 
de escolha do ser amado. Depois, h srios compromissos que ele faz muito bem em aceitar. Pensa agora em ti, em tua nova vida. Comears a rever velhos amigos e, 
por certo, aos poucos, deles te recordars. Ests viva! Isto no te faz feliz? Olha que dia lindo, cheio de sol, e l fora flores perfumadas enfeitam nossos jardins. 
Esmeralda, venceste largo passo em tua batalha redentora. Teu amor de me te fortaleceu. Fica alegre e tudo agora ser melhor!
     Esmeralda sorriu e um sentimento de paz a acometeu. Calmamente adormeceu. E Tnia beijou-lhe delicadamente a testa, com um sorriso de felicidade a entreabrir-lhe 
os lbios e uma prece agradecida no corao.
     Carlos chegou ao castelo, abatido, cansado. Maria abraou-o calada. D. Encarnao beijou-lhe as faces carinhosamente.
      Estou bem, mame  disse ele calmo.  Tudo est em paz.
      Vou rezar pela alma da cigana. Ela salvou-te a vida  disse D. Encarnao emocionada.
      Sim, me. Faze isso. Ela morreu para salvar-me. Comovida, a velha senhora beijou as faces do filho e recolheu-se para rezar. Maria carinhosamente acomodou 
Carlos em uma poltrona.
      Vou trazer-te algo para comer. A vida continua e precisas de alimentos. s muito precioso para ns. No quero que adoeas.
     Carlos concordou para no contrari-la, mas no estava com fome. Apesar disso, foi com prazer que bebeu o caldo e comeu carne e po. Sentiu-se melhor depois 
disso. Realmente a vida devia continuar. Sua famlia precisava dele. Sinceramente, desejava ser um bom pai.
     J acomodado no leito para dormir, olhando o rosto bonito da esposa, ele considerou:
      Maria, eu errei muito. Fui leviano, egosta. Tens sido boa esposa e eu desejo que me perdoes. Eu te quero muito bem.
      Compreendo que uma mulher como Esmeralda possa ter-te atrado. Sei que a amaste muito. No tens culpa disso.
      Quero que acredites. Sou sincero. Amei e amo Esmeralda, mas no nego que tambm te amo muito. No sei explicar, mas sei que estes sentimentos no so iguais, 
embora sejam muito profundos. Podes perdoar-me?
      Eu te amo. Sei que me amas. No culpo ningum. Esmeralda salvou tua vida e eu sempre a abenoarei por isso.
      s nobre e eu te agradeo. Daqui para a frente, jamais te decepcionarei.
     Maria deitou-se no leito ao lado do marido e abraados permaneceram em silncio. Um sentimento de paz e aconchego os envolveu. A tempestade tinha passado. Por 
certo, agora, tudo seria melhor.
     No dia seguinte, Carlos mandou um emissrio a Madri em busca de Jos, pedindo-lhe o regresso imediato. O moo empenhava-se na busca de Isadora e regressou em 
seguida. Conhecendo os detalhes dos ltimos acontecimentos, por sua vez, conformou-se em no rever a irm.
     Se ela estava bem, ele no queria interferir. Procuraria viver bem sua vida, ajudando o pai nos encargos da famlia e, por certo, algum dia, encontraria algum 
que o ajudasse a esquecer.
     Esmeralda recuperou-se rapidamente. Ela, sempre to orgulhosa e independente, sentia-se agora sensvel e emotiva.
       natural  explicou Tnia com bondade.  Ainda no te acostumaste ao novo estado e a nosso plano de vida. Mas ests bem e tua ferida cicatrizou completamente.
        disse Esmeralda , s sinto dor quando me recordo de lvaro. Ele pagar caro pelo que fez!
     Tnia olhou-a sria, enquanto dizia com energia:
      No te recordes dele com rancor. Perdoa e ora por ele.  imprescindvel a teu equilbrio.
      No  justo. No fora por ele, eu ainda estaria com Isadora.
      No sejas ingrata. No fora por ele, talvez nem tivesses permitido Isadora nascer. Foi ele quem a acolheu e sustentou, dando-lhe educao e proteo. At 
ontem estavas aliada a ele e agora, que te sentes feliz por no teres praticado o crime, pensas como ele dever estar sofrendo por ter sucumbido  tentao e desencadeado 
a tragdia. No te comove o sofrimento dele?
     Esmeralda baixou a cabea confundida. O que Tnia dizia penetrava-lhe o corao. Era verdade! Ela usara lvaro para vingar-se de Carlos, sem pensar sequer na 
criana, vtima inocente nesse drama. Era to culpada quanto ele. Se ela tivesse cedido e participado do crime, onde estaria?
      Se tivesses fracassado, nessa hora  disse Tnia respondendo a seus pensamentos ntimos  eu no teria podido socorrer-te e levarias muitos anos de sofrimento 
e lutas para conquistares o lugar onde estamos agora. Por isso, se queres viver bem, ora por lvaro, para que compreenda seus enganos e se arrependa, para que possamos 
auxili-lo na regenerao.
      Gostaria de saber que laos nos unem. Suspeito de que estamos todos ligados pela fora do destino.
       verdade. Nossas vidas passadas cruzam-se e juntos aprenderemos a cincia da vida.
      Por que amo Carlos? Jamais amei homem algum. Ele foi diferente. Assim que o vi, senti-me presa.
      Esse amor vem de longe. Posso contar-te alguns fatos do passado. Muito tempo atrs, Carlos era rico fidalgo na Frana. Eu, cigana bonita e cortejada. Atrada 
por sua figura jovem e bela, tivemos uma aventura, pela qual eu sofri muito, adoeci e acabei morrendo. Os meus acreditaram tratar-se de grande amor, eu tambm pensava 
assim, at que descobri que o que eu sentia era revolta por no ser amada, orgulho ferido, s isso. Ajudada por amigos espirituais, aprendi muitas coisas, mas os 
meus, acreditando que ele fosse culpado por minha morte, vingaram-se dele, perseguindo-o duramente. Tu eras do bando e se te esforares um pouco vais recordar o 
quanto eras orgulhosa e volvel. No vias obstculos a teus caprichos e te apaixonaste tambm por ele, com grande paixo. Atras-te-o com teus encantos e durante 
alguns anos ele seguiu-te por toda parte, fascinado. No aceitaste a maternidade e com horror impediste teu filho de nascer. No querias deformar o corpo. O fidalgo 
era casado e, para seguir-te, abandonou a esposa e seus quatro filhos. Porm comeou a beber pressionado pelos remorsos. No tinha foras para reagir e aos poucos 
foi-se tornando um viciado. Tinha cime de ti e as brigas entre os dois eram constantes. Havia no bando uma jovem cigana que, por sua beleza e arte, aos poucos ia 
ganhando fama e tu, percebendo que comeavas a envelhecer, a odiavas. O fidalgo, para irritar-te, ps-se a cortej-la. Apesar da meia-idade, ele era um belo homem, 
e, uma noite, o surpreendeste beijando tua rival.
     Esmeralda, que acompanhava a narrativa com interesse, rosto perdido no tempo, abriu os olhos e gritou assustada:
      Eu sei! Me recordo! Saquei o punhal para mat-lo, mas ela se ps na frente e eu, cega de rancor, cravei-lhe a arma no peito, ferindo-a mortalmente. Que horror! 
Recordo-me de tudo! Estou arrependida. Eu no queria mat-la!
     Em soluos, Esmeralda atirou-se nos braos de Tnia, que acariciando-lhe os cabelos tornou:
      Sei disso, Esmeralda. Foi h muitos anos. Tudo passou. Quando ela se acalmou, perguntou:
      Recordo-me que minha vida com ele tornou-se impossvel. Fui julgada pelo bando. Foi terrvel. Nunca mais pude danar! Separaram-nos, ele desapareceu, nunca 
mais o vi.
      O fidalgo, sem coragem de voltar ao lar abandonado, acabou seus dias na poeira da estrada, precocemente. Sua esposa sofreu muito, mas conduziu o lar com nobreza 
e seus filhos, apesar de tudo, no se transviaram, tendo levado vida til e proveitosa. Ela foi assediada por um rico fidalgo que a todo custo queria ter com ela 
uma aventura. Foi pressionada de todas as formas, at financeiramente. Porm conservou sempre a dignidade.
      Ela  Maria, a esposa de Carlos?
      . Ele  lvaro, que ainda a persegue.
      Agora entendo muitas coisas...
      Sim. Carlos sofreu muito, arrependeu-se e tu tambm. E antes da nova vida, sob a proteo de amigos dedicados, nos reunimos para decidir sobre nosso futuro. 
Carlos decidiu casar com Maria para dar-lhe tudo quanto lhe negara. Precisava disso para apagar o remorso. Dos quatro filhos, dois tinham compreendido e perdoado, 
mas dois ainda estavam magoados e sofridos com sua atitude. Renasceriam de novo com eles, para que com amor e dedicao eles o pudessem perdoar.
     Tnia fez ligeira pausa e continuou:
      Eu tambm, acusada de suicdio por ter-me deixado sucumbir por uma paixo e por no poder suportar o orgulho ferido, aceitei voltar para nova existncia, 
a fim de cooperar com a soluo dos problemas que a todos nos afligem. Eu tinha sofrido, aprendido, e mesmo sabendo que a vida no seria longa, aceitei, submissa. 
Tu serias minha filha, para que eu esquecesse o cime de antes, e para que pudesses, tambm por tua vez, dar a vida  jovem cigana que assassinaste. Ela no te odiava. 
Esprito mais lcido, compreendeu tua loucura e perdoou. Foi-lhe dito que poderia ser feliz desta vez e que tudo daria certo.
      Agora sei que a quero bem.
      Por isso no fracassaste, apesar de tudo.  s o que posso contar-te por agora. No entanto, sei por nossos maiores que os laos que nos unem a todos vm de 
muitas vidas. Sei que Miro est ligado a ti e a Isadora por laos de muito amor, sei que Sergei me tem amado e esperado e eu o tenho deixado por iluses e enganos. 
S agora  disse Tnia emocionada   que tenho a certeza de que o amo. Um dia ainda estaremos juntos para sempre!
      E eu? E Carlos? E nosso amor? Estaremos sempre separados e Maria estar sempre entre ns?
      Isso eu no sei. Se teu amor  sincero e o dele tambm, cumpridos os compromissos que ambos criaram com outras pessoas, podero finalmente estar para sempre 
juntos. Isso quando no houver mais cimes ou dios, desconfianas ou paixo. S amor.
     Esmeralda sorriu esperanosa.
      Um dia seremos felizes, juntos para sempre.
      Enquanto isso, deves trabalhar para merecer.
      Como?
      Ajudando Maria, lvaro, Isadora, todos, da melhor maneira. Nenhum ressentimento ou mgoa.
     Esmeralda suspirou fundo.
      Vou esforar-me! Tnia abraou-a comovida.
     Era noite de primavera e o acampamento cigano estava em festa. As carroas dispostas em crculo, enfeitadas de fitas coloridas e as fogueiras acesas, a carne 
assando apetitosa, o vinho saindo da pipa borbulhando.
     O cheiro das castanhas assadas misturava-se ao cheiro do assado, despertando o apetite de todos, que em roupas de gala, animados, iam e vinham apressando os 
preparativos para a grande festa.
     Sergei, em traje de chefe ricamente bordado, tinha a seu lado o filho, tambm vestido com brilho.
     No centro da clareira, todo o bando reuniu-se em torno deles, a carroa de Esmeralda abriu-se e Isadora saiu suavemente. Estava linda. Sua tnica bordada reluzia 
e sua saia rodada estava recoberta de pequenas pedras e bordados.
     Solenes, esperavam, e a jovem aproximou-se do grupo. Sergei, tomando a mo do filho, juntou a mo de Isadora e teve incio a cerimnia.
     Ao fazer o casamento deles, Sergei estava emocionado e feliz. Gostava de Isadora, sabia que os dois seriam muito felizes.
     A jovem, com mo trmula, sentiu a presso firme da mo de Rino e estremeceu. Estava feliz. Amava e era amada. Parecia-lhe ter sempre vivido entre os ciganos. 
Amava-os e compreendia-os. Ia ser feliz!
     Aps a cerimnia, onde os sangues se misturaram solenemente, comeou a festa. Sergei danou com a noiva como era o costume, para depois entreg-la ao filho, 
e o baile comeou.
     Miro, a um canto, olhava pensativo e Sergei aproximou-se dizendo com voz emocionada:
      Pensas em Esmeralda!
      Sim  disse Miro srio.
      Eu tambm. Olho Isadora e recordo Tnia. As duas parecem-se muito.
      Sim  disse Miro pensativo.
      Que saudade...  suspirou Sergei.
      Nunca a esqueceste!
       verdade.
      Um dia nos encontraremos no outro mundo.
      Eu sei que ela me espera. Um dia estaremos juntos!
     Miro, de repente, viu de relance dois vultos de mulher e o rosto de Esmeralda, calmo e alegre. Quis fixar melhor, mas a viso desapareceu. Emocionado, tornou 
para Sergei:
      Elas esto to perto, mas ns no as podemos ver! No sentes?
      Sim  respondeu Sergei pensativo , sinto.
     Os dois ficaram ali, silenciosos, embora a alegria da festa prosseguisse animada.
     Elas estavam ali, sim. Esmeralda e Tnia. Tinham conseguido permisso para assistirem ao casamento que coroava para elas de sucesso algumas existncias na Terra.
     Abraadas, olhando a beleza da noite, a alegria do acampamento, sentiam funda emoo.
      Est na hora. Precisamos ir  disse Tnia.
     Aproximaram-se de Miro e Sergei e os abraaram com carinho. Depois, olhando o rosto feliz de Isadora e os olhos brilhantes de Rino, afastaram-se felizes.
      Agora  disse Tnia , por algum tempo, tudo estar em paz. E, abraadas, as duas figuras como que ganharam fora e aos poucos desapareceram no espao infinito.


Fim



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